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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Arte urbana em Lisboa como exposição permanente




    A cidade de Lisboa apresenta-se, na contemporaneidade, como um espaço onde a arte urbana assume um papel cada vez mais visível, podendo ser interpretada como uma espécie de exposição permanente ao ar livre. Distribuídas por diferentes zonas da cidade, estas intervenções visuais transformam fachadas, muros e infraestruturas urbanas em suportes artísticos, criando um percurso não institucionalizado que desafia os modelos tradicionais de exibição. A observação direta destes percursos urbanos, realizada ao longo de diferentes deslocações pela cidade, permitiu-me reconhecer uma continuidade visual que sustenta esta leitura expositiva.

Montagem de pormenores de intervenções de arte urbana em Lisboa, a partir de fotografias maioritariamente de Maria João Neves, com inclusão de imagens de Vhils (Scratching the Surface, Printed Matters) e de Edis One, publicada na Time Out

    Do ponto de vista descritivo, esta “exposição” caracteriza-se pela diversidade de técnicas e linguagens visuais. Entre os artistas com maior reconhecimento internacional encontram-se Vhils, cuja prática se distingue pela escavação direta das superfícies murais, e Bordalo II, que utiliza resíduos urbanos para compor figuras de grande escala. A estas abordagens juntam-se trabalhos de diversos artistas, nacionais e internacionais, que têm contribuído para a afirmação de Lisboa como um território relevante no panorama da arte urbana contemporânea. Entre estes, destaca-se Shepard Fairey aka Obey Giant (EUA), cuja presença na cidade evidencia a dimensão internacional e politicamente engajada desta prática. A crescente visibilidade destas expressões está também relacionada com o trabalho desenvolvido pela Galeria de Arte Urbana (GAU), estrutura promovida pela Câmara Municipal de Lisboa que tem contribuído para legitimar, preservar e divulgar muitas destas práticas no espaço urbano.



Vhils; intervenção calçada portuguesa, Mouraria; Fotografia Maria João Neves 

        Shepard Fairey; Peace Guard, bairro da Graça; Fotografia Maria João Neves

    A análise formal destas intervenções revela uma forte dependência do contexto urbano. A utilização da calçada portuguesa como suporte artístico transforma um elemento tradicional do espaço urbano num meio de expressão contemporânea, articulando memória, identidade e intervenção visual. Por sua vez, Shepard Fairey (imagem) ,utiliza uma linguagem gráfica próxima do cartaz político, evidenciando a relação entre arte urbana e comunicação ideológica. Importa ainda referir que o mural Peace Guard, localizado na Graça, foi alvo de uma intervenção posterior por parte do próprio artista, que alterou significativamente a sua paleta cromática, substituindo os tons originais de vermelho e amarelo por uma predominância de azul. Esta transformação evidencia a natureza dinâmica da arte urbana, cuja evolução resulta não apenas da ação do tempo e do espaço urbano, mas também de revisitações autorais. Assim, estas práticas demonstram como a materialidade e a linguagem visual estão profundamente ligadas ao espaço em que se inserem.

    Neste seguimento, do ponto de vista interpretativo, muitas destas intervenções articulam-se em torno de problemáticas contemporâneas, como o consumo, a sustentabilidade e a memória urbana. As obras de Bordalo II evidenciam uma crítica ao excesso de produção de resíduos, enquanto Edis One reforça esta preocupação através da representação de espécies em risco de extinção, introduzindo uma dimensão pedagógica e global.

Edis One; intervenção mural em Benfica; Imagem publicada na Time Out      


          

 Bordalo II: Big Trash Animals: lince-ibérico, Parque das Nações e Koala, Xabregas, Lisboa; Fotografias Maria João Neves         


     Por outro lado, Tamara Alves acrescenta uma dimensão simbólica e emocional, explorando a relação entre corpo, instinto e animalidade. Os seus murais, marcados pela presença recorrente de figuras femininas e elementos selvagens, aproximam a arte urbana de uma linguagem poética e introspectiva. Já Mariana Duarte Santos, a partir de uma imagem de Artur Pastor, recupera a memória de uma Lisboa desaparecida, transformando o espaço urbano num lugar de evocação histórica e cultural. Neste caso, a arte urbana aproxima-se de um gesto de arquivo e reinterpretação da memória coletiva.

Tamara Alves; Mural traseiras Underdog Gallery; Fotografia Maria João Neves


Mariana Duarte Santos; Intervenção mural; Arroios; Fotografia Maria João Neves


        A multiplicidade de intervenções urbanas em Lisboa sugere não apenas uma expansão da arte no espaço público, mas também a sua progressiva integração em circuitos institucionais e turísticos, levantando a questão de saber se esta prática ainda mantém a sua dimensão crítica ou se se transforma, gradualmente, numa linguagem visual legitimada e enquadrada. A própria existência da GAU evidencia esta tensão entre espontaneidade e institucionalização: ao mesmo tempo que promove a preservação e valorização da arte urbana, contribui também para a sua integração em estratégias culturais e de construção da imagem contemporânea da cidade.

    Neste contexto, intervenções como as do duo PichiAvo (Espanha), nomeadamente o mural de Poseidon, evidenciam a aproximação da arte urbana a referências da tradição clássica, através da fusão entre escultura e graffiti. Esta articulação entre linguagens distintas reforça a ideia de uma prática cada vez mais legitimada, capaz de estabelecer um diálogo entre cultura erudita e cultura urbana no espaço público.

PichiAvo; Poseidon; intervenção mural, Lisboa; Fotografia Maria João Neves

    Em síntese, a arte urbana em Lisboa pode ser entendida como uma forma de exposição permanente que desafia os modelos tradicionais de apresentação artística, não apenas pela sua acessibilidade, mas pela sua integração direta no quotidiano urbano. Mais do que afirmar nomes já consolidados no panorama internacional, esta prática revela-se como um campo dinâmico de produção visual, onde se cruzam diferentes linguagens, intenções e contextos. Neste sentido, mantém-se num equilíbrio entre resistência e legitimação, funcionando simultaneamente como espaço de expressão crítica e como elemento ativo na construção da imagem contemporânea da cidade. Enquanto experiência vivida, esta exposição não se limita a ser observada, mas é atravessada, implicando o espectador num processo contínuo de interpretação e redefinição do espaço urbano.

    A sua importância social vai muito para além do movimento artístico em voga, o facto de ser gratuito, acessível a qualquer pessoa, independentemente da sua condição socioeconómica, garantindo oportunidade de ser apreciado por diferentes olhares, treinados ou não, conferindo democraticidade no acesso à arte. 

    Esta prática faz justiça à igualdade no direito de acesso à cultura, proporcionando obras de autor a pessoas residentes em bairros que, de outro modo, dificilmente teriam acesso a estes contextos artísticos. Como ganhos paralelos, destaca-se a preservação do espaço público face a intervenções aleatórias, sobretudo quando as comunidades locais se encontram, de alguma forma, envolvidas na realização das obras. A partir do momento em que o espaço urbano passa a incorporar elementos com valor artístico, verifica-se também uma revalorização simbólica e estética do território. Neste contexto, no bairro da Graça, o trabalho de AkaCorleone evidencia uma abordagem gráfica contemporânea, marcada por formas geométricas e uma linguagem próxima da cultura visual digital, enquanto a obra de OzeArv se destaca por uma composição orgânica e cromaticamente intensa, sugerindo uma leitura da cidade como um espaço vivo e em constante transformação. Por sua vez, no bairro de Marvila, as intervenções de Eduardo Kobra (Brasil) introduzem uma dimensão monumental e de alcance global, reforçando a ideia de Lisboa como um território onde coexistem práticas locais e internacionais no espaço urbano. 

AkaCorleone; Bairro da Graça; Fotografia Maria João Neves

OzeArv; Bairro da Graça; Fotografia Maria João Neves

                                 Kobra; Bairro Marvila  (2017/ 2026) ; Fotografias Maria João Neves            

    A oportunidade única de ter na sua habitação ou espaço de vivência, uma peça de arte urbana de reconhecido mérito, enaltece o sentimento de pertença e o orgulho, de (com) viver num local onde existe algo que valoriza o espaço. Propicia um processo de consciencialização para um processo de educação de consumidores de cultura.

    As quatro paredes de um museu são demasiado estreitas para a magnitude e formato da maioria das obras de arte urbana, que precisam de ser apreciadas no contexto dos sons da cidade, em convívio com os elementos naturais, chuva, sol dia, noite que conferem diferenciação na apreciação das diversas propostas artísticas. Um exercício interessante será reconhecer cada autor e qual a intenção da sua proposta.

    Convido à redescoberta desta nossa cidade, museu a céu aberto, operando uma navegação  por espaços improváveis que para além do prazer artístico inerente à observação, amadurece a noção do espaço e das pessoas que nele habitam. 


quinta-feira, 23 de abril de 2026

“O Museu Fora do Armário”, de André Murraças


Esta imagem é uma releitura artística contemporânea do icónico "Retrato do Rei D. Sebastião", pintado originalmente por Cristóvão de Morais. Esta versão específica, adornada com flores e um fundo claro, faz parte do projeto "O Museu Fora do Armário", concebido por André Murraças.

    Ao entrar no Palácio Pimenta, a visita inicia-se pela esquerda, estruturando-se segundo um percurso cronológico que atravessa diferentes períodos históricos, desde a época Romana até à Revolução dos Cravos. 

    Desde o início, é enunciada a ideia de que “Lisboa é feita por várias camadas e vários artistas”, estabelecendo-se assim o princípio orientador: a possibilidade de reinterpretação da exposição permanente a partir de uma perspetiva crítica e inclusiva.

    Mais do que um simples percurso guiado, esta proposta assume-se como uma prática de mediação cultural que promove a desconstrução das narrativas dominantes. A visita revela-se particularmente eficaz ao orientar o olhar do espectador para elementos frequentemente marginalizados ou invisibilizados. Um exemplo disso mesmo ocorre na chamada “sala de espelhos”, onde André Murraças destaca um azulejo que parece representar a proximidade romântica entre duas figuras masculinas. Este gesto curatorial funciona como dispositivo pedagógico, ao introduzir uma leitura que desafia a heteronormatividade implícita nos discursos museológicos tradicionais.

    Painel de azulejos representando duas figuras masculinas em proximidade, observado na “sala de espelhos” do Palácio Pimenta. Fotografia Maria João Neves

    Ao longo do percurso, assinalado pelo logótipo do projeto “Museu Fora do Armário”, constrói-se uma narrativa que articula análise histórica com interpretação crítica. 

    Outro exemplo é a referência a cantigas de amor trocadas entre homens na sua origem, que após passarem pelo crivo censório foram convertidas em modelos heteronormativos, evidenciando processos de reescrita e apagamento cultural, por parte do Vaticano. Do mesmo modo, o retrato de D. João V adquire uma nova dimensão interpretativa: a pose, nomeadamente a mão na cintura e a expressividade do corpo, permite compreender a imagem régia não apenas como representação de poder, mas como construção performativa, onde o corpo se afirma enquanto espaço de encenação e significação.

         Retrato de Dom João V, em exibição no Palácio Pimenta. Fotografia Maria João Neves

    A abordagem mantém a sua consistência ao integrar períodos marcados pela repressão, como a Inquisição, através do caso de Maria Duran, evidenciando limitações dos sistemas legais da época no tratamento de identidades dissidentes.

    No contexto da sala oitocentista, a referência à obra de Eça de Queirós, nomeadamente Os Maias, reforça esta leitura ao evidenciar tensões e ambiguidades presentes na representação da sociedade da época, abrindo espaço a interpretações contemporâneas que questionam os modelos normativos de género e comportamento.

    O percurso culmina na sala dedicada à queda do Estado Novo, onde a Revolução dos Cravos é apresentada como momento de ruptura e transformação, associado à emergência de novas possibilidades de visibilidade e afirmação identitária.

    No seu conjunto, a visita guiada revela-se uma intervenção crítica consistente, ao propor uma reconfiguração do olhar sobre o acervo museológico. Ao evidenciar a dimensão simbólica das obras, demonstra como a autoridade visual pode ser reinterpretada à luz de perspectivas contemporâneas, promovendo uma experiência reflexiva ainda que alinhada com princípios de educação artística.

    A conclusão da visita, marcada pela observação de uma bandeira Arco Íris, reforça esta dimensão pedagógica e política, ao transmitir uma mensagem, pertença, e segurança, estabelece uma ligação significativa entre passado e presente. Relembra que, em Portugal, apenas em 1982 a homossexualidade deixou de ser considerada uma patologia, enquanto esse percurso, no contexto internacional, remonta a 1973, quando a American Psychiatric Association a retirou da lista de perturbações mentais. A visita evidencia percursos de invisibilidade e repressão, mas também conquistas recentes no reconhecimento de identidades e direitos.

    Esta visita guiada, promovida pelo projeto Museu Fora do Armário, irá realizar-se quatro vezes até ao final do ano no Palácio Pimenta, estando previstas iniciativas semelhantes em outros museus, com o objetivo de divulgar a cultura LGBTQIA+ através da reinterpretação de obras do acervo cultural nacional.

    A experiência revela-se altamente recomendável, não apenas pela sua relevância temática, mas pela forma consistente como escalpeliza uma leitura crítica e inclusiva, contribuindo para a ampliação do olhar sobre a história e a sua representação.


quinta-feira, 26 de março de 2026

Mazgani em Almada entre memórias e cinema

Foi a primeira vez que fui ver e ouvir um concerto de Mazgani e, desde o momento em que começou, senti que entrei num espaço intermédio entre geografias, memórias e atmosferas cinematográficas. No passado dia 6 de março, no Teatro Municipal Joaquim Benite, essa travessia tornou-se particularmente evidente com a apresentação de Cidade de Cinema, o mais recente trabalho do artista.

Nascido em Teerão, no Irão, e criado em Setúbal, Shahryar Mazgani pode, em certa medida, ser pensado como um iraniano português, carregando consigo uma identidade híbrida que atravessa a sua música. Essa origem não é apenas biográfica, é sensorial. Há na sua sonoridade uma certa melancolia e contemplação que nos traz à memória cantores como Leonard Cohen e Nick Cave. Canta maioritariamente em inglês, mas também em português, num registo onde a poesia, o silêncio e a introspeção assumem um papel central. Num contexto global marcado por tensões e conflitos, a sua presença  que transporta de forma evidente essa herança,  ganha ainda mais peso simbólico, lembrando-nos da profundidade cultural de um país tantas vezes reduzido a discursos políticos.

Mazgani apresentou-se com uma presença contida quase arrogante mas que provocava curiosidade num magnetismo misterioso. Quase não falou com o público,  limitando-se a um breve “Estão bem, meus queridos?” de vez em quando, enquanto afinava uma das diferentes  guitarras que usou, mas não foi necessário mais. A comunicação fez-se sobretudo através da música. A sua postura em palco, por vezes deslizante, quase dançante, contrastava com a economia de palavras, criando uma tensão interessante entre distância e envolvimento.

Musicalmente, o concerto foi marcado por uma fusão eficaz entre guitarras vibrantes e uma bateria pulsante, construindo um ambiente sonoro que evocava claramente o universo do rock alternativo com forte carga cinematográfica. Havia momentos em que a sala parecia transformar-se numa paisagem americana, como se estivéssemos a atravessar uma estrada infinita, algures entre a Route 66 e um filme de Tarantino. Esta dimensão imagética está alinhada com o próprio conceito do álbum, descrito pelo artista como “uma fantasia de silêncio e transcendência”.

A reação do público foi num crescendo começando tímida, mas ao longo da apresentação  foi-se confirmando o impacto nos presentes. A sala cheia respondia no final de cada tema com entusiasmo genuíno,  uma mistura de surpresa e admiração.  No último momento, muitos aceitaram o convite de Mazgani e aproximaram-se do palco, para festejo conjunto, alguns a dançar,outros a aplaudir em uníssono, como se finalmente tivessem encontrado o lugar certo dentro daquele universo.

Ainda assim, essa contenção do artista pode dividir. Para alguns, reforça a aura quase mística do concerto; para outros, pode criar uma certa distância emocional. Mas talvez essa seja precisamente a proposta: não facilitar, não explicar demasiado, deixar espaço.

No fim, fica a sensação de ter assistido a algo mais do que um concerto. Entre o Irão e Portugal, entre o silêncio e o ruído, Mazgani constrói um território próprio, um lugar onde a música não se limita a ser ouvida, mas habitada. E isso, hoje, é raro.Para quem ainda não conhece, fica o convite é um universo que merece ser explorado.


Fotografias Maria João Neves