domingo, 24 de maio de 2026

 

A comédia da sociedade do espetáculo: “Em sede própria”, de Joana Marques

O espetáculo de Joana Marques, com a duração de duas horas, recorda em tom de comédia o processo de acusação de que foi alvo por parte da dupla Anjos. Uma acusação que, para além de julgada pela justiça portuguesa, foi, acima de tudo, um espetáculo público nas televisões. É sobretudo sobre este julgamento público que Joana Marques desenvolve a sua peça cómica e é, do ponto de vista do espectador, que se escreve esta recensão sobre o constante espetáculo vivido pela sociedade.

Joana Marques começa por olhar para si própria. Acusada de lesar profundamente a vida dos dois cantores por, alegadamente, lucrar com um vídeo onde reagia comicamente ao concerto dado no MotoGP em 2022, a humorista reconsidera sobre pessoas da sua vida em que, de facto, esta acusação poderia ser plausível, iniciando a peça com as típicas piadas de stand-up que partem do espaço familiar. Faz, assim, uma transição inteligente entre o "eu" (o seu espaço privado e as suas relações pessoais) e o hemisfério público, chegando finalmente ao motivo do seu espetáculo: satisfazer a curiosidade de todos os presentes sobre o quão longe foi este caso e o seu absurdismo.

Ao trazer este caso para salas como o Coliseu dos Recreios, Joana Marques atribui-lhe o seu verdadeiro pano de fundo: um palco. É impensável que os tribunais portugueses e a justiça nacional tenham dispensado 108 dias para dar palco a um espetáculo público, servindo audiências de televisão e iniciativas promocionais que agora desaguam em anúncios da água Frize. Só é possível encerrar esta situação com comédia, que serve não só para rir, mas também para refletir, de forma leve, sobre o ambiente em que vivemos, cumprindo aquilo que é esperado de uma sátira social, a raiz da comédia.

“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação.” (Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo, 1967; primeiro aforismo)

Este caso, e a forma como é apresentado por Joana Marques, é um excelente resultado artístico que ilustra o que Debord explora no seu livro. A forma como todo o julgamento foi tratado como uma espécie de Casa dos Segredos, com direito a comentadores em programas noturnos, deu audiência a queixosos que se aproveitaram de um vídeo cómico para criar toda uma realidade performativa, justificando o pedido judicial e a indemnização de um milhão de euros que exigiam à humorista.

Mas este caso vai além daqueles que nele estavam envolvidos, é aproveitado por uma série de personalidades que fazem a sua vida não do comentário social, mas da permanente "conversa de café" patrocinada por grandes canais televisivos. Cristina Ferreira é uma das presenças mais recorrentes nos recortes de vídeo aos quais Joana Marques se dirige frequentemente durante a atuação. É, talvez, uma das mais evidentes criadoras de espetáculos, para quem toda a realidade, mesmo que não seja a sua, se esvai nos programas que apresenta como mote para a produção constante de visualizações e, consequentemente, faturação. Nestes contextos, a sua palavra age como a moral e o exemplo para aqueles que a ouvem em casa. Palavras que, com um tom pedagógico, se revelam desinteressadas nas situações reais e servem unicamente para consolidar a ficção de si própria que cria em torno das histórias dos outros.

Em suma, Em sede própria desafia as esferas onde atuamos (a privada e a pública), trabalhando-as através de uma sátira bem construída que envolve a justiça portuguesa, mas essencialmente as personalidades televisivas que utilizaram o caso como meio de produção económica, precisamente aquilo de que Joana Marques foi acusada.


Húmus, a paisagem em diferentes escalas

A exposição Húmus, no Atelier-Museu Júlio Pomar, composta de obras muito diversas com desenho, escultura, pintura e assemblages, de Júlio Pomar, Graça Morais, Daniel Moreira e Rita Castro Neves, esteve aberta ao público entre 26 de novembro e 5 de abril de 2026.


Flyer da exposição Húmus, Júlio Pomar, Graça Morais, Daniel Moreira e Rita Castro Neves, no Atelier-Museu Júlio Pomar. 


Existem obras dispostas logo no espaço exterior do Atelier-Museu que utilizam ferramentas, de amanhar a terra, como matéria-prima. Despojadas da sua função original, essas ferramentas provocam imediatamente uma inquietação sobre a questão de fundo, o afastamento do Homem do mundo natural. Esse mundo natural, do qual o Homem participa desde tempos ancestrais, e cuja atuação tem vindo a alterá-lo de forma violenta.

Obras dos artistas Daniel Moreira e Rita Castro Neves, colocada no expaço exterior do edifício.
Fonte: printscreen da galeria de imagens da exposição no jornal Público online

A exposição, à semelhança de outras anteriores, coloca obras de Júlio Pomar em diálogo aberto com obras de outros artistas. Ana Rito, curadora da exposição, convoca para este diálogo três outros artistas plásticos: Graça Morais e a dupla Daniel Moreira e Rita Castro Neves, os artistas são de gerações diferentes mas com uma clara afinidade temática, com um chão comum. Ao entrarmos no espaço expositivo, encontramos dois textos, distantes nas datas: um de Raúl Brandão e outro de Herberto Helder, em que o húmus é a matéria descrita. Para um é morte, para o outro é o pulsar da vida. 

Preciso aqui de uma árvore... Não é uma figura — é uma série de figuras... Afigura-se-me que estes seres estão encerrados num invólucro de pedra: árvore, do outro o absurdo. Tem as mãos como cepos. 
Raúl Brandão, Húmus, 1917

A terra remexe (...) ouve-se a dor das árvores. Sente-se a dor dos seres vegetativos, ao terem de apressar a sua vida lenta. Os mortos empurram os vivos. E em volta, em círculo, montanhas atentas. Na árvore, a alma da árvore. Na pedra, a alma da pedra. Todos deitam flor. O que estava por baixo está agora por cima. A um grito em baixo corresponde logo um grito em cima. Os seres extraordinários que ainda não tinham entrado no mundo. 
Herberto HelderHúmus, 1967

A metáfora dos "de baixo" e dos "de cima" é também um elemento expressivo do próprio espaço expositivo, uma vez que a exposição se desenvolve em dois pisos. Estando no piso térreo, a nossa visão está limitada e procura encontrar um raio de luz que nos conduza até à superfície, no piso superior. A curadoria afirma, na folha de sela, que a exposição é uma "ensaio instalado", que se afasta quer da ilustração quer do texto.

As peças do piso térreo são misteriosas, nunca silenciosas, ao ponto de nos perdermos, sem sabermos em que dimensãoda vida ou da morte, nos encontramos. Duas das peças da dupla Daniel Moreira e Rita Castro Neves, que nos recebem logo à entrada desse piso, são duas grandes esculturas/silhuetas de animais, espelhadas, que absorvem o espaço, o espectador e as obras expostas nas paredes (de pé-direito altíssimo), numa lógica de assimilação.


Vista da entrada na exposição no piso inferior. As obras dos animais em espelho são dos artistas Daniel Moreira e Rita Castro Neves. 
Fotografia de Cláudia Dias. 

Húmus é um sussurro: as obras de Júlio Pomar e de Daniel Moreira e Rita Castro Neves, espreitam as inquietações da energia geradora da naturezada morte faz-se vida. As assemblages destes artistas convivem lado a lado, sem denúncia imediata de autoria (não fossem as legendas trair esse jogo de escondidas). A matéria-prima são elementos recolhidos na natureza: fragmentos mortos recombinados pela mão humana, que se tornam, simultaneamente, matéria e obra. A ação de respigar na natureza, quer pela mão quer pelo olhar humano, emerge como mote criador. As obras tanto parecem celebrar os acasos do Homem como sublinhar a sua finitude. As peças dispersas nas paredes, afiguram-se como um puzzle. 


Parede com obras dos quatro artistas, em que não se identifica imediatamente qual a autoria das obras, os pontos de contactos entre todas proporciona um conjunto muito coeso e de síntese. 


Ascendendo ao piso superior, na escada, por cima de nós, espreita uma obra de Júlio Pomar da sua série de caracóis, anunciando o encontro com a sua obra gráfica. Entre os “de cima” encontramos maioritariamente desenhos e pinturas de Júlio Pomar e Graça Morais, artistas que foram em certa altura contemporâneos e o diálogo entre as suas obras é mais direto. As obras de ambos trabalham temas que as aproximam: séries de elementos vegetais e animais muitas das vezes em metamorfoses, o diálogo em certos momentos é suspenso por monólogos que irrompem, exclamando o mesmo espanto perante a vida.


Obra de Júlio Pomar, da série Caracóis. Fotografia: Cláudia Dias.


Neste piso, Daniel Moreira e Rita Castro Neves apresentam uma peça vídeo cuja instalação nos remete para um artefacto que auxilia o olhar sobre a natureza, recordando-nos a nossa escala humana e a vida que se desenrola para além de nós. Nesta obra, a cor é vibrante e a matéria viva. Exaltemos a vida ou as suas enormes possibilidades. 



Obra de Daniel Moreira e Rita castro Neves. Fotografia: Cláudia Dias.


Somos parte desse ecossistema em camadas justapostas, visíveis e invisíveis, com as quais nos confrontamos. O húmus surge, assim, como metáfora aberta sobre a nossa existência.

Aqui exposição completa-se como num ciclo natural: o que era inerte parece agora ganhar vida, despontar para a luz que alimenta. Completa-se, mas não se fecha a narrativaestas peças são fragmentos soltos da paisagem e da existência humana, convocando-nos a refletir sobre a beleza, mas também sobre a violência da natureza. Circulamos entre raízes, paus, folhas, musgo, bichosfiguras humanas mutantes, sombra e luz.  

A exposição é, em si, uma constelação de fragmentos que nos recordam os ciclos da natureza: o húmus como matéria em transformação. Todos os diálogos ali convocados estão também em mutação, lembrando-nos que o Homem é herdeiro e transmissor do saber ancestral, enquanto cuidador e transformador da natureza. Que papel desempenhamos no contexto atual? Serão as alterações climáticas resultado deste esquecimento coletivo?


Série de pinturas Romã, Graça Morais. A Romã vai ao longo da série sofrendo uma abstração.

Estas questões permanecem latentes ao longo de toda a exposição, mas a peça que parece colocá-la de forma mais direta é uma das obras de Daniel Moreira e Rita Castro Nevesuma enorme escada que orienta o olhar num sentido ascendente, cujos degraus, frágeis, não nos convidam a subir. Esta obra foi construída com madeiras recolhidas num território da Beira Alta que sofreu um terrível incêndio — região onde os artistas recuperaram uma antiga escola e desenvolvem residências artísticas. 

A curadora Ana Rito, escolheu fechar a exposição com uma nota de vida e esperança expondo a última obra de Júlio Pomar, uma assemblage, antes da sua morte no ano de 2018. A obra intitula-seNove meses. 


Nove meses, Júlio Pomar, 2017.



NOTA: As legendas das imagens estão incompletas porque no momento da visita não documentei as legendas e o catálogo da exposição ainda não foi editado. Será possível actualizar as legendas com a consulta do catálogo aquando da sua edição.


sexta-feira, 22 de maio de 2026

Viajar sem passaporte, pelas mãos do colecionador: Casa Ásia - Coleção Francisco Capelo

 No imaginário coletivo português, a ideia de Oriente é muitas vezes construída a partir de um prisma assente nos ecos da nossa história comum, numa visão quase sempre moldada pela nossa própria mundividência ocidental e colonial. Contudo, quem sobe o Largo Trindade Coelho e cruza o portal do renovado Palácio de São Roque depara-se com algo inteiramente distinto. A Casa Ásia - Coleção Francisco Capelo não se propõe a ser mais um repositório cronológico do "encontro de culturas". É, antes de mais, o testemunho de uma obsessão estética ancorada por uma erudição fora do comum.




Placa na entrada, e fachada exterior do museu
imagens acedidas em casaasia-cfc.scml.pt/o-edificio/

Distribuído por vários pisos que guiam o visitante numa geografia quase labiríntica, o museu alberga cerca de 1300 peças (cerâmicas, têxteis, pinturas, esculturas, manuscritos, mobiliário, etc.) que cobrem um hiato temporal avassalador, desde o século III a.C. até ao início do século XX. O que salta imediatamente à vista não é a mera catalogação das peças por catorze países (do Japão e da China ao Camboja, Tibete e Filipinas), mas a impressionante coerência da sua qualidade artística e estado de conservação.

Do rebuliço cacofónico do movimento turístico no exterior, o silêncio interior convida à contemplação (tive a sorte de estar completamente sozinha na minha visita). A equipa do museu é acolhedora, sem ser impositiva, e a expografia é discreta, sem perder a clareza. O espaço, tal como é habitual nas exposições de coleções deste tipo, está envolto em penumbra, com pequenos apontamentos de luz revelando as peças. Aqui, no entanto, cada pequena sala está mergulhada na escuridão e é o movimento do espectador que espoleta o acendimento das luzes, criando uma experiência interessante, em que cada vão que se atravessa quase a medo, traz novas curiosidades para fruir.




Escadaria de entrada no museu e vista de uma das salas da coleção Japão
Imagens acedidas em casaasia-cfc.scml.pt/o-edificio/

Não é permitido fotografar no museu, em nenhuma circunstância. Como alternativa, o espaço oferece uma visita virtual das peças mais importantes através da aplicação Zoom Guide (que reconhece a peça através da câmara do telemóvel e apresenta automaticamente a informação), criando uma sincronia inesperada entre objetos históricos e fruição tecnológica. Pena é que a voz que lê os textos na dita aplicação seja criada por IA: mecânica, fria, e muitas vezes incorreta na pronúncia das palavras, o que torna a experiência de ouvir quase inútil, sendo muito preferível ler os textos disponibilizados.


Screenshots da aplicação zoom guide utilizada para obter informações sobre as peças

Capelo, conhecido tanto pelo seu olho clínico no panorama do colecionismo nacional, como pelas polémicas com diversas instituições que albergam as suas coleções, não reuniu estes objetos para preencher lacunas académicas. Cada terracota neolítica, cada escultura budista ou peça de madeira detalhada parece ter sido escolhida pelo impacto da sua forma, pela mestria da técnica e por uma espécie de espiritualidade intrínseca que transcende as fronteiras políticas. O percurso expositivo joga precisamente com esta ambiguidade: ao mesmo tempo que nos confrontamos com as particularidades de cada civilização, somos convidados a traçar pontes e linhas invisíveis (iconográficas, religiosas, temáticas) que unem estes territórios através do comércio e da fé.

Mãe, criança e amiga Xilografia Kitagawa Utamaro (1753–1806) Período Edo, séc. XVIII (final)                  Imagem acedida em casaasia-cfc.scml.pt/colecao/japao/

A integração deste acervo no complexo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa acaba por criar quase um curto-circuito visual. Mesmo ao lado da opulência barroca da Igreja de São Roque e da sua sacristia, a sobriedade contemplativa e a beleza crua da arte asiática encontram um eco inesperado. O espaço não sufoca as obras; dá-lhes a dignidade do silêncio e o espaço necessário para respirarem, permitindo que o visitante faça aquilo que Francisco Capelo preconizou: viajar através do olhar.


Manuscrito. Papel, tinta, pigmentos, ouro. Período Thonburi, séc. XVIII (2ª metade)
Imagem acedida em casaasia-cfc.scml.pt/colecao/tailandia/

Confesso que me deixei encantar, mais do que pela espetacularidade e riqueza de de muitas das peças, pela delicadeza das obras em papel - xilogravuras japonesas do século XIX que tanto inspiraram a arte moderna europeia, livros iluminados da Tailândia, ou pequenas e delicadíssimas peças de porcelana chinesa de “cor secreta”*, tão simples quanto misteriosas. 

Em toda a exposição, só encontramos evidência direta da presença europeia na Ásia no início, através de duas peças etíopes - um manuscrito e um díptico sobre a Virgem Maria - e no fim, de uma figura de Menino Jesus Salvador do Mundo oriunda das Filipinas. Encarar estas peças faz-nos acordar de uma viagem onírica a estes territórios, quase para que não nos esqueçamos que a história não é tão simples ou linear como a museologia por vezes quase nos faz acreditar.


Grés, vidrada “cor secreta" (mise yao), Cerâmica de Yue, Dinastia Tang, séc. IX
Imagem acedida em casaasia-cfc.scml.pt/colecao/china/

Numa Lisboa saturada de propostas culturais mercantilizadas para o turismo de massas, a Casa Ásia assume-se como um oásis de desaceleração. É um museu do detalhe, que exige tempo e despojamento. Mais do que uma aula de história da arte, a visita traduz-se numa experiência estética marcante, capaz de nos lembrar que o Oriente nunca foi um bloco homogéneo, mas sim uma tapeçaria infinita de subtilezas.


*A cerâmica de cor secreta caracteriza-se por um esmalte "verde-azulado" ou ciano, considerado extremamente refinado. Estas características incluíam uma superfície lisa e menos porosa, e um esmalte uniforme e puro que dava às peças o aspeto de estarem "cheias de água". O nome "cor secreta" deriva do facto de a fórmula e as técnicas de produção serem segredos zelosamente guardados, e a cerâmica estar reservada para uso imperial, raramente vista pelo povo comum.

Informação acedida em zoomguide.app/attraction/133?searchMode=list_search&results=true





quinta-feira, 21 de maio de 2026

“Se pudesse voltar a fazer tudo novamente” - As Quatro Mortes de Napoleão, Pedro Saavedra



“O ex-imperador jaz morto no seu leito da Ilha de Santa Helena e quatro boatos nascem sobre a causa da sua morte: um estrangulamento encomendado, um envenenamento propositado, uma morte natural ou até um suicídio honroso.” Este foi o tema da peça que assisti sobre os últimos momentos de Napoleão Bonaparte, apresentada na Sala Mário Viegas do Teatro São Luiz, na Baixa-Chiado. Com a duração de 1h10, a peça parte das últimas palavras proferidas de Bonaparte, “França, o exército, chefe do exército, Josefina”, e é dividida em quatro partes, cada uma correspondendo a uma das quatro possibilidades sobre a sua morte durante o exílio na Ilha de Santa Helena, em que apenas um ser humano assistiu, a sua fiel camareira. Apesar de todas as narrativas se cruzarem em certos momentos, cada ato possuía uma identidade própria, quer na narrativa, quer na construção do ambiente cénico e emocional.
    Na primeira parte, a peça começou com um contexto da ilha onde Napoleão estava exilado, envolta em nevoeiro, o que ajudava a criar um ambiente mais pesado e misterioso, não só pela narração mas também pelos sons e jogos de luzes. A primeira morte representada foi então a ideia de Napoleão ter sido envenenado. Pelo que me foi possível entender, insinuava-se que o cirurgião de Napoleão lhe teria dado o veneno. Foi nesta parte que descobrimos a personagem Maria, relevante nas próximas cenas, que escrevia cartas e que falava constantemente sobre ajudar alguém. No final desta encenação de morte por envenenamento, havia uma frase que se ia repetindo diversas vezes, algo como “se pudesse voltar a fazer tudo novamente”, dita pelo ator, Ivo Alexandre como Napoleão Bonaparte.
    Na segunda parte, a personagem Maria, representada por Paula Garcia, ganha mais destaque, tornando-se quase a personagem principal. Ela escrevia cartas e comparava Napoleão a alguém que estava constantemente a declarar guerra. Depois começava a descrever imagens muito fortes da guerra: homens a passar por cima de corpos mortos para sobreviverem e soldados muito jovens obrigados a lutar. A peça criticava assim o impacto humano das guerras e mostrava como pessoas inocentes eram arrastadas para os conflitos. Foi nesta parte da peça que surgiu uma frase que me marcou bastante, quando se dizia que os jovens eram “demasiado novos” para certas coisas, mas “demasiado velhos” para escapar ao sofrimento. A ideia principal era que a guerra existirá sempre, porque sempre existiu ao longo da História. É também nesta parte que Maria parece descobrir o que tinha acontecido ao marido dela, chamado Josef. No final, ela acabava por morrer sufocada na cama, numa cena bastante intensa.
    A terceira parte focava-se mais diretamente em Napoleão e no cirurgião. Enquanto conversavam, havia momentos em que um dos atores parava de falar diretamente com os outros personagens e fazia um monólogo mais interior, quase como se estivesse a pensar em voz alta. Isso ajudava o público a perceber melhor os pensamentos e conflitos internos das personagens.
    Na quarta parte, parecia que Napoleão fingia a própria morte usando o corpo de outra pessoa para escapar. Depois fugia para a América, continuando a acreditar que seria sempre imperador. Falava-se também da possibilidade de se ter atirado ao mar e morrer como um náufrago, ligado às ruínas de uma cidade submersa. No entanto, mais tarde dizia-se que tinha sido encontrado por um pescador. Esta parte misturava realidade e imaginação, deixando várias interpretações possíveis sobre o destino final de Napoleão.
Tendo em conta a complexidade toda da peça, esta era composta por muitos elementos sonoros importantes. Ouvia-se, por exemplo, o som de pancadas nas paredes e água a cair do teto para dentro de um balde. Esses sons ajudavam a criar tensão e contribuíram para o ambiente mais sombrio da narração. Quanto ao espaço cénico, a plateia estava muito próxima do palco, o que tornava a experiência mais intensa e envolvente. A iluminação também estava muito bem conseguida, principalmente nas transições entre atos.
    Existia também uma personagem secundária muito interessante, um homem vestido com roupa normal que estava constantemente a mexer nos objetos da cena. Tirava quadros, colocava cartas na mesa, organizava papéis, penas e outros objetos. Apesar de quase nunca falar, parecia ter um papel simbólico importante, quase como alguém que controlava ou organizava a memória da história. Em certos momentos, ficava apenas a observar Napoleão em silêncio.
    No geral, a peça funcionava como quatro histórias diferentes sobre quatro possíveis mortes de Napoleão. Ao mesmo tempo que mostrava a sua glória enquanto conquistador, também revelava a sua derrota e fragilidade humana. Cada morte simbolizava uma forma diferente de queda: o envenenamento, a sufocação, a fuga e a falsa morte. A peça acabava por mostrar que, apesar do poder e da fama, Napoleão continuava a ser humano e vulnerável.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

A conexão entre os artistas e os fãs dentro dos concertos de K-Pop

 

No passado dia 9 de maio, Lisboa recebeu no recinto do MEO Arena o primeiro concerto da tour europeia do grupo de K-Pop Twice, sendo este também o primeiro concerto das artistas em Portugal. O espetáculo intitulado Twice: This is For teve uma duração de duas horas e meia onde as 9 artistas em conjunto com uma banda ao vivo e dançarinos apresentaram ao público mais de 30 músicas da sua discografia. Em destaque esteve o seu novo álbum This is For, com as mensagens de solidariedade e força feminina, temas constantemente representados pelo grupo ao longo dos seus 11 anos dentro da indústria do K-Pop.  

Twice - Instagram do grupo de K-Pop

Cartaz Twice This Is For Tour Lisboa Meo Arena

Os Once (nome dos fãs do grupo) encheram o recinto cheios de energia e alegria, mas o entusiasmo começou antes do concerto com interações entre os fãs. As organizações amadoras e páginas de fãs têm como costume organizar pequenos eventos antes do concerto onde os fãs se podem juntar e interagir entre si, com desafios de dança, e outros jogos. A troca de freebies (itens oferecidos de graça) feitos e distribuídos pelos fãs é cada vez mais uma prática comum neste tipo de eventos. Fazem pulseiras, autocolantes e outros pequenos produtos ligados ao evento e partilham com outros com o mesmo interesse, criando assim memórias e novas amizades.  

Dentro do concerto esta interação entre os fãs não acaba, são divulgados planos de realizar cânticos, ligar lanternas e até colocar cores nos telemóveis de acordo com lugares na arena. Os Once, unem-se como um corpo só de forma a enviar mensagens sonoras e visuais às artistas transmitindo o seu apoio e apreciação. Esta dedicação é recebida e devolvida pelas artistas que apesar de falarem numa língua diferente fazem o seu melhor para comunicar com o público, recorrendo ao inglês, a uma intérprete no local e também ao aprenderem pequenas frases ou palavras na língua do país para mostrarem o seu carinho pelos fãs.

Twice @ Meo Arena 2026.05.09 
Fotografia: 
Fotografia: ineews.eu


A disposição do palco também reflete este objetivo de ligação e interação, denominado como 360º, um palco em formato quadrado com plataformas no seu centro que subiam e desciam, foi colocado no meio da arena com braços que se estendiam às extremidades. As coreografias foram realizadas de acordo com esta plataforma e as artistas usufruíram de todo o palco, utilizando-o para facilmente chegar ao coração de todos os seus fãs.

Fotografia: ineews.eu

Por cima do palco estavam os big screens, ecrãs gigantes onde foram projetadas as performances que estavam a ser gravadas ao vivo e eram ampliadas para a melhor visualização do público. Estes ecrãs rodeavam o centro do palco e faziam parte da performance. A estrutura maior subia e descia, revelando outras estruturas cubicas mais pequenas no seu interior que eram coordenadas com as coreografias de modo a esconder parcialmente ou totalmente as artistas como parte da performance.

 Em conjunto com uma projeção luminosa para o chão do palco central e o jogo de luzes da arena, os ecrãs foram usados para introduzir elementos fantásticos às performances através da luz e de elementos fantásticos que ajudavam a criar um mundo diferente como estrelas, brilhantes, fogo e nuvens. O efeito conseguido era o de estar numa outra realidade onde o tempo parou e todos os indivíduos dentro da arena tinham apenas a preocupação de se divertir.

Twice @ Meo Arena 2026.05.09 
Fotografia: 
Fotografia: ineews.eu

Para além destes elementos luminosos, outro objeto iluminava a arena de acordo com o projeto do grupo. Um objeto muito comum dentro do K-Pop são os lightstick (bastão e luz) um item de colecionador que funciona como um elemento de identidade de cada grupo. Os lightstick têm uma tecnologia que permite o controle da luz de acordo com as performances, mudando de cor com diferentes músicas durante o concerto. As luzes dos lightstick são mais uma forma de os fãs se conectarem com as artistas, e demonstrarem o seu apoio ao criar um mar de luzes ou um céu estrelado que se movimentam e brilham ao longo das músicas. Enquanto as Twice cantavam e dançavam os fãs cantavam e dançavam com elas, e no meio do público os lightsticks com as suas luzes coloridas dançavam também energeticamente.

Twice @ Meo Arena 2026.05.09 
Fotografia: JYP Entertainment / Paulo Pinho

Ocorreram durante o concerto diversas atividades enquanto as artistas mudavam de roupa, ou se preparavam para certas performances. A banda ao vivo teve a sua oportunidade de conectar com o público apenas através dos instrumentos musicais, um momento especial onde o público podia fechar os olhos e sentir as vibrações ao seu redor. O grupo de dançarinos fez a sua própria performance a solo, focando-se nos seus movimentos para enviar uma mensagem de força e resiliência. Os fãs tiveram também o seu momento de destaque. Uma das atividades mais divertidas foi uma dance break do público, em que as câmaras apontavam para indivíduos do público convidando-os a dançar e a desafiar outros em breves concursos de dança. Um acontecimento que tocou os corações de todos na arena foi a passagem de um vídeo realizado pelos Once portugueses em que estes expressavam o seu amor e carinho pelas Twice, pela comunidade que criaram e a felicidade de poderem ver ao vivo as suas artistas favoritas.

Twice @ Meo Arena 2026.05.09
Instagram do grupo

Deste modo é notável que um dos principais temas nos concertos de K-Pop e até talvez o mais importante, é o da interação entre os fãs e os artistas. Este concerto será memorável na vida dos Once tal como na vida das Twice, visto que estas interações tornam cada atuação uma experiência única. O sucesso das artistas depende do apoio do seu público e por sua vez o grupo, através das suas músicas, performances e atenção oferece aos seus fãs entretenimento e até suporte emocional. Os próprios fãs tornam-se eles próprios um grupo unido que para além de apoiar as artistas, cria um espaço de comunidade onde os fãs se apoiam uns aos outros.