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segunda-feira, 11 de novembro de 2024

O Design Atemporal do Golden Record : Tipografia do Infinito

 O Golden Record – ou Disco de Ouro da Voyager – é um disco de áudio e dados enviado ao espaço nas sondas Voyager 1 e Voyager 2, lançadas pela NASA em 1977. Idealizado por uma equipa lidereada pelo astrónomo Carl Sagan, o objetivo do Golden Record é servir como uma espécie de “mensagem engarrafada” interestelar: uma introdução da Terra e da huminada a possíveis formas de vida extraterrestre que encontrem o mesmo. Apesar de terem sido criados para uma missão científica, os discos representam uma initicativa mais filosófica e cultural.

O Golden Record é um disco de cobre banhado a ouro, com uma capa de alumínio e um diagrama explicando como reproduzi-lo. Este contém 90 minutos de áudio e cerca de 120 imagens codificadas, projetadas para apresentar aspetos fundamentais da vida e da cultura humana. 


No seu conteúdo inclui saudações em 55 idiomas, uma seleção de sons naturais e urbanos, como trovões, vulcões, ondas do mar, canto de passáros e risos, para representar o ambiente sonoro da Terra. A música escolhida representa culturas e eras diferentes, entre as obras estão peças clássicas como a “Quinta Sinfonia” de Beethoven, músicas étnicas de diversas regiões do mundo, e também canções contemporâneas para a época, como “Johnny B. Goode” de Chuck Berry. Também incluiu diagramas anantômicos do corpo humano, sequência de DNA, mapas, estruturas químicas e informações matemáticas para oferecer uma visão científica e biológica da Terra. Fotografias de pessoas de diferentes partes do mundo e em atividades diversas. Além de imagens de planetas do sistema solar, representações de localização espacial e de fenômenos astronômicos.

A capa do Golden Record inclui instruções codificadas que explicam como decifrar as imagens e áudios. Usa diagramas que indicam a velocidade de rotação do disco e infromações técnicas para a decodificação, com base em referências universais, como a estrutura do hidrogênio.  



 



A estrutura do Golden Record é um exemplo notável de comunicação universal, onde o design e a tipografia assumem um papel crucial na transmissão de informações através de barreiras culturais, linguísticas e temporais. Na sua concepção, os criadores precisaram pensar além das convenções tipográficas conhecidas e se voltar a símbolos e padrões visuais com significado científico universal, como as representações de hidrogênio, sequências binárias e diagramação atemporal. O design minimalista e direto das instruções na capa do disco reflete uma estética tipográfica onde cada linha e símbolo tem função crítica, eliminando excessos e construindo uma "tipografia do desconhecido", na qual elementos gráficos se tornam a ponte entre a Terra e uma possível inteligência alienígena. Esta abordagem destaca o poder do design e da tipografia em transcender palavras, comunicando ideias complexas por meio de uma linguagem visual cuidadosamente elaborada e intrinsecamente conectada aos fundamentos da ciência e da percepção humana.

A essência do design do Golden Record também dialoga com o conceito tipográfico de clareza universal, buscando um equilíbrio entre simplicidade e profundidade para garantir compreensão além das fronteiras humanas. Cada elemento visual é meticulosamente planeado para facilitar a leitura e interpretação por uma inteligência que, possivelmente, não compartilhe nenhuma referência cultural ou sensorial com a nossa. A disposição dos símbolos, as linhas e os esquemas no Golden Record lembram os princípios do design funcionalista: uma estética limpa, sem ornamentos, onde a forma segue a função. É um exemplo potente de como o design e a tipografia podem construir pontes com o desconhecido.


É considerado um marco da exploração espacial e um símbolo da curiosidade e esperança da humanidade. Em 2012, a Voyager 1 tornou-se o primeiro objeto humano a entrar no espaço interestelar, levando o disco ainda mais longe de nós. A ideia do Golden Record inspirou outras iniciativas de mensagens interestelares e é constantemente referenciada na cultura popular, destacando a tentativa de comunicar com o universo em um nível universal.

As sondas Voyager estão atualmente na borda do sistema solar, no espaço interestelar, e continuarão a sua jornada por milhões de anos. Dado o tamanho do universo e a trajetória desconhecida de qualquer civilização alienígena, as chances de o Golden Record ser encontrado são extremamente pequenas.

Hoje, os Golden Records são reconhecidos como artefatos únicos, representando a ciência, arte e diversidade cultural da Terra, e continuam a inspirar curiosidade sobre a humanidade e o cosmos.




O Manuscrito de Voynich: Ficção Medieval ou Conhecimento Perdido?

O LIVRO INDECIFRÁVEL

O Manuscrito de Voynich é um dos textos mais misteoriosos do mundo. Do ínicio do século XV – entre 1404 e 1438 – é um livro manuscrito ilustrado, escrito em uma linguagem ou código desconhecido e é ilustrado com o que parecem ser plantas, diagramas astrológicos, figuras femininas e outros elementos enigmáticos. O nome do manuscrito vem de Wilfrid Voynich, um antiquário polonês que o descubriu em 1912, quando o comprou a um jesuíta antes que o mesmo o vende-se ao Vaticano. Desde então, ele tem sido objeto de especulação e estudo, mas até hoje ninguém conseguiu decifrá-lo ou determinar o seu propósito exato.


Os textos desta obra estão escritos num sistema de escrita não identificado, chamado de “voynichês”. Este apresenta um padrão de escrita coerente e estrutura, mas nenhuma língua conhecida corresponde ou se parece a esta. Vários linguistas e criptógrafos já tentaram decifrá-lo, sem sucesso. 

No campo das ilustrações, é possível identificar cerca de 113 plantas ilustradas espalhadas pelos livros, enquanto que algumas plantas têm elementos reconhecíveis, a maioria parece ser fictícia. O manuscrito possui diagramas celestiais, símbolos zodiacos e representações do que parece ser o ciclo lunar. Este conteúdo sugere um conhecimento de astronomia ou astrologia. Há também figuras de mulheres nuas, algumas envolvidas em tubos ou estruturas semelhantes a sistemas biológicos ou canais de àgua. Essas ilustrações têm sido interpretadas como representações simbólicas de processos biológicos ou médicos. É possível encontrar também desenhos de frascos e recipientes, além de uma seção com o que parece ser uma lista de plantas e substâncias, levando alguns estudiosos a acreditar que o manuscrito poderia ser um guia de ervas medicinais. 


Alguns pesquisadores acreditam que o manuscrito seja um herbário medieval com plantas medicinais e receitas terapêuticas. No entanto, as plantas não correspondem diretamente a espécies conhecidas. Devido à presença das figuras femininas e diagramas semelhantes a órgãos, outra teoria é que seja um livro sobre medicina medieval, talvez um tratado ginecológico ou de saúde feminina. Muitos estudiosos acreditam que o manuscrito esteja em código, criado para proteger conhecimento específico. Em alternativa, poderia ter sido escrito num idioma perdido ou inventado. Existe também a teoria de que o manuscrito seja uma invenção intencionalmente sem sentido, uma brincadeira ou mistificação, criada para confundir os leitores. Contudo, a complexidade do texto sugere que uma construção cuidadosa, pouco provável de ser apenas um enigma sem sentido. 

O Manuscrito Voynich já foi submetido a várias tentativas de decifração, usando técnicas desde criptografia clássica até análises de inteligência artificial. Em 2013, testes de carbono-14 foram realizados para determinar a idade do pergaminho, o que confirmou a sua origem no ínicio do século XV.

Criptógrafos da Primeira Grande Guerra, como William Friedman, e modernos estudiosos de inteligência artificial tentaram decifrar o texto, mas nenhum conseguiu. No entanto, através dessas análises, conclui-se que o “voynichês” possui padrões de repetição e frequência de palavras similares aos de linguagens naturais. Isso sugere uma gramática interna, mas até agora, sem correspondência com nenhum idioma conhecido.


Alguns linguistas notaram que certas palavras parecem ocorrer em àreas específicas do manuscrito, sugerindo temas relacionados com o conteúdo visual. Por exemplo, palavras específicas aparecem em seções botânicas e outras na seção artronômica, o que indica organização intencional.


O manuscrito possui marcas e inscrições adicionais que sugerem uma longa histórica de proprietários. Entre esses, Rudolf II da Germânia, que teria comprado o manuscrito no século XVII acreditanto que o seu conteúdo fosse valioso. Também Athanasius Kircher, um estudioso jesuíta e criptógrafo que também tentou decifrar o manuscrito. Chegando então Wilfrid Voynich, ao qual o manuscrito apropriou o seu nome.

O Manuscrito de Voynich é atualmente mantido na Biblioteca Beinecke de Manuscritos e Livros Raros da Universidade Yale, onde está catalogado como MS 408. O mesmo foi digitalizado e está disponível para ser consultado online.

O mistério do manuscrito permance até hoje, sem uma decifração definitiva, continuando a alimentar teorias e estudos. 

 




segunda-feira, 4 de novembro de 2024

A Arte de (Sobre)Compensar: O Ensaio de Emily Keegin Sobre Trump

  Emily Keegin é uma editora e fotógrafa renomada, reconhecida pelo seu trabalho influente na fotografia editorial e direção criativa. É bastante conhecida pelo seu papel como Diretora de Fotografia na The FADER, onde ajudou a moldar a estética visual distintiva da publicação. Keegin tem um olhar aguçado para a fotografia contemporânea e pouco convencional, capturando emoções e personalidades genuínas. Frequentemente, desafia os limites da narrativa visual editorial.

Assim, não surpreendeu aqueles que acompanham o seu trabalho quando publicou um ensaio nas suas Histórias do Instagram, dissecando, do ponto de vista de uma editora e fotógrafa, o impacto visual do bronzeado de Trump e o seu significado.

Ela começa por dizer que, inicialmente, acreditava que o bronzeado artificial de Trump resultava de uma combinação de câmera e iluminação. Pensou que fosse feito para a audiência televisiva e que faria mais sentido sob luz azul. No entanto, agora parece-lhe que há uma razão mais psicológica por trás disso.

Em 2017, todos já achavam que Trump tinha um tom de pele alaranjado incomum, mas ninguém previu o quanto ele iria acentuar essa cor. À medida que o seu mandato avançava, mais bronzer era aplicado: quanto mais stress, mais maquilhagem. Depois de sair do cargo, a maquilhagem só aparecia nas câmaras, mas era geralmente mais discreta em comparação.


Em junho de 2024, após Trump debater com Joe Biden, a sua maquilhagem exagerada desapareceu. Ao analisar as fotos, é fácil ver que não há marcas de maquilhagem em torno do rosto. Em julho, o rosto já estava no mesmo tom das mãos. Agora, no presente, numa foto de 30 de outubro de 2024, no Madison Square Garden, vemos Trump com um bronzeado laranja muito escuro, como nunca antes.



Desde 2020 — quando a primeira foto do rosto intensamente bronzeado dele viralizou online, por volta do fim do seu mandato — a sua "máscara laranja" foi normalizada. Keegin argumenta que talvez devesse ser um foco de análise novamente. Porque, segundo ela, a máscara mudou: desapareceu e voltou. Desta vez, mais escura e brilhante, é mais gritante. A editora acredita que esta é uma forma importante de entender Trump e a forma como ele vê a sua realidade.

Então, a máscara fica mais escura no final das suas campanhas de imprensa; o que isto significa? Keegin compara com uma tendência da internet que começou neste verão — a "eyebrow blindness". Ela afirma que as nossas escolhas de maquilhagem não são feitas "às cegas", vemos os nossos defeitos de forma muito clara, e por isso tendemos a exagerar para tentar escondê-los o melhor que podemos. Algo peculiar que ela menciona na sua análise é que o bronzeado exagerado de Trump não combina com a sua estética de "big suits" e de “old money”.

Assim, Keegin conclui, com base na sua pesquisa, que a presença de uma máscara exagerada implica um ego em desespero, tentando esconder e sobrecompensar falhas e fraquezas. A intensidade crescente do seu bronzer, especialmente notória em fotos recentes, implica uma auto-apresentação ansiosa que pode sinalizar dúvida ou vulnerabilidade na atual corrida eleitoral.


Referência: https://www.instagram.com/emily_elsie/