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quarta-feira, 25 de novembro de 2020

"Até as ruínas podemos amar neste lugar": Matilde Campilho

ATÉ AS RUÍNAS PODEMOS AMAR NESTE LUGAR


Lembro-me muito bem do tal cantor basco
que costumava celebrar a chuva no verão
Não ligava quase nada para as conspirações
que recorrentemente se faziam ouvir
debaixo das arcadas noturnas da cidade
naquela época do intermezzo lunar
Foi já depois do fascismo, um pouco antes
da democracia enfaixada em magnólias
O cantor, as arcadas, o perfume e os disparos
me ensinaram que se deve aproveitar a época
de transição para destrinçar o brilho
As revoluções sempre foram o lugar certo
para a descoberta do sossego:
talvez porque nenhuma casa é segura
talvez porque nenhum corpo é seguro
ou talvez porque depois de encarar uma arma
finalmente possa ser possível entender
as múltiplas possibilidades de uma arma.




    Este poema, da escritora portuguesa Matilde Campilho, ecoou nos quatro cantos da sala de apresentações da FLIP - Festa Literária Internacional de Paraty, Rio de Janeiro, Brasil. Recitando poemas de seu primeiro e surpreendente livro Jóquei, produzido a partir de suas vivências Rio-Lisboa, Matilde atravessou meu caminho como uma flecha que atravessa todas as coisas. No momento em que conheci seu modo de ver o mundo e as palavras, eu estava imersa nas obras de Manoel de Barros, escritor brasileiro, e pude construir pontes entre as duas escritas e desenhar inúmeros traços comuns. 
    Matilde, fala sobre o que é afirmar-se poeta em tempos atuais e resistentes e das pequenas revoluções que as palavras carregam nas entrelinhas. Jóquei, é quase que um álbum de verão. Dá forma à saudade e anuncia a alma do viajante, do andarilho, daquele que experimenta viver perto e longe, que cruza oceanos e curiosamente revela o olhar estrangeiro, descansa as ideias nos detalhes do samba tardio da Vila Isabel no Rio de Janeiro ao mesmo tempo trazendo o Fado das ruelas lisboetas que ressoam melancolia.
        Poemas-em-prosa é o que pode-se ler neste livro. De botecos a viagens, referências da história e da música luso-brasileira, os versos e frases dos poemas pintam enigmas cotidianos que se apresentam na forma de deslumbramentos da língua portuguesa ressaltados em raro modo. Uma espécie de livro-diário que descobre um mundo novo nas entrelinhas de uma língua antiga. Matilde despertou em mim, aspirante a escritora, o desejo de estar fora e dentro ao mesmo tempo. De conhecer as origens portuguesas e o fascínio da língua que (achamos) que dominamos. A língua que guarda toda a poesia do mundo. Que conhece sobre saudade. Matilde me fez querer descobrir a saudade, conviver com ela, acompanhá-la. Compreender tudo aquilo que Chico, Caetano e Gil cantam em suas canções. Sentir em pele e palavra o que a língua guarda de poesia.






   Quando ela cita "
As revoluções sempre foram o lugar certo para a descoberta do sossego", ou quando diz atravessar a cidade inteira só pra te ver dançar e isso diz muito sobre minha caixa toráxica conta um pouco sobre amor e revolução de modo a compará-los com sossego e dança e essas comparações dizem muito sobre a escrita de Matilde. Falar sobre a grandiosidade das pequenas coisas e a raridade contida no detalhe do dia ou da noite é de sua maestria. 
    Trago este livro-descoberta para que também possa atravessar outros corpos e leituras. Agora começo a ler seu mais recente livro de histórias FLECHA, com a curiosa metáfora de pensar neste objeto que atravessa tudo e todas as coisas: histórias antigas e contemporâneas. Uma maneira arredia e incomparável de contar histórias, referências de todos os lados e um calderão de fatos corriqueiros e importantes reunidos resumidos em parágrafos curtos e intensos. Tem sido uma leitura incrível também. Recomendo Matilde para acompanhar-te em caminhada, caso deseje descobrir um novo mundo debaixo de seu próprio tapete.



    

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

"e então brincamos de ciclope": Julio Cortázar

Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.


      É mesmo de se encher a boca d'água e de quase saborear com gosto pela própria língua, quando lemos essa prosa poética de Julio Cortázar. Escritor argentino, nascido no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, conhecido por seus contos fantásticos, investiga as facetas enigmáticas e perturbadoras do cotidiano. Ao adentar a realidade e suas profundidades, manifesta em seu estilo de escrita peculiar, a subversão dos gêneros literários, a buscar  autenticidade genuína em seus livros, como podemos observar em Amarelinha, por exemplo, um romance publicado em 1963, em que propõe um modo de leitura bem interessante e fora dos padrões. 
     Na década de 60, assume sua grande influência de Jorge Luis Borges em sua escrita, é considerado uma das figuras mais importantes da literatura hispanoamericana, sendo conhecido internacionalmente. Diferentemente de Borges, o escritor insere em sua sensibilidade artística a preocupação social: traz as classes marginalizadas e aproxima-se intensamente dos movimentos políticos de esquerda, tornando-se ativista político.
   Adentrando ainda mais um pouco no poema acima trazido para esta publicação, relacionando-o com sua produção literária, podemos afirmar que a literatura de Cortázar questiona a própria vida em seu sentido mais profundo. Ao trazer abordagens inovadoras de caráter experimental em sua linguagem e em suas narrativas, mergulha no universo do fantástico, sem abandonar a realidade: o aparecimento daquilo que é fantástico no cotidiano, exaltando a complexidade daquilo que é simples e corriqueiro (assim como Borges também propõe).
    Assim aqui o faz: descreve o beijo por todas as beiras e contornos possíveis. Caminha por todos os cantos da linguagem e das sensações ao descrever pelo toque, cheiro, olhar e água, uma das sensações mais indescritíveis e mais corriqueira: "e então brincamos de ciclope..." e com representações imagéticas e sem nem sequer citar a palavra beijo de prontidão, ao cruzar este texto, entendemos sobre o arrepio e o formigamento que o ato proporciona. Eis a potência da composição textual, do poder descritivo e da capacidade intrínseca da escrita ao pulsar em texto, uma sensação. Um desejo mútuo, dois corpos. A escrita que quase pode ser tocada por dedos, que pode ser sentida ou beijada. 
    Da fragrância obscura, dos acordes em fôlego, da saliva a vazar em cada letra, os corpos aqui dançam como a lua na água, como se já se beijavam antes mesmo de encostarem-se, como se o beijo fosse algo visceral, que vem das entranhas, acontecendo antes mesmo do encontro entre bocas. O beijo acontece em palavra, ao leitor, que em seu momento de leitura, beija sem nem mesmo sair do lugar ou sequer encostar outro corpo. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

"Tenho quebrado copos: é o que tenho feito": uma análise ao poema

tenho quebrado copos


Tenho quebrado copos
é o que tenho feito
raramente me machuco embora uma vez sim
uma vez quebrei um copo com as mãos
era frágil demais foi o que pensei
era feito para quebrar-se foi o que pensei
e não: eu fui feita para quebrar
em geral eles apenas se espatifam
na pia entre a louça branca e os talheres
(esses não quebram nunca) ou no chão
espalhando-se então com um baque luminoso
tenho recolhido cacos
tenho observado brevemente seu formato
pensando que acontecer é irreversível
pensando em como é fácil destroçar
tenho embrulhado os cacos com jornal
para que ninguém se machuque
como minha mãe me ensinou
como se fosse mesmo possível
evitar os cortes
(mas que não seja eu a ferir)
tenho andado a tentar
não me ferir e não ferir os outros
enquanto esgoto o estoque de copos
mas não tenho quebrado minhas próprias mãos
golpeando os azulejos
não tenho passado a noite
deitada no chão de mármore
estudando as trocas de calor
não tenho mastigado o vidro
procurando separar na boca
o sabor do sangue o sabor do sabão
nem tenho feito uma oração
pelo destino variado
do que antes era um
e por minha força morre múltiplo
tenho quebrado copos
para isso parece deram-me mãos
tenho depois encontrado
cacos que não recolhi
e que identifico por um brilho súbito
no chão da cozinha de manhã
tenho andado com cuidado
com os olhos no chão
à procura de algo que brilhe
e tenho quebrado copos
é o que tenho feito


Ana Martins Marques


     Esta publicação diz mais sobre delírios poéticos e devaneios de linguagem do que qualquer outra coisa. Sobre a metalinguagem, a língua falando de si e o texto falando dele mesmo. A palavra observadora de tudo e os poetas atentos, que percebem a vida acontecendo em composição lírica nas entrelinhas. A partir da leitura do poema Tenho quebrado copos do livro O livro das semelhanças, da poeta mineira Ana Martins Marques, é possível traçar aquilo que é de comum ao poeta: sua tentativa de despir a palavra ao máximo e frisar o que sobra dela: corpo e texto. São alguns poetas que trazem a própria poesia como tema principal de suas produções.

    Neste poema em questão, o fato de Ana Martins quebrar copos, caminhar sobre os cacos, recolhê-los e observá-los, fala de uma relação direta corpo-objeto quase que indissociável. Há a noção de que o exterior foi absorvido pelo interior e que os cacos compõe corpo e pele precisamente. Pedaço por pedaço. Trata-se da objetificação do corpo por meio da palavra e a internalização do objeto caracterizando-o como sujeito. Como no momento em que diz "eu fui feita pra quebrar" podemos pensar, qual é mais quebrável ? A escritora se coloca em comparação direta com aquilo que é quebrável, frágil, que se despedaça e compõe um corpo.

    O corpo, na poética de Ana, "é um país desconhecido / que não sei como visitar", por isso propõe-se uma viagem em direção à arte de compor palavras, a fim de desvendar o incógnito - a frustração do poema e suas falas de amor. A tentativa de operar o corpo através da própria palavra:

                                        "(...) É uma eterna construção de jogos contrários. Segundo Octavio Paz em O arco e a lira, “duas forças antagônicas habitam o poema: uma de elevação ou desenraizamento, que arranca a palavra da linguagem; outra de gravidade, que a faz voltar” (PAZ, 1982, p. 47). A linguagem na poesia de Ana é como uma forma ardente do desejo que proclama sua decepcionante impossibilidade de concretização." (Sue Helen da Silva Vieira, CORPO: UM PAÍS DESCONHECIDO).

    O corpo é colocado como desconhecido e na própria construção textual utiliza de jogos de palavras, em um processo de - fazer e desfazer - contínuo, apresentando ambiguidades gramaticais, manipulações de substantivos e verbos trazendo recorrente, a reflexão sobre os conflitos da cena amorosa. O poema, é portanto, o resultado da frustração - uma busca frustrada por completude que não se realiza. "Esse incógnito é o estopim da palavra que anseia ser compreendida, mas que permanece no intervalo à espera de significação." (Sue Helen da Silva Vieira, CORPO: UM PAÍS DESCONHECIDO).

    

tenho recolhido cacos
tenho observado brevemente seu formato
pensando que acontecer é irreversível
pensando em como é fácil destroçar


        Quando a poeta traz, neste trecho acima, que acontecer é irreversível e afirma sobre a facilidade em destroçar, provoca o leitor a pensar sobre a causalidade da vida intrínseca no fazer poético - e neste caso, ao pegar emprestado a materialidade do objeto copo para falar de si, traz a dicotomia pulsante entre aquilo que é frágil e que em sua fragilidade carrega sua maior potência. Assumir-se frágil e destroçada, é existir em potência. 


    A poesia e seus mecanismos existe neste papel: aponta a palavra e o corpo em eterna relação de fragilidade e potência.


        - É preciso destroçar-se para então em ruínas, escrever.



quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Territórios cartografados: o corpo quer deixar rastros


                  

                                  "o cartógrafo é um verdadeiro antropófago: vive de expropriar, se apropriar, devorar e desovar, transvalorado. (...) e o que ele quer é mergulhar na geografia dos afetos e, ao mesmo tempo, inventar pontes para fazer sua travessia: pontes de linguagem ."(ROLNIK, Suely. Cartografia Sentimental, transformações contemporâneas do desejo. Editora Estação Liberdade, São Paulo, 1989).


          Ao começarmos pela fala da psicanalista, curadora e crítica de arte Suely Rolnik, e a partir do conceito por ela trazido de cartografia sentimental, trago a discussão da presença da cartografia na arte contemporânea, do uso dos mapas como manifestação artística, como instrumento do desejo/desenho e do próprio caminhar como gesto ativo. Deixar as pegadas em rastros - a figura do artista-cartógrafo - aquele capaz de inventar percursos imaginados e construir realidades a partir dos afetos e de memórias por ele atravessados.  Suely pontua como sendo tarefa do cartógrafo dar língua para afetos que pedem passagem, afirmando a potência criadora de âmbito do sensível que carrega as mãos e os pés daquele que traça os espaços, mede distâncias e desenha enquanto caminha. 

      Enquanto carregando nossos diários-de-bolso, ou até mesmo nossas memórias em bagagem, estamos submersos nas intensidades rotineiras que acompanham o caminhar andarilho - é importante estar atento às linguagens encontradas, aos lugares com o qual nos relacionamos, para que a composição das cartografias se faça necessária no processo de percepção do mundo que vivemos. As realidades imaginadas que se constroem em simultâneo, são dobras possíveis produzidas a partir das travessias, das passagens, dos não-lugares que os pés perpassam - "De fato, para ler os mapas hoje em dia, nós os desdobramos, e este hábito nos oferece, ao mesmo tempo, uma visão dessa “realidade dobrada” que é o espaço representado." (TIBERGHIEN, Gilles. Imaginário cartográfico na arte contemporânea: sonhar os mapas nos dias de hoje. Trad. Inês de Araujo. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 57, p. 233-252, 2013).

        Artistas inúmeros utilizaram como instrumento de registro, mapas mentais, (des)organizações de pensamento, invenções de caminhos, desenho e desejo - em papéis dobráveis (mapas) - para sinalizar, traçar e registrar trajetos e percursos percorridos em devaneio e trouxeram isso para a cena artística como uma prática muito interessante e método de trabalho. Podemos reconhecer essas práticas em alguns trabalhos como de Robert Smithson, em MonoLake; Anna Bella Geiger - Mapa Mundi I e II; Bruce Chatwin com The Songlines (percepções sonoras de caminhos atravessados); entre muitos outros. 


                                                                                           Ana Bella Geiger - Mapa Mundi dos Ventos I

        Por mais familiares que são os diagramas e mapas, a memória porém que deles apanhamos distorce a realidade por eles apresentada - nosso imaginário topográfico é atualizado a todo momento e transborda para outras instâncias visíveis e não-visíveis da nossa relação geográfica física e sentimental com os lugares que ultrapassamos; com os territórios que penetramos e das barreiras que cruzamos. É interessante pensar no processo de registro do andarilho-artista, seja por fotografias, desenhos, gestos, sons ou qualquer captação em que consiga transpor o momento atravessado. O fazer artístico se manifestando no processo e acontecendo enquanto processo. As paisagens mentais que se formam se sobrepõem às reais e desenham um mapa errante, inventado e também real.


                                                (...) Eles são exatamente o que Deleuze e Guattari entendem por “performance” quando escrevem que “o mapa é uma questão de ‘performance’. Ora, esse mapa também é feito para se perder ou para perder nossas relações habituais com o mundo, fazendo aparecer territórios intersticiais, nomeados territórios atuais, em azul como o mar, enquanto a cidade repertoriada e densa está em amarelo e parece um arquipélago. Mas essas zonas são fluidas e móveis; e o mapa, aquático. Obtém-se assim “um conjunto de ilhas”, contínuo que penetra nos espaços plenos e se ramifica em diversas escalas até os menores interstícios abandonados entre as porções de cidade construída. (TIBERGHIEN, Gilles. Imaginário cartográfico na arte contemporânea: sonhar os mapas nos dias de hoje. Trad. Inês de Araujo. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 57, p. 233-252, 2013).


         É sobre a fluidez e organicidade do construir uma realidade que se faz por meio da teia da vida - é preciso fluir como água e também entender sobre medidas e precisões. É tão precisa e matemática a imprecisão do rastro artístico. É uma linha tênue entre o errar e o seguir regras. Ali mesmo onde se fazem as tramas mais bonitas da linguagem, suas pontes existentes e seu trajeto arredio. É por meio de passos confundidos e por devaneios constantes, que os mapas revelam sua força como medidor de intensidades, guardador de experiências efêmeras e captador de coisas quase que inapreensíveis.

         

       "O artista-cartógrafo projeta assim um novo atlas que mantém, como se levada por correntes aéreas, a única massa de terra que ele elegeu e que o representa daqui pra frente. O imaginário que esse mapa testemunha não nos afasta do real, mas nos faz penetrar na visão de um artista, em sua maneira de ver e sentir, no movimento dinâmico de seus afetos, que nos restitui a imagem como a franja de um sonho. Assim como nos mapas que consultamos deixando errar nosso espírito (e que os artistas sabem guiar até regiões insuspeitas), entre duas folhas de um atlas em que não há, à primeira vista, nada a ser visto." (TIBERGHIEN, Gilles. Imaginário cartográfico na arte contemporanea: sonhar os mapas nos dias de hoje. Trad. Inês de Araujo. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 57, p. 233-252, 2013).


              


           Há um corpo-travessia portanto, que se move e que deseja deixar rastros enquanto caminha.








quarta-feira, 28 de outubro de 2020

A poética de Manoel de Barros e a invenção das palavras

Uma didática da invenção

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c)Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre dois lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro
Etc
Etc
etc
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.
II
Desinventar objetos. O pente, por exemplo
Dar ao pente funções de não pentear
Até que ele fique à disposição de ser uma begônia
Ou uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.
VI
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a voz
dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos –
O verbo tem que pegar delírios.
IX
Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.
X
Não tem altura o silêncio das pedras.
Os trechos acima apresentam partes do poema "uma didática da invenção” retirado do Livro das Ignorãças do poeta brasileiro Manoel de Barros, nascido no Mato Grosso do Sul, Brasil, em 1916. Formado em Direito no Rio de Janeiro, posteriormente, em meados de 1960, muda-se para sua fazenda no Pantanal onde dedica-se a criação de gado. Como poeta, consagra-se ao longo das décadas 1980 e 1990 afirmando para o mundo sua poética singular e de estilo único, expandindo a linguagem para outros campos possíveis e imagináveis.
    A partir dos trechos deste poema em questão e de sua escrita própria e única, busco, atravessando os conceitos de Manoel de Barros, reflexões do campo da palavra; da linguagem e sua ressignificação; e da escrita como gesto de manifestação como mecanismo para percebemos o mundo em que vivemos. Mais ainda, o modo como o poeta "desutitliza" e "decompõe" os processos convencionais de construção poética, sobretudo, uma re-invenção do funcionamento da linguagem e de seu papel enquanto representação do real.  (2009, pg 125. Espaço e linguagem na poesia de Manoel de Barros: uma constante (des)aprendizagem. DIAS, Maria Heloísa Martins).
    Ao propor outro modo de observação das coisas e do entorno ao tentar desaprender, ressignificar e desnomear tudo aquilo que já existe, desafia o próprio processo de aprendizagem das coisas como são e como foram definidas desde o princípio. Ao sugerir dar ao pente as "funções de não pentear", propor em como "pegar na voz de um peixe" ou mesmo "usar palavras que não tenham idioma", instiga trazer com seu operar poético, a potência que existe por entre as frestas do dizer, do falar e do escrever. O interesse está no processo de “desnomear” as coisas para amplificar nossa capacidade de pensar/estar no mundo, desafiar aquilo que já tem nome; propor a experiência que vai contra a lógica e falar de um lugar onde a concepção do corpo-objeto-mundo, possa expandir. Apresentar as infinitas camadas que existem para além de seu nome. O que o define ? Cor. Forma. Função. O que representa. O que causa. Do que é feito. A palavra como lugar expandido de possibilidades e de constante desconstrução.
    Ao inventar um vocabulário inabitual e extraordinário, Manoel se apropria de palavras e as "deslimita" para além de suas definições inventadas a priori. Trata-se de desacomodar aquilo já conhecido, já dito ou falado. A poesia acontece ao reconstruir o modos-operandi dos signos linguísticos enquanto atravessa o mundo concreto e sua casualidade, o cotidiano e o banal, evidenciando o simples em uma escrita da mais sofisticada.


                                            "[(...) Outro desafio que sua poesia desperta é o que concerne à metalinguagem, procedimento constantemente posto em cena pelo poeta. A fusão visceral entre o real e a linguagem, palavras e coisas, colocadas numa sintaxe especial, impulsiona a poesia à auto-reflexividade, ou seja, a um espaço em que o dizer re-afirma sua própria feitura, explicitando-se como processo. Tornar a palavra uma coisa manipulável como um brinquedo e transformar as coisas existentes numa linguagem desconcertante se interpenetram no espaço da poesia. Assim, tanto em relação à língua enquanto instrumento do poético quanto em relação à realidade social retratada, o intuito é o mesmo: virar do avesso as convenções, criar o despropósito, que, para o poeta, “é mais saudável do que o solene”. Diz o poeta: “(Para limpar das palavras alguma solenidade – uso bosta.)” (2000, p.43)]." (2009, pg. 129. Espaço e linguagem na poesia de Manoel de Barros: uma constante (des)aprendizagem. DIAS, Maria Heloísa Martins).

    Para concluir com a citação acima, da tese "Espaço e linguagem na poesia de Manoel de Barros: uma constante (des)aprendizagem", ao falar da poética de Manoel, a escritora costura, essencialmente, os conceitos trazidos para a discussão desta publicação. O virar-do-avesso as convenções literárias é o que move o fazer do artista que, em sua poética, traduz o cotidiano e a própria vida em palavras inventadas e desaprende constantemente o próprio fazer, o próprio gesto criador. O ato poético acontece em cada suspiro perceptível que se dá na construção da palavra-língua-desejo-desenho. A escrita falando de si e a linguagem se desfazendo em poesia palavriada. O ato da escrita em sua maior potência em constante tecitura e desconstrução.