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quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

BENEFICIAL SHOCK! // uma revista de filmes e ilustração

 “ ‘Beneficial Shock!’ É uma revista anual para amantes de cinema e entusiastas de ilustração que defende o pensamento progressivo de criadores contemporâneos. A revista explora elementos e temas cruciais do cinema que, muitas vezes, são marginalizados ou esquecidos, fornecendo uma plataforma para a expressão individual e visa oferecer uma narrativa visual atemporal e corajosa para aqueles que desejam algo um pouco diferente.”



Esta revista de cinema foi fundada por Gabriel Solomons e Phil Wrigglesworth, ambos professores na Bristol School of Arts and Design. 

O primeiro lançamento foi em 2017. A forma de apresentação das publicações é bastante criativa tal como o conteúdo. A narrativa é bastante ousada e é completada por ilustrações. Coloridas e arrojadas. Em vez da clássica revista de cinema cheia de reviews e entrevista, esta revista, não convencional, pega em filmes e re-interpreta-os de forma humorística e relevante para falar sobre conteúdo relacionado com o cinema; conteúdo este, controverso, que eles tentam apagar o estigma à sua volta, usando sempre filmes como maneira de abordagem.


Por exemplo: a quinta edição tem o tema 'THE SECRETS AND LIES', foi lançada depois da quarentena de 2020. Nesta edição todas os artigos centram-se em mentiras e fraudes, teorias de conspiração e histórias de heróis; tudo isto através de uma interpretação diferente do habitual de filmes de Hollywood. 

Um dos artigos desta edição foi “Making Faces”, que explora o conceito de usar de máscaras - literais ou não -, como por exemplo para esconder a identidade ou em rituais religiosos em algumas culturas; pegando em filmes diversos onde explicam o porque da personagem usar máscara e o seu significado em relação ao enredo. Por exemplo, fala sobre o filme Clockwork Orange, e explica a máscara escolhida por Alex em torno da história e do seu desenvolvimento como personagem. Tal como este artigo a revista está repleta de teorias e historias sobre mentiras e ilusões. 




Esta revista foi uma maneira que os criadores e artistas encontraram para expor as suas críticas de maneira subtil, e até engraçada, através de filmes que muitos de nós adoramos.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

"Ain't burning all the bright" de Jason Reynolds (colaboração com Jason Griffin)

 Jason Reynolds é um escritor americano que, encontrando inspiração em música rap, começou a escrever poesia aos nove anos. O livro que venho aqui falar é uma das últimas obras que ele lançou, ainda este ano, em colaboração com um amigo de infância, Jason Griffin.

O livro consiste em três longas frases, escritas por Reynolds, complementadas pelas ilustrações de Griffin. 


A partir dessas três frases, o autor conta a história de uma família, o narrador sendo o rapaz adolescente, e fala sobre as experiências que sofreram e presenciaram nos últimos anos sendo uma família preta a viver nos Estados Unidos da America; mostrando o desespero, a ansiedades e a frustração de viver à espera de justiça, de progresso e como tudo continua igual mesmo depois de tantos acontecimentos. 


O livro está dividido em três partes - três frases - “three breaths”. A maneira como Reynolds conta a história, essencialmente num poema, completado pelas ilustrações de Griffin, torna a discussão - sobre a pandemia do COVID-19, o homicídio de George Floyd, a brutalidade policial contra pessoas de cor - bastante interessante, pois estas menções não são específicas fazendo com que a nossa interpretação seja única e, o que é dito, podendo ser aplicado em diferentes situações sociais. Por um lado, conseguimos perceber quais as situações referidas, através das descrições e das metáforas presentes na arte, mas, ao mesmo tempo, o seu significado é vasto. 





A arte de Griffin consegue captar o medo e o pânico, as dificuldades e a opressão e a agonia através da paleta de cor de cores predominantes - vermelho, azul e preto - representando os acontecimentos através das suas próprias interpretações - que depois, ao longo da história, essa paleta vai evoluindo e alargando, transmitindo esperança e até mesmo alegria. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Cain's Jawbone // o livro de mistério

Esta semana venho falar de um romance um pouco diferente do habitual. Cain’s Jawbone é um mistério escrito por Edward Powys Mathers em 1934, sob o pseudónimo de “Torquemada”. O autor era um tradutor inglês e poeta e era também conhecido por ciar palavras cruzadas difíceis para o jornal The Observer sob o mesmo pseudónimo, desde 1926 até morrer. Outros trabalhos dele para o jornal era fazer revisões de histórias de detetives. Em 1934, ele decide publicar essas revisões e inclui “Cain’s Jawbone” na mesma edição e, depois em 2019 foi publicado novamente.

O que destaca este livro de todos os outros mistério é que o próprio livro é um mistério, um puzzle. O gosto do autor por palavra cruzadas e histórias de detetives originaram este livro que até ao dia de hoje só foi resolvido por quatro pessoas. Depois da sua primeira publicação o livro foi esquecido até à pouco tempo, quando foi publicado em separado do resto das revisões da publicação original.


O livro é um compilação de seis casos de homicídio e o objetivo é conseguir encontrar o nome das seis vítimas e os seus respetivos assassinos. Constituído por 100 páginas, o leitor deve descobrir a ordem correta das mesmas. O problema é, como existem tantas referências, citações, trocadilhos e outros jogos de palavras, o leitor acaba por ficar completamente confuso e várias combinações parecem possíveis. Existem infinitas possibilidades mas apenas uma é a correta. O nome do livro, “Cain’s Jawbone” é uma referência ao primeiro homicídio documentado, Cain e Abel na bíblia, e refere a arma usada por Cain. Até esta referência pode ser relevante para a resolução do puzzle.


Quando o livro foi publicado pela primeira vez em 1934, ofereciam a quem descobrisse o mistério £25. Em 1935, um ano depois da publicação, dois senhores conseguiram resolver o puzzle, S. Sydney-Turner e W. S. Kennedy. Estes foram os primeiros registados a decifrar o livro. Infelizmente, a solução nunca foi publicada e ficou perdida.

Quando Patrick Wildgust recebe uma cópia da edição original fica cativado e tenta encontrar a solução. Em 2016 pede ajuda ao jornal The Observer, onde o autor trabalhou e por onde o primeiro concurso foi anunciado, e consegue encontrar um senhor, chamado John Price, que em 1988 tinha feito uma publicação no jornal a pedir ajuda e foi respondido por um residente de um lar de idosos que lhe deu a solução que este tinha resolvido quando o livro foi publicado pela primeira vez em 1935 mas não tinha ficado registado e ainda tinha um nota escrita por Edward Mathers a felicitá-lo. Assim, em 2019 Wildgust publica o livro novamente com uma nova competição no valor de £1000 (vale mais ou menos o mesmo que £15 em 1935). Em 2020, depois de quase seis meses em quarentena devido ao COVID-19, John Finnemore decifrou o puzzle. 

Atualmente, está a ocorrer um terceiro concurso, devido à grande procura pelo livro. Os leitores têm até ao final deste ano para apresentarem a solução e ganhar cerca de £300.


Este livro é ideal para quem gosta de puzzles e mistérios mas cuidado pois é extremamente difícil e frustrante. A escrita pode ser um pouco confusa, visto que foi escrito nos anos de 1930, o que ainda vai confundir mais o leitor com todas as referências e todos os jogos de palavras.



Deixo aqui o link para o livro e para mais informações sobre o concurso atual:

https://unbound.com/books/cains-jawbone-paperback/

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Piranesi, de Susanna Clarke

 Livro: Piranesi de Susanna Clarke

“O Mundo parece Completo e Uno, e eu, seu Filho, encaixo perfeitamente nele.”


Piranesi é o segundo romance publicado da autora Susanna Clarke em 2020, e ganhou o premio de Women’s Prize for Fiction em 2021.


Piranesi é a personagem principal desta história. Ele acredita que viveu na Casa desde o início do tempo e é tudo o que conhece: “a Casa é o Mundo”. A Casa é constituída de Corredores preenchidos de Estátuas de mármore, de vários tamanhos, e tem três andares. De tempo a tempo, marés ferozes surgem pelo andar de baixo e o último andar está atulhado de nuvens, por isso, Piranesi decidiu viver no segundo andar, com os pássaros. Sem os ossos dos Mortos e as visitas bi-semanais de “o Outro”, Piranesi vive completamente sozinho nesta vasta Casa, que para ele é o Mundo Inteiro. Neste segundo romance de Susanna Clarke, a autora escolheu representar o tempo atual mas, tal como no seu primeiro livro - Jonathan Strange and Mr. Norrell - ainda existe o mistério e um mundo fantástico. Sem dúvida alguma, a Casa é o lugar mais misterioso que a autora já retratou nos seu trabalhos publicados e, até no final da história, a Casa continua a ser um enigma.


O livro é escrito através de entradas de diários onde Piranesi relata os seus dias a vaguear os Corredores da Casa. Ele cataloga todas as Estátuas que encontra e os animais com que se cruza. Apesar de já ter percorrido “Novecentos-e-sessenta Corredor para Oeste” e outros tantos para Norte e Este, Piranesi sabe que ainda há muito que percorrer e que a Casa é infinita.

Logo no inicio da história percebemos que Piranesi é um homem do nosso mundo, mas que não tem memórias da sua vida fora da Casa nem do seu próprio nome e, por essa razão, podemos dizer que é uma personagem um pouco ingénua e inocente. Daí “o Outro” lhe ter dado um nome, Piranesi, mas ele próprio sabe que aquele não é o seu nome. “O Outro” é o nome que Piranesi dá ao seu único amigo vivo, com que ele se encontra duas vezes por semana para trocarem informações e descobertas sobre a Casa e o leitor descobre que Piranesi está a ajudar “o Outro” na descoberta de um conhecimento antigo e poderoso, que este acredita que se encontra na Casa, ao qual ele refere como “Labirinto”.


Ao longo da história, enquanto Piranesi aprende sobre si mesmo e o que lhe está a acontecer, conseguimos interligar outros livros que nos levam a perceber os acontecimentos antes de Piranesi se aperceber. Ligações com a história de C. S. Lewis - O Sobrinho do Mágico, de As Crónicas de Nárnia - que traz relevância às crenças morais das personagens e também “A História Secreta” de Donna Tartt - um grupo de estudantes que tem más intenções e, até um certo ponto, cruéis, mas que Piranesi escolhe ajudar porque acha que, no fundo, os valores espirituais (fé, verdade, caridade) deles continuam intactos.


“Eu argumentaria que a Estátua é superior ao que ela representa, senda a Estátua perfeita, eterna e não é sujeita à decadência”


Uma parte importante do desenvolver da história são as Estátuas. Eventualmente, percebemos que a Casa representa, simbolicamente, o mundo real, através das Estátuas místicas que ajudam Piranesi a entender o mundo lá fora sem nunca - pelo menos no que ele se lembra - o ter presenciado. Uma grande parte destes simbolismos são as representações de criaturas mitológicas gregas e romanas nas Estátuas. Estas representações são interpretadas por Piranesi de forma interativa ao longo da história de acordo com as necessidades que ele tem. Por exemplo, a representação do Fauno, ajuda-o a relaxar e traz-lhe tranquilidade - e também tem uma certa ligação com os contos das Crónicas de Nárnia novamente - e outros animais como o Gorila, ao qual ele recorre quando precisa de força emocional para alguma das suas tarefas.


Existem ainda mais indicações e menções de outras obras e artistas ao longo da história destinadas para o leitor fazer a sua própria interpretação, o que nos leva a pensar se não estamos a dar demasiado significado a todas estas referências para tentar arranjar solução e razão para os acontecimentos. Assim, a história varia entre um sonho estranho e devastador, mas ao mesmo tempo imersível e fascinante, com uma personagem principal que gradualmente começamos a entender e a apreciar no decorrer da história. Possivelmente o melhor livro de ficção fantástica que li este ano, até à data, cheio de imaginação e nostalgia. Mesmo sendo um livro pequeno, está cheio de revelações e emoções, com uma escrita bastante cativante acessível a qualquer leitor.


CLARKE, S. (2021). Piranesi. Casa das letras.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

 Modos de Ver, de John Berger

“As imagens foram ao princípio feitas para evocar as aparências de algo ausente. Aos poucos foi-se tornando evidente que uma imagem podia ultrapassar em duração aquilo que ela representava: mostrava, então, como uma coisa ou alguém havia antes se parecido - e assim, por implicação, como o assunto fora antes visto por outras pessoas.”


Este livro de John Berger - que é a transcrição de uma série documental do mesmo de 1972 - é uma compilação de ensaios textuais e ensaios ilustrados, desprovidos de texto, sobre a cultura visual da nossa sociedade ao longo do tempo. Aqui, o autor critica a maneira dominante como a arte é apreciada e a relação entre o que vemos e o significado que atribuímos.


No primeiro capítulo, Berger começa por apontar que ver e reconhecer vem antes das palavras, “o ato de ver estabelece o nosso lugar no mundo circundante”, mas essa maneira de ver é sempre influenciado por aquilo que sabemos e acreditamos. Dá o exemplo do simbolismo do fogo na atualidade e na Idade Média, quando acreditavam na existência física do Inferno. Diferencia o ato de olhar e de ver, explicando que nunca conseguimos olhar para uma coisa singular, mas quando escolhemos ver, estabelecemos uma relação entre nós próprios e o objeto.
Depois disto estabelecido, aborda o tema da imagem e da sua reprodução. Menciona que o artista observa antes de começar a pintar e, assim, a imagem produzida passa a ser a interpretação do mesmo. Quando consideramos essa imagem uma obra de arte, mistificamos a imagem. Quando mistificada, torna-se um privilégio que não é acessível a todos, privando grande parte da população de tirar as suas próprias conclusões. No entanto, a fotografia veio mudar isto. A reprodução da imagem mudou o significado que esta tem para nós, em relação ao significado que um quadro teria na altura renascentista. A singularidade de um quadro deixou de ser possível e, assim, deixou de ter o mesmo significado ou importância. Passamos a preocuparmos-nos com a raridade do objeto em vez do que com o que está representado. Aqui dá o exemplo do quadro Virgin On The Rocks de Leonardo Da Vinci. Uma das suas reproduções encontra-se no National Gallery e outra no Louvre. Ambas as instituições afirmam que têm o original e a sua maior preocupação é comprovarem-no, através de anos de pesquisa de historiadores. Tornando, o simbolismo do quadro insignificante e, o nosso primeiro pensamento quando o vemos, em questões de autenticidade.



(Esquerda: Louvre; direita: National Gallery)


Num outro capítulo, o foco principal é a nudez e a sua representação, principalmente em quadros a óleo europeus. Neste caso, fala sobre o que a sociedade espera de uma mulher em contraste com o que é esperado de um homem; e como essas diferenças de atitudes é representada, então, nos quadro a óleo. Começa este ensaio por explicar a diferença entre estar nu e a representação da nudez. Refere que a nudez é representada - dominantemente - pela mulher exposta como um objeto para o proveito do observador - maioritariamente, um homem. Aqui, o protagonista do quadro deixa de ser a mulher mas sim quem observa o mesmo. Ele mostra imagens de quadros onde comprava esta afirmação, onde a mulher que é representada está sempre virada e posicionada em favor do observador, sem qualquer interesse no que esta à sua volta. 


(Allegory of Time and Love - Bronzino, 1545)


Introduz a seguir, a presença da mulher para com os outro como para com ela mesma, - “A mulher deve, continuamente, estar atenta a ela mesma” -, e afirma que, na própria mulher, existe um lado de ‘inspetor’ e um lado de ‘observador’. Esta diferenciação, remete para o facto que a mulher tem de pensar sempre como as suas ações vão ser interpretadas antes de agir. 

“Se uma mulher atira um copo ao chão, este é um exemplo de como ela trata a sua própria emoção de raiva e, portanto, como ela deseja que seja tratada pelos outros. Se um homem faz o mesmo, esta ação é lida apenas com uma expressão da sua raiva.” 


Este dois exemplos são apenas uma amostra que John Berger fala neste pequeno livro. Uma leitura fascinante e provocativa que nos faz questionar realmente o que é a arte e a maneira com a visualizamos e interpretamos hoje em dia.



BERGER, J. (2008). Ways of Seeing. London: British Broadcasting Corporation. 

(Original work published 1972)