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terça-feira, 30 de novembro de 2021

El Río/The River: A collaboration

El Río/The River: A collaboration (Cidade do México: Gato Negro, 2018) é um livro de artista impresso em Risograph, constituído por fotografias da artista estadunidense Zoe Leonard (1961) e poemas de Dolores Dorantes (1973), poetisa e jornalista mexicana exilada nos Estados Unidos por causa do seu empenho como activista. 

O tema principal do livro é o rio que faz parte da fronteira entre o México e os EUA: o rio chamado Rio Bravo de um lado e Rio Grande do outro; a fronteira entre o estado americano do Texas e os estados mexicanos de Chihuahua, Coahuila, Nuevo León e Tamaulipas. O rio, representado nas fotografias tiradas por Zoe Leonard em 2017, constitui o encontro/contraste entre duas realidades violentamente separadas uma da outra e, ao mesmo tempo, indissociavelmente ligadas uma à outra. O rio, constitui um ponto de possível travessia, mas também de possível não-retorno.

A corporalidade e concretude desta fronteira é realçada pelo meio fotográfico, enquanto que o texto escrito mostra a transição de uma língua para outra - a passagem de um país para outro - do espanhol para o inglês. Esta dicotomia é também realçada pelo título bilingue do livro, que revela o significado que Dorantes e Leonard atribuem a este projecto. A intenção deste livro de artista parece ser a de estabelecer um diálogo entre estas realidades confinantes, de criar pontos de contacto. Dentro e através dele, o limite e a separação são desafiados pelo encontro e a hibridação. A dupla vida do rio: bloqueio e movimento, emerge da colaboração destes linguagens.













segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Joana Choumali - Translation

“I would say that to have an authentic approach, you must know yourself, hence the theme of identity. You must accept yourself, you must have a new look, uninhibited." – Joana Choumali
Joana Choumali (1974) é uma artista visual que nasceu, vive e trabalha em Abidjan, Costa do Marfim. Os seus trabalhos dividem-se entre projectos fotográficos e de meios mistos, nos quais ela combina costura e fotografia. O tema principal em que trabalha é o da identidade, um tema que aborda inicialmente através da suas primeiras séries fotográficas, explorando a relação com o corpo e o conceito de beleza, principalmente femininas. No seu trabalho há um enfoque particular na sua própria história e cultura, e como estas se relacionam com diferentes culturas e continentes. A maioria dos temas que a artista aborda estão estreitamente ligados à sua experiência pessoal e ao seu posicionamento: "as a woman, as an African, as a black woman". 

Nas obras de Choumali o instrumento fotográfico é utilizado não só para documentar mas também para interiorizar a própria experiência da artista, em relação ao que ela sente e observa. A fotografia pára a imagem - o momento, a sensação - e concede tempo para re-elaborar o que se está a viver ou já viveu. Ao mesmo tempo, é um instrumento que cria o espaço para abrir conversas e criar ligações entre as pessoas. A artista começa, assim, a ocupar materialmente esse espaço comum, bordando-o, permitindo que narrativas alternativas e pessoais surjam através do desenho dos fios costurados, em diálogo com as pessoas fotografadas. 

Um dos primeiros projectos em que ela explora este processo é Translation (2016-2017), uma série fotográfica iniciada em 2011 durante a crise política e social na Costa do Marfim. Neste momento, Choumali é uma das muitas pessoas na Costa do Marfim forçada a empreender viagens cada vez mais frequentes fora do seu país, e é neste clima político que ela começa a fotografar as pessoas à sua volta, perguntando-se o que irão fazer e para onde irão. Neste projecto, a artista reflecte sobre as desigualdades e dificuldades do acto de viajar devido à sua origem, nacionalidade, cultura ou religião, e sobre as necessidades, desejos e motivações que levam as pessoas a migrar.
“Translation is a series about migrating. Literally and figuratively. By this embroidery work, I wonder what the world would be if we could all move without formalities or visa restrictions, without having to constantly "show guarantees". – Joana Choumali 


Ougadougou - New York, 2016

Ougadougou - New York 2, 2016

Casablanca - Miami, 2017

Banjul - Tokyo, 2017

Banjul - Tokyo 2, 2017

Abidjan - Paris, 2017


Imagens e referências: 


terça-feira, 19 de outubro de 2021

Maria Lai - "Livros cosidos"

 "Pergunto a mim mesma: o que significa coser? Uma agulha entra e sai de algo, deixando para trás um fio: um sinal do seu caminho, unindo lugares e intenções. As coisas unidas permanecem inteiramente como estavam, apenas atravessadas por um fio." (Texto traduzido)

Maria Lai


Coser:

Do latim consuo, pelo infinitivo consuere.

1. Unir por meio do pontos dados com agulha enfiada em linha.

2. [Figurado] Chegar muito uma coisa a outra.



Maria Lai (Ulassai, 1919 - Cardedu, 2013) foi uma artista italiana única pela sua sensibilidade, curiosidade, atenção ao jogo, a relação e a participação. Durante a sua vida, explorou diferentes práticas artísticas, passando do desenho, à escultura e à pintura, ate desenvolver o seu interesse em as práticas locais tradicionais como a costura.


Nasceu a 27 de Setembro de 1919 na aldeia de Ulassai, Sardenha. Em 1932 inscreveu-se no Istituto Magistrale, onde conheceu o autor Salvatore Cambosu, o seu professor de italiano e com quem estabeleceu uma profunda amizade. Em 1939 estabeleceu-se em Roma para estudar no Liceo Artistico, mudando-se para Veneza no 1943 para frequentar a Accademia di Belle Arti com Arturo Martini, onde foi a única mulher estudante. Nos anos ’50, regressou a Roma, onde entrou em contacto com as primeiras formas de Arte Povera e Arte Conceptual. Importante foi o seu conhecimento com o autor sardo Giuseppe Dessì, que a aproximou das histórias e lendas da Sardenha.


Vou deter-me aqui na investigação e produção artística que ela começou a desenvolver por volta dos anos ’60 e ’70, período em que as suas obras se aproximaram ao mundo do artesanato e da edição, experimentando as possibilidades narrativas do livro como artefacto mas também como suporte sobre o qual convergir desenhos, signos, fios de discursos ou, literalmente, discursos de fios. Os materiais que Maria Lai utiliza são materiais pobres, utilizados principalmente na vida quotidiana, tais como pão, terracota, lã, fios, tecidos e telas.


Entre as obras deste período encontram-se a série de "Livros cosidos", livros de artista feito de fios, colagens de tecidos e bordados à máquina. A leitura destes livros não é uma leitura convencional, as linhas de texto cosidas alternam-se entre signos e palavras e os desenhos bordados dão espaço à imaginação e à descoberta. Através dos signos e caminhos traçados pelos fios, pode-se perceber o cuidado e paciência com que estes livros foram criados; os fios que atravessam as páginas da tela visualizam não só o gesto mas também a sua temporalidade.


O livro, as histórias, a experimentação, esta busca contínua de relacionamento e comunicação, caracterizam a experiência e pesquisa artística de Maria Lai: uma necessidade contínua e mutável de unir e ligar materiais, partes, práticas, mundos e experiências diferentes.



"Os livros cosidos pedem para serem tocados, folheados, página a página, para que o leitor se demore mais tempo com atenção." (Texto traduzido)


Maria Lai



Diario intimo, 1977
Papel e fio


Sem titulo, 1978
Meios mistos sobre papel


Livro cosido, 1979
Papel, fio e tecido

Autobiografia, 1979
Tecido e fio sobre madeira pintada


Emilio, 1980
Livro de artista bordado


Livro cosido, 1982
Colagem de tecido e fio



Curiosape, 2002
Livro de artista bordado


Tenendo per mano il sole, 2004
Livro de artista com CD e caixa original