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terça-feira, 3 de junho de 2025

O Lago dos Cisnes de Daniel Gorjão

 Depois de ver o espetáculo, fiquei vários dias a pensar em como uma obra clássica pode ser tão revolucionária. O que Daniel Gorjão fez não foi apenas uma adaptação – foi uma reinvenção completa daquilo que entendemos como teatro e dança. E o mais incrível? Tudo parece tão óbvio quando visto no palco. Por que é que nunca tínhamos visto um Lago dos Cisnes assim antes?

A relação com o público era diferente de tudo o que já tinha experienciado. Normalmente, nos espetáculos de dança, ficamos ali sentados, maravilhados com a técnica, mas distantes. Aqui, era impossível manter essa distância. Quando Inês Cóias olhava diretamente para a plateia enquanto dizia “vocês também sabem o que é isso”, era como se estivesse a falar com cada um de nós individualmente. Não havia como fugir – estávamos todos dentro daquele lago juntos.

Decidi ir ver este espetáculo com a intenção de observar como se trabalha a recriação de um clássico. Fui com essa curiosidade, claro, mas saí com muito mais. No contexto do meu percurso no mestrado em Educação Artística, interessa-me perceber como os dispositivos cénicos podem educar, provocar, transformar. E este espetáculo é, sem dúvida, um exemplo disso. Não há aqui didatismo. Há partilha. E talvez seja essa a forma mais eficaz de ensinar: não impor uma verdade, mas abrir espaço para que cada pessoa encontre a sua, dentro da experiência coletiva.

Para perceber o quão ousado é este Lago dos Cisnes, talvez seja útil recuar até à versão original, estreada em 1877 no Teatro Bolshoi, com música de Piotr Ilitch Tchaikovsky. O bailado clássico conta a história da princesa Odette, transformada em cisne por um feitiço, e do príncipe Siegfried, que se apaixona por ela. É uma narrativa de amor, tragédia e redenção, marcada por uma coreografia exigente e pela música intensa de Tchaikovsky, que se tornou um marco na história do ballet. Ao longo do tempo, O Lago dos Cisnes tornou-se símbolo de virtuosismo técnico e idealização estética – tudo o que, de certa forma, este espetáculo de Gorjão põe em causa.

Aqui, não há tutus nem linhas perfeitas. Há corpos reais, com marcas, hesitações e um desejo visceral de comunicar. Em vez da cisne perfeita, vemos uma multiplicidade de identidades e formas de estar no mundo, sem amarras a um enredo pré-definido. Esta nova versão desmonta o mito da perfeição e devolve-nos uma pergunta muito mais inquietante: o que é que fazemos com as nossas próprias fragilidades? Conseguimos aceitá-las? Mostrar-nos aos outros com as nossas falhas à vista?

Acho que o que mais me marcou foi perceber como o espetáculo falava sobre solidão numa sala cheia de gente. As cenas em que os intérpretes tentavam se conectar, mas sempre havia algo no meio – um movimento que não sincronizava, um olhar que não se encontrava, um abraço que não se completava. Quantas vezes não nos sentimos assim no dia a dia? Cheios de gente à nossa volta, mas ainda assim tão sozinhos?

Essa dimensão política do espetáculo – embora subtil – é inegável. Ao dar espaço a corpos diversos, a movimentos que falham, a vozes que tremem, a peça afirma que a cena contemporânea deve ser um reflexo plural do mundo, e não uma vitrine polida daquilo que é considerado “excelente” segundo cânones ultrapassados. Essa abertura estética e emocional aproxima-se muito da ideia de arte como espaço de escuta e de empatia – mais do que como forma de entretenimento.

E depois havia aqueles momentos de pura alegria. Quando Zé Couteiro começou a dançar sozinho, completamente fora do ritmo, mas com um sorriso tão genuíno que era impossível não sorrir com ele. Era como se, por alguns instantes, todos os padrões tivessem sido esquecidos e só restasse o puro prazer de se mover. Porque no fundo, não é disso que se trata a dança?

O trabalho de som merece outro destaque. As vezes em que ouvíamos os próprios intérpretes a respirar pesado, os pés a arrastar no chão, até os sons dos seus estômagos a roncar. Tudo isso nos lembrava que aqueles eram corpos reais, não máquinas de performance perfeita. E quando, no final, ouvimos as gravações das primeiras tentativas deles durante os ensaios – os erros, as gargalhadas, as frustrações – era como se nos mostrassem todo o processo, não apenas o produto final.

Acho que o que este espetáculo me ensinou foi que a arte não precisa ser perfeita para ser poderosa. Na verdade, é muitas vezes nas imperfeições que encontramos a verdade mais profunda. Quando Batata tentava fazer um movimento e não conseguia, mas tentava outra vez, e outra vez, aquilo era mais bonito do que qualquer pirueta perfeita. Porque era real. Era humano.

E no final das contas, não é isso que todos procuramos? Algo que nos fale da nossa humanidade compartilhada? Algo que nos lembre que, por mais que nos sintamos diferentes, estranhos, fora do padrão, não estamos sozinhos nisso?

Daniel Gorjão e a sua equipa criaram mais do que um espetáculo. Criaram um espaço onde todos os corpos – e todas as histórias que esses corpos carregam – são bem-vindos. E talvez seja isso que o teatro deva ser: não um templo da perfeição, mas um lugar onde podemos nos ver refletidos, em todas as nossas versões, e dizer “sim, eu também sou assim”.

Porque, no fundo, O Lago dos Cisnes de Daniel Gorjão não é sobre cisnes. É sobre nós. E sobre o imenso lago que cada um carrega cá dentro. Depois de ver esta peça, nunca mais vou olhar para um lago – ou para um espelho – da mesma maneira. E se isso não é o poder da arte, não sei o que é.

terça-feira, 20 de maio de 2025

Museu José Malhoa (Caldas da Rainha)

 O Museu José Malhoa localiza-se no Parque D. Carlos I, na cidade das Caldas da Rainha, distrito de Leiria. Foi inaugurado em 1940, com um projeto arquitetónico da autoria de Paulino Montês e Eugénio Correia. Trata-se do primeiro espaço museológico em Portugal dedicado a um único artista, bem como o primeiro edifício concebido de raiz com fins museológicos.

A exposição permanente do museu centra-se, maioritariamente, em obras de cariz naturalista dos séculos XIX e XX. A coleção inclui pinturas, esculturas e cerâmicas que permitem um olhar sobre aspetos marcantes da nossa cultura popular. Para além das obras de José Malhoa, o acervo conta também com trabalhos de artistas como Maria Helena Vieira da Silva, Columbano, Rafael Bordalo Pinheiro, Delfim Maya, entre outros. Paralelamente à exposição permanente, o museu promove exposições temporárias que estabelecem um diálogo entre o acervo histórico e a produção artística contemporânea.

Algumas obras do museu encontram-se espalhadas pelo Parque D. Carlos I. Ao passear pelo lago, entre os jardins ou nas imediações da mata, os visitantes podem contemplar peças de diferentes gerações de artistas, como Leopoldo de Almeida, Leonor de Albuquerque Bettencourt e João Fragoso.

A atual diretora do museu é Nicole Costa, doutorada e mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Brasil. É também especialista em Arte-Educação pela UNICAP, em Recife. Desde 2021, assume a direção do Museu José Malhoa, bem como do Museu da Cerâmica e do Museu Dr. Joaquim Manso. A sua direção tem sido marcada por uma forte aposta na mediação cultural, sobretudo através do trabalho com jovens artistas e alunos de escolas da região, aproximando o museu da comunidade local e promovendo práticas educativas que cruzam arte e território.

Para além das salas de exposição, o museu dispõe de outros recursos, como uma loja, uma biblioteca e serviços educativos. A biblioteca, especializada em arte e cultura portuguesa, possui mais de cinco mil volumes. Os serviços educativos desenvolvem atividades culturais variadas, como visitas guiadas, concertos, palestras e sessões de cinema.

O Museu José Malhoa situa-se junto ao lago, no centro do Parque D. Carlos I. Escolhi este espaço para esta recensão por ser um local de grande relevância, com obras icónicas da cultura portuguesa, mas, acima de tudo, por ter sido o lugar onde senti que as obras iam além da estética — transmitiam empatia e vivências que reconheço. As imagens presentes evocam memórias comuns a quem cresceu em ambientes próximos do campo, ou de famílias marcadas pelo trabalho árduo em fábricas ou na agricultura.

Ao longo do meu percurso escolar, realizei vários trabalhos nas imediações do museu. Sempre me pareceu um espaço sagrado, onde não se podia “ser miúdo”. Talvez essa perceção tenha nascido da imponência da estátua de José Malhoa, logo em frente ao edifício.

A arquitetura do museu é moderna, e a entrada de luz natural contribui para um ambiente de serenidade e contemplação. À entrada, encontramos a receção e uma pequena loja. No dia em que o visitei, uma quarta-feira, não foi cobrada entrada — apenas solicitaram-me o número de contribuinte. Os funcionários mostraram-se disponíveis para prestar informações sobre as obras e cuidados a ter durante a visita. Por exemplo, recomendaram-me não transportar a mochila às costas, de forma a evitar constrangimentos.

O percurso expositivo é organizado de forma circular e contrarrelógio. A visita torna-se fluida, à medida que passamos por diferentes salas que introduzem estilos, autores e contextos.

Destaco, em particular, a sala com obras do Grupo do Leão, a sala de escultura e o último corredor curvo, que reúne pinturas de temáticas mais diversas. No centro do museu existem ainda espaços de apoio, como a biblioteca aberta ao público e uma área técnica onde se realizam registos fotográficos do acervo.






Referências

GoCaldas. (n.d.). Museu José Malhoa – Caldas da Rainha. https://gocaldas.com/museu-jose-malhoa-caldas/

Museus e Monumentos de Portugal. (n.d.). Museu José Malhoa. https://www.museusemonumentos.pt/en/museus-e-monumentos/museu-jose-malhoa/

Centro de Portugal. (n.d.). Parque D. Carlos I. https://www.centerofportugal.com/pt/poi/parque-d-carlos-i/

 

sexta-feira, 9 de maio de 2025

William Klein – O Mundo Inteiro É um Palco

 Introdução – Sobre o que ou quem é a exposição:

Trata-se de uma retrospetiva dedicada ao fotógrafo norte-americano William Klein (Nova Iorque, 1926 – Paris, 2022), considerado um dos artistas mais influentes do século XX. De espírito multidisciplinar, Klein revolucionou géneros como a fotografia de moda e de rua, quebrando convenções estéticas e temáticas da sua época.

A sua experiência na Europa começou quando se alistou no exército, o que o levou a viajar primeiro pela Alemanha e, mais tarde, para França. Após a desmobilização, acabou por se estabelecer em Paris. Em 1948 matriculou-se na Sorbonne e, posteriormente, estudou com o pintor cubista Jules-Fernand-Henri Léger, o que influenciou a sua abordagem visual e conceptual.

Com 26 anos, Klein regressa aos Estados Unidos e cria um diário gráfico da cidade de Nova Iorque. Esse trabalho deu origem ao seu primeiro livro, "Life is Good and Good for You in New York: Trance Witness Revels" (1956), que viria a tornar-se um marco na história da fotografia. Rejeitado inicialmente nos EUA, o livro foi publicado em França e, em 1957, recebeu o Prémio Nadar.

Uma das imagens mais emblemáticas desse projeto é Gun 1, New York (1954), onde uma criança aponta uma arma de brincar diretamente para a câmara, criando uma sensação de ameaça que se transfere para o espectador. O olhar da criança é duro, quase violento – um exemplo claro da audácia de Klein, presente em todo o seu trabalho. Para além do domínio técnico da composição, luz e enquadramento, Klein acrescenta sempre uma provocação temática e formal que desafiava as expectativas da época.

O tema da cidade e da vida pulsante nos grandes centros urbanos tornou-se um traço marcante no seu portfólio. Depois do sucesso do primeiro livro, Klein expandiu o seu registo para outras cidades: Roma (1959), Moscovo (1964), Tóquio (1964) e Paris (2002), sempre com uma abordagem livre e pessoal.

Em 1958, mergulha noutra linguagem artística: o cinema. Começa com a curta-metragem Broadway by Light, e segue-se o filme Qui êtes-vous, Polly Maggoo? (1966), que lhe valeu o Prémio Jean Vigo em 1967. Em 1969, realiza Mister Freedom, um projeto mais independente, marcado por cenas de ação e um forte posicionamento político.

O reconhecimento institucional à sua obra também se fez sentir. Em 2005, o Centre Pompidou, em Paris, dedicou-lhe uma grande retrospetiva, seguida pela Tate Modern, em Londres, em 2012. Ao longo dos anos, diferentes facetas da sua

obra foram exibidas em cidades como Amesterdão, Barcelona, Berlim, Bruxelas, Chengdu, Madrid, Milão, Rouen, Seul, entre outras.

A Exposição

A exposição “William Klein – O Mundo Inteiro é um Palco” está organizada em diversos espaços expositivos, cada um dedicado a diferentes temas fotográficos e vertentes artísticas que Klein explorou ao longo da sua carreira. Logo à entrada do Museu da Eletricidade, onde a mostra teve lugar, deparamo-nos com uma parede onde se lê o nome do autor e o título dado à exposição pelo curador David Campany. Nessa mesma parede estão disponíveis panfletos informativos, em português e inglês, que nos contextualizam um pouco sobre a vida e obra de Klein.

Avançando, encontramos uma parede com uma compilação de imagens consideradas “highlights” da carreira do artista, segundo o olhar do curador. Embora os espaços aparentem estar divididos por temas, a quem conhece a obra de Klein, a sensação que se impõe é de certa confusão. As imagens estão demasiado próximas, o que impede que respirem e tira-lhes parte do impacto. Algumas mereciam uma parede só para si, permitindo uma contemplação mais pausada e valorizando melhor o seu conteúdo.

O primeiro espaço expositivo, particularmente, causou-me algum desconforto. Esperava mais cuidado com a apresentação da obra de um fotógrafo tão marcante, especialmente nas áreas da fotografia de rua e de moda. Em vez disso, somos confrontados com uma espécie de "mixórdia" de imagens de várias vertentes e temas — todas numa só parede. Fotografias feitas na Europa, dentro da abordagem street, estão misturadas com dípticos de moda, sem qualquer separação temática evidente. Apesar das salas serem amplas e permitirem a circulação confortável, a disposição densa das obras provocava uma sensação de claustrofobia. Parecia informação a mais para tão pouco espaço.

Logo a seguir, há uma sala escura onde são projetados pequenos trechos dos filmes realizados por Klein. As imagens são projetadas em duas paredes sincronizadas, com o mesmo áudio, mas legendadas em português e francês, respetivamente. O espaço é confortável e bem pensado — tem bancos voltados para cada ecrã, permitindo uma experiência imersiva e tranquila.

Alguns corredores de passagem acolhem obras aparentemente consideradas de menor relevância — nomeadamente os retratos de celebridades ou fotografias captadas com câmaras digitais. A forma como estas foram colocadas transmite a

sensação de que foram secundarizadas, o que pode não refletir com justiça a amplitude e importância da produção de Klein nestes campos.

Logo após a sala dos filmes, encontramos uma pequena sala escura com imagens feitas no Japão. Este momento da exposição parece finalmente respirar. As fotografias estão bem distribuídas, com o devido espaço entre si, o que valoriza a experiência do visitante. Nota-se aqui uma seleção cuidada, talvez por estarem associadas ao livro Tokyo (1961), dando a ideia de que cada imagem é uma página isolada, com tempo para ser lida. No entanto, persiste um problema que se arrasta ao longo da exposição: o brilho do vidro das molduras e a iluminação excessiva dificultam a apreciação plena das obras, prejudicando o impacto visual.

Segue-se então o espaço dedicado às experiências de Klein com light painting, jogos de espelhos e os seus trabalhos enquanto designer gráfico e pintor. Este espaço está mais escondido, no piso superior, acessível apenas por uma longa escadaria, o que poderá ser uma limitação para alguns visitantes. Apesar de pequeno, o espaço está bem organizado. Há ecrãs com conteúdos multimédia explicativos e, ao centro, uma mesa expositiva com obras de design gráfico protegidas por vidro.

Por fim, entramos no último espaço da exposição, onde estão algumas das imagens mais icónicas de Klein — fotografias disruptivas tanto no universo da street photography como da fotografia de moda. Entre elas, destaca-se o famoso retrato do rapaz a apontar uma arma para a câmara (que quase dispara sobre o espectador); a imagem que nos coloca no meio de uma multidão, com o rosto desfocado de uma senhora em primeiro plano; ou aquela em que parece haver um retrato de gerações familiares, com uma rapariga à frente, seguida por um homem e uma senhora mais velha ao fundo. Também aqui está presente a emblemática fotografia de moda Isabella + Opera + Blank Faces, Paris, VOGUE, 1963, onde a modelo está de frente para a câmara, rodeada por figuras com os rostos apagados.









Bibliografia

Campany, D. (n.d.). About. David Campany. Recuperado em 22 de abril de 2025, de https://davidcampany.com/about/

Connaissance des Arts. (2022, 13 de setembro). Mort du photographe William Klein, l’oeil féroce de la pop culture. Recuperado de https://www.connaissancedesarts.com/depeches-art/deces/mort-du-photographe-william-klein-loeil-feroce-de-la-pop-culture-11176719/

Varsity. (n.d.). William Klein: The photographer who broke all the rules. Recuperado em 22 de abril de 2025, de https://www.varsity.co.uk/culture/5357

Jones, J. (2022, 13 de setembro). High-octane visions: Blurred, distorted genius photographer William Klein. The Guardian. Recuperado de https://www.theguardian.com/culture/2022/sep/13/high-octane-visions-blurred-distorted-genius-photographer-william-klein