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sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Livro de artista – Bibliotecas

A temática Livro de Artista entrou este ano na minha vida, em início da pandemia com dois cursos online: Entre ser um e ser mil, o livro como espaço poético - ministrado pela artista e educadora Edith Derdyk e Livro-Álbum, leitura, análise e apreciação, ministrado pela editora e tradutora Daniela Gutfreund. Estes encontros, entre outras vivências me levaram ao Mestrado em Práticas Tipográficas e Edições Contemporâneas.

Tudo é muito novo, mas desde este começo me interessou o Livro de artista como uma obra de arte poética em si, acessível e como obra que circula, daí querer conhecer como funcionam os espaços de encontro com este tipo de arte: bibliotecas, coleções, livrarias e feiras.

Em 2020, um ano em que vivemos boa parte dele através do ecrã, este conhecer de forma física teve de ser adiado. Ao mesmo tempo me levou a colecionar páginas online de acervos a respeito do tema.

Em 25 de novembro de 2020, a Biblioteca Universitária da Universidade Federal de Minas Gerais promoveu o Encontro Online Acervos Especiais – Coleções de Livro de Artista tendo como convidados o professor, artista e investigador Amir Brito Cador e a bibliotecária documentalista Sabrina Rodrigues Fonseca.

Boa parte da conversa girou em torno do acervo da Coleção Livro de Artista da Universidade Federal de Minas Gerais, a primeira coleção em uma biblioteca de universidade pública no Brasil. Em atividade desde 2009, a coleção possui hoje em torno de 1600 livros, sendo o maior acervo público de livros de artista da América Latina. 

Entretanto, Amir Cador inicia sua fala dando a conhecer uma série de Coleções de Livros de Artistas em Bibliotecas de Arte ou espaços especializados nos Estados Unidos e na Europa. Apresenta diferentes possibilidades de critérios para a construção de cada acervo e de acesso ao mesmo, seja de forma física ou online.

Já Sabrina Fonseca explana sobre as particularidades da catalogação de um acervo de livro de artista, como se dá o acondicionamento das obras e a acessibilidade por parte do público.

Foi uma conversa muito rica sobre o tema e listo aqui abaixo as coleções mencionadas, os links para as mesmas e o link para o vídeo da conversa.

Coleção livro de artista – UFMG
https://colecaolivrodeartista.wordpress.com/

Clive Phillpot e a Coleção de livro de Artista do MoMa
Exposição A Century of Artists Books
https://www.moma.org/calendar/exhibitions/439

Franklin Furnace
http://franklinfurnace.org/

Printed Matter
https://www.printedmatter.org/

Guy Schraenen
https://www.guyschraenenediteur.com/

Weserburg Center for Artist´s Publications
https://weserburg.de/zentrum/

Reina Sofia
https://www.museoreinasofia.es/biblioteca-centro-documentacion/coleccion-biblioteca-libros-artista

Fundação Serralves
https://www.serralves.pt/institucional-serralves/edicao-de-artista/

Biblioteca de Arte Gulbenkian
https://gulbenkian.pt/biblioteca-arte/escolhas-da-biblioteca/livros-de-artista/

Tipo.pt
http://tipo.pt/

Queensland State Library
https://www.slq.qld.gov.au/research-collections/art-and-design/australian-library-art/artists-books-collection

Bibliothèque Kandinsky
http://bibliothequekandinsky.centrepompidou.fr/CDA/portal.aspx?INSTANCE=incipio&PORTAL_ID=portal_model_instance__livres_d_artiste.xml&SETSKIN=INCIPIO

Frac Bretagne
https://www.navigart.fr/fracbr-mea/artworks

Cabinet du Livre d´artistes
https://www.sites.univ-rennes2.fr/arts-pratiques-poetiques/incertain-sens/fonds_cla.htm

Centre des livres d´artistes
https://cdla.info/

Encontro on-lin Acervos Especiais – Coleções de Livro de Artista
https://youtu.be/7As7ICpzauk


domingo, 22 de novembro de 2020

Livro de artista – Edith Derdyk

 Edith Derdyk é uma artista, educadora, escritora e ilustradora brasileira. 

Possui o desenho como matriz e energia motriz de seu trabalho. Este é o fio condutor de sua pesquisa visual, seja no bidimensional, na costura, no espaço, onde estica linhas no ar, na escrita, onde traça, rabisca, rasura ou no tempo, como no dobrar e virar de páginas de um livro.

A aproximação de Derdyk com o Livro de Artista surgiu de suas experimentações artísticas e convívio com suas anotações em seus cadernos (diários poéticos). E em sua pesquisa sobre o livro, a artista transita entre a palavra, a imagem, a linha, o objeto e a materialidade do suporte no espaço. 

Em 2002, nasce Rasuras, um livro-mesa de tiragem única com 250cm quando aberto:





“A linha desamarra e se desarma em folhas dobráveis, como se o livro pudesse conter o labirinto do infinito, imensurável. Um novelo de lã, cada fio estendido, camadas e sobreposições de leituras e composições vertem sobre sim outras dobras de sentido. O livro é espécie de caminhada: discurso e percurso em movimento. Quando se abre um livro, um tempo é inaugurado – seja o tempo da narrativa ou o tempo de folhear suas páginas, tal como uma partitura coreográfica.” (Edith Derdyk, de 1997 a 2017)

Em Fiação, de 2004, a artista registra as fiações elétricas das ruas e os fragmentos de linhas existentes em seu atelier. Em uma série de justaposições dessas imagens a Derdyk trabalha com dualidades como conexão/desconexão, interior/exterior, casa/cidade, continuidade/descontinuidade. O livro possui algumas possibilidades de dobras e quando manuseado, o leitor recria diferentes relações, leituras, narrativas e combinações gráficas.









Em 2007, é realizada a obra Onda Seca na Pinacoteca de São Paulo. Uma escultura feita a partir de quatro toneladas de papel. Empilhadas, estas páginas brancas formam um grande livro no espaço, um mar de papel em estado de gravidade, uma onda seca congelada no ar. 




Se o mar inteiro sob o leito de um rio (2008) é um livro de parede construído a partir da justaposição de textos. A palavra aqui é tecida, cruza horizontalmente o livro como um todo, cria-se um movimento de onda. Lemos o mar.





Em Tábula de 2015, Derdyk também trabalha com múltiplas sobreposições de textos. Neste livro de artista eles são extraídos da primeira página de cerca de 80 bíblias compradas em distintos sebos de São Paulo. As imagens resultantes desta sobreposição tornam os textos praticamente ilegíveis, problematizando a relação entre o texto originário, escrito em aramaico e suas diferentes traduções em texto fonético ocidental. A materialidade do livro também problematiza esta relação de tradução/interpretação, pois as páginas dobradas permitem infindáveis leituras combinatórias, tornando o leitor um co-autor.






Estas são algumas das obras desta artista que possui um extenso e intenso trabalho de pesquisa no livro de artista, seja de forma poética ou teórica.





quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Livro de Artista - Feira Tijuana

A Feira Tijuana de Arte Impressa se configura como uma das mais importantes feiras de livros de artista e de publicações independentes no Brasil. Foi a primeira do género organizada no país. Idealizada pela Galeria Vermelho, foi inaugurada em agosto de 2009 através de uma parceria com o CNEAI - Centre National de L’Édition et de L’Art Imprimé (França).

Para a ocasião, nomeada Salon Light – Flores e Livros, foram reunidas cerca de 16 editoras e artistas que se auto-publicavam. O evento ocorreu dentro da própria Galeria Vermelho. E assim se repetiu anualmente até 2012.

No ano seguinte a Feira Tijuana mudou-se para a Casa do Povo, reuniu mais de 50 expositores e ocupou 3 andares de um edifício no Bairro do Bom Retiro. Além da feira, neste ano o evento de 2 dias passou a contar com uma intensa programação de debates, projeções, oficinas em parceria com a Oficina Cultural Oswald de Andrade e uma exposição.

Desde então, a Tijuana entrou para o calendário anual de eventos culturais de São Paulo, resultando em um esperado espaço de encontro, comercialização da arte impressa e acesso fácil a artistas independentes ou representados por pequenas editoras/galerias. 

Ao longo desta última década se especializou em conectar editoras da América Latina e desde 2016 tornou-se itinerante, já tendo realizado edições no Rio de Janeiro, Lima e Buenos Aires.

Neste mesmo ano, a Feira Tijuana atravessou o atlântico e atracou em solo português. Reuniu cerca de 40 artistas de Portugal, Espanha, Brasil, Chile e Argentina no CCOP - Círculo Católico dos Operários do Porto (Porto) durante um fim de semana de outubro. Promoveu uma exposição no Museu Nacional da Imprensa e uma programação paralela de conversas e oficinas.

Infelizmente este evento não veio a se repetir em Portugal após esta data.

A última edição que tomei registo, a de n°24, ocorreu no Rio de Janeiro em 2019. 

Em meio a pandemia de 2020, a Tijuana segue propondo uma série de encontros virtuais de aprofundamento do trabalho editorial independente. Uma espécie de grupos abertos de leitura sobre o que, como, e por que publicar.


http://cargocollective.com/tijuana

https://www.instagram.com/_tijuana/

https://www.youtube.com/channel/UCaLQyP0TNguZ6JPwTeeNWng/featured


sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Livro de Artista - Éditions du livre

Me interessa o tema do acesso do público ao livro de artista e a possibilidade de circulação deste objeto de arte. Ele cabe em um espaço expositivo dito museu ou galeria de arte, em uma coleção de biblioteca de arte, em uma livraria especializada ou não, em uma feira de arte ou de publicações independentes. 

Em cada um destes espaços se estabelece diferentes relações entre o público e o objeto de arte: o livro pode ou não ser tocado, aberto, vivido, percorrido, adquirido. 

No primeiro post escrevi sobre Katsumi Komagata, um artista designer cuja obra transita entre os limites: livro de artista, livro ilustrado, livro para criança e pode ser encontrada em feiras de livro ilustrado, em feira de livros de artistas, em museus de arte contemporânea e em livrarias infantis.

Hoje escrevo sobre a Éditions du Livre, uma pequena editora francesa independente comandada por Alexandre Chaize, que publica livros de artistas para crianças. Achei interessante que na própria apresentação da editora ela se autodefine como um espaço que publica livros de artistas para crianças. 

Em suas publicações há um importante diálogo entre forma e conteúdo, onde o objeto livro é a própria substância. Há uma preocupação com o livro quanto experiência sensível. Quando percorrido e manipulado, o livro pode ganhar outro estado, mudar de forma, ser recombinado e/ou reinventado.

Para que esta experiência sensível aconteça, há um cuidado primoroso com as partes que arquitetam a forma livro, além da qualidade de impressão, escolha de papel, formato, peso, tamanho do objeto na mão da criança.

Penso que os principais temas de seus livros são a manipulação do objeto e suas possibilidades combinatórias, escultóricas e de leitura visual como se podemos ver nesta série de Antonio Ladrillo, composta por 3 livros: Colors, Lines e Dots.

Todos possuem o mesmo número de páginas, formato e recortes, têm apenas uma diferença: seu padrão é composto por blocos de cor, linhas ou pontos que modificam a nossa perceção visual.





Antonio Ladrillo, 2020
24 páginas, 13,3 x 13 cm, impressão fluorescente de processo de quatro cores
Capa mole, encadernação Singer-stitch, colofão de folha brilhante
ISBN 979-10-90475-25-0 (segunda edição)


Já em Le Papillon imprimeur, de Fanette Mellier, o livro é formado por folhas destacáveis unidas por um elástico central. Cada folha representa uma borboleta ou mariposa cujas asas multicoloridas criam uma engraçada cartela de cores. Ao destacar as folhas do livro, o leitor pode explorar essas duplas de páginas, recombiná-las e criar um novo bater de asas coloridos.



Fanette Mellier, 2016
16 páginas, 20 x 30 cm
Impressão offset em 8 cores Serigrafia em 13 cores e tinta fosforescente
Folha mate, metálica, holográfica e arco-íris
Amarração de cordão elástico
ISBN 979-10-90475-16-8

Os livros da Édtitions du Livre também já se ganharam paredes e se transformação em instalações em uma espécie de livro expandido no espaço. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Livro de artista - Katsumi Komagata

“Livro de artista, uma obra de arte poética em si.
Livro de artista, uma obra de arte acessível.
Livro de artista, uma obra de arte com vocação nómade, que circula.”
(Fabio Morais, artista visual e escritor)

Livro de artista não é apenas um livro feito por um artista. É uma obra em si, quando o objeto livro é pensado como um todo, de modo que conteúdo e forma sejam indissociáveis. É quando o autor/artista pensa ou participa de todos os estágios da obra, no sentido da escolha de materiais, formato, paginação, texto, encadernação, impressão. E toda esta materialidade possibilita o significado.

Neste sentido, penso que muitos dos livros de Katsumi Komagata são livros de artista, mesmo que muitas vezes sejam nomeados como livros para criança.

Katsumi Komagata é um artista e designer japonês, nascido em 1953, que começou a criar livros após o nascimento de sua filha (1990). Para se comunicar com ela, ainda bebé, o designer criou o conjunto de livros Little Eyes, uma caixa com 10 volumes divididos em 4 séries: Look, Feel, Play / Play and Learn/ Unfold / Move and Look.




Little Eyes são livros em cartões com formatos simples, mas muito bem elaborados, onde cores, formas e vazados exprimem diferentes emoções e convidam o leitor (criança e adulto) para a sensibilidade, o táctil, a manipulação do objeto a fim de descobrir o potencial infinito e o mistério das formas.


Este recurso de recortes nos livros de Komagata tem origem nas experiências com Bruno Munari (1907-1998):

“Descobri Munari em uma obra chamada “PREBOOKS”, em 1981, em Nova York, na livraria onde eu trabalhava como designer gráfico. No começo, eu não estava certo de que os livros eram para crianças, mas fui atraído por aquilo e achei tudo muito interessante. Minha filha também adorava os livros do Munari quando criança. Então para mim ele é um gênio, que soube mostrar a essência das coisas para todo mundo. Sem ser algo complicado de entender, ele nos ensinou a ser simples e inteligentes de um modo divertido.”
(Katsumi Komagata em entrevista para Thais Caramico - Revista Emília)


Mais do que livros para ver, os livros de ambos os artistas são para ser tocados, descobertos e usados. Entretanto, como aponta Stefano Salis em Komagata, the books of Katsumi Komagata: “Komagata é um mestre que se move em direção semelhante, mas também diferente de Munari: embora triângulos, recortes, figuras geométricas, o uso de buracos no texto caracterizem as obras de ambos os artistas, Komagata é menos bricalhão que Munari. É mais poético, imediato e concreto. Usa o livro para explorar significados tácteis e modos de saber que muitas vezes só nos chegam intuitivamente.”

Acho que vale dizer, que conheci a obra e o designer Katsumi Komagata ao mesmo tempo, no Illustratour 2014 – um encontro de imersão para ilustradores. E meu primeiro contacto com a sua obra foi através do livro Little Tree, um livro precioso e delicado, que fala sobre o tempo, o observar e esperançar.








É um livro para ser folheado vagarosamente, inspirado e expirado. Ao iniciar pela capa, que de papel texturizado nos convida ao toque ao mesmo tempo que nos solicita cuidado. Ela se apresenta numa cor muito clara e com pequenos pontos dourados que desenham a silhueta de uma árvore.

A cada dupla de páginas um papel diferente nos puxa pela mão e nos leva a passear por entre as estações do ano. Presenciamos o nascer, crescer e viver de uma única árvore que mora bem no centro do livro, nesta dobra tão poderosa do encontro. Num jogo de luz, sombra e poesia é possível sentir o calor do sol, o cheiro da primavera, o frio da neve, o som da pequena revoada dos pássaros... E a esperança do recomeço.

Imediatamente pensamos que este livro, um objeto tão delicado deveria ficar bem longe das mãos das crianças. Deveria ser guardado em uma caixa e ser visitado somente em momentos especiais. Entretanto, o próprio artista nos provoca:

“Faço livros sensíveis porque sempre quis mostrar para minha filha que as coisas são finitas. No geral, as pessoas tentam dar as coisas mais duráveis para as crianças brincarem. Óbvio que se for muito sensível, não vai ser útil. No entanto, é importante que as crianças aprendam que as coisas quebram e se destroem e que nós temos de aprender a cuidar delas com delicadeza. Se uma página é rasgada por uma criança, dá para consertar usando fita adesiva ou cola. E assim a criança vai aprender que precisa ter mais cuidado se não quiser estragar aquilo. Com pessoas também é assim. Somos sensíveis e nos machucamos, então precisamos saber nos comunicar e entender um ao outro.”
(Katsumi Komagata em entrevista para Thais Caramico - Revista Emília)



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