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sexta-feira, 30 de maio de 2025

Última Esperança - FITEI 2025- 22 de maio de 2025

 

Última Esperança - FITEI 2025

Auditório do Campo Alegre - 22 de maio de 2025

Apresentada a 22 de maio de 2025 no Auditório do Campo Alegre, no âmbito do FITEI — Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, a peça "Última Esperança", do coletivo chileno Cuerpo Sur, é uma experiência teatral que transcende o convencional. Com direção e interpretação das duas únicas atrizes, Hilda Snippe (Países Baixos) e Ébana Garín (Chile), a obra propõe uma reflexão profunda sobre a dependência humana das imagens e a construção da memória através dos sentidos.

A narrativa desenvolve-se em duas línguas — holandês e espanhol — com legendas em português e inglês projetadas no palco e adaptadas ao movimento em cima do palco, criando uma atmosfera multilíngue que reforça a universalidade dos temas abordados. A peça inicia-se de forma contemplativa, convidando o espectador a mergulhar no presente e a questionar a origem da relação entre as duas personagens, e o espectador dá por si, no seu imaginário a criar imagens que não foram experienciadas pela sua visão.

No momento seguinte existe um monologo, onde Hilda se deita no chão como se estivesse a comtemplar o seu céu ao relembrar memórias com o seu pai, aqui Ébana estava a filmar esta cena de Hilda e esta mesma gravação está a ser transmitida no mesmo ecrã onde são lidas as legendas, é neste instante que o público se apercebe a atriz é realmente cega, a narrativa avança e revela-se que Hilda possui apenas 1% de visão. Este facto torna-se o eixo central da narrativa, explorando como a ausência de visão influência a perceção do mundo e a formação de memórias. A peça desafia o público a reconsiderar a primazia da imagem na experiência humana, sugerindo que sensações e conceitos podem ser tão ou mais significativos.

A encenação inclui momentos em que as atrizes interagem fisicamente com o cenário, um desses momentos, e dos mais impactantes ocorre quando um pano suspenso simboliza as "montanhas holandesas" descritas pelas personagens invisual. Neste cenário, ambas percorrem o tecido com o corpo, guiadas pelo tato, invertendo os papéis habituais: a personagem cega lidera, ensinando a outra a "ver" através do sentir. Esta cena sublinha a ideia de que a perceção não se limita à visão, mas é uma construção sensorial complexa que vai além da visão.

A peça é pontuada por diálogos profundos, como quando Ébana questiona Hilda sobre o medo da morte por ataque cardíaco, pois sabia que a figura paterna de Hilda tinha falecido dessa forma, ao que a mesma responde que o seu maior receio é perder o pouco de visão que lhe resta. Esta confissão revela a fragilidade e a importância que atribuímos aos sentidos na nossa identidade, ou que por vezes até o temos como garantidos.

            "Última Esperança" é uma peça de teatro que propõe um exercício de empatia e imaginação. Mesmo para aqueles que não são habituais apreciadores de teatro, a obra oferece uma oportunidade única de introspeção sobre a dependência das imagens e a riqueza dos outros sentidos. Pessoalmente, esta peça quase que não foi sentida como uma peça, foi mais como uma experiência de decifração, pela quantidade de descrições narradas, descrições estas, como por exemplo, de cores como sensações.  As projeções de manchas luminosas no palco, por exemplo, desorientam inicialmente, mas acabam por aproximar o espectador da perspetiva da personagem cega, é uma perceção surpreendente do que é o teatro sem imagens concretas de apoio, apenas com luz, áudio e imagem desfocada.

Em suma, "Última Esperança" é uma reflexão sensível e necessária sobre a perceção, a memória e a inclusão. Ao colocar em cena a experiência da cegueira de forma poética e sensorial, a peça desafia-nos a repensar a forma como interagimos com o mundo e com os outros. Faz nos questionar a nossa dependência nas imagens, quase como se a vida fosse o provérbio “Ver para crer”.


Fonte: Colectivo Cuerpo Sur, 2025 (https://fitei.com/pt/evento/ultima-esperanca-colectivo-cuerpo-sur-varios-locais-2025/)


Durante a peça não foi possível fazer qualquer tipo de registos fotográficos.

Webgrafia:

Colectivo Cuerpo Sur. (2025). Última Esperança [Espetáculo de teatro]. Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI), Porto, Portugal. https://fitei.com/pt/evento/ultima-esperanca-colectivo-cuerpo-sur-varios-locais-2025/ 

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Jardins da Casa Museu de São Roque

Maio; 2025

Os Jardins da Casa de São Roque, localizados no Porto, são parte da antiga Quinta da Lameira, ligados ao Palacete Ramos Pinto, hoje denominado Casa de São Roque. Estes jardins com uma área de 5,2 hectares, são um exemplo do romantismo paisagístico em Portugal, sendo um espaço cultural e um jardim público associado a um centro de arte contemporânea. Estes jardins foram concebidos no início do século XX por Jacinto de Matos, um dos mais influentes jardineiros da época, a pedido da família Ramos Pinto. Este espaço oferece ainda uma área infantil.

Do jardim é possível ver as várias camadas da cidade do Porto, e á medida que se sobe o parque vai sendo revelada uma margem cada vez maior da paisagem. É percetível o cuidado que existe na manutenção da flora do parque tal como o seu apelo visual. Tocando no assunto da flora, o parque tem espécies como Eucalipto, Jacaranda, Cinnamomum Camphora. Outro ponto a destacar é a presença de seguranças no parque, conservando o bom ambiente e bem-estar dentro dos jardins.

O elemento que se destaca mais no parque, tendo em conta a experiência pessoal e individual, é o labirinto que, visto de um ponto de vista do topo, é complementado pela paisagem que inclui o Rio Douro.

O acesso ao jardim é bastante fácil, mas se pensarmos em pessoas com mobilidade reduzida o jardim já não está tão acessível, a entrada está construída em escadas que estão presentes em todo o jardim, tanto como as subidas e descidas ingremes também podem dificultar a locomoção no espaço. Outro ponto negativo no espaço é a falta de sinalética informativa sobre as espécies botânicas e sobre a história dos elementos arquitetónicos, este ponto limita um pouco a experiência, sem informar o visitante do que o mesmo está a experienciar.  

Durante a caminhada feita pelo espaço, foi visto que este não tem muita afluência, talvez porque como a entrada na Casa Museu de São Roque tem um valor monetário, e esta se situar dentro do parque, o público assuma que a visita ao jardim também seja paga. No espaço existe uma sensação de algo único, parecendo que se entrou noutro mundo, isto pelo contraste do jardim com o lado de fora deste, poderá até ser descrito como uma versão mais pequena da Quinta da Regaleira, em Sintra.

A integração da Casa São Roque enquanto espaço de arte contemporânea cria um contraste interessante com os jardins. A visita a este espaço dos Jardins da Casa de São Roque demonstra o grande valor paisagístico e histórico que estes guardam, oferecendo uma experiência que não é possível obter noutro ponto da cidade do Porto, que contem a fruição estética e o contacto com a natureza.

A visita aos Jardins da Casa de São Roque são um local ideal para passeios tranquilos, apreciação artística e contacto com a natureza que revela um grande valor paisagístico histórico.





Referências:

Agenda Cultural do Porto. (n.d.). Casa de São Roque – Porto. https://agendaculturalporto.org/os-melhores-jardins-e-parques-do-porto/casa-de-sao-roque-porto/

Câmara Municipal do Porto. (n.d.). Parque de S. Roque. https://ambiente.cm-porto.pt/parques-e-jardins/parque-de-s-roque-2

Casa São Roque. (n.d.). Jardim. https://casasroque.art/jardim/


terça-feira, 29 de abril de 2025

Spiral Tribe Exhibition de Mark Angelo Harrison - ADAO Associação Cultural, Barreiro.

 

Spiral Tribe Exhibition esteve presente na ADAO Associação Cultural sem fins lucrativos localizada no Barreiro de 22 de março a 29 de março. Esta exposição foi uma exposição de fotografia montada num local que não foi pensado para uma iniciativa como esta, sendo assim o espaço onde esta ocorreu improvisado.

A inauguração começou com um discurso de Mark Angelo Harrison, cofundador do coletivo Spiral Tribe, que se estendeu para a apresentação da exposição e relação da mesma com o livro A Darker Electricity: The Origins of Spiral Tribe Soundsystem, escrito pelo próprio, num processo que demorou oito anos. Sendo um ambiente que é frequentado por pessoas que conhecem bem a música eletrónica e o conceito de Free Party não existiu uma explicação aprofundada sobre os temas, em vez disso foi esclarecido em que momento foram capturadas as fotografias. Ao longo da conversa com o cofundador foi fácil de entender que a exposição não foi sobre o processo visual das fotografias tiradas, mas, acima de tudo, sobre a sua história.

As fotografias podem ser desconfortáveis para quem não tem conhecimento destas festas ditas ilegais, mas percebesse que é reconfortante para o grupo de pessoas que se revê nestes movimentos.

Nenhuma das fotografias tinha identificação ou o nome do autor, pois nunca foram capturadas com o intuito de serem expostas, mas sim, com a intenção de criar registos e memória daquilo que foram construindo. Estas fotografias foram recolhidas ao longo dos anos 90 até inícios dos anos 2000, primeiros anos em que o coletivo atuou, com origem no Reino Unido e mais tarde difundindo eventos pela Europa.

As imagens espelham perfeitamente a influência do grupo na cultura da música eletrônica e ainda o movimento anticapitalista, mal visto por muitos, tendo em conta que o estilo de música Acid House era considerado ilegal por ser novidade e chamar mais público a esta cena gratuita, o que causava prejuízo ao ambiente dos clubes noturnos. A composição das imagens não é muito trabalhada, por serem capturados momentos velozes, tendo todas estas dimensões entre 15cm por 10 cm e 10 cm por 10 cm. Descrevendo de uma forma mais profunda estas fotografias, as mesmas mostram tanto o ambiente destas festas como, flyers utilizados para informar que o coletivo estava por perto, artistas em performance, confrontos com a polícia, idas a tribunal e transporte de sistema de som. É notável que existia uma prioridade na identificação visual do grupo, tanto pela decoração feita á mão como por camisolas com designs e frases originais que representavam a ideologia, “MAKE SOME FUCKIN NOISE!”.



Esta exposição foi articulada ainda com outros workshops, estes sendo: “Redesigning Revolution” que explorou a simbologia em movimentos culturais; “Guerrilla Theatre Mask Making” onde se produziram máscaras, estes desenvolvidos por Mark Angelo; e por último “Ableton Live Improvisations” onde artistas falaram do seu processo de improvisação de música eletrónica ao vivo.

Arrematando, esta exposição talvez não seja para qualquer pessoa, porque não é montada de acordo como ditam as regras, ou até por mostrar estilos de vida alternativo, mas sem dúvida que mostra de forma transparente a construção de um espaço importante para a música eletrónica e para o conceito de Free Party, a que muitos se agregam nos dias de hoje.