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sexta-feira, 24 de maio de 2024

Luta Armada - Companhia de Teatro - Hotel Europa

 M2 - Recensão (Artes Performativas)




Luta Armada - Companhia de teatro - Hotel Europa

De André Amálio e Tereza Havlíckova


Espaço da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo 

(CPBC), em Lisboa


4 Abr - 14 Abr 2024

18:00H


Ciclo Abril Abriu, do Teatro D. Maria II

**


Criação – André Amálio e Tereza Havlíčková
Elenco – André Amálio, Mara Nunes, Mariana Sardinha, 

Mauríca Barreira Neves, Mbalango, Paulo Quedas
Criação Musical – Edison Otero
Cenografia – Ana Paula Rocha
Desenho de Luz – Pedro Guimarães

Desenho de Som - Miguel Reis
Produção Executiva – Ruana Carolina, Catarina Sobral
Assistência de Encenação - Biatriz Alves Ribeiro
Comunicação – Patrícia Cuan
Assistência Cenografia e Figurinos - Ricardo Varela

Designer – António Gomes

Co-Produção: Teatro Nacional D. Maria II, FITEI, 

Teatro Académico Gil Vicente
Co-Produção das Residências: DeVIR CAPa

**


O revolucionário é um homem que faz o sacrifício da sua vida, não tem assuntos nem interesses pessoais, nem sentimentos, nem ligações, nem propriedade, nem mesmo um nome. Tudo nele é absorvido por um só interesse exclusivo, um só pensamento, uma só paixão: a Revolução.


O revolucionário é um homem que fez o sacrifício da sua vida, e que, em consequência, não pertence a si próprio (...) Entre ele e a sociedade trava-se um combate de morte, uma luta aberta ou clandestina, sem tréguas e sem perdão.


O Catecismo ou «As regras nas quais se deve inspirar o Revolucionário»

Livro “Força Armada” Isabel do Carmo


Dedico este livro:


À memória de Carlos Curto, aliás Luís, e Arlindo Garrett, aliás Ernesto, que deram a vida pela liberdade e pela igualdade.

Ao Carlos Antunes, aliás Sérgio, que ligou o primeiro detonador e fez o primeiro assalto e sem o qual não teria havido Brigadas Revolucionárias.

Com esperança que os nossos netos venham a ler o que aqui fica escrito.

Aos velhos operários Artílio Baptista e Gabriel Pedro, que teimaram e estiveram nas primeiras acções das Brigadas Revolucionárias e da ARA.

Aos meus filhos Isabel Lindim e Sérgio Antunes, que são guardadores de histórias e fazem perguntas.

Ao Roger Claustre, que acompanhou a trajectória deste livro, e às nossas intermináveis conversas.


Livro “Força Armada” Isabel do Carmo



Isabel do Carmo conheceu Carlos Antunes em Paris e rapidamente perceberam que existia entre eles uma afinidade política. O ano era 1970. Ela concluía um estágio em medicina e ele estava na clandestinidade, já depois de ter saído de Portugal e de ter entrado em cisão com o Partido Comunista Português (PCP), devido a divergências com Álvaro Cunhal. É esse encontro que está na origem das Brigadas Revolucionárias (BR), organização que ao longo dessa década – mais tarde deu origem ao Partido Revolucionário do Proletariado (PRP) – realizou uma série de operações focadas no derrube do regime. Entre muitas outras organizações que surgiram antes e depois do 25 de abril, traça-se uma história de décadas de luta contra a opressão e de ativismo político. É a este universo que regressamos agora em Luta Armada, a nova criação da companhia Hotel Europa.

Não Matarás

Truque inoxidável

faca

repito faca

escrevo faca pelo corpo, desenho faca no 

peito da noite

desembaraço-me do sumo inoxidável doutra faca

faca

sorrio faca no escuro dum beco

  • Hoje não matarás!

Al Berto, O Medo, Assírio e Alvim

A polarização do panorama político, com o crescente poder da extrema-direita, debates cada vez mais violentos e o crescimento dos discursos de ódio foram alguns dos motivos que levaram André Amálio e Tereza Havlíčková a emergir no passado recente de Portugal, dos 20 anos que se seguiram ao 25 de Abril, e que foram também de posições políticas extremadas, violência, luta armada e rede bombista. É daqui que nasce “Luta Armada”, a nova criação de teatro documental do projeto artístico que André e Tereza dirigem, Hotel Europa, apresentada no ciclo “Abril Abriu” do Teatro Nacional D. Maria II.


A Luta Armada continua a investigação da Hotel Europa sobre o passado recente, analisando os projectos políticos que recorreram a acções violentas como assaltos a bancos, colocação de bombas, sabotagens, entre outros, como forma de luta. Este projecto tem como ponto de partida uma extensa recolha de testemunhos de pessoas que militavam nessas organizações, assim como a pesquisa de documentos sobre as suas acções, criando um espectáculo de teatro documental multidisciplinar. Este trabalho começa por descrever as ações de grupos que viam na luta armada a única forma de acabar com o fascismo e o colonialismo português como a LUAR, Brigadas Revolucionárias e ARA; em segundo lugar os grupos de extrema direita que ficaram conhecidos como rede bombista e que atuaram no período do PREC entre 1974 e 1975, tais como o ELP, MDLP e o Movimento Maria da Fonte que alegadamente combatiam a ameaça da instauração de um regime comunista no país, mas também os movimentos independentistas dos Açores e da Madeira, que optaram por ações violentas, como é o caso da FLA e da FLAMA; terminando com o último grupo que começou a sua actividade a partir de 1980 as FP-25 que lutavam para repor o socialismo.


“Há sempre alguém que resiste / Há sempre alguém que diz não”

De volta a Luta Armada, esta nova peça da companhia Hotel Europa, começa numa roda de conversa, com testemunhos dos intérpretes (atores) sobre as suas histórias pessoais e a importância que o 25 de abril de 1974, teve nas suas vidas, principalmente pelas mudanças que trouxe ao país em termos sociais e económicos. As palavras dos filhos da revolução servem igualmente de lugar comum para uma reflexão sobre o que ainda está por fazer. Que valores faltam ainda cumprir. “50 anos depois do 25 de Abril, continua a existir pobreza, continua a existir misoginia, continua a existir homofobia, continua a haver racismo, mas não consigo deixar de pensar que apesar disso tudo, estamos muito melhor do que estávamos antes do 25 de Abril”, diz um dos atores.

Ao entrarmos no espaço da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, encontramos um ambiente de pouca luz, com algumas cadeiras, sofás e poucas mesas. As pessoas que lá se encontram, conversam descontraidamente. A sensação é que acabámos de entrar numa sala privada onde já tudo aconteceu e essa sensação é, de certa forma, constrangedora, porque não nos sentimos pertencentes a um grupo já composto. Rapidamente encontramos um espaço onde nos fixamos e que não dá muito nas vistas. Não queremos chamar a atenção, nem interromper o que parece que já começou. O relógio marca dezoito horas, em ponto e começamos a ouvir alguém a falar no que pensamos nós, num volume de voz acima do esperado. Afinal o que pensávamos ser espectadores como nós, eram na verdade os atores, misturados entre todos. Fazem uma apresentação da sua história pessoal e encaminham-nos para um local onde nos pedem a identificação e só depois de mostrarmos o nosso cartão de cidadão nos deixam avançar para um outro espaço onde encontramos uma correnteza de cadeiras para nos instalarmos confortavelmente. O ambiente permanece escuro e de certa forma ameaçador. Sentamo-nos e preparamo-nos para assistir à peça Luta Armada.

A partir daí, mergulhamos no passado, já depois de seguirmos os atores num corredor onde somos interrogados, como se estivéssemos prestes a ser detidos pela PIDE. Chegamos, entretanto, ao ano de 1961, sentados, assistimos a uma espécie de concerto-performance que nos leva nessa viagem à história daqueles que fizeram das suas vidas um veículo de luta contra a ditadura salazarista. “Na noite de 21 para 22 de janeiro de 1961 dá-se uma ação armada de enorme espetacularidade”, começa por contar André Amálio, referindo-se ao assalto ao paquete Santa Maria em 1961, a chamada Operação Dulcineia, liderada por Henrique Galvão. Foi a semente plantada para o que iria surgir depois.

André Amálio - Encenador, ator e fundador da companhia de teatro, Hotel Europa.

Artista, ator e encenador tem criado espetáculos à volta de temas como a identidade cultural e a história recente de Portugal e recentemente tem desenvolvido trabalho dentro da área de teatro documental. Formou-se enquanto ator e criador na ESTC e na Goldsmiths, University of London e está neste momento a desenvolver um MPhil/PhD na University of Roehampton. Lecionou no curso de Teatro da ESAD e na HAMU (Faculdade de Artes Performativas de Praga). Participou em espetáculos dirigidos por Ajay Kumar, Anna Furse, Antónia Terrinha, António Feio, Francisco Alves, Giacomo Scalisi, Joana Craveiro, João Brites, Lúcia Sigalho, Luis Castro, Madalena Vitorino, Marie-Gabrielle Rotie, entre outros. Fundou com Tereza Havlickova a companhia HOTEL EUROPA para a qual co-criou os espetáculos FÉ, Kino Waltz e criou PORTUGAL NÃO É UM PAÍS PEQUENO,  Passa-Porte e Libertação. Está neste momento a terminar a sua tese de doutoramento com o título Re-Escrever a História Colonial Portuguesa Através do Teatro Documental.

“Considero-me mesmo um filho da revolução. Se não se tem dado o 25 de Abril, eu não estaria aqui de certeza hoje a fazer este espetáculo, porque a ditadura fascista tinha uma série de características que marcaram profundamente a minha família, como o facto de não haver um serviço nacional de saúde, por exemplo, na família do meu pai nos anos 50, o meu avô tem um problema de saúde, uma coisa relativamente simples, uma úlcera, mas isso foi suficiente para a família do meu pai ter que se endividar para pagar essa conta e ter imensa dificuldade para pagar a dívida com que ficaram. Do lado da minha mãe, a minha tia mais velha, ela não sabe ler nem escrever, ela assina de cruz e a minha mãe para ter um pouco mais de escolaridade, foi forçada a ir para as freiras para também escapar à pobreza que existia ali naquela aldeia e consegue estudar até ao quinto ano, equivalente hoje ao nono ano. Mas parte da família da minha mãe é forçada a emigrar para França, com naquela leva de portugueses que nos anos 60 emigra para fora do país e outra parte vai viver para Lisboa. Mas vão viver para um bairro de lata na zona da Ajuda e é para lá que a minha mãe vai viver quando sai das freiras e ficam lá a viver até ao 25 de Abril. Agora, 50 anos passados do 25 de Abril, nenhuma pessoa da minha família vive em nenhum bairro de lata. Já somos assim todos super classe média, mas bem ao lado do sítio onde eu vivo, existe um bairro de lata. Bem ao lado do sítio onde foi criado este espectáculo e onde foi ensaiado, existem dois bairros de lata. Continua a haver bairros de lata em Portugal, 50 anos depois do 25 de Abril, continuamos a não ser capazes de contar a nossa história colonial de uma forma inteira, precisamos ainda de fingir que não fizemos coisas que fizemos e não somos capazes ainda de escrever nos nossos livros de história, nos livros que ensinamos às nossas crianças na escola, os nomes das pessoas que lutaram e sacrificaram e que foram presas para que nós pudéssemos estar aqui hoje. De muitas maneiras, o 25 de Abril continua ainda por cumprir”.

Ainda sobre a Luta Armada, em 1967, alguns dos militantes que apoiavam Henrique Galvão e Humberto Delgado vão encontrar-se em Paris para formar uma nova organização que se dá pelo nome de A.R.D. — Ação Revolucionário Democrática. Depois de um assalto ao Banco de Portugal, logo adotam o nome Liga de Unidade de Ação Revolucionária – LUAR. 

Toda a história se faz cronologicamente. Ainda antes do 25 de Abril, aborda-se a criação da Ação Revolucionária Armada (ARA), o braço armado do PCP, da BR, fala-se dos movimentos e partidos entretanto formados nas antigas colónias, como a Frelimo, o MPLA e o PAIGC. Mas a história não fica por aí.

Já em pleno Verão Quente, de 1975, vem ao assunto, a Flama — Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira e a FLA — Frente de Libertação dos Açores. “Ambos de extrema-direita e muito violentos. Colocação de bombas, agressão a pessoas. O objetivo era ganhar a independência face ao continente devido ao que diziam ser a ameaça comunista”, explica um dos atores. Por outro lado, assiste-se ao surgimento do ELP, Exército de Libertação Nacional, ou o MDLP, Movimento de Libertação de Portugal, e também o movimento Maria Da Fonte. É uma história de violência. Dos atentados perpetrados por Ramiro Moreira à morte do Padre Max, em 1976, a peça constrói uma genealogia de acontecimentos, mas também aborda as diferentes formas de violência armada que marcaram Portugal na sua transição à democracia. Na continuação e chegados à década de 1980, aborda-se os atentados das FP-25 e reflete-se sobre a forma como o país lidou com estes movimentos extremistas, da esquerda à direita. Paira no ar a dúvida: 

“Talvez seja a questão que todos devemos fazer a todo o momento, como é que podemos cumprir Abril? O que é que falta para cumprir a revolução?”.

“Apesar de tudo, temos uma posição e não somos completamente neutros. Alguns movimentos extremistas foram silenciados na nossa história recente, daí ser importante mostrá-los, até porque muitas destas pessoas ainda estão no nosso espaço público, quando muitas das pessoas que lutaram contra o fascismo são postas de lado”, sustenta André Amálio. 

Há sempre formas de se olhar para a história e para o passado, através do qual vamos sempre, inevitavelmente, ver diferentes lados da barricada. Pelo caminho, o importante – explica a companhia – é que se acabe com os mitos. “A ideia de que a ditadura portuguesa foi suave, como se o 25 de Abril e o PREC tivesse sido um período de loucura, comparativamente à guerra colonial ou à ditadura em si. Tentamos desmistificar e trazer estas visões múltiplas, mas nas quais se demonstram como teve de haver muitas pessoas a resistir para podermos chegar até aqui, em democracia”.

Finalmente, escreve-se uma frase na parede, verso da célebre canção de Adriano Correia de Oliveira: “Há sempre alguém que resiste/ Há sempre alguém que diz não”, como espelho de uma história que não é pacífica. E assim termina a peça, Luta Armada.

… Pergunto ao vento que passa

Notícias do meu país

E o vento cala a desgraça

O vento nada me diz.

O vento nada me diz.

… La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la,

La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la.

La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la,

La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la.

… Pergunto aos rios que levam

Tanto sonho à flor das águas

E os rios não me sossegam

Levam sonhos deixam mágoas.

… Levam sonhos deixam mágoas

Ai rios do meu país

Minha pátria à flor das águas

Para onde vais? Ninguém diz.

… Se o verde trevo desfolhas

Pede notícias e diz

Ao trevo de quatro folhas

Que morro por meu país.

… Pergunto à gente que passa

Por que vai de olhos no chão.

Silêncio -- é tudo o que tem

Quem vive na servidão.

… Vi florir os verdes ramos

Direitos e ao céu voltados.

E a quem gosta de ter amos

Vi sempre os ombros curvados.

… E o vento não me diz nada

Ninguém diz nada de novo.

Vi minha pátria pregada

Nos braços em cruz do povo.

… Vi minha pátria na margem

Dos rios que vão pró mar

Como quem ama a viagem

Mas tem sempre de ficar.

… Vi navios a partir

(Minha pátria à flor das águas)

Vi minha pátria florir

(Verdes folhas verdes mágoas).

… Há quem te queira ignorada

E fale pátria em teu nome.

Eu vi-te crucificada

Nos braços negros da fome.

… E o vento não me diz nada

Só o silêncio persiste.

Vi minha pátria parada

à Beira de um rio triste.

… Ninguém diz nada de novo

Se notícias vou pedindo

Nas mãos vazias do povo

Vi minha pátria florindo.

… E a noite cresce por dentro

Dos homens do meu país.

Peço notícias ao vento

E o vento nada me diz.

… Quatro folhas tem o trevo

Liberdade quatro sílabas.

Não sabem ler é verdade

Aqueles pra quem eu escrevo.

… Mas há sempre uma candeia

Dentro da própria desgraça

Há sempre alguém que semeia

Canções no vento que passa.

… Mesmo na noite mais triste

Em tempo de servidão

Há sempre alguém que resiste

Há sempre alguém que diz não.


Trova do Vento que Passa

Adriano Correia de Oliveira


Cruz - Filipe, Modo de ver

 M1 - Recensão (Artes Visuais)


Cruz-Filipe. Modo de ver


Galeria do piso inferior

Fundação Calouste Gulbenkian


23 Fev - 15 Abr 2024

10:00 - 18:00 (Encerra à terça)



Introdução


Esta exposição da análise retrospetiva da obra do pintor e artista Cruz-Filipe apresenta pinturas realizadas desde a década de 1970, onde estão incluídas dez telas inéditas pintadas a partir de 2015 e outros trabalhos onde é notória a ligação harmoniosa da pintura com a fotografia.

Pensada e organizada juntamente com o artista, a exposição apresenta 57 pinturas que traçam a evolução desde os anos de 1970, até à sua última tela, pintada em 2020. As dez telas de pinturas inéditas, abordam a temática da natureza/paisagem.

 

Ao contrário de muitos artistas seus contemporâneos, Ricardo da Cruz-Filipe apresenta-se como pintor autodidata. “Convivi com grandes pintores, como o Júlio Pomar ou o Noronha da Costa. Eles eram verdadeiros pintores, eu fazia pintura”. 

Nascido em Lisboa em 1934, Cruz-Filipe diplomou-se no Instituto Superior Técnico em 1957, tendo sido ali professor-assistente entre os anos de 1958 e 1968. Dedicou toda a sua vida profissional ao setor da eletricidade, nomeadamente às questões económicas, ao planeamento, à organização e à gestão de empresas, tendo sido ainda diretor de uma companhia de seguros e administrador da Eletricidade de Portugal (EDP). Paralelamente, criou toda uma obra visual, onde ligou a pintura com a fotografia. O seu trabalho ganhou destaque em finais dos anos de 1960, mais concretamente a partir de 1969, quando expôs pela primeira vez uma série de pinturas sobre telas fotossensibilizadas, técnica esta, em que Cruz-Filipe foi pioneiro em Portugal. 

“Só pintava aos sábados e aos domingos e quando não tinha trabalho para fazer. Nunca fui só pintor. Dedicava-me aos quadros quando tinha esse tempo livre, mas por isso mesmo demoravam e fazia poucas mostras desse trabalho”, conta o artista que chegou a ser professor de engenharia de António Guterres. A primeira exposição pública aconteceu na Galeria Pórtico, em 1957, da qual resta um quadro que abre a presente exposição, intitulado Música de Câmara (1955). Foi o culminar de um gesto que começou cedo. “Desde pequeno que desenhava para o meu irmão, inspirando-me nos filmes de cowboys e no cinema pelo qual me fui interessando”, conta.


Anos mais tarde, já no fim da década de 1960, adota a técnica da tela fotossensível, que confere uma poética própria ao seu trabalho artístico. Esta pintura sobre telas fotossensibilizadas, são aplicadas em telas especialmente preparadas com um revestimento sensível à luz, permitindo, assim, que uma imagem seja gravada sobre a tela, através de um processo fotográfico. Depois deste processo em que a imagem é revelada e impressa na tela, o artista procede à pintura, adicionando detalhes, cores e texturas. 

Esta técnica combina elementos da fotografia e da pintura, permitindo ao artista criar obras de arte únicas que incorporam não só a precisão da imagem através da fotografia como, aliado a esta, a subjetividade da pintura.

Um segundo ciclo inicia-se por volta de 2005, com o predomínio de registos fotográficos sobre paisagens e apontamentos da natureza – mar, céu, terra, atmosferas líquidas e sublimadas, árvores, nuvens – retrabalhados pictoriamente. Como na fase anterior, caracterizada pela constante presença de fragmentos do corpo humano, a imagem é reconstituída e unificada através da pintura. Em ambos os ciclos encontramos a mesma atitude estética e o mesmo desejo de provocar o olhar do observador, trazendo-lhe alguma inquietação.

Se a pintura, no peso histórico e conceptual que o artista lhe atribui, ocupou o primeiro plano da sua obra, a fotografia permanece num lugar imerso, neste seu modo especial de ver a arte.


Descrição geral


Num primeiro olhar, o visitante fica submerso nas diferentes direções para as quais estas telas apontam. O território visual é representativo e amplo. Há alusões à pintura barroca e neoclássica, mas também um cruzamento inusitado com o surrealismo e o impressionismo. O que se vê é, no entanto, mais singular e diz respeito a uma utilização indefinida da fotografia metamorfoseada em pintura. “A criação de imagens foi sempre uma necessidade de expressão contínua”: é desta forma que Ricardo da Cruz-Filipe (1934) descreveu, a sua obra e o seu percurso ligado às artes visuais, iniciado há mais de 70 anos. O espectador é acolhido numa experiência imersiva que ultrapassa as fronteiras da percepção convencional. Localizada na galeria de exposições temporárias do piso 01, a distribuição das pinturas convida a explorar os recantos das várias salas e mergulhar na mente do criador.

O artista português que acaba de completar 90 anos de idade, identifica o seu processo como criador de imagens, que agora se dá a ver, nesta exposição, de forma antológica. É uma narrativa visual, consolidada ao longo de décadas, na história da arte contemporânea portuguesa.

O título da exposição, Modo de ver, foi escolhido pelo artista que recorreu a uma expressão usada por Susan Sontag em On Photography. Na grande maioria, revela-se a técnica em que se notabilizou e que utiliza telas fotossensíveis, colocando estas criações num lugar híbrido, entre a pintura e a fotografia. Ao deambularmos neste universo pictórico, entramos necessariamente num lugar onde a cultura visual é repleta de metáforas vivas e de contemplações sobre o mundo. Da utilização do óleo e depois do acrílico sobre este tipo de telas, o artista português distingue-se por um processo transformativo de imagens, que começa nas montagens de fotografias projetadas em telas e que são tratadas cromaticamente numa espécie de pós-produção da imagem.

Desde o momento em que se entra na galeria, é muito evidente que Cruz-Filipe desafia as normas estabelecidas, optando por uma abordagem que oscila entre o surreal e o provocativo. As obras expostas são meras representações visuais, onde a realidade se funde com o imaginário.

Sobre esta obra, presente na imagem, em cima, dá-se pelo nome de Point d’orgue, de 1994,

O preto ocupa toda a tela ou quase, e aqui só se vêem duas mãos, mãos masculinas, mãos de poder, sob um céu atormentado. Cruz-Filipe constrói assim um universo fantasmagórico, onírico e perturbador: as suas fantasias tomam forma em figuras antigas, vestem-se com os adornos da história da arte para melhor assombrar as mentes e evitar que sejam esquecidas. De todas as pinturas presentes nesta exposição, esta é sem dúvida aquela que mais me intriga e provoca o olhar. Sendo uma composição abstrata, pode ser interpretada de diversas maneiras, uma vez que a arte abstrata permite que o observador encontre significados pessoais. Se traduzirmos o título da obra, encontramos uma simples palavra - destaque. Rapidamente confirmamos que o que se encontra em destaque, que sobressai e que provoca o observador, são as mãos. Uma posição respeitadora, de alguém com algum estatuto. Juntamente com a mancha preta que ocupa quase toda a tela, encontramos na parte superior, uma mancha que simboliza um céu de tempestade. Posso concluir que o poder que simboliza a posição das mãos está atormentado por uma natureza inquieta.

"Point D'orgue", como muitas obras abstratas, convida o observador a mergulhar na experiência estética e a refletir sobre as emoções e impressões que a obra desperta, sem estar limitado a uma interpretação única ou específica.


Como escreve o ensaísta Bernardo Pinto de Almeida, num texto presente no catálogo da exposição, “cada quadro requer a execução lenta de um processo construtivo”, meticulosamente pensado, através de um processo que trabalha as imagens de forma digital. “Baseado na pintura, na fotografia e na colagem – composto assaz complexo que lhe trouxe grande originalidade –, esse processo, sendo absolutamente construtivo, foi realizado quando os dispositivos digitais não conheciam ainda lugar próprio e estavam na maioria por inventar, o que jamais o impediu de ser quase um pioneiro dos processos contemporâneos da apropriação da imagem e do seu uso indiscriminado”, salienta no mesmo texto. O seu trabalho, explica por seu lado a curadora da retrospectiva Ana Vasconcelos, aproxima-o de Richard Hamilton, Robert Rauschenberg ou Gerhard Richter, mas em Portugal é pioneiro e único.

“Cruz-Filipe é herdeiro de uma matriz pop, mas foi um outsider porque insistiu na pintura, quando estava toda a gente a derivar para uma arte conceptual e quando a fotografia ganhou outra dinâmica. Ele continuou a trabalhar na imagem a partir da apropriação, recorrendo a imagens de revistas, frames de filmes e detalhes de outros quadros”, salienta. Numa tradição que trabalha o recorte e a transfiguração, as suas criações empregam uma complexa justaposição de imagens de pormenores retirados de pintura antiga, com particular destaque para a pintura italiana e flamenga dos séculos XVI e XVII, e um trabalho imagético em que o artista faz ligações, revela, deturpa ou oculta.

Um elemento distintivo da exposição é a interação entre as obras e o ambiente circundante. Cruz-Filipe desafia a tradicional separação entre o observador e o objeto observado. Essa abordagem dinâmica amplia os horizontes da percepção, desafiando os visitantes a questionar a sua própria compreensão do mundo ao seu redor.

Além disso, “Modo de Ver” revela uma profunda introspecção por parte do artista em relação à condição humana. As obras exploram temas universais, como identidade, alienação e espiritualidade, através de uma lente pessoal e intimista. Ficamos com a sensação de que entramos numa jornada emocional, explorando os cantos mais sombrios e luminosos da psique humana.

No entanto, apesar da profundidade conceitual das obras, a exposição também oferece momentos de pura estética visual. As composições apresentam destreza, em relação à técnica, impressionante, com uma paleta de cores rica e uma atenção minuciosa aos detalhes. Essa combinação da forma ao conteúdo, cativa os sentidos, garantindo que mesmo os visitantes menos conhecedores da arte contemporânea, encontram sempre algo que lhes prende o olhar.

Em última análise, a exposição "Modo de Ver" de Cruz-Filipe transcende as limitações tradicionais da arte, oferecendo uma experiência que desafia, inspira e enriquece. Ao explorar os limites da percepção e da expressão, o artista convida os espectadores a questionar suas próprias perspectivas e a abraçar a complexidade do mundo ao seu redor.