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sexta-feira, 9 de junho de 2023

Entre os museus de Arte Popular e da Etnologia Nacional__ um passeio pelas tradições do povo português através da cestaria e da música



Fonte: Fotos da autora no dia da visita aos museus.

 

Oeiras, 08/06/2023



Saí para um passeio em busca das tradições portuguesas e que me levasse às pessoas que fazem das suas práticas do dia-a-dia a sua arte, mas também o seu viver e ofício, retratando um modo de ser característico de uma comunidade. Sendo assim, nada melhor do que visitar dois museus que se comunicam pelos conteúdos dos seus acervos, como o Museu de Arte Popular e o Museu da Etnologia Nacional, ambos localizados na cidade de Lisboa, em Portugal.

Ao adentrarmos no Museu de Arte Popular percebemos estar em um ambiente diferenciado, onde os trabalhos manuais, o artesanato, são protagonistas das memórias do povo português através da cestaria. O Norte de Portugal é a região do país que destaca-se na produção de uma variedade de cestos, que se destinam à atividades diversas e que retratam por sua vez, os autores dos mesmos, suas histórias e ofícios, característicos das comunidades onde vivem. 

Fonte: Fotos da autora no dia das visitas aos museus.

A cestaria como o próprio nome sugere é o ofício em que se cria uma variedade de cestos, de fibras de origem vegetal. A elaboração dos produtos artesanais pode ser através do método de entrançar as fibras ou em forma de espiral. Em ambos os casos, os produtos fruto destas elaborações são muito harmoniosos, com proporções geométricas diferenciadas e que levam a uma variedade de objetos que são transformados a partir da ideia inicial da cesta, como vemos nas imagens abaixo.

Canoas, candelabros, potes, vasos e lustres, são apenas alguns desses objetos, que podemos citar como exemplos e que retratam o esmero em que são produzidos. Afinal de contas, são produtos originários das mãos, do toque e da delicadeza e habilidade no trato com os materiais. Nada é feito à revelia, mas tudo tem o seu sentido único de ser. As sensações que atravessam as mãos, pelo corpo, vão dando formas variadas aos materiais e dando vida também pela imaginação do seu autor, ao objeto artístico.

Fonte: Fotos da autora no dia das visitas aos museus.

            As paredes do acervo temporário, da exposição “Um Cento de Cestos”, vão atraindo o nosso olhar para imagens dos artesãos, construtores de tão belas peças que se distribuem ao longo das salas. Ao olharmos com atenção cada uma das fotografias, que dão protagonismo aos artistas-artesãos, vamos percebendo que cada um deles tem uma forma diferenciada de manusear suas produções, como também uma forma especial de se relacionar com as mesmas peças e com os ambientes de criação. 


                                        Fonte: Fotos da autora no dia das visitas aos museus.


 De acordo com o que  é dito no programa do museu sobre a exposição:

“A exposição “Um Cento de Cestos”, materializa uma estratégia de estudos, documentação e divulgação de coleções congêneres do Museu de Arte Popular (MAP) e do Museu Nacional de Etnologia (MNE), a partir de uma abordagem integrada que pretende evidenciar, por um lado, a complementaridade entre essas coleções, e por outro, as sinergias que se estabelecem quando da decisão de reunir as duas instituições numa única entidade museológica.”

(Paulo Ferreira da Costa, Diretor do Museu Nacional de Etnologia / Museu de Arte Popular)


            A iniciativa dos museus em reunir em um único acervo os trabalhos dos artesãos, busca dar visibilidade às técnicas manuais que primam pela sustentabilidade, no manuseio de materiais que pela sua própria origem vegetal tornam-se renováveis, não ferindo o meio ambiente.

              Abaixo vemos a imagem de uma cestaria denominada de “madeira rachada”, produzida a partir da utilização de árvores diversas, como o castanheiro e o carvalho e bastante utilizada para a agricultura e pescaria. Desta forma podemos perceber como o trabalho dos artesãos além de ter uma função utilitária para eles próprios e de sobrevivência, pode de maneira solidária, vir a contribuir para o ofício de outros, quando utilizado como instrumentos de pesca, por exemplo, colaborando assim em extensão do trabalho, para a comunidade como um todo. Uma maneira também de repensar a vida através de ações que ganham importância pelo ato de preservação, por ser sustentável e munido de pensamento coletivo.


Fonte: Fotos da autora no dia das visitas aos museus.

             Alguns nomes dos autores das peças de cestaria cujos trabalhos estão expostos no museu merecem ser referenciados, são eles: Dinis Cunha, cujo trabalho artesanal é feito com madeira rachada, Manuel Dias, em vime, Antônio Gomes, em cana, Carlos Silvestre em palha de centeio, Maria de Fátima Santos em junça e Vanessa Flórido em palma.


Fonte: Fotos da autora no dia das visitas aos museus.

            

                Os materiais são valorizados em cada detalhe na exposição, como os que mostramos na imagem acima e através das características de cada uma  das matérias-primas vamos conhecendo uma zona de Portugal, a exemplo do sanguinheiro, do vime e do choupo. Essas matérias-primas dão origem a utensílios variados como o cesto, usado nos trabalhos agrícolas e as canastras utilizadas no comércio ambulante, nas feiras em vilas, como em Miranda do Corvo no Distrito de Coimbra, cujas matérias-primas neste caso da região em específico, são o castanho e salgueiro. Mas também podemos citar como exemplo o viveiro de peixes utilizado para transportar o peixe vivo dentro da água, origem em Vila Franca de Xira e cuja matéria-prima é o salgueiro.

Fonte: Fotos da autora no dia das visitas aos museus.

            

               Seguindo em nossa busca pela arte popular portuguesa, chegamos em nosso passeio finalmente ao Museu da Etnologia Nacional e vamos aos poucos, nos envolvendo com os brinquedos populares, os variados instrumentos musicais criados com materiais rústicos, mas que esbanjam criatividade e que fazem das festas populares portuguesas tão singulares em ritmos, performances e cores. E assim, em ato de apreciação, aos poucos ao caminharmos pelo acervo do museu, vamos sendo capturados pelo olhar, pelas fotografias do povo em festa e pelos vídeos das celebrações, que também revelam seu sincretismo, que em menor ou maior grau, relacionam o sagrado ao profano, das festas dos santos aos brinquedos gigantes mascarados.

Fonte: Fotos da autora no dia das visitas aos museus.


            Acima a Dança do Homens na Festa da Senhora do Alto dos Céus, imagem de Benjamim Pereira de 1963. Foto tirada pela autora em visita ao acervo do museu.

Fonte: Fotos da autora no dia das visitas aos museus.

            Por sua vez, das imagens que mostramos acima vê-se da esquerda para direita o instrumento dos cartoze pauzinhos de pau-ferro, onde através das correias é suspenso no pescoço do tocador, que com o chuço, material agarrado as correias, quando arrastado pelos pauzinhos produz sons que vão seguindo conforme o ritmo e compasso da dança que o acompanha. À direita temos a cabeça de gigatone ou cabeçudo. Bastante conhecido nos carnavais da cidade de Tomar em Santarém.

              O tempo dita a atuação de determinados instrumentos e que consequentemente só se ouvem em determinados períodos do ano. A flauta e o tamboril são tocados em conjunto pelo taborileiro em zonas de Trás-os-Montes e Alentejo, tendo nesta última caráter cerimonial. Ou em Santo Aleixo da Restauração na Festa de Santo Antônio, em Maio, e em Barrancos na Festa de Santa Maria, em Agosto. Normalmente esses instrumentos são propriedade da comunidade onde são tocados.

              Chegando ao fim do nosso passeio pelos museus que trazem em seus acervos a arte popular portuguesa através dos cestos, dos instrumentos musicais e brinquedos folclóricos, fica a vontade de conhecer ao vivo a atuação dos artesãos em suas comunidades e nos faz pensar e questionar sobre uma possível aplicabilidade destes materiais e suas produções, como substituição de produtos industrializados e assim, também como uma forma de promover a sustentabilidade, fomentando o empreendedorismo local, a empregabilidade ou um rendimento acrescido.




quinta-feira, 8 de junho de 2023

Revista é Sempre Revista! _ Um espetáculo teatral português da alegria!

 

Fonte: Fotos da autora tiradas no dia da apresentação.

 

 

Oeiras, 07/06/2023



Um espetáculo de encher os olhos no Teatro Politeama em Lisboa! Canto, dança, música e narrativas que contam de maneira jocosa, através de sátiras e ironias sobre o teatro de revista em Portugal, seus personagens e contextos, e revive a “revista” como um gênero teatral que trás o riso e a crítica social como mobilizador da ação cênica. Como um dos próprios atores se refere no palco, em que a revista é “a arte de ser português”, Filipe La Féria nos vai revelando pouco a pouco, em um espetáculo de variedades, os personagens que fizeram da revista portuguesa um sucesso de público e entrelaçando assim a tradição com a contemporaneidade. 

Os atores e dançarinos em figurinos graciosos e ricos em detalhes, contam-nos sobre experiências vividas pelos artistas, os de ontem, de meados do século XX, que fizeram a revista portuguesa quando a mesma nasceu, assim como os de hoje, que nos trazem a revista contemporânea. Em cenas que remetem ao quotidiano, o espetáculo mostra também pessoas comuns, bem como críticas aos políticos e autoridades, expondo as mazelas sociais, criando conexões com os tempos atuais, unindo a revista do passado à revista do presente.

Vamos da plateia rindo e nos emocionando com a atuação dos atores no palco que buscam em muitos momentos a interação com o público, quer seja nas brincadeiras endereçadas a alguém da plateia, que nos leva a gargalhadas, quer seja no chamamento às palmas ou até mesmo, na narração engraçada de uma estória que se comunica com as nossas vivências do dia-a-dia, ou através dos números cantados e dançados e interpretados ao ritmo do fado. É como se subíssemos ao palco a cada atuação e vamos a cada instante sendo convidados a bater palmas, a cantarmos, nos envolvendo e divertindo juntamente com o elenco, dando um ritmo especial ao espetáculo que nos vai afetando como a própria vida.

Alguns locais da cidade de Lisboa são citados e assim aos poucos vão sendo construídos através da atuação dos atores contextos variados na nossa imaginação, como o Teatro Apolo, ponto central da revista, o Teatro da Trindade, o Teatro Nacional e o Teatro Maria Vitória, considerado o primeiro teatro do Parque Mayer que fez 100 anos e que foi palco de vários teatros de revista, inaugurado em 1922.


Fonte: Foto da Agenda Cultural.


Enquanto imaginamos os contextos, somos ao som do Charleston, uma dança surgida na década de 1920 na Carolina do Sul na América do Norte, convidados a bater palmas, vão aparecendo então a seguir, as canções e danças populares portuguesas, o público reconhece as canções e vão seguindo cantando com os atores e cantores, momentos especiais vão sendo criados em que a plateia e os artistas fazem a festa, o espetáculo de revista. Neste palco da alegria e da irreverência, os atores e atrizes vão personificando acontecimentos, e dando vida a personagens, a conceitos, e a instrumentos políticos, como a censura. Personificada como uma velha senhora, a censura, símbolo da repressão, é representada pela atriz que afirma ser contra a revolução, figura vigente nos períodos da monarquia e da ditadura. Todos no palco gritam, evocando o pensamento crítico em meio à brincadeira e a alegria.

O espetáculo vai-se tornando também uma homenagem aos artistas da revista, surgem no palco grandes painéis com os retratos de cantores, atores, coristas e vedetas que se sobressaíram no teatro de revista, citando alguns nomes como: Eunice Munhoz (1928-2022), Beatriz Costa (1907-1996), Ribeirinho (1911-1984), Vasco Santana (1898-1958), Eugenio Salvador (1908-1992), Ivone Silva (1935-1987) e que são interpretados pelos artistas da companhia. Através de cantorias que unem o fado às narrativas de vida dos artistas da revista de um tempo longínquo, pelas memórias de tempos idos vão sendo reveladas à plateia, com humor e emoção, sentimentos pensamentos e modos de ser.

                                                                Fonte: Foto da Agenda Cultural.


A crítica mordaz, a sátira e as piadas preenchem o palco com personagens que de suas palavras relatam a obscuridade das ações de agentes políticos que prejudicam a população, gerindo mal os recursos. Para ilustrar, em um determinado momento no palco, entra um ator que interage com outro grupo de atores que representa um rancho folclórico. Como um coro bem jocoso e divertido, este grupo vai reforçando e representando os descalabros provocados pelos agentes políticos à população. Os atores se utilizam do exagero nas expressões corporais e nas repetições das ações e falas, para ressaltar o desespero como consequência das ações desastrosas que acometem a população vitima do desrespeito e da exclusão.

Como em um ato de manifestação, indignação e inconformismo, com piadas e duplos-sentidos, os personagens vão relatando à plateia os problemas atuais, como por exemplo, os 125 euros de apoio extraordinário dos ordenados, o aumento de 50% das reformas em um mês, e da retirada de 30% ao ano nos impostos, o aumento do leite, do gás, das fraudas, da gasolina, do aumento constante das taxas e mais taxas e taxinhas.

 Como um ato de revolta o coro repete:

Já chega! Somos pobres! Também quero agradecer a Marcelo, o Marcelinho. É fome! É miséria! É injustiça! Falta de habitação! Se alguém souber de um T0 por menos de 100 euros...é que fico esperando vocês rirem das desgraças.

A plateia se diverte e é convidada pelos atores para acompanhar com palmas o canto, que vai se tornando cada vez mais crítico e sendo acompanhado pelas danças folclóricas que reforçam toda a situação de desagrado e desespero da população representada pelos atores em cena. Uma cena inusitada quando uma vedeta entra no palco em desespero por não ter comida para fazer uma sopa. O canto é crítico, dando destaque ao preço do pão, do leite, do bacalhau. Em meio às piadas, as cantigas de fado seguem emocionando, gerando dramaticidade e vão revelando personagens de revista de outrora. A plateia canta juntamente com os atores uma das canções de Lisboa que diz em coro:

 Lisboa tem cheiro de flores e de mar, cheira bem, cheira a Lisboa!

Quando o espetáculo se aproxima do fim o ápice das interpretações dos atores vai se dando através dos variados solos de fado. As vozes incríveis dos atores entram em conexão com a emoção da plateia que busca acompanhar cantando. Retornam narrativas de vida, as vedetas contam as suas histórias, dando vivacidade à apresentação, que não reduz a energia e empolgação em nenhum momento, dando ritmo ao espetáculo nas alternâncias das variadas cenas. Um dos atores ressalta que a vida é bela! Um teatro que vai se mostrando alinhado com as causas sociais, humanitárias e instigando a plateia a compartilhar com o riso e as palmas, o que é dito com o coração.

Vamos sentindo que não queremos que o espetáculo acabe. Tudo vai se tornando uma ode à alegria. Em meio às plumas das vedetas, seus cômicos e dramáticos relatos e em meio as cores dos figurinos que encantam o olhar, as letras das canções vão-se  posicionar como em alto relevo no palco, mais um convite para que as  pessoas da plateia participem da festa da revista, lendo do telão, cantando e batendo palmas juntamente com os atores.

 E a plateia vem abaixo nos risos, quando entram em cena os times de futebol, Benfica, Porto e Sporting, personalizados pelos atores que rivalizam entre si com muito humor, levando as pessoas que assistem às gargalhadas, ao som das cantigas dos times e das canções populares portuguesas. Um show à parte. Vamos sentindo mais uma vez que o fim do espetáculo se aproxima, uma das vedetas convida a entrar no palco todo o grupo, mais uma vez atores e plateia cantam e se divertem com um espetáculo onde predomina a alegria e saímos do Teatro Politeama com o coração aliviado e feliz e com a mensagem que nos foi deixada pelos atores:

Deixem esse teatro com uma gargalhada! A vida vale a pena se tivermos a coragem de rirmos dela! Porque Revista é sempre Revista!

quarta-feira, 31 de maio de 2023

“Emoção, Paixão e Sensibilidade no Teatro Camões em Lisboa através da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo


Fonte: Fotos da autora tiradas no dia da apresentação.




Georgina Furtado Franca



Oeiras, 04/04/2023




A Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo apresentou-se em 1 e 2 de Abril no Teatro Camões, em Lisboa, em celebração aos 25 anos da mesma, com quatro números coreográficos de qualidade técnica incontestável. Fundada em 1997 por Vasco Wellenkamp e Graça Barroso, a companhia mantém o seu estilo diversificado, que atualmente sob a direção de Cláudia Sampaio, traz como herança e missão uma linha estética que se atravessa entre o universo onírico e aquele dos desenhos coreográficos dos corpos em movimento. Universo este, que evoca pensamentos e sensações que nos fazem refletir sobre o nosso lugar no mundo e sobre as múltiplas relações que podemos estabelecer uns com os outros.  Como um reinventar constante desse encontro inusitado, mas não menos empolgante, do real com o imaginário, das ações quotidianas e do entrelaçar com as mais profundas substancias do nosso ser, da nossa mente e da nossa alma.

Fonte: Fotos da autora tiradas do programa da apresentação.


O corpo passa a ser um instrumento sensível e de comunicação dos atores-bailarinos, que convida a nós da plateia a construirmos subjetividades dando vida a personagens que em sua grande maioria só existem em nossa imaginação, mas que ao mesmo tempo se comunica com personagens reais que podem estar nas ruas, no bairro, pessoas como nós, com suas dúvidas e anseios, seus desejos e sonhos, seus conflitos e superações, como numa teia da própria vida. Enquanto assistimos ao espetáculo vamos procurando também não nos perder, como quase uma busca pela construção de sentidos. Nada nos parece ou chega a nós como pronto, mas tudo está por vir. Alguns personagens históricos podem surgir como de súbito, de associações feitas até mesmo com partes do cenário, de adereços dos bailarinos-atores, nas vozes que ressoam de microfones ocultos, como se atravessassem de algum sítio, até mesmo das paredes. 

Tudo se relaciona e ao mesmo tempo tudo se dissolve nesta teia de relações e bem como, os sentidos que nós, que assistimos, também construímos. 

Fonte: Fotos da autora tiradas do programa da apresentação


Uma arte democrática que lança como desafio à plateia a sensibilidade e interpretação livre, a leitura das imagens em movimento. A dramaturgia é uma constante busca por afirmação e vai nesse interim também se colocando em causa como se abrissem espaços vazios no texto, para uma comunicação aberta. Somos nós que nesse instante, o público, que do nosso olhar construímos a coreografia e isso não seria possível se não existisse uma fluidez coreográfica de deixar espaços vazios na escrita dos corpos em movimento. Vamos da plateia criando relações com o que vemos e sentimos, preenchendo os espaços coreográficos com sensações nossas e pensamentos que nos conduzem mais a perguntas do que respostas, como se fizéssemos parte juntamente com os artistas de um mesmo processo criativo.

Fonte: Fotos da autora tiradas do programa da apresentação


O primeiro número coreográfico, intitulado “Públic Domain”, coreografia de Ricardo Campos Freire, nos trás a incomunicabilidade do mundo. O cenário formado por cadeiras dispostas ao palco e televisões que nada informam. Estas apenas arranham com sons indecifráveis essa incomunicabilidade. Com uma técnica esplendorosa, os bailarinos nos falam através dos seus corpos sobre algo que de pronto não identificamos, o que nos causa estranhamento e estupor, juntamente com o som irritante da televisão e vozes que ecoam em inglês formando uma confusão de sons que aparenta comandar as ações dos bailarinos. Torna-se difícil perceber o que se passa e o que nós da plateia sentimos. Tudo se mistura e ficamos a nos perguntar: Por que tanto sofrimento? A coreografia parece ter sido feita para provocar, tirar da zona de conforto e nos fazer pensar, fazer-nos viver uma experiência sobre o que sentimos daquilo que em si nem mesmo existe.

O segundo número coreográfico, intitulado “almada E TUDO!”, coreografia de Maria Mira, dá vida no palco de maneira jocosa ao Manifesto Anti-Dantas, de José de Almada Negreiros. O Manifesto Anti-Dantas em 1913 foi uma contestação ao renomado crítico literário Júlio Dantas que se opunha a “Revista Orpheu” lançada em época por Almada Negreiros e seus contemporâneos, artistas vanguardistas, que por sua vez davam a sua resposta às acirradas críticas que receberam por suas ideias e textos irreverentes em prol do modernismo artístico e literários em Portugal. No palco dois dos bailarinos personificam as adversidades de posições entre o academismo literário e o Futurismo e os demais do elenco ilustram a repressão exercida à divulgação dos novos valores.

O terceiro número coreográfico, intitulado “Prelúdio à Sesta de um Fauno ou O Labirinto do Desejo”, de Vasco Wellenkamp, nos sensibiliza ao encontro de dois corpos no palco que revelam a paixão e desejo dos personagens, o Fauno, meio homem e meio animal e a Ninfa personagem dos seus sonhos. A fluidez dos corpos e sintonia dos bailarinos em cena evoca a poesia do amor e nos faz imergir no envolvimento que nasce a cada gesto e expressão dos bailarinos. 

O quarto número coreográfico, intitulado “S-Concerto”, é uma exuberante apresentação, que conjuga de forma harmoniosa a música e a dança em favorecimento a técnica dos bailarinos.

Ao fim do espetáculo de celebração dos 25 anos da Companhia sentimos que como expectadores, fizemos uma imersão no desconhecido, por sermos convidados a vivenciarmos através do nosso olhar uma experiência única através das variadas maneiras que nos foram oferecidas de interpretação. Uma forma diferenciada de contato com a obra artística, que nos permitiu através das nossas vivências e subjetividades, a construir do nosso olhar, das nossas sensações e emoções, a dança.