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segunda-feira, 2 de junho de 2025

 Museu de Lisboa

A história da cidade de Lisboa está toda neste palácio lisboeta 

Campo Grande, 245, 1700-091 Lisboa

Horário: Terça a domingo, das 10h às 18h (última entrada às 17h30); encerrado às segundas-feiras e nos feriados de 1 de janeiro, 1 de maio e 25 de dezembro

Bilhetes: Entrada geral a €3; gratuita aos domingos de manhã para residentes em Portugal




O Museu de Lisboa não é um único edifício, mas um conjunto de vozes dispersas pela cidade, cada uma ecoando fragmentos da sua longa memória. São cinco lugares — Palácio Pimenta, Teatro Romano, Santo António, Casa dos Bicos e Torreão Poente — que, como capítulos de um mesmo livro, narram a história de Lisboa com ritmos e tons distintos. Unidos por uma missão comum, desvendam os segredos de uma cidade antiga, onde o passado se entranha nas pedras e ressoa nos passos de quem a percorre.
O Palácio Pimenta tem, indiscutivelmente, um papel de destaque na preservação e divulgação da história da capital portuguesa. A sua localização privilegiada, no Campo Grande, aliada à beleza do edifício setecentista e à serenidade dos jardins, oferece um contexto ideal para um museu que pretende contar a história de Lisboa. No entanto, apesar dos seus muitos méritos, a experiência do visitante não está isenta de limitações.
Construído entre 1734 e 1746, o Palácio Pimenta surgiu como residência de verão de Diogo de Sousa Mexia, figura importante durante os reinados de D. Pedro II e D. João V. Ao longo do tempo, o edifício passou por diversas mãos, tendo pertencido, entre outros, a Manuel Joaquim Pimenta de Carvalho, cujo nome acabaria por perdurar. Em 1962, o palácio foi adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa, que viria a transformá-lo, em 1979, no então designado Museu da Cidade, hoje Museu de Lisboa. A exposição permanente conduz os visitantes por uma viagem no tempo, desde o Paleolítico até ao século XX, revelando as múltiplas faces da capital. Um dos pontos altos do museu é a impressionante maquete de Lisboa antes do terramoto de 1755, composta por cerca de dez mil miniaturas, num conjunto que ocupa mais de dez metros de comprimento e quatro de largura. O acervo é vasto e diversificado, incluindo cerâmicas, mapas, gravuras, mobiliário de época e documentos originais que ajudam a contar a história multifacetada da cidade.



A exposição permanente cumpre bem o seu propósito educativo, apresentando uma narrativa cronológica clara desde a pré-história até ao século XX. A maquete da Lisboa anterior ao terramoto de 1755 é, sem dúvida, um ponto alto: impressionante tanto pela escala como pelo detalhe. Ainda assim, há momentos em que a museografia parece algo datada, com certos núcleos expositivos a dependerem excessivamente de painéis informativos extensos e pouco interativos, o que pode tornar a visita mais expositiva do que experiencial. 

Existem 11 salas no primeiro andar da exposição de longa duração que reabriu ao público, depois de três anos encerrado para remodelações. Desde 2015 que o núcleo-sede do Museu de Lisboa, no Campo Grande, estava em obras.


A sala onde estão expostos os seis planos da reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755



Além disso, embora o acervo seja vasto e relevante, há uma certa fragmentação na forma como é apresentado. Em alguns espaços, o discurso expositivo carece de uma maior ligação emocional ou temática entre os objetos e a cidade contemporânea. Falta, por vezes, uma abordagem mais ousada ou reflexiva sobre os desafios históricos de Lisboa, como a ditadura, a revolução ou as transformações urbanas recentes, que poderiam ser abordados de forma mais direta, reforçando a pertinência do museu no debate atual sobre a cidade.

Entre esses espaços, destaca-se o imperdível Jardim Bordallo Pinheiro, inaugurado em 2010. A sua criação partiu de uma ideia da então jornalista Catarina Portas e ganhou forma pelas mãos da artista Joana Vasconcelos, que lhe deu vida com a sua visão singular.  É um verdadeiro tesouro visual e sensorial que merece ser descoberto, onde se exibem impressionantes peças cerâmicas inspiradas nos moldes originais do célebre artista, dando vida a figuras de animais, insetos e elementos vegetais. Complementando este ambiente sereno, os Pavilhões Branco e Preto recebem regularmente exposições temporárias dedicadas a Lisboa e às expressões artísticas portuguesas. 



Uma experiência imersiva e inesquecível.

Explorar a história de Lisboa no Palácio Pimenta é realmente uma jornada fascinante, que se torna ainda mais completa quando, ao sair para os jardins, despertamos os sentidos de forma plena. A vista encantadora, o canto dos pássaros e os aromas delicados das flores criam um ambiente único que transforma a visita numa experiência memorável e sensorial.

Sem dúvida, depois desta imersão, olha-se para Lisboa de uma forma renovada, sentindo uma ligação mais profunda com a riqueza cultural e a herança que moldou esta cidade ao longo dos séculos.



quarta-feira, 14 de maio de 2025

 Intimidades em fuga. Em torno de Nan Goldin

Lisboa, Centro Cultural de Belém24 de outubro de 2024 a 31 de agosto de 202510:00 às 18:30

Inauguração: 23 de outubro de 2024, 19:00

Exposição temporáriaPiso -1

Se estiverem nas imediações do rio Tejo, próximo da reconhecida pastelaria que serve os emblemáticos pastéis de Belém, é altamente recomendável uma visita à exposição Intimidades em Fuga. Em torno de Nan Goldin, com curadoria de Nuria Enguita. Esta mostra encontra-se patente no Museu de Arte Contemporânea do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, até ao dia 31 de agosto de 2025.

A exposição constitui uma profunda reflexão sobre o conceito de intimidade, aqui entendido não como uma experiência meramente individual ou subjetiva, mas como uma vivência partilhada, intrinsecamente política e relacional. A intimidade é abordada enquanto construção coletiva que atravessa questões de género, corpo, identidade, sexualidade e memória, desafiando as fronteiras convencionais entre o público e o privado.

Um dos núcleos centrais da exposição é a apresentação parcial da série fotográfica The Ballad of Sexual Dependency (1979–1986), da fotógrafa norte-americana Nan Goldin. Composta por 126 imagens dispostas na parede de forma contínua, esta instalação remete para a estética dos fotogramas cinematográficos e evoca uma narrativa fragmentada e emotiva, que convida à imersão afetiva e crítica do espectador. Goldin ocupa uma posição central na exposição, funcionando como catalisadora de novas leituras sobre a intimidade como uma experiência vivida e exposta, permeável ao olhar do outro.

A mostra inclui, ao todo, 66 obras de 36 artistas, entre os quais se encontram nomes de referência no panorama da arte contemporânea. Estes trabalhos dialogam direta ou indiretamente com a obra de Goldin, explorando, a partir de diferentes suportes – fotografia, vídeo, instalação e performance – múltiplas perspetivas sobre o íntimo, muitas vezes em confronto com normas patriarcais, estruturas de poder e convenções sociais. As influências do século XIX, do surrealismo e da psicanálise são também convocadas, estabelecendo uma teia de relações entre o passado e o presente, o individual e o coletivo.

Percorre práticas expressivas de artistas que desafiaram normas patriarcais, refletindo ainda influências do século XIX, do surrealismo e da psicanálise, estabelecendo ligações entre passado e presente, entre o íntimo e o coletivo. Com isso, a intimidade é elevada à categoria de ato político, convertendo o privado num campo comum, transformador da nossa experiência social.

A exposição ocupa o Piso -1 do museu e inicia-se com um conjunto de fotografias da artista Sharon Lockhart, exibidas numa sala de paredes verdes, onde se destacam retratos cuidadosamente compostos. A instalação principal, composta pelas 126 fotografias de Goldin, encontra-se disposta ao longo de uma parede rosa que acompanha o visitante durante todo o percurso. Este prolonga-se por várias salas interligadas, oferecendo uma experiência sensorial imersiva, com espaços dedicados a vídeos, instalações e obras visuais diversas. Alguns ambientes incluem bancos, sugerindo momentos de pausa e contemplação, o que reforça o caráter meditativo da visita.


Contudo, a disposição espacial das obras por vezes levanta ambiguidades, nomeadamente quanto à direção do percurso e à forma como as obras se interligam entre si. O desfecho da exposição, com a exibição de um vídeo no fundo da parede, levanta dúvidas quanto à conclusão do itinerário, dada a existência de uma saída lateral que poderá gerar alguma confusão ao visitante. Ainda assim, este aspeto não compromete a experiência global, que convida à revisitação crítica do início do percurso e à reflexão sobre o que realmente significa a intimidade nos dias de hoje.

Esta exposição oferece, assim, uma proposta curatorial que se quer sensível e incisiva, orientada para a escuta, a observação e a partilha de experiências humanas profundamente enraizadas no quotidiano. Intimidades em Fuga não se limita a exibir obras; propõe uma cartografia afetiva do corpo, da subjetividade e da vulnerabilidade, elevando o íntimo à condição de linguagem estética e política. Trata-se, portanto, de uma exposição que interpela o visitante de forma profunda, encorajando uma leitura crítica e empática das expressões contemporâneas da intimidade.


sábado, 26 de abril de 2025


“Os três porquinhos” 

“Os três porquinhos” de Palco de Chocolate

 Auditório Orlando Ribeiro, Lisboa, 16 de março de 2025 às 10h30


Assistir a uma peça de teatro infantil suscita frequentemente algumas dúvidas quanto à sua utilidade e capacidade didática, sobretudo quando se trata de uma criança que acaba de completar o primeiro ano de vida. No entanto, esta produção teatral, destinada a crianças entre 1 e 5 anos, transforma-se num verdadeiro cenário de alegria e diversão — não apenas para os mais pequenos, mas também para os próprios adultos, que se deixam cativar quase tanto quanto os graúdos.

O espetáculo realiza-se num acolhedor auditório em Telheiras, com capacidade para 140 pessoas, e a sala, invariavelmente cheia, enche-se de gargalhadas e exclamações, que rapidamente se transformam num respeitoso silêncio assim que o espetáculo tem início. É, de facto, impressionante testemunhar uma peça infantil em que os momentos de riso surgem de forma natural e espontânea, apenas quando o enredo o solicita — uma experiência rara e surpreendente. O espetáculo acontece ao domingo, mas nem sempre será possível assistir. Entre os meses de janeiro a março e perto do final do ano volta a aparecer entre setembro e outubro.

Antes da abertura das portas, os espectadores aguardam numa sala com acesso ao pátio da Biblioteca Orlando Ribeiro. O ambiente é animado, com crianças pequenas a correrem de um lado para o outro, a abraçarem-se às mães ou a fugirem dos pais. A entrada faz-se em família, promovendo a partilha desta experiência única entre aqueles que mais se amam.

A peça conta com a brilhante interpretação de duas talentosas atrizes, Natasa Marjanovic e Margarida Carvalho de Vasconcelos, que, juntamente com os três porquinhos, conduzem a narrativa. Ao contrário da tradicional história popular, nesta versão, a porca encontra-se grávida, e o porquinho Quico prepara-se para receber dois irmãos!




O cenário, embora simples, é mais do que suficiente para dar vida a uma narrativa encantadora, que estabelece uma constante interação com o público. A participação ativa das crianças é essencial, sobretudo quando a loba precisa da ajuda dos espectadores para soprar e derrubar estruturas, exigindo um esforço coletivo bem divertido.

Os atos estão muito bem ritmados e a transição entre cenas é feita de forma vibrante, com música e dança, recebendo sempre calorosos aplausos da plateia. Importa ainda destacar as subtis lições de moral que, de forma leve e inconsciente, incentivam os pequenos espectadores a refletirem sobre a importância da obediência, da empatia e do respeito.

Embora o desfecho da história pareça um pouco apressado para o olhar adulto, deixando uma ligeira vontade de prolongar o encantamento, para as crianças, a experiência é absolutamente perfeita. No final, o entusiasmo é tal que querem repetir a aventura — seja nesta ou noutra peça semelhante.


Podemos dizer que, esta peça de teatro infantil revela-se uma experiência única e enriquecedora, capaz de envolver tanto as crianças como os adultos num ambiente de fantasia, interação e aprendizagem. Com uma narrativa criativa, interpretações cativantes e uma forte componente emocional, proporciona momentos de verdadeira felicidade em família, deixando no ar a vontade de regressar para novas aventuras teatrais.