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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Museu José Malhoa - Caldas da Rainha

 O Museu José Malhoa foi o primeiro espaço construído de raiz para fins museológicos em Portugal, e isso sente-se: as salas têm um pé-direito generoso, a luz natural entra de forma estudada a complementar o naturalismo das obras de Malhoa. 

A exposição permanente apresenta o maior núcleo reunido de obras de Malhoa, e o que mais ressalta é uma certa alegria de observar; Ramalho Ortigão dizia que ele pintava "sorrindo e cantando, quotidianamente, de Sol a Sol", e isso é visível. As Promessas, de 1933, é um bom exemplo: a cena religiosa popular tratada com calor e sem distância, de quem conhece de perto o que está a pintar.



A secção de cerâmica guarda uma das surpresas da visita. O conjunto de sessenta esculturas de terracota da Paixão de Cristo ocupa um espaço que contrasta com a irreverência habitual de Bordalo. Uma obra quase silenciosa. Para quem conhece o Bordalo caricaturista e populista é uma boa surpresa conhecer este outro lado. 

O núcleo de escultura ao ar livre, espalhado pelo parque, fica um pouco à deriva, na minha opinião. As peças estão lá, mas a conversa entre elas às vezes parece inexistente. Ou pelo menos ela não chega a quem está a visitar o parque e o museu, parecem coisas completamente separadas. Apesar de ser um dos melhores contextos que um museu pode ter.

Mas o que faz com que eu volte ao Museu José Malhoa não é só a sua coleção e exposição permanente, é o que o museu constrói à sua volta. No dia 17 de maio, Dia Internacional dos Museus, houve o lançamento da publicação Juntamos muita gente ao barulho, ligada a uma exposição temporária e oficinas que lá aconteceram, e um concerto do Coro Social do Bairro à porta. 

É um museu que percebe que a comunidade não apenas público e sim pode/deve fazer parte do seu programa. 


quinta-feira, 23 de abril de 2026

"Colapso" de Silvestre Pestana - Galeria Municipal do Porto

A sala comprida que recebia a exposição de Silvestre Pestana parecia uma cena de ficção científica. A sala estava praticamente vazia, éramos apenas três visitantes naquele momento. 


A galeria estava quase às escuras, e os trinta e um painéis LED distribuídos pelo espaço projetavam luz colorida no chão de madeira - reflexos verdes, vermelhos, azuis.  A luz de cada um refletia no chão e misturava-se com a dos outros sem se fundir. Juntar palavras que não pertencem ao mesmo mundo e iluminá-las com a mesma intensidade é o que a exposição faz durante todo o percurso, como se a linguagem tivesse perdido a capacidade de se organizar por ordem de importância. 


Antes de chegar aos painéis, há uma escultura no início da sala, uma estrutura metálica com hastes que irradiam de um centro. Pensei imediatamente num satélite. E se era um satélite, o resto da sala eram as mensagens que ele captava, palavras a chegar de todo o lado, sem ordem, sem hierarquia, num ritmo que não parava.



Um peão corre sem sair do lugar ao lado da palavra "ruptura". Noutro, "AUSÊNCIA" aparece a vermelho no fundo da sala, sobreposta por "REP-ROG-RAM-ADA" em azul-ciano. São imagens simples, mas difícil não ficar em estado de hipnose.

Silvestre Pestana trabalha com poesia visual desde os anos sessenta, e o curador João Laia descreve Colapso como o "poema mais ambicioso" do artista. O que a exposição mostra é que o território que Pestana explorava, a relação entre tecnologia e linguagem, aqui quis que deixasse de haver essa fronteira. Hoje vivemos rodeados de ecrãs com palavras que piscam, e já quase não reparamos. A exposição coloca isso dentro de uma galeria e pede-nos que paremos para olhar.




Fotografias © Lais Pereira

quinta-feira, 26 de março de 2026

A ancestralidade no agora: Yerai Cortés e a Guitarra Coral em Braga

Assistir ao concerto de Yerai Cortés no Theatro Circo, em Braga foi uma experiência que ultrapassou o formato tradicional de um espetáculo de guitarra flamenca. O projeto, intitulado "Guitarra Coral", apresentou-se como uma narrativa viva, onde a música e a encenação se fundiram para contar uma história pessoal. O concerto teve um início marcado por composições calmas, que estabeleceram de imediato um ambiente de recolhimento. O desenho de luz foi um dos elementos que mais me impressionou, com uma estética cinematográfica, as luzes manipulavam o espaço, criando momentos de tensão e suspensão.


A dinâmica no palco reforçava esta fluidez: Cortés e o coro de seis mulheres trocavam de posição de forma tão suave que flutuavam, mantendo a continuidade visual da história sem interrupções. Um dos aspectos mais interessantes foi a inversão da posição habitual no palco. Embora o concerto seja centrado num guitarrista acompanhado por um coro, Cortés toca como se as estivesse a acompanhar a elas. Ao mesmo tempo, o coro feminino desempenha um papel fundamental de encorajamento através do jaleo , criando uma atmosfera de proteção e força.

Para mim, o espetáculo funcionou como a história de um menino chamado Yerai. As mulheres no palco parecem representar figuras femininas que o apoiaram ao longo da vida, como a sua mãe, cuja voz surge num momento marcante através de um áudio integrado nas músicas. A guitarra de Cortés carrega memórias e heranças familiares. Houve dois momentos de profunda entrega emocional que me marcaram particularmente. O primeiro aconteceu quando o guitarrista, movido pela paixão do momento, começou a cantar sem microfone, revelando uma vulnerabilidade autêntica. O segundo ocorreu numa composição em que as luzes se apagaram muito lentamente até à escuridão total, enquanto as vozes do coro continuavam a cantar. Foi um momento de uma beleza desarmante, que chegou "direto ao coração".

O encerramento trouxe uma mudança de energia com o tema "Sonar por Bulerías". Depois de uma viagem tão introspectiva, o concerto terminou com um ritmo vibrante e cheio de vivacidade. Yerai Cortés provou que a inovação no flamenco pode ser feita com simplicidade e honestidade, modificando a técnica da guitarra num veículo para compartilhar uma história de amor e família.


Fotografias © Lais Pereira