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domingo, 28 de novembro de 2021

Entediante

 

Para outro projecto estou a ler sobre o tédio. O que é o tédio, as várias teorias sobre o tédio. O tédio como falta de actividades e distrações, o tédio como passar do tempo. O aborrecimento, o fastio, o enfado. O dia-a-dia, em que “nada” acontece. 


Tédio, aborrecimento, fastio, enfado, falta de entusiasmo.

vs

Distração, diversão, entretenimento, motivação, prazer.



Quando eu era pequena dizia muitas vezes que “não tinha nada para fazer”. “Mãe, o que é que eu faço? Não tenho nada para fazer.” Lembro-me bem porque a minha mãe ficava exasperada ao propor-me coisas que eu recusava. “Faz um desenho” “Lê um livro” “brinca com as bonecas” e eu respondia “não me apetece”. Tudo me parecia chato e estava aborrecida com tudo. Mas era nestes momentos que eu me forçava a fazer alguma coisa em que a minha criatividade vinha ao de cima. Pegava em objectos e juntava-os, criando novos objectos, escrevia histórias ou lia, ou simplesmente ficava a pensar enquanto olhava pela janela. Lembro-me com nostalgia dos momentos em que olhava pela janela para os prédios em frente, muitas vezes com atenção às pessoas que entravam e saíam de casa. 

Estes momentos já não existem na minha vida nem na da maior parte das pessoas. Os momentos de tédio foram substituídos por momentos nas redes sociais, momentos em busca de informação no Google, ou simplesmente a ver vídeos parvos. 


No séc. XX, no meio filosófico, o tédio surge associado com um tipo de possibilidade. 

Heidegger defende que devemos compreender o tédio existencialmente — um tipo muito particular de tédio, a que ele chamava “tédio profundo” — como um sentimento de possibilidade nele mesmo. Para Heidegger há três tipos de tédio, em que o primeiro está ligado à passagem do tempo: estar um período de tempo sem “nada para fazer”, um tempo que se arrasta em que a pessoa se sente entediada; um segundo tipo em que a pessoa está ocupada com uma actividade ou acontecimento e só mais tarde se apercebe que afinal passou esse tempo aborrecida, e o terceiro, o tal tédio profundo em que tudo é entediante. A passagem do tempo e a própria existência são a base do tédio.


Kierkegaard considera muito curioso que o tédio, que por si só tem uma natureza tão calma e serena, possa ter tanta capacidade de iniciar movimento. O efeito que o tédio provoca é absolutamente mágico.


Walter Benjamin chama ao tédio o pássaro de sonho que choca o ovo da experiência e Marx considera-o o desejo por conteúdo.


Duchamp diz Os happenings introduziram um novo elemento à arte, que ninguém lá tinha posto: o tédio. Fazer algo de maneira a entediar alguém é algo que eu nunca tinha imaginado! O que é uma pena, pois é uma bela ideia. 


Surge então o tédio como arte, a provocação de aborrecimento no espectador/leitor. Dick Higgins, do movimento Fluxus chama a isto o “super-tédio” (super-boredom no original).


Uma das primeiras obras que deliberadamente procurou provocar tédio foi Vexations de Erik Satie, escrita ainda no final do séc. XIX. Foi recuperada nos anos 40 e em 1964, John Cage realizou a primeira performance pública, respeitando as instruções do compositor de tocar a peça 840 vezes, repetidamente. Esta primeira performance durou 18 horas. A própria melodia é aborrecida – ou antes, criou em mim um sentimento estranho de ansiedade: ouvi durante 15 minutos e parei. 


Outro exemplo é I Will Not Make Any More Boring Art de John Baldessari, para uma exposição na qual ele não conseguiu estar presente e por isso pediu que escrevessem na parede esta frase, recriando o castigo (tornado mais popular talvez pelo Bart Simpson) na parede. Para sua surpresa cobriram todas as paredes com a frase, que é em si mesma a aceitação de que a arte pode ser aborrecida. 





Anywhere or not at all, Peter Osborne, Verso, 2013, London







domingo, 7 de novembro de 2021

Divagações

Existe pelo menos um prémio de livros de artista.

Chama-se Prix Bob Calle. No website podemos ver os vários livros que estiveram a concurso nos 3 anos da sua realização (2017, 2019, 2021) e assim ter uma ideia do que é considerado o "melhor" no meio dos livros e artista. Obviamente isto é tudo altamente subjectivo, mas fica a nota. Aconselho-vos a espreitarem todos os livros do concurso. Há muita variedade e ideias engraçadas como neste que precisa de uma lanterna para se ver certas imagens: 


Ou este que reúne fotos de bibliotecas pessoais:



Ou este, que faz lembrar os estudos de cor e repetição de Sol Lewitt (de que falei no último post):


O nome de Bob (Robert) Calle será familiar para alguns, como o é para mim, pois é pai de Sophie Calle. Sophie Calle, nascida em 1953, é uma artista conceptual que admiro desde há muito tempo, quando ouvi falar pela primeira vez do seu projecto "l'hotel". Para o projecto, Sophie encontrou emprego como camareira num hotel, em substituição de alguém durante 3 semanas. Nessas 3 semanas, examinou os pertences pessoais das pessoas que ocupavam os 12 quartos que lhe foram atribuídos. A partir dos pertences, imaginou as vidas e as rotinas dos clientes. Este projecto alia a realidade à imaginação, criando histórias a partir de ambientes. A componente voyeurista é também muito importante no trabalho de Sophie, sendo que chegou a pedir à mãe para contratar um detective privado para a seguir e assim ter um registo da sua vida através de olhos desconhecidos — se isto não é algo de deliciosamente fantástico?

Bob Calle esteve responsável pelos arquivos de Christian Boltanski, também ele artista conceptual. Tal como Sophie Calle tenta "escavar a superfície das coisas, procurar o lugar-comum, desenterrar evidências", embora os temas sejam diferentes — Boltanski foca-se mais na história e na memória colectiva, e Sophie nas "neuroses do dia a dia".


Uma nota interessante é que Robert Calle, para além de coleccionador e apaixonado por arte e livros (e temos de lhe agradecer pela inspiração e referências passadas à filha), era também médico e foi director de um Hospital durante alguns anos. Tenho vindo a reparar numa relação muito próxima entre a medicina e a arte (sendo que englobo todas as artes). Médicos que são pintores, escritores, ou artistas que se interessam muito por medicina. Basta pensar em Leonardo DaVinci, Frida Kahlo (queria estudar medicina inicialmente), John Keats (chegou a ser assistente em cirurgias), Sir Arthur Conan Doyle, Miuccia Prada, Art Garfunkel, Anton Chekov ou Gertrude Stein. Enfim, ainda não aprofundei muito o assunto mas tenho a certeza que tem alguma explicação neurológica.


terça-feira, 19 de outubro de 2021

Sol Lewitt, 1928-2007


Sol Lewitt foi um dos percursores da arte conceptual nos EUA. Mais conhecido pelos seus Wall Drawings e instalações, na sua obra explora as noções de serialidade, permutação e ordenação, utilizando o quadrado («a forma básica de onde tudo se desenvolve») e a grelha como instrumentos base.

Mas Lewitt foi também um prolífero autor de livros de artista, tendo produzido mais de 75 entre 1960 e 2007, o ano da sua morte.

Devido ao facto de os seus livros não serem levados a sério como objectos artísticos, Lewitt fundou em conjunto com Lucy Lippard e outros, em 1976, a Printed Matter, uma organização que distribui e publica livros de artista. Foi um elemento crucial na legitimação do livro como meio artístico, defendendo o facto de este dar aos artistas exposição a uma maior audiência, com um custo relativamente baixo.


Four Basic Colours and their Combinations, 1971




Five Cubes on Twenty-five Squares, 1978



Geometric Figures & Color, 1979








Red, blue and yellow lines from sides, corners and the center of the page to points on a grid, 1975



Squares with sides and corners torn off, 1974