Mostrar mensagens com a etiqueta 15878. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 15878. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Exposição “Uma Graça Natural", Torres Novas

Local: Praça do Peixe, Torres Novas Santarém

Data: de 12 de abril a 22 de junho de 2025

Curadoria: António Gonçalves 

Coleções: Fundação Carmona e Costa e Galerias Neupergama



A exposição Uma Graça Natural, patente na Praça do Peixe, em Torres Novas, revela uma curadoria onde a sensibilidade e a inteligência convergem num diálogo intergeracional da arte contemporânea portuguesa. Sobre a direção de António Gonçalves, a exposição reúne mais de cinquenta obras provenientes das colecções da Fundação Carmona e Costa e da Galeria Neupergama, convidando à reflexão sobre a afinidade estética e emocional que atravessa diferentes gerações de artistas. A exposição propõe antes um espaço de diálogo entre obras que, pela sua força plástica e carga poética, partilham um denominador comum: a autenticidade do gesto artístico.

O título Uma Graça Natural sugere, na minha leitura, um reconhecimento da leveza e espontaneidade — não como superficialidade, mas como uma qualidade essencial. Trata-se de uma graça que emerge da liberdade do gesto, de uma intuição rigorosa, da tensão subtil entre o visível e o invisível. A curadoria constrói assim um ambiente poético, onde diferentes linguagens coexistem — do figurativo ao abstracto, da instalação ao desenho — unidas por uma vibração partilhada e por uma sensibilidade que se manifesta no traço, na cor ou no silêncio.

A presença de Paula Rego oferece à exposição uma dimensão profundamente emocional e política. As suas obras, de carácter narrativo e simbólico, exploram o universo feminino e os recantos da psique com um estilo inconfundível: simultaneamente grotesco e lírico, inscrito numa tradição crítica e autobiográfica que questiona normas sociais e visuais.

Contrastando com essa intensidade narrativa, artistas como Julião Sarmento e Rui Chaves adotam uma linguagem mais austera e conceptual. Nestes, o corpo está presente sobretudo pela sua ausência — pela sugestão, pela lacuna. As suas obras, marcadas por uma economia formal, exigem do espectador uma escuta atenta, quase um acto de fé na força da arte silenciosa.

Entre estes diferentes registos, sobressai a subtileza dos traços de Ana Hatherly. A sua escrita visual convoca uma arqueologia do signo e da palavra, num diálogo com a tradição da poesia concreta. Nos seus desenhos, de aparente leveza, esconde-se uma densa reflexão intelectual, demonstrando como um gesto mínimo pode conter um universo inteiro. Já a obra de Pedro Cabrita Reis conduz-nos a um território onde matéria e ideia se confrontam — entre ruína e construção, forma-se uma poética do inacabado.

A dimensão plástica da exposição é amplificada pela qualidade do espaço. A Praça do Peixe, com a sua luz natural filtrada, proporciona uma experiência sensorial envolvente. A disposição das obras não segue uma ordem específica, mas mais uma lógica rítmica, quase musical, que convida o olhar a manter-se, a surpreender-se e a reencontrar-se. A curadoria aposta numa dramaturgia visual oscilante entre impacto e suspensão, entre excesso e contenção. Há momentos de pura contemplação — como o da escultura de Rui Chafes — e outros de confronto direto, como nos desenhos de Mário Cesariny.

O discurso curatorial evita uma explicação exaustiva, preferindo sugerir percursos interpretativos que exigem um pensamento crítico por parte do visitante. As obras comunicam entre si e com o público, formando caminhos visuais e afetivos. A presença de artistas de diferentes gerações reforça a ideia de que a arte é, acima de tudo, um território de encontros — não só formais, mas humanos. O gesto artístico torna-se, assim, uma forma de estar no mundo, uma resistência ao ruído contemporâneo, criando beleza a partir do fragmento, do erro, da dúvida.

Do ponto de vista crítico, é de notar que a exposição exige do público uma certa disposição contemplativa, pouco comum nos ambientes atuais de receção rápida e mediada. Porém, essa exigência é precisamente uma das suas virtudes: a mostra recusa o didatismo e o espectáculo, e convida ao mergulho atento e sensível. A aposta na subtileza e na multiplicidade de leituras confere-lhe uma maturidade estética notável.

Em suma, Uma Graça Natural é mais do que uma exposição de artes visuais — é uma experiência estética e filosófica. Um convite a perceber a arte como escuta, como afeto e como sintonização de sensibilidades diversas. A graça do título é, afinal, aquela que se manifesta quando o olhar, desacelerado, encontra uma forma que fala com o seu interior. Trata-se, sem dúvida, de uma oportunidade não apenas para observar, mas sobretudo para sentir.







quinta-feira, 15 de maio de 2025

Fundación Joan Miró: Entre o lúdico e o politico- Um percurso pela poética da subversão

   A Fundación Joan Miró é considerada um dos centros culturais da cidade dedicado, essencialmente, à obra do artista catalão Joan Miró. Esta foi inaugurada em 1975 e encontra-se no encantador Parc de Montjuïc, acabando por oferecer uma vista magnífica sobre a cidade .Ao atravessar as portas da Fundación, localizado em Barcelona, os visitantes entram em um espaço que ultrapassa os limites tradicionais da exposição artística. Não se trata apenas de um pequeno museu dedicado ao “legado” do artista catalão, mas também de um organismo quase que vivo onde o passado tem um diálogo incessante com o presente, e onde e experimentação, o inconformismo e a liberdade criativa acabam por se transformar em pilares da resistência cultural.

   A arquitetura moderna e luminosa do edifício, projetado por Josep Lluís Sert, prepara o olhar do publico para um percurso fluido e até orgânico, onde a obre de Miró convive com as exposições contemporâneas provocadoras. Podemos dizer que este não é um espaço neutro- é um manifesto.

   A coleção permanente que apresenta algumas das obras mais emblemáticas de Joan Miró, funciona como uma introdução ao universo simbólico do artista, universo este onde a figura humana dissolve-se no sonho, onde o signo automatiza-se e a própria cor grita com uma intensidade primordial.Embora isto, a verdadeira potência da Fundación revela-se na forma como equilibra a vertente mais histórica com curadorias ousadas.

   As imagens aqui expostas acabam por captar um interessante segmento da exposição, onde acabam por se cruzam elementos do imaginário teatral, festivo e etnográfico, sublinhando uma riqueza visual e simbólica da coleção.



   Na primeira imagem, destaca-se um traje colorido com máscara zoomórfica e detalhes escultóricos. O uso de vermelho e verde em padrões geométricos transmite uma energia quase carnavalesca, remetendo a tradições populares ligadas à performance e ao ritual. A inclusão de símbolos da UNESCO sugere a valorização patrimonial e o reconhecimento internacional deste tipo de artefacto. A disposição num manequim branco e limpo, dentro de uma vitrine minimalista, cria um contraste deliberado com a expressividade da peça — uma estratégia museográfica eficaz, que valoriza a peça sem ruído visual adicional.



   A segunda imagem apresenta um conjunto de máscaras e lanternas com forte influência asiática, presumivelmente japonesa, conforme indicado pelos caracteres kanji. Aqui, a curadoria aposta numa justaposição de objetos cerimoniais e teatrais (máscaras kabuki, lanternas, instrumentos), propondo uma leitura transversal entre culturas. A ausência de explicações visíveis pode limitar o envolvimento total do público generalista, mas o arranjo visual é envolvente e desperta a curiosidade.



   Por fim, a terceira imagem mostra uma longa galeria expositiva, onde coabitam máscaras gigantes (típicas de festividades populares catalãs), trajes rurais e carrinhos de venda ambulante. A presença da bandeira arco-íris atrás de uma máscara festiva pode ser interpretada como uma afirmação de diversidade e inclusão — um gesto curatorial subtil, mas significativo, que atualiza os contextos tradicionais. A disposição linear e bem iluminada reforça a leitura cronológica ou temática, embora o excesso de objetos em sequência possa criar alguma saturação visual.

   Assim, posso ainda acrescentar que as exposições exploradas nas imagens revelam uma abordagem museológica onde o objeto performativo e cultural ganha protagonismo. A curadoria destaca-se pela diversidade temática e pelo cuidado estético, ainda que, por vezes, pudesse beneficiar de maior contextualização interpretativa. No todo, trata-se de uma experiência imersiva, rica em símbolos, cores e narrativas — um convite à reflexão sobre a multiplicidade de culturas e expressões humanas.

   A visão curatorial da Fundación Joan Miró é clara: rejeitar a neutralidade. Aqui, a arte não é decorativa, mas interpeladora. As exposições temporárias costumam incorporar, frequentemente, obras que desafiam as normas, questionam o visitante e problematizam o papel da arte na sociedade contemporânea. Este é um espaço onde o lúdico e o politico não se excluem mas sim sobrepõem-se.

   A instituição assume também uma função pedagógica ativa, onde as visitas guiadas, os materiais interativos e os projetos educativos não se limitam apenas à transmissão de conhecimento mas também procuram criar um espaço de questionamento- isto surge pela vontade constante de formar cidadãos críticos e sensíveis e não apenas admiradores passivos.

   Assim, consigo afirmar que visitar a Fundación Joan Miró é entrar numa zona de invenção criativa; é confrontar a beleza com a dúvida, a estética com a ética e o símbolo com a sua origem. Pode,os dizer ainda que este é um espaço que honra a memória de um artista, fundamentalmente do século XXI, ao mesmo tempo que se projeta, de forma corajosa, para o futuro.

   Em suma, na era da velocidade e do consumo rápido de imagens, a Fundación propõe o contrário: um mergulho lento, reflexivo e profundamente sensorial naquilo em que a arte tem de mais necessário- a capacidade de nos transformar.


quinta-feira, 24 de abril de 2025

Febre dos Fenos de Noël Coward





"Febre dos Fenos"

Escola de Atores Inimpetus, Campolide, Lisboa – 10 de abril de 2025



   A comédia Febre dos Fenos, da autoria de Noël Coward e encenada por Jorge Balça, promete charme, sarcasmo e emoção — e, de facto, oferece um espectáculo envolvente e dinâmico, que capta facilmente a atenção do público.

   Desde os primeiros momentos, nota-se uma diferença evidente entre os actores: alguns parecem ainda estar a ganhar confiança em palco, enquanto outros revelam já segurança e à-vontade, como é o caso da actriz Shoral, cuja interpretação destaca-se pela naturalidade e presença. Em contraste, alguns actores masculinos exageram nas expressões e movimentos — o que poderá ter sido uma escolha deliberada para reforçar o lado cómico da peça, mas nem sempre resultou da melhor forma.

   O cenário, embora simples, é eficaz e ajuda a criar o ambiente sofisticado da alta sociedade britânica, sendo esse um dos principais objetivos da peça. No entanto, certas opções de encenação levantam algumas dúvidas — como a utilização repetida da parte frontal do palco (boca de cena) sem motivo aparente, ou os momentos em que os actores projectam demasiado a voz, quase como se estivessem a cantar, o que quebra o realismo da cena, ou ainda as interpretações exageradas bastante marcadas pou um surrealismo estético.



   O humor, no geral, é bem conseguido, embora algumas vezes torne-se exagerado ou mesmo com uma perda de ritmo. Um exemplo disso é uma cena entre duas actrizes que começa com graça, mas acaba por se prolongar demasiado. A personagem do criado Manuel é particularmente carismática e provoca várias gargalhadas no público, mas nota-se que o ator está demasiado consciente do impacto que causa, o que retira alguma naturalidade à sua interpretação e mesmo o impacto cómico que era suposto conseguir. 

   No segundo acto, há uma mudança brusca na narrativa e nos figurinos, o que pode confundir o espectador. A reviravolta é interessante, mas a forma como é apresentada — com trocas de roupa drásticas e o foco em “jogos teatrais” — levanta mais questões do que aquelas que responde.



   Do ponto de vista técnico, destaca-se a direcção de Jorge Balça, marcada por diálogos rápidos e um ritmo acelerado, que para quem conhece bem o seu trabalho percebe ser uma característica comum. No entanto, essa intensidade, aliada ao visível cansaço dos atores, dificulta por vezes a compreensão do texto.

   Em suma, Febre dos Fenos é um espectáculo ambicioso, com momentos de grande qualidade e humor eficaz, mas que sofre algumas interpretações desequilibradas e escolhas criativas que, por vezes, prejudicam a fluidez da narrativa. Ainda assim, destaca-se pela entrega dos actores e pela ousadia em explorar o absurdo e a crítica social de forma original.