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domingo, 1 de junho de 2025

“Julianknxx. Coro em Rememória de um Voo” - Exposição Temporária do Centro de Arte Moderna Gulbenkian

 Em exposição de 22 fevereiro a 30 junho 2025



No passado dia 16 de maio, visitei o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, mais especificamente uma das suas exposições temporárias intitulada “Julianknxx. Coro em Rememória de um Voo” do artista Julianknxx. Julian Knox, nascido na Serra Leoa, mudou-se posteriormente para o Reino Unido onde já reside e trabalha há alguns anos. É um artista multidisciplinar, que cruza no seu trabalho várias áreas artísticas como a poesia, o vídeo, a performance e a música. De nome original “Chorus in Rememory of Flight”, é uma exposição com a programação de Ana Botella e Luís Jerónimo e uma encomenda feita em conjunto com o Barbican Center em Londres, o WePresent by WeTransfer e em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian, com o apoio de 180 Studios e De Singel.

 Localizada no Espaço Engawa do Centro de Arte Moderna, esta instalação audiovisual pode ser visionada ao percorrer um corredor comprido dividido por quatro salas. Esta instalação é fruto de partilhas e conversas que o artista teve, ao longo de um ano, com a comunidade da diáspora africana residente em várias cidades europeias portuárias, entre elas a cidade de Lisboa. Descrita pelo próprio como sendo um poema visual, são abordadas temáticas como a identidade, herança, pertença, com um foco na experiência negra em cidades europeias. Sendo que a ideia principal seria contar a História e abordar a cultura da diáspora africana, de uma outra maneira e através de uma perspetiva diferente. A História contada não pelos livros de História, mas cantada pelas pessoas.

Composta por três vídeos, o primeiro visto pelo visitante ao entrar no espaço expositivo, tem o título de “Learning How to Wear Black Under the Sun”, datado de 2025, é uma instalação de vídeo 4K com um canal, áudio stereo e tem a duração de cerca de 7 minutos. Nele são mostrados vários registos feitos por Julian em Lisboa, intercalado por uma composição sonora e um poema do autor. Nalgumas das imagens podemos ver um dos seus colaboradores neste projeto, o artista Tristany Mundu. Importante destacar que as salas são escuras, sendo que a única fonte de luz vem do ecrã, o que permite um foco total no que está a ser visionado. Ao percorremos o caminho até à próxima sala, podemos ir lendo várias frases de letra de cor branca em paredes azuis, quase como se fossem desabafos e gritos de resistência, tais como “As pessoas pensam que o meu perigo as deixa seguras/People think that my danger makes them safe” ou “Este sol ensina-te a arder pelo outro/This sun teaches you how to burn for the other.” 




Na sala seguinte, encontra-se a maior instalação de vídeo da exposição, com três ecrãs, é novamente uma sala escura, com três bancos corridos onde os visitantes se podem sentar e assistir ao vídeo. Intitulado de “Chorus in Rememory of Flight”, é de 2023 e é uma instalação de vídeo 4K com três canais, áudio 3.1, com a duração de 45 minutos. Neste vídeo são mostrados os registos de um voo que durou um ano. Nas nove cidades europeias com passados (e presentes) coloniais, Julian entrevistou coros, políticos, ativistas e dançarinos de comunidades negras e pediu uma "offering”: o que tens para contar sobre ti? Que histórias tens para contar?. Algumas pessoas cantaram, partilharam histórias de vida, outras dormiram. E foram estes testemunhos que Julian gravou e que agora assistimos nos três ecrâs, intercalados por imagens das várias cidades onde esteve, muita música, como também poemas escritos pelo autor. Na sala seguinte podemos assistir ao último vídeo intitulado de “Mava”, de 2025, sendo este uma instalação de vídeo 4k com um canal, áudio stereo e com a duração de 8 minutos. Também filmado em Portugal, é um vídeo filmado apenas num plano e nele podemos ver a performance de um dançarino, sendo que este contorce-se e preenche o espaço onde é filmado o vídeo, enquanto ouvimos uma composição sonora. Termina-se este último vídeo com a sensação que estivemos de facto a fazer um voo. A forma como os vídeos estão editados, sendo mostradas vários tipos de imagens, desde os testemunhos, às performances, faz com que o nosso olhar vá viajando de um ecrã para o outro, nunca deixando de ouvir, nunca deixando de estar atento. As composições sonoras acrescentam ainda mais emoção aos vídeos, fazendo desta instalação audiovisual um verdadeiro espetáculo sensorial. 




Dos pormenores mais interessantes desta exposição é a quarta e última sala, que é uma espécie de biblioteca. Composta por uma estante cheia de livros, dois sofás onde os visitantes são convidados a sentar-se, a ler e a refletir sobre a exposição. Está decorado duma forma convidativa, respirando serenidade, com algumas plantas, discos de vinil de artistas como Sara Tavares ou Duo Ouro Negro e com alguns “panos” de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Moçambique. Estão disponíveis três headphones que os visitantes podem colocar para ouvir algumas das entrevistas feitas em Lisboa por Julian em 2023, editados pelo Bantumen e produzido por Luzinho. Destaco em particular os livros que compõem a biblioteca e que inspiraram a exposição, entre eles “Venceremos” de Thomas Sankara ou “Decolonizar o museu” de Françoise Verges. Importante referir que estes livros foram selecionados por Julianknxx, Vítor Sanches, Dentu Zona – Cova da Moura, Jesualdo Lopes, Paulo Pascoal, Rafael de Oliveira e Selma Uamusse. Este espaço, como é referido no próprio texto de sala “(…) é um lugar de descontração e repouso, um convite para desacelerar, porque para Julianknxx descansar é um ato radical de resistência". 



A cenografia da montagem, da autoria de Rita Albergaria e Salomé Ventura e a museografia, de Laurindo Marta e Cécile Matignon, é intuitivo e bem organizado, convidando o visitante a fazer o percurso desde a primeira sala onde está o primeiro vídeo até à última, não tendo particular efeito se forem vistos fora de ordem, no entanto a narrativa e a emoção trazida pelos vídeos é mais sentida na sua plenitude fazendo o percurso sugerido. Destaco também a secção final da biblioteca, bastante inovadora e original, senti que de facto podia parar e refletir sobre o que tinha acabado de ver, como também obter mais informações através dos vários livros à disposição. Ao início existe uma certa hesitação, visto ser fora do normal poder pegar-se e ler livros numa exposição, mas quando essa hesitação é ultrapassada ao ler o texto de parede ou a ser informado por um assistente de sala, é muito bonito ver o quão o espaço é preenchido pelo visitante e o museu deixa de ser apenas um espaço expositivo. Destaco também o trabalho dos assistentes de sala, que me forneceram mais informações sobre a exposição e me fizeram olhar para o que estava a visionar com mais atenção. O único ponto negativo que teria a apontar seria a escuridão das salas onde os vários vídeos são visionados, pois dificulta a movimentação dentro delas.

“We are…we are…what’s left of us”, as palavras de uma das músicas cantadas por um coro no segundo vídeo da exposição, junto com os sons deixados por um saxofone no primeiro vídeo, ecoaram nos meus ouvidos durante muito tempo após sair, do Centro de Arte Moderna, para as ruas de Lisboa. É uma exposição que emociona, que pede que estejamos presentes e que ouçamos, e que acima de tudo - dá esperança. Já assisti a esta exposição várias vezes desde o passado dia 16 de maio e continua a emocionar-me tal como a primeira vez. A forma como a exposição está disposta, com o som alto e a imagens dos vídeos a preencher as paredes, permite uma experiência imersiva. E só não sente, quem não está atento. 

sábado, 17 de maio de 2025

Exposição Permanente do NaFilM: Národní filmové muzeum (Museu Nacional do Cinema)

 Praga, Chéquia


No passado dia 3 de maio, tive a oportunidade de visitar o Museu Nacional do Cinema (NaFilM: Národní filmové muzeum), em particular a sua exposição permanente, durante a minha viagem a Praga, na Chéquia. Localizado no centro da cidade, é um museu público, fundado por Terezie Krizkovska.

É um Museu que aborda a História do Cinema, nacional e internacional, como também os seus desenvolvimentos tecnológicos, nos quais certas personalidades checas tiveram influência. É um Museu interativo, além de expositivo, onde através de várias atividades, pode-se apreender como também experimentar alguns dos desenvolvimentos tecnológicos que deram origem ao que hoje chamamos de Cinema. O conceito curatorial é claro e acessível, sendo que a parte interativa da exposição, ajuda o visitante a concentrar-se melhor naquilo que está a observar e a aprender. Exemplo disso, é uma das secções da exposição em que podemos experimentar realizar o trabalho de um artista de foley, o que nos permite perceber, através da prática, o quão importante foi o trabalho destes sonoplastas. Outro exemplo, é outra secção da exposição em que se pode experienciar um vídeo de realidade virtual, que ajuda a entender melhor, de uma forma imersiva, algumas das técnicas utilizadas pelos teatros de cinema no início do séc.20.

Apesar de labiríntico, o espaço museológico está organizado duma forma muito intuitiva e concisa. Sendo que o Museu percorre a História do Cinema desde os seus primórdios até à atualidade, a exposição organiza-se através de vários cubos numerados, de maneira a que o visitante perceba melhor a ordem do seu percurso. Espaço bem iluminado, sendo pretas as paredes dos cubos, os textos de parede e os títulos de cada espaço a branco, com explicações tanto em checo como em inglês. Cronologicamente a exposição permanente começa nos finais do séc.18 e início do séc.19, onde são abordadas as ilusões óticas do criador do kinescope, Jan Evangelista Purkyne, médico e professor checo. Como também a invenção da lanterna mágica, que com ajuda do praxinoscope, como é explicado na exposição, foi uma das invenções necessárias para projetar imagens num ecrã, tendo sido utilizado no séc.17 pelos jesuítas. Esta lanterna mágica é exemplificada com uma atividade em que o visitante pode girar uma roda, sendo que é esta que controla a lanterna mágica que está conectada ao praxinoscope, cuja projeção vai demonstrar várias ilustrações do conto intitulado “The Oval Portrait” de Edgar Allan Poe. 


Noutra parte da exposição, é também abordado o papel do som no cinema, como este se relaciona com a imagem e como devido ao aparecimento deste, a imagem deixou de ser o foco principal através da qual se conta uma história no grande ecrã. Depois, numa nova secção intitulada de “Inter-War Film Avantgarde”, agora com paredes brancas e texto preto, de forma a diferenciar visualmente, duas épocas distintas da história do cinema. Dá-se então destaque ao cinema avant-garde checoeslovaco e como este contrastava em termos temáticos e práticos com o cinema de avant-garde francês, nomeadamente o Devetsil Art Union e o seu programa denominado de Poetism. Isto é demonstrado, numa secção onde o visitante pode-se sentar num cadeira e colocar uns headphones, circundado por uma cortina, onde este pode ouvir um dos três poemas visuais, que os poetas do Devetsil consideravam ser os seus filmes, deixando para o visitante a construção do filme em questão através da sua própria imaginação. No último piso, é dado destaque à história do cinema de animação, com especial enfoque no cinema de animação checo, sendo que tive a oportunidade de assistir a um dos cinco filmes de animação checos disponíveis, intitulado de “Spatne namalovana slepice” (1963) de Jiri Brdecka e do Estúdio Bratri v triku.

Um dos pormenores mais interessantes acerca deste museu é o facto de ser um projeto orientado por estudantes de cinema da faculdade de artes da Charles University. Haver outra maneira de gerir e financiar um museu, é algo que pode mudar o discurso museológico de muitas das instituições que temos hoje em dia. Ter de facto estudantes de cinema à frente deste museu, é algo que podia ser reproduzido noutros museus.

 Para concluir, considero a minha experiência no Museu Nacional do Cinema como extremamente enriquecedora, sendo que sai da exposição com energia apesar de cansada mentalmente. Devido a isso, diria que a quantidade de informação para absorver, seria a principal crítica que faria. No entanto contra argumento a minha critica com o facto de isso estar mais relacionado com a experiência que temos com os museus hoje em dia, em que ficamos com a sensação que temos que ver tudo que o museu tem para apresentar, de uma só vez. Exceptuando essa crítica, só tenho comentários positivos a tecer. Cinema sempre foi uma das minhas grandes paixões e alegra-me vê-lo celebrado duma forma tão democrática e acessível. Como escrevi, em checo, num papelinho que coloquei na parede de entrada do Museu, para descrever a minha experiência…Moc Dobré (Muito Bom)!



domingo, 27 de abril de 2025

Musical Rent – Teatro Variedades, Parque Mayer em Lisboa

Em cena de 26 de Março a 27 de Abril de 2025

Texto, Música e Letras por Jonathan Larson

Encenação: Sissi Martins



 “Five hundred twenty-five thousand, six hundred minutes (…)” é como se conta um ano, segundo a canção “Seasons of Love” do Musical Rent. E centro e trinta e cinco mil destes minutos são passados a dançar, a cantar e a aprender o que é Amor nesta peça. 

No passado dia 4 de Abril, tive o privilégio de assistir ao Musical “Rent” no Teatro Variedades no Parque Mayer em Lisboa. Tendo nascido na cabeça de Jonathan Larson, autor do texto, música e letras, este conta a história de um ano na vida de um grupo de amigos queer, artistas e com poucos recursos económicos, nos anos 90 em East Village, Nova Iorque nos Estados Unidos, durante a epidemia do HIV/SIDA. De autoria americana, este Musical estreou pela primeira vez em Janeiro do ano de 1996 no New York Theatre Workshop em Nova Iorque sob a direção de Michael Greif. Encontra-se agora em Portugal, pela primeira vez em cena, quase 30 anos depois da sua estreia. É uma produção da Music Theater Lisbon sob a encenação de Sissi Martins, que também interpreta um dos papéis da peça. 

Esta adaptação portuguesa, em pouco difere da original, sendo que transparece a colaboração do encenador original (Michael Greif) com Sissi Martins. Com um elenco composto com um grupo de atores de destaque (Bruno Huca, Carlos Martins, Diogo Leite, Dennis Correia, Gonçalo Martins, Inês Ramos, Margarida Martins, Marta Lys, Rafaela Monteiro, Marta Mota, Nuno Martins, Pedro Fontes, Pedro Paz, Sara Claro, Sissi Martins), as performances transpiram vida e energia, sendo que a tradução portuguesa das músicas, não fez muita diferença, algo que receava, visto conhecer bastante do material original. Relativamente ao design da peça, o cenário (Pedro Morim) transporta-nos imediatamente para os anos 90 em Nova Iorque, repleto de vários cartazes, de todos os tamanhos, a anunciar rendas de casa, fazendo assim alusão ao título da peça. Sinais de trânsito e estruturas de ferro, que vão sendo movidas no espaço ao longo da peça para servir vários cenários, fazem lembrar assim o ambiente acelerador e citadino das ruas nova iorquinas. 

 


Duma forma minimalista, são destacados alguns elementos da cidade, sendo que estes acabam por ser os elementos essenciais para compor o cenário das várias cenas que vão ocorrendo ao longo da peça. Com aqueles elementos, ficamos enquadrados relativamente ao espaço onde o musical vai ocorrer, sendo que as mudanças de ambiente são apenas anunciadas com alguns adereços diferentes, sabemos o essencial sobre o ambiente em que as personagens vivem nos anos 90, para mergulharmos na história. Outro pormenor interessante, é que a banda (Pedro Alvadia, Diogo Soares, David Campos, André Soares) sob direção musical de Pedro Alvadia, encontra-se no lado esquerdo do palco, sempre presente ao longo da peça, fazendo lembrar o Coro no Teatro da Grécia Antiga. O guarda roupa (Pedro Morim), repleto de verdes, vermelhos e azuis, na minha opinião, ficou um pouco aquém para nos transportar para a época. Relativamente a outros aspetos mais técnicos, o jogo de luzes (João Fontes) foi bastante positivo, cumprindo o seu propósito e ajudando a criar dinamismo e tensão em vários momentos da peça. O som (Daniel Fernandes) estava bastante sólido, ouvindo-se perfeitamente os atores. 

De sala praticamente cheia, preenchido por cabeças e ouvidos atentos tanto na plateia como nos balcões, a audiência respondeu de forma positiva ao espetáculo. Assisti ao Musical no Balcão do lado direito do palco, e apesar de ter a vista ligeiramente obstruída, tinha um lugar privilegiado para as reações do público. A plateia encontrava-se emocionalmente investida pois havia uma tentativa de batida de palmas depois de quase todas as músicas e vários lenços começaram a aparecer nos momentos mais tristes da peça. Mexiam-se no lugar e sorriam quando vários atores estavam em palco com grandes números musicais e de dança e jogos de luzes. Algumas piadas não resultaram tão bem, devido a uma tradução do texto de inglês para português, certas referências muito especificas ao contexto americano acabavam por passar ao lado. 

Achei no geral uma produção muito bem conseguida, sendo que destaco principalmente a performance dos atores e a cenografia, ambos elementos transportam-nos para o tempo e espaço em que as personagens viviam, algo difícil de alcançar visto passar-se numa realidade mais distante e num contexto diferente do português. Com um especial destaque para a performance de Dennis Correia, que interpreta a personagem de Angel, comandou cada cena em que participou, com a sua linguagem corporal e presença em palco com os seus companheiros de cena. Ocupou o espaço e foi a primeira personagem que me fez ficar investida no enredo, no Primeiro Ato do Musical. Este musical que conta as histórias de várias personagens queer, estabeleceu um papel importante na cultura americana do final dos anos 90 como também estabelece esse papel hoje em dia, em que vemos os direitos da comunidade LGBTI+ novamente atacados em vários países. O contexto em que este musical ocorreu foi diferente, sendo que Jonathan Larson escreveu sobre a vida dos seus amigos, no entanto, não deixa de continuar a ser relevante, ver vidas queer a bold e a cores, a serem as personagens principais enquanto cantam a alto e bom som para todo o mundo ouvir, sob os seus receios, vitórias, alegrias, medos e frustrações.