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quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Entrevista à artista Isabel Baraona

 

   Gosto da ideia de fazer uma ponte entre a prática tipográfica e a pintura ou o desenho, algo que tenho vindo a demonstrar ao longo das publicações postadas. Deste modo, irei finalizar o ciclo destas publicações, partilhando uma entrevista feita à artista Isabel Baraona.

   Isabel Baraona nasceu em Cascais, em 1974. Leciona na ESAD.CR desde 2003 no curso de Artes Plásticas. Licenciou-se em Pintura na La Cambre (Bélgica) e é doutorada em Artes Visuais e Intermedia pela Universidade Politécnica de Valência (Espanha). Em 2013, no âmbito de um pós-doutoramento desenvolveu uma investigação que deu origem ao projeto Tipo.pt, um arquivo online sobre livros de artista e edição de autor em Portugal.  

   A artista produz livros de artista, de múltiplos, desde 2008. O desenho, a pintura e a palavra são elementos essenciais nas suas obras.






FT   Numa das entrevistas que partilhou comigo, naquela troca de emails inicial, disse que desde muito nova teve acesso à biblioteca da casa dos seus pais, que pode usufruir dos mais variados livros, desde ficção, romance, aventura, entre outros. Achei curioso até referir que sentiu a necessidade de se isolar na biblioteca, nos livros, para ter algum sossego. Por isso, em que momento é que quis incluir a palavra, o texto no seu projeto e este episódio recorrente da biblioteca teve importância direta no seu projeto artístico?

 

IB   Sim, acho que teve de uma maneira muito intuitiva e inconsciente no início. De qualquer maneira, muito recentemente a minha mãe foi para um lar e eu tenho andado a fazer arrumações em casa deles e descobri, e não me lembrava de todo, que quando tinha oito anos, a minha mãe partiu a perna e foi operada, estando muito tempo acamada. E eu fiz uns jornais para ela, uns jornais de criança, com publicidades, com autocolantes, com uns papeis de chocolate da Regina, que na altura tinham muitos bonecos. De alguma maneira, de uma forma muito intuitiva, a coisa do passar tempo com o livro, e eu não tenho nada contra a televisão, mas de facto sempre me entretive mais com o livro, e a palavra sempre esteve lá. Quando estava no Ar.Co...(mostrando-me um caderno de 1996, quando a Isabel era estudante. Caderno composto por recortes, frases escritas). Admito ter uma obsessão com determinados autores, algumas das frases são do poeta Al Berto, outras são da minha autoria. Eu “roubo” mas gosto sempre de identificar os autores ou os livros de ondem veem as frases retiradas. Estes são os primeiros cadernos pintados que fiz, os que ficaram na gaveta. A palavra sempre esteve lá ou fragmentos de  frases, mas eu nunca me tinha atrevido assim a escrever textos ou a assumir a possibilidade do texto coexistir com o desenho de uma forma mais  complexa ou até de o texto só existir, quase. (Mostrando a Oração) Em 2010, quando acabei a tese de doutoramento, o escrever a tese foi um tormento, mas acabou por me desbloquear uma série de tiques e ideias pré-concebidas que eu tinha até sobre o meu próprio trabalho e eu escrevi o meu Prière de bonheur,1 escrevi em francês porque trabalhava com uma galeria belga, formei-me na Bélgica, na Cambra e fiz uma série de desenhos e fiz uma série de desenhos e escrevi um texto que se chamava Prière de bonheur. Foi a primeira vez que eu assumi a escrita com uma autonomia particular. E agora, durante o confinamento resolvi traduzir ou reescrever esse texto, não era possível fazer uma tradução porque há jogos de palavras que eu, e também porque passaram dez anos, fiz esta versão portuguesa 2, oração é assim uma palavra importante. A versão portuguesa só tem estes desenhos singelos, que são as mãos na capa e no interior, como espécie de, vá, coração que se sobrepõe à palma da mão e o texto é uma ladainha que se vai repetindo em crescendo. (A artista leu uma página do livro) O texto, ele vai crescendo e repetindo até chegar a um…eu não gosto de chamar poema, mas vou-lhe chamar…prefiro ficar com a palavra texto, mais longo. E a segunda parte do livro continua a haver uma declinação de frases, mas a ordem é diferente, portanto é mesmo uma ladainha. Por outro lado, no âmbito da publicação, quando eu estive em França, em pós-doc, estive só seis meses em Rennes, não estive bem seis meses, porque depois fui fazer uma residência, mas estive bastante tempo em Rennes, que é uma cidade na Bretanha. A universidade é boa, mas a cidade é assim pequena, é uma cidade de periferia, a Grã-Bretanha tem um rude Inverno ainda por cima, e eu comecei a fazer uns postais que eu chamei Cartas de amor. Estas cartas de amor eram vistas do meu quarto. Estas foram as primeiras (mostrando dois postais), foram escritas em francês também, visto que eu estava em Rennes. Esta era a vista do meu quarto em Rennes e esta era a vista do meu apartamento onde eu vivia em Cascais, porque originalmente eu sou de Cascais. Eu chamei-lhe de Postais da periferia e quando voltei a Portugal tive um eco tão bom destas cartas de amor que eu mandei aos meus amigos, a alguns artistas. Comecei a fazer outras cartas de amor, da primeira casa onde vivi aqui nas caldas, que tinha esta magnífica araucária à frente da cozinha. Portanto, há sempre um texto e há sempre uma imagem do que eu vejo da janela. Isto era o que eu via da janela da sala (mostrando outro postal), este então fiz no início do ano e diz “e no primeiro dia a arreganhar um sorriso, melindrosa e nua, afincadamente feroz todo o ano”. Fiz alguns da janela de casa dos meus pais, porque é a casa paterna e materna, como este por exemplo (mostrando um novo postal).

 

1 Prière de bonheur




2 Oração



FT   As fotografias estão lindíssimas, estão muito bem enquadradas.

 

IB   São muito simples, porque eu não fiz propriamente uma edição de fotografia. Eu a primeira vez que participei com estes postais, a convite de uma professora brasileira, num projeto que se chamou Variante Circular. Como era uma professora brasileira e eu dei uma conferência por zoom, claro, para os alunos dela de mestrado, eu resolvi usar uma fotografia da escola (mostrando a fotografia da ESAD), porque eu já estou há vinte anos na escola que, de alguma forma também é a minha casa, e a escola, a ESAD, tem um bosque à volta. Então agora, mudei de casa, portanto a vista da minha janela é outra. Tenho uma varanda cuja porta faz imensos reflexos  de dentro para fora e então, já tenho umas cartas de amor em relação a esta casa. E, para retomar a tua pergunta, para além dos livros onde o texto aparece quase numa relação vá, que na altura eu não sabia o que era a poesia visual, mas que aparece quase numa relação de poesia visual. Mais tarde, aparece como texto autónomo e há este outro projeto, que é um projeto muito peculiar… Se tu me deres o teu endereço, tenho muito gosto em mandar-te alguma carta de amor também.

 

FT   Ah, obrigada! Gostaria muito sim.

 

IB   As coisas vão acontecendo não é, porque quando…como é que hei de dizer…o trabalho muda, a vida muda e a relação que vamos tendo com o desenho ou com a escrita ou com a pintura, vai-se adaptando, digamos assim. Ou vai-se adaptando ou vai-se alterando conforme o  teu contexto, os desafios que surgem, o que vais conhecendo, porque no fundo estamos sempre em formação, estamos sempre em abertura, ou eu quero estar sempre disponível para aquilo que ainda há a fazer.

 

FT   E às tantas, há uma área que faz mais sentido ser explorada em certo momento, ou então depois até conjuga-las, dependendo do que estamos a experienciar ou a sentir.

 

IB   Sim, claro.

 

FT   Quando falou do Prière de bonheur, o projeto inicial não é como é a versão portuguesa.

 

IB   Não, é muito diferente mesmo, eu vou-te mostrar. (A artista levantou-se para ir buscar o livro) O meu projeto de doutoramento foram cinco livros, também posso ir ali buscar (levantou-se de novo). Então, o meu projeto de doutoramento são estes cinco livros pequeninos, que estão na Gulbenkian, se quiseres ver e, eu quando estava a fazer estes desenhos, dei por mim, porque sempre usei muito a figura, sempre alguns autorretratos 3 ficcionais. Há sempre assim uma coisa meio violenta, às vezes, entre os personagens , uma relação de poder ou de autoridade ou de hierarquia entre os personagens que, estão sempre a sofrer nas mãos dos outros. E, foi a primeira vez que comecei a pintar palavras e foi um bocado estranho para mim. Nunca analisei isso de uma maneira muito profunda, até noutras línguas. Portanto, eu falo o inglês banal, não sei grande sofisticação, mas estas palavras que, às vezes, são um bocadinho ambivalentes, podem ter várias conotações. Comecei a pintar estes textos (referindo-se ao Livro negro), estes textos não, estes fragmentos, estas palavras, estas expressões. Depois, lavava as páginas, elas ficavam mais ou menos elegíveis e eu dava outra camada. Eu gosto muito de tinta da china, há alguma tinta da china colorida, penso que sabes e, literalmente lavava na banheira e voltava a pintar até quase a folha não aguentar mais nenhuma camada de tinta, já não receber tinta. E então, percebi que esta coisa do texto ia mesmo começar a ter primazia. Isto foi para aí em 2008 ou 2009 e quando estava já muito adiantada no doutoramento, percebi que havia uma série de palavras recorrentes que apareciam nos desenhos. Comecei a organizar, uma coisa que eu faço às vezes é, abro uma pasta no computador e vou atirando para lá coisas, mas não guardo muito, mas é só uma maneira de perceber onde é que aquilo vai. Tenho uns cadernos, depois também não guardo nada disso, só me interessa depois guardar o que acontece a partir daqueles esboços, mas vou juntando papelinhos, vou colocando assim coisas na parede e comecei a escrever esta press (mostrando Prière de bonheur). Bonheur em francês é uma alegria, é felicidade. Alegria e felicidade não são bem a mesma coisa, mas também era difícil traduzir bonheur…é uma oração para a felicidade, enfim. E comecei a organizar texto, mas sobretudo comecei a pintar as palavras. E há um conjunto de pinturas que curiosamente eu vendi a exposição inteira, na Bélgica, foi um momento muito  feliz para mim. (mostrando uma página do Prière de bonheur) 4 Portanto, lê-se a palavra maison, casa, mas depois as outras percebe-se que há um nous, nós, mas as outras já só são fragmentos. Dá para ver porque depois se ligam ao texto impresso, que é um devenir, ou seja, “em de vir” ou “tornar-se”, mas já só são estas manchas vermelhas muito densas.

 

3 Livro negro


4 Prière de bonheur


FT   Parece stencil, quase.

 

IB   Pois, mas não é. Eu pinto à volta, portanto vou deixando ver as camadas inferiores e vou pintando à volta, que é aliás uma espécie de técnica, não sei se posso chamar assim, que depois apurei para outro projeto que se chama o amanhã. 5 Amanhã é uma ladainha, “amanhã vai ser melhor”, “amanhã vai correr bem”, “amanhã vai acontecer”, “amanhã há mais esperança”, “amanhã há desejo, vou viver”. E o amanhã, aliás, desdobra-se num livro, em pintura, em cartazes, numa instalação, o amanhã proliferou-se assim mais para 2016. Mas agora desculpa, perdi-me…



5 amanhã


FT   O que eu até queria perguntar, é isso mesmo, como me teve a mostrar, é curioso como decidiu reescrever a versão portuguesa de uma maneira tão diferente. Porque é que a versão portuguesa não teve essas palavras pintadas?

 

IB   Porque as palavras já estavam pintadas e porque se calhar em português o ter que reescrever o texto, começar por traduzir e perceber que a tradução não é possível, que há jogos de palavras que não iam funcionar. E ter que reescrever uma parte do texto, mantendo um tom…às vezes eu brinco e digo, mantendo a minha oração feminista. Esta afirmação de seja o que for que aconteça, estás quase a viver sempre uma espécie de arrepio. Há uma agressividade latente em torno de ti, do teu corpo, mas estás sempre neste desejo de uma alegria. Não é uma sobrevivência, é para lá de uma sobrevivência, é uma existência na alegria. E de repente, aquilo em português já ganhou outra força, outra dinâmica e eu senti que o desenho já não era tão necessário. E também é isso Filipa, passam dez anos de um trabalho para o outro. Eu não vou copiar o meu próprio trabalho, não fazia sentido fazer uma espécie de citação. Fazia sentido era repensar aquilo agora, onde eu estou agora, com este contexto agora e então, pintar ali não era necessário. Aliás, tanto não era necessário que quando me convidaram para esta exposição agora do Amor Veneris, eu timidamente propus uma coisa que nunca tinha feito antes que, era uma leitura, uma peça sonora, justamente porque aquilo cai nesta questão da repetição e da ladainha. Ela tem uma força, há uma vertigem que se cria na repetição e que o trabalho pedia, digamos assim. Eu sei que é um bocadinho esotérico usar esta expressão, que “o trabalho pede”, mas às vezes o trabalho encaminha-te para qualquer coisa que eu não esperava. Eu gosto de arriscar, acho que já percebeste, não estou muito presa àquilo que eu já sei fazer. Isso se calhar é muito confuso, até para quem está de fora do trabalho.

 

FT   Eu até acho que isso enriquece o trabalho, não fica presa ao mesmo.

 

IB   É, mas sabes que as instituições, as galerias, o mercado não gosta muito.

 

FT   Dá-se primazia a uma linha contínua, digamos assim?

 

IB   É, acho que sim (entre risos). Mas eu não estou muito preocupada com isso. E portanto, fiz uma peça sonora pela primeira vez, justamente porque esta oração, ela tem essa ligação ao primeiro texto, mas ela já é outra coisa, e eu sou outra pessoa dez anos depois.

 

FT   Exato…Não tinha noção de que tinha sido um lapso temporal tão grande, dez anos.

 

IB   Não foi uma coisa programada. Aliás, ninguém programou o confinamento, não é? Estamos em casa e eu senti a necessidade de estruturar os dias e o trabalho é um foco de tensão muito importante. E arrumar e ir buscar coisas antigas foi uma maneira de manter uma certa sanidade mental.

 

FT   Foi um tempo muito difícil, a nível da criação. Ainda por cima eu estava no meu segundo ano de faculdade e, portanto, não tinha ainda um ritmo de trabalho muito bom. E, de facto, criar alguma coisa ali, não foi muito fácil. Mesmo as condições, eu nem me posso queixar, mas tinha colegas meus que não tinham condições nenhumas e isso refletiu-se muito nos trabalhos. Eu nem falo nas notas, digo mesmo na essência dos trabalhos, não foi o melhor.

 

IB   É isso e ser mais velha e ter experiência é uma vantagem, porque esse ritmo de trabalho que se aprende a ter na escola, quando se sai ou tu tens ou não tens. Se tu não tens, geralmente depois vais fazer outra coisa, quando tu tens, tu aprendes a lidar com, por exemplo, a sobreposição do dar as aulas e estar a preparar uma exposição, ou dos momentos que estás mais frágil e tens menos concentração. Porque o ritmo já lá está, aquilo é uma espécie de fluidez que se cria e nesse aspeto, o tempo e a experiência trazem uma vantagem.

 

FT   A Isabel trabalha com texto que é só texto e com texto/palavras pintadas. Para além da diferença óbvia, há algum que tem um carácter mais importante ou que se destaca? O que devemos entender destes dois tipos de texto?

 

IB   Os dois conseguem coexistir. (A artista, enquanto respondia à minha questão, partilhou um projeto que ainda não pode ser divulgado. Por isso, parte da resposta dada fica suprimida). […] sabes, eu sou uma leitora, sou uma amante da literatura, não sei se tu já leste o Jorge Luís Borges, ele tem um belíssimo conto sobre um livro infinito, ele tem um belíssimo conto sobre a biblioteca. Bem, ele não é o único escritor a especular sobre esta coisa do livro que se altera nas nossas mãos, por causa de uma história que se vai alterando conforme nós vamos lendo. E, acho que é um lado lúdico também e de não haver uma narrativa fechada ou linear. E acho que nos últimos anos, sinto que o trabalho se encaminha muito para isso, para uma narrativa não linear. Daí também as ladainhas. […] Para voltar atrás, para voltar ao início, tu pensas o livro como pensas uma instalação, porque o suporte do livro, o facto de ser um livro único ou de ser um múltiplo; o material em que o livro é feito; a sua escala, é pequena, está perto do corpo, ou é grande e obriga literalmente a abrir o corpo, a abrir os braços, a afastar. Tudo isso acrescenta sentido. Depois, é uma narrativa linear ou como eram estes primeiros que eu mostrei, há uma sequência como na Oração. Em princípio lês a partir de uma sequência que está fixa, ou as páginas são soltas e as pessoas podem mudar. E acho que o que tens de pensar é, qual é a tua história, digamos assim, para pôr de uma maneira simples. O que é que tu queres que os teus personagens façam? E depois, há exemplos maravilhosos, o Bruno Munari, que é designer, mas que era um designer que questionava muito a coisa da funcionalidade, tem uns livros incríveis. Portanto, livros sem texto, só com planos de cor. Tem tantos livros tão diferentes como a versão do Capuchinho Amarelo ou a do Capuchinho Verde, até isso, livros que são só folhas de papel colorido, recortado, dobrado, coisas muito sensíveis. E há livros que são jogos, não é. A Carla Rebelo tem livros que parecem livros, há uma capa, há um miolo, mas estendem-se no espaço. A Catarina Leitão também.

 

FT   Pegando agora num artigo da Willa Goettling, que escreveu sobre o projeto Pequenas Estórias, há uma frase muito curiosa nesse artigo que é, e agora traduzindo para português: “As histórias que lemos quando somos crianças tornam-se a nossa moral e as histórias que lemos em adultos dão-nos vocabulário e gramática para navegar pelo mundo”. Ao ler isto, é assim que encara o seu trabalho? E outra questão, é assim que gostaria que os outros encarassem o seu trabalho?

 

IB   Não sou bem eu que decido isso, não é. Nós fazemos trabalho para o mundo, esse trabalho tem um contexto, mas o trabalho circula e o que é bom é quando os outros projetam coisas sobre esse trabalho. Idealmente, as projeções dos outros têm a haver com as suas histórias, com a sua personalidade, com as suas vivências. Idealmente, há um bom encontro. O que eu gostei no texto da Willa é que ela sem saber, porque embora a gente tenha conversado, eu na altura não me lembro de lhe ter dito que a primeira série de trabalhos que eu fiz e que expus publicamente, foi sobre o capuchinho vermelho e as mitologias. E eu li muito sobre a psicanálise dos contos de fadas, e portanto esses arquétipos do corpo feminino, que se transforma, que é um contentor, não é necessariamente um contentor que é um útero, é muito mais do que isso. É um contentor de emoções, que tem de se transformar para sobreviver. Fiquei contente que ela intuitivamente tivesse chegado lá, mas sabes Filipa, eu acho que o que é bom é que o trabalho ele não é didático. O que é bom é que os outros projetem coisas e consigam ter uma relação com o que ali está. E o risco também de apresentar trabalhos, não é? Tenho a certeza de que já te aconteceu, até no âmbito da escola que é sempre um contexto onde há um certo cuidado, coisa que não acontece depois, quando sais da escola e estás a trabalhar com galerias ou com instituições. Tenho a certeza que tens professores ou colegas que já olharam para o teu trabalho e viram uma coisa completamente ao lado. Não viram, porque o trabalho não tem a ver com ser bom ou ser mau, nós temos todos ideias pré-concebidas, sobre o que a arte é, sobre o que o outro é, sobre o lugar onde ele está e é isso. Às vezes projetamos e não sai de encontro ao que o autor quer. Enfim, não sei se respondi à tua pergunta.

 

FT   Claro que sim, até porque exato, projetar não é impor.

 

IB   Não, nunca. É o campo da poética, e eu prefiro a poética à didática sem sombra de dúvidas (entre risos).

 

FT   O tipo de letra que costuma utilizar nos seus projetos é, o que chamamos em Tipografia de scripte ou letra cursiva, que diz respeito à escrita corrente à mão levantada. Porquê o optar por esta fonte? E já pensou incluir outro género de fontes, algo mais mecânico, por exemplo?

 

IB   Eu não sei se percebi bem a tua pergunta. Estás-me a perguntar porque é que a maior parte das letras é escrita à mão…porque é pintura, porque eu venho do desenho e da pintura. E como tu sabes, provavelmente terás vivido uma experiência semelhante, o desenho e a pintura podem ser exercícios meditativos e quase hipnóticos. Estás focada no que a tua mão está a fazer e é essa relação com a matéria que escorre, pinga, escapa-te, cobre uma parte que tu não querias. É uma coisa muito corpo a corpo. Eu preciso disso, há um lado sensual na matéria também, porque tem cheiro, porque suja.

 

FT   Sim, sim.

 

IB   Como tu vês num projeto mais recente, onde na Oração uso letras, como é que se diz…chamei-lhe composições tipográficas à bocado, portanto uso fontes do computador. Tenho uma tara pelas serifas, porque é assim uma coisa intemporal, mas não tenho explicação. Eu acho que cada coisa pede uma solução diferente. O serem pintadas ou ser manuscrito é porque é desenho. Antes de ser livro, antes disso é desenho, é pintura. Tudo o que está impresso foi desenhado anteriormente. Eu não faço muita coisa no computador (entre risos), porque não tenho prazer nisso.

 

FT   É algo mais impessoal até, não é? Não estamos mesmo a tocar no trabalho, estamos através de um rato a fazer alguma coisa ou…

 

IB   Pois sabes, eu acho que também é uma coisa geracional. Repara, eu tive o meu primeiro computador aos vinte e tal anos. Eu não tenho nada contra, não é um preconceito, é a minha experiência do desenho e da pintura que passa por manipular materiais. E é isso que me é a fonte de prazer, às vezes de angústia também, quando não resulta (entre risos). O resto são soluções como na Oração. Mas, também eu sei que hoje há escolas que os miúdos já aprendem a escrever no iPad, mas eu aprendi a escrever num caderno pautado, a repetir dezenas de vezes a mesma letra.

 

FT   Sim, tenho um desses também.

 

IB   Foi também a tua experiência, não é?

 

FT   Sim, eu estou a usá-lo também para um projeto. Tenho lá uma página que no topo diz “Filipa, 2006” e depois é o resto da página com “Filipa Filipa Filipa” e às páginas tantas o meu “F” já está a encavalitar-se no de cima e está ali uma salganhada.

 

IB   Mas isso também tem a haver com o desenho. Quando estás cansada, aparecem outras formas e coisas.

 

FT   Ou parava de escrever e fazia um rabisco.

 

IB   (Ri-se)

 

FT   Está lá sempre um bonequinho, ou qualquer coisa. Lembro-me de a minha professora me dizer: “Podes desenhar, mas depois. Agora é para escrever.” Portanto, já desde cedo que a mão foge para o desenho, para o esquisso.

 

IB   Mas é um desenho.

 

FT   Claro.

 

IB   Estas palavras, elas são um desenho. Quando tu olhas, tu vês um desenho inscrito e depois há uma palavra e essa palavra tem um conteúdo. Mas antes de mais, é desenho, é mancha, é visual.

 

FT   Sim é verdade…Então para terminar, gostava de saber, e agora saindo um bocadinho deste debruçar específico acerca da letra, da palavra, do texto, a Isabel diz muitas vezes que os seus projetos não são projetos isolados. Há um ponto de ligação entre os mesmos, qual seria esse ponto de ligação?

 

IB   Olha, depende dos projetos e às vezes essas ligações elas não são óbvias, elas vão-se tornando claras com o tempo. É muito curioso porque o que tenho sentido nos últimos anos é…eu trabalho muito em atelier e tenho a sensação de que às vezes as coisas se tornam claras por convite, quando existe oportunidade de selecionar o trabalho para o mostrar fora do atelier. E é quando eu começo a limpar, digamos assim, a escolher, a relacionar uns desenhos ou umas pinturas ou umas peças com as outras, que essas relações aparecem. No fundo, há aqui algumas linhas, eu…não me interessa falar de conceitos propriamente, mas eu acho que há aqui linhas narrativas que tem a ver com uma auto ficção. Não é autorretrato, é uma auto ficção, uma espécie de narrativa em que vamos ao eu, mas esse eu não é a Isabel, é um eu que tem a ver com uma construção de um eu. Há aqui esta quase relação conflituosa entre os personagens, que também tem a ver com uma construção de uma individualidade, de um corpo, de uma pessoa. Há sempre qualquer coisa em mutação, aliás, as palavras também elas são legíveis, mas não são estáveis. Estão entre o aparecer e o desaparecer, o estarem a submergir em camadas de tinta, e, às vezes, há trabalhos que eu na altura não…ficam como que uma espécie de marinar vá, estou a usar uma palavra coloquial. E, conforme surgem outras oportunidades, há soluções técnicas ou há ideias ou há influências que vão aparecendo em trabalhos que eu faço muito posteriormente. Porque eu trabalho de uma maneira quase contínua, mesmo se não faço exposições todos os anos e mesmo se…tenho assim um percurso, trabalhei na Bélgica, depois em Lisboa, já trabalhei com duas galerias, entretanto agora já não tenho. Portanto, mesmo se eu não tenho sempre oportunidade de mostrar o trabalho publicamente, eu vou sempre trabalhando. O trabalho existe para lá desse contacto, do que acontece fora do atelier. Acho que já me estou a perder, desculpa Filipa.

 

FT   Não, não, por favor continue.

 

IB   E, portanto, é natural que de repente do Prière de bonheur aparece o amanhã. Não sei se tu viste o amanhã, eu por acaso vou oferecer uns cartazes a uma amiga. (levanta-se para ir buscar os cartazes) O amanhã são umas pinturas que são uns cartazes impressos 6. São todos impressos frente e verso e há umas centenas de pinturas com estes “amanhãs”. Eu fiz sete ou oito cartazes com pinturas diferentes, sempre frente e verso, e desenhei umas mesas, se calhar viste no site. Eu já apresentei isto de várias maneiras na Fundação D. Luís e até fiz uns rolinhos no altar, aquilo ficava muito bonito, muito apetitoso. As pessoas literalmente podem levar a exposição para casa. É ruinoso do ponto de vista financeiro, é ruinoso (entre risos), mas como na VPF, lá na Boavista, eu também tinha uma pilha muito alta, depois isto tem estas cores de carne, funcionou muito bem. As pessoas podem ir ver a exposição e se gostarem dos cartazes podem levar e depois nunca sabem quantos é que há, porque eu também faço essa provocação. E agora perdi-me outra vez…

 

FT   (risos)

 

6 amanhã


IB   Ah! Portanto, Prière de bonheur começo a pintar as palavras, também há uma coisa que tem a ver com esse desejo, com essa alegria. Eu não gosto muito da palavra empoderamento, porque acho que ela tem uma conotação um pouco estranha, mas é isso, tu reivindicares qualquer coisa que é difícil. E nós como mulheres, a pressão social eu sinto-a muito forte ainda. Mesmo agora, que já me sinto a envelhecer, o olhar social sobre a mulher, sobre o corpo feminino, continua a ser pesadíssimo e portanto, esse desejar de uma autonomia, de um amanhã, do estar vivo, do estar bem, do ter prazer, de ser eu. Ou seja, quem for esse eu vem para o amanhã e no fundo, acaba de alguma maneira que eu ainda não sei muito bem. Da mesma forma que os desenhos figurativos, eles andam sempre à volta de um lado meio conflituoso entre os personagens. Sobretudo entre os personagens masculinos e femininos. Acho que respondi de uma maneira muito confusa, desculpa.

 

FT   Nada disso, e tem nexo haver essa ligação entre trabalhos.

 

IB   Haver muitas ligações, porque o trabalho também é diversificado e, às vezes, não são coisas óbvias. Eu não sou uma artista conceptual que planeia cuidadosamente as séries (entre risos). A minha forma de trabalhar é um bocadinho mais solta, digamos.

 

FT   Elas quase que surgem, não é? À medida que vai experimentando.

 

IB   Exatamente.

 

FT   Eu identifico-me com isso, porque quando nos pediam os relatórios, eu não conseguia, às vezes, dar uma ideia primária antes de sequer experimentar alguma coisa. Até porque eu podia pensar de uma maneira, mas não sei, acho que de certa forma é limitador. Parece que antes de experimentarmos, já estamos a tentar arranjar um tema ou uma base para explorar, não sei…

 

IB   E o material não responde.

 

FT   Exato.

 

IB   Tu própria tens auto censura, que fazem com que tu não sejas capaz de nomear no início, não consegues…aparece no fazer, aparece durante ou aparece depois do trabalho já estar avançado.

FT   E mesmo a experimentação inicial pode ser completamente diferente da inicial. Quantas vezes isso não acontece.

 

IB   Quantas vezes, exatamente. Olha, ainda me acontece e dá alguma angústia, mas é como é.

 

FT   Parece que o trabalho está constantemente a descobrir-se. Nós pensamos que era isto e afinal já não é, mas queremos sempre ir em busca daquilo, eu percebo. É uma angústia muito boa.

 

IB   Por isso é que eu digo que às vezes o trabalho pede. O trabalho pede coisas, o trabalho indica coisas, porque sou eu que faço o trabalho, mas ele devolve-me qualquer coisa. Aquelas imagens, aquelas experiências devolvem qualquer coisa que eu não esperava, que quase não parecem ser feitas por mim. E isso é bom, não é.

 

FT   Sim, é quase impossível não haver essa comunicação. Parece que é uma comunicação que está ali a acontecer, é um diálogo qualquer.

 

IB   Sim, mas há artistas conceptuais que conseguem planear tudo com uma clareza enorme. Nós somos todos diferentes, cada artista revela um bocadinho essa individualidade.

 

Para verem mais trabalhos da artista:

http://www.isabelbaraona.com/index.html


terça-feira, 29 de novembro de 2022

Letra Cursiva em Capas de Álbum

 

   Saindo um pouco da linha de pensamento que tenho vindo a seguir, ora mostrar um livro de artista ora uma fonte tipográfica, nesta publicação decidi arriscar por um caminho menos convencional. Pesquisei por álbuns de música, de diversos artistas, de forma a encontrar um dos grupos da classificação estilística de Maximilien Vox, refiro-me então ao grupo das Scriptes (ou cursivas).

   De letras elaboradas à mão levantada, as scriptes costumam mostrar escritas manuais informais, sem um padrão específico. Aludem ao cursivo da escrita de cada um, e com cursivo entenda-se caligrafia.




   São exemplos deste tipo: Brush, Kauffman, Balloon, Mistral, Chalk Line e Freestyle Script.

   Vamos então observar exemplos deste grupo 9, estipulado por Maximilien Vox de Scriptes em diversas capas de álbuns musicais.


1º exemplo

 Off The Wall, de Michael Jackson



   Sendo o quinto álbum de estúdio do artista, mas o primeiro a solo após o seu sucesso com os The Jacksons, lançado a 10 de agosto de 1979, Michael Jackson optou por estética cursiva, aquando de escrever o título do seu novo álbum. Incorpora-se bem ter sido escrito numa parede, até pelo título do álbum, com uma espécie de giz, que nos relembra a escrita nos quadros da escola (dimensão intimista, que nos aproxima). Este pequeno pormenor, juntamente às vestes usadas pelo artista, refletem tanto a juventude como a maturidade de Michael Jackson, que na altura tinha os seus 21 anos. 

   O título do álbum foi concebido por Rod Temperton (músico e compositor britânico) que escreveu a faixa-título. 


2º exemplo

good kid, m.A.A.d city, de Kendrick Lamar 



   Trago-vos este exemplo muito claro de uma letra desenhada à mão levantada, um pouco confusa e quase infantil. Este é o segundo álbum de estúdio de Kendrick Lamar, lançado a 22 de outubro de 2012. A caligrafia da capa foi concebida por um colega da TDE (Top Dawg Entertainment – gravadora independente americana), Schoolboy Q.

   O que me fascina em particular nas letras Scriptes, é mesmo esta intimidade ou proximidade a alguém, pois a escrita é uma característica identificativa de uma pessoa. O pormenor de o álbum usar uma polaroid como capa, tirada em 1991, torna-o ainda mais intimista e original, parece uma fotografia tirada e enviada a um amigo, onde o remetente nos presenteia com um pequeno apontamento (que neste caso se trata do título do álbum e o nome do autor). 



3º exemplo

Salad Days, de Mac DeMarco



   Salad Days, álbum de estúdio lançado no dia 1 de abril de 2015, escolhi-o apresentar pois pelo pormenor do “s”, na palavra Days. Dá-nos a ideia que foi rasurado ou o artista quis esboçar um pequeno desenho na finalização do nome. Não seria tão fácil de entranhar estes acasos se usássemos por exemplo uma Futura (pertencente ao grupo das Linéales) ou uma Bodoni (grupo das Didones).

   Através da letra cursiva é possível obter resultados mais inesperados, criando composições se assim quisermos entender. Passo a explicar, refiro-me ao alinhamento do texto. Enquanto, normalmente o alinhamento está padronizado, seja justificado à esquerda ou distribuído de forma uniforme, através de um tipo de letra Scripte, este alinhamento pode tornar-se mais criativo (tal como acontece na capa deste álbum), criando soluções inusitadas.

   A tipografia é da autoria de Stefan Marx, artista radicado em Berlim.

 


4º exemplo

Scary Monsters (and Super Creeps), de David Bowie



   Álbum lançado em 1980, coloco em destaque a letra D, do nome próprio do artista. Reparemos no escorrido, dá praticamente para sentir a tinta a escorrer do aparo ou pincel usado para escrever, dando-lhe um sentido um tanto pictórico. Não pude deixar de pensar em artistas onde escorridos de tinta são um elemento marcante nas suas obras, como Jackson Pollock ou Hermann Nitsch, mas que agora não veem ao acaso. A própria capa é uma pintura, e a letra cursiva foi muito bem inserida e inovadora, a escrita que se contorce e o nome que é escrito de lado e depois de pernas para o ar.

   Edward Bell (British Contemporary) foi o responsável pelo design da capa do álbum. 



5º exemplo

The Wall, dos Pink Floyd



   Finalizo esta publicação, com o décimo primeiro álbum de estúdio da banda inglesa de rock progressivo Pink Floyd, lançado em 30 de novembro de 1979.

   A esta solução gráfica, também não posso deixar de ligar à pintura, imaginemos pinceladas fugazes e decisivas, é assim que imagino a pessoa responsável pelo título na realização destas letras. Os pormenores das bolinhas como finalização de algumas letras e até a falha no traço das letras W ou P, originam uma estética muito própria e rebelde. Estas particularidades vão de encontro ao semblante da banda, que se inserem num meio progressivo e psicadélico, as letras assumem um pouco essa postura. 

   A capa e contra-capa do álbum resultou da colaboração entre Roger Waters (integrante da banda) e o designer e ilustrador britânico Gerald Scarfe. O design é extremamente simples: uma parede branca feita de tijolos, sem qualquer texto à exceção da informação relativa à editora discográfica e aos direitos de autor do álbum, presentes com um tamanho reduzido na contracapa. No exterior, o álbum é identificado apenas por um autocolante transparente na capa, que continha o nome do álbum, juntamente com o nome da banda, escritos à mão pelo designer (em edições posteriores do álbum, o lettering passou a ser impresso diretamente na capa, abandonando o autocolante). 



   Normalmente os artistas seguem a via das letras fortes e de espessura larga, de forma a destacar do seu nome artístico e o nome do álbum. Sou da opinião que, ao optarmos antes por um tipo de letra scripte e tendo atenção como conjugada à imagem que lhe serve de rosto para a capa do álbum, há um leque maior de oportunidade para a criação e inovação de um resultado único. Pois cada pessoa tem o seu traçar próprio de caligrafia - mais tremida, mais firme, letras encavalitadas ou a seguir uma linha direita, entre outros. Não me canso de reforçar o ponto da “intimidade”, uma letra “do dia a dia” ali inscrita na capa, um apontamento que torna o produto ainda mais especial.  


sábado, 12 de novembro de 2022

Carla Rebelo (1973)

   Venho novamente interpelar-vos com um livro de artista. Desta vez, não é tanto o conteúdo do objeto/livro que me interessa partilhar, mas sim o corpo do mesmo, isto é, o seu aspeto. Refiro-me ao livro de artista de Carla Rebelo, licenciada em Artes Plásticas – Escultura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (2000). Vive e trabalha atualmente em Lisboa. Os livros de artista surgem no processo criativo da artista plástica normalmente associados a exposições maiores, onde costuma ter mais peças, ligadas a projetos específicos. O livro que venho apresentar-vos, surge no seguimento de uma coleção de livros que foi criada no contexto de uma exposição individual. Foi realizada no Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras e surgiu como uma instalação, denominada Biblioteca das Musas. Dos nove livros criados, escolhi abordar o Livro de Polimnia ou Livro da Geometria. Este livro é feito de papel e é composto por uma série de planos e retas, sendo deste modo manipulável. Permite criar uma série de relações entre as formas geométricas, permitindo várias configurações de alguma forma. É um livro que, colocado sobre uma determinada perspetiva também projeta sombra, que é também uma das áreas que se estuda na geometria. É possível explorar isso neste objeto devido às duas únicas páginas de papel existentes, onde se projetam as sombras. É um livro que cria planos, retas, interseções, tangências e outros espaços.




 
Livro de Polímnia ou Livro de Geometria/Carla Rebelo. Lisboa: Carla Rebelo, 2016. Exemplar único. 



   Pretendo usar este livro de artista como ponte para, segundo a denominação da classificação tipográfica de Maximilien Vox, o grupo das Réales. A estética deste grupo, caracteriza-se com a escrita Romain du Roi (um tipo de letra desenvolvido na França em 1692. O nome refere-se a Luís XIV que encomendou o design do novo tipo de letra. O Romain du Roi é um marco da tipografia no Iluminismo), construída a partir de uma malha geométrica, evidenciando os ideais racionalistas e realistas do enciclopedismo na França. Como características principais destacam-se a ênfase no eixo vertical do tipo; há um maior contraste entre traços finos e grossos; é um tipo de letra serifada – letras serif; há um rigor na construção geométrica; evidenciam-se o realismo, racionalismo.



A título de exemplo do grupo das Réales, um grupo conhecido também como Old Style ou Old Face, são as famílias tipográficas Baskerville, Perpetua e Times New Roman. 


   Tenho noção de que o livro de artista apresentado, não está diretamente relacionado com a tipografia propriamente dita, mas mal vi o projeto da Carla Rebelo, associei imediatamente a estas particularidades da Tipografia, e a esta “gaveta” específica da classificação estilística. Assim, tal como no grupo Réales, as letras devem seguir uma construção geométrica rigorosa, também o livro da Carla se submete a páginas de madeira com formas geométricas manipuláveis, criando planos, retas, interseções, tangências e espaços imaginários. 



terça-feira, 1 de novembro de 2022

Victoria Englund

 

     Para a partilha de hoje, venho falar da Victoria Englund, designer multidisciplinar na área do design de tipos, branding e com imensa criatividade. Ela trabalha no estúdio Bedow, que se trata de um estúdio de design e branding com a sede em Estocolmo. É associado à construção de marcas que são progressivas, envolventes e duradouras.

     Algo que me chamou especial atenção ao trabalho produzido pela Victoria, é a sua característica escorregadia. Existe um termo específico para isto a que me refiro, que é “snok”. Snok é a palavra sueca para cobras-água-de-colar, uma espécie também conhecida como cobra-aquática-de-colar, enfim, é uma cobra de água. E estas letras, as Snok Lettering, são desenhadas para explorar formas de letras orgânicas escorregadias.


[1] Snok Lettering



 
[2] LEJA FREJ Lettering

     Letras construídas com formas de letras expandidas nítidas com inspiração na tipografia gótica.


     Há um projeto com uma iniciativa bastante desafiante, o 36 Days of Type, que convida designers, ilustradores e artistas gráficos a expressarem a sua interpretação pessoal das letras e números do alfabeto latino e no qual a Victoria participou, desenvolvendo, soluções gráficas expressivas e com um caracter predominante e consistente. Achei um resultado incrivelmente bem trabalhado, e que vai de encontro ao trabalho mostrado anteriormente. 

 

[3] Livreto 36 Days of Type, A




[4] Livreto 36 Days of Type, B



 [5] Resultado do projeto 36 Days of Type


     Gosto particularmente desta solução serpenteada e ondulante com que Victoria decide trabalhar e explorar. A designer tem vindo a desenvolver vários projetos, apoiando-se, e não só, neste aspeto quase dançante das letras, onde há momentos em que a espessura impera e é uma das características em destaque, bem como o seu contraste. Por outro lado, explorando à mesma o traço fluído, em outros trabalhos, vai ao encontro de uma espessura mais leve, que se pode entender quase como um rabisco ou esquisso. Este aspeto é de igual forma bastante interessante e que, dependendo do que se é pretendido, chega a um resultado inovador, bonito e limpo, tal como já foi anteriormente mostrado nesta publicação. [1] e [2]

 

     Quis partilhar o trabalho da Victoria Englund, também pelo aspeto quase pictórico das letras produzidas. Consigo olhar para elas e quase imaginar numa pincelada só, a designer a construir o corpo da letra. 

     Tenho vindo a reparar que o domínio do Display Type é aquele que mais me interessa. Normalmente tendem a ser mais criativas e passíveis de resultados inesperados, pois a legibilidade da letra não é um requisito tão importante (mais ou menos), pois como se trata de um título, consoante o conteúdo e contexto para o que é elaborado, faz sentido e é aceite.

     Podem espreitar o trabalho da artista, se vos despertou interesse, em plataformas como:

     Insta: @vicodisco

     Site: https://englundvictoria.com/

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Paulo Lourenço (1965) - Livro de Artista




      A relação dos artistas com o livro é tão antiga como o próprio livro. O objeto livro pode muitas vezes ser apresentado apenas como um referente conceptual, mas podemos aproveitarmo-nos dele como suporte de um projeto artístico específico, explorando-o consoante a vontade do artista, incorporando todos os tipos de materiais que se desejar utilizar. Irei partilhar uma edição especial, acompanhada de gravuras e serigrafias, da autoria do Paulo Lourenço, um livro onde a “palavra” é a base da criação artística. Antes de mais, gostaria de fazer uma pequena introdução ao Paulo, o tão conhecido e afamado técnico de gravura da Faculdade de Belas-Artes. O Paulo foi um antigo aluno da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, mas continua ligado a esta instituição. Entrou para as Belas-Artes em 2004, para preencher uma vaga no lugar de técnico, na disciplina de gravura, de forma acompanhar os alunos e a desenvolver os seus projetos artísticos. A partir do concurso dos maiores de 23 anos conseguiu entrar no curso de Pintura. Em 2017 dava por terminada a licenciatura, junto de um mestrado também em Pintura.





     Seguindo um pouco a linha de raciocínio do Paulo Lourenço, a pintura é um universo multidisciplinar onde “vale quase tudo”, em que podemos cruzar vários médios e várias tecnologias. Foi através desta ideia que, o Paulo concebeu todo o seu projeto de mestrado, isto é, desenvolveu as suas obras no mestrado de Pintura, mas a partir de projetos feitos em serigrafia. A gravura é também trabalhada por ele através de um caracter instalativo, assumindo assim um corpo tridimensional.

                                                                                      




     Por outro lado, o Paulo desenvolveu um projeto através da serigrafia, em que a partir da multiplicação das impressões, a imagem começa-se a destacar do suporte que lhe serve de base, isto quer dizer que se consegue produzir uma serigrafia com carácter de baixo-relevo, conferindo assim aos trabalhos atributos e especificidades que os instalam no território da tridimensionalidade.

     Como resultado da técnica referida, Paulo Lourenço desenvolveu assim o seu livro de artista, que, e agora citando o artista, “faz parte de uma pesquisa que tem sido desenvolvida ao longo da última década. O entrosamento de imagens gráficas e a utilização da «palavra» como base para a criação de objetos artísticos, recorrendo a diferentes tecnologias para a sua materialização.” Denominado por Palavras Imprecisas, ele dá corpo ao seu livro de artista, tão rico no que toca ao mar de letras apresentado e que nos remete para o mundo tipográfico. Uma vez questionado ao próprio Paulo Lourenço acerca da fonte de texto utilizada, este respondeu sem certezas, mas apontou que deveria ser entre a fonte tipográfica Bodoni ou Times New Roman Bold. 





     Achei pertinente compartilhar este objeto/livro de artista, pois antes de mais pela composição das serigrafias, que nos aproxima do design gráfico, diria até mais da tipografia, e pela inovação do processo de concretização das mesmas. Há sempre espaço para inovar, mesmo quando algo parece apenas ter um caminho já traçado na maneira como deve ser realizado, neste caso a serigrafia, que apesar de se manter bidimensional (característica predominante), o Paulo consegue dar-lhe uma força maior, dando destaque à palavra, às letras que passam a ser o foco, transcendendo à simples técnica de gravura.

 

Para ver mais trabalhos do Paulo:

Instagram: @paulourencos