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quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Poema - 1979 - Lenora de Barros

 



Lenora de Barros (São Paulo,1953) produziu o trabalho "Poema", uma série de seis fotos preto e branco, com diferentes inserções da língua da própria artista numa máquina de escrever.
Realizado no ano de 1979, em plena ditadura militar, a artista busca do mesmo modo como muitos artistas contemporâneos da época, agir contracultura e usar o corpo como linguagem e suporte. 
Sem distinção entre palavra e imagem, a artista explora nesta série, os diferentes significados da palavra "língua" - um estudo da linguagem.
A língua, o corpo apresentados em caráter orgânico e inorgânico e concepção imaterial da linguagem.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Anna Bella Geirger: a gráfica-visual

A obra de 1976 de Ana Bella Geiger, destina uma atenção especial à língua: a artista desenhou quatro mulheres, dando foco à boca. Cada uma delas repete uma sílaba: “bu-ro-cra-cia”. Acima “Diga conosco”. A arte tornou-se uma espécie de espaço de alfabetização, inclusive para os artistas, onde uma única palavra, separada por hifens e por cores, marcam a separação fônica e silábica. Dado que escritores, intelectuais, artistas e por que não também determinados leitores e visitantes estavam sob suspeita, cabe a eles reaprender novas relações com a arte, inclusive a soletrar a violência codificada e disseminada na vida cotidiana, do período ditatorial que vivia o Brasil.

Burocracia, 1978
Anna Bella Geiger
Óleo e acílica sobre tela
100,00 cm x 80,00 cm
Coleção Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo



quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Mira Schendel Brasileira. nasceu na Suíça 1919–1988

No início dos anos 1960, a artista Mira Schendel recebeu um grande pacote de fino papel japonês. Dando origem a milhares de monotipias e culminando em seus Objetos gráficos dos anos 1970, realizados enquanto ela dedicava uma década à investigação do meio do desenho e de suas potencialidades. As qualidades obsessivas e delicadas dessas obras variavam de uma única linha fina pressionada em uma página a camadas densas e abundantes de marcas e símbolos presos entre folhas de acrílico.





Mira Schendel, Graphic Object 1967–8

Schendel estava profundamente ciente das barreiras que a linguagem e a cultura poderiam criar entre as pessoas. Por causa de sua herança judaica, em 1939 o governo italiano revogou seu visto de estudante e a obrigou a procurar outro país. Quando imigrou para o Brasil em 1949, ela já havia morado em três países e falado seis idiomas. Como imigrante europeia no Brasil, estudante de filosofia e bibliófila, Schendel encontrou suas afinidades mais com poetas, teólogos e cientistas do que com os artistas dos movimentos de arte concreta que dominaram o mundo da arte em São Paulo. Paulo e Rio de Janeiro na década de 1950. No início da década de 1960, ela continuou a mergulhar nas questões filosóficas mais amplas da vida em seu trabalho, ao mesmo tempo em que avançava nas fronteiras do desenho, impressão e escultura.


           

                                                        Mira Schendel, Graphic Object 1967–8


Seus desenhos/monotipias fundem a poesia com o espaço, e por isso apresentam similaridade tanto com a caligrafia oriental quanto com o abstracionismo pictórico informal. Com a escrita utilizada não apenas como meio elevado de expressão, mas também como anotação ligeira daquilo que poderia  passar despercebido enquanto registro rotineiro, e que sua ação transformava em poesia, a artista eleva a gestualidade da letra.


Objetos gráficos demonstram poderosamente sua abordagem singular. As obras compreendem folhas de papel de arroz japonês marcadas com letras e números, símbolos e sinais impressos, datilografados e/ou transferidos a seco. As folhas foram então dispostas em grades sobrepostas prensadas entre duas peças de acrílico transparente e penduradas no teto, transformando a marcação e a ordenação dos gestos da artista em objetos flutuantes.







                      

                                                Monotipia, 1965 Papel Japonês | 47 × 23 cm

A artista observou que o acrílico lhe permitiu “concretizar uma ideia, a ideia de acabar com frente e verso, antes e depois”. uma leitura circular com os textos como centro imóvel e o leitor em movimento”, explicou Schendel.

Para quem se depara com essas obras, a linguagem não é nem legível nem completamente ilegível, mas apresentada como uma experiência intuitiva, poética e física.



 

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Livro de carne - 1978/1979 - Artur Barrio




Artur Barrio (Porto, 1945) é um artista plástico
Luso-brasileiro que vive no Rio de Janeiro desde 1955.
Ingressou na Escola de Belas Artes em 1967 e foi um 
dos primeiros artistas a realizar instalações com 
composições caóticas, onde misturava múltiplos elementos.
Este momento, além da experiência do corpo como
caráter determinante, a arte brasileira começar a discutir
o primado do visual, a questionar a pureza dos meios e 
suportes artísticos, e a pensar na alteração do lugar da arte.
A maioria de suas obras não podem ser guardadas em museus
nem pendurada na parede. Como artista conceitual, 
cria performances, e valoriza a experiência e não a imagem 
ou o objeto.
Suas intervenções caracterizam-se pela utilização de materiais 
efêmeros e precários, como o sal, o papel higiênico, o sangue, 
o pó de café, o pão, a carne.
Uma de suas obras mais conhecidas é justamente a intitulada 
Livro de Carne, um pedaço de carne talhado em forma de livro
que decompõe-se diante do público e tem de ser reposto a cada 3 dias. 


quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Arte Correio - Paulo Bruscky

Paulo Bruscky (n. 1949, Recife, Brasil) é um dos expoentes da arte conceitual no Brasil e um dos principais precursores de diversas manifestações que envolvem arte, tecnologia e comunicação. Sua prática artística, baseada na ideia de arte como informação, é marcada pelo experimentalismo constante, resultando em um corpo de obras plural, composto por poesias visuais, livros de artista, performances, intervenções urbanas, filmes em Super-8 e obras em novas mídias.

A produção de Bruscky é também caracterizada pelo conteúdo de contestação social e política, resultado da postura crítica e militante do artista, cujo princípio da carreira coincide com a ascensão de governos militares e o consequente estabelecimento de regimes ditatoriais em diversos países latino-americanos, incluindo o Brasil. No começo dos anos 1970, Bruscky dá inicio a sua prática em arte postal, que ele prefere chamar de Arte Correio e sempre defendeu como modalidade de arte “antiburguesia, anticomercial e antissistema”, a arte postal constitui-se em uma estratégia de liberdade diante do contexto político opressor.


“Existe uma ética dos artistas na arte-correio: se você recebeu um trabalho, você manda outro seu, para aquele artista. É uma corrente internacional. De repente, todos os artistas que trabalhavam em determinada linha deram-se as mãos. E ninguém quebra essa corrente”. Paulo Bruscky troca postais entre artistas, especialmente entre os poetas, há muito tempo, mas, na arte postal (arte-correio ou mail art), é o próprio meio, o correio, que se torna o ponto de apoio dessa prática artística. Os cartões postais, os carimbos e todos os meios de reprodução disponíveis são abarcados nessa rede onde circulam fotografias, registros de ações e performances, poesias visuais e diversos outros projetos. O corpo artístico construído pela arte postal é internacional por princípio. As barreiras políticas e sociais não representam limites para essa rede.