A comédia da sociedade do espetáculo: “Em sede própria”, de Joana Marques
O espetáculo de Joana Marques, com a duração de duas horas, recorda em tom de comédia o processo de acusação de que foi alvo por parte da dupla Anjos. Uma acusação que, para além de julgada pela justiça portuguesa, foi, acima de tudo, um espetáculo público nas televisões. É sobretudo sobre este julgamento público que Joana Marques desenvolve a sua peça cómica e é, do ponto de vista do espectador, que se escreve esta recensão sobre o constante espetáculo vivido pela sociedade.
Joana Marques começa por olhar para si própria. Acusada de lesar profundamente a vida dos dois cantores por, alegadamente, lucrar com um vídeo onde reagia comicamente ao concerto dado no MotoGP em 2022, a humorista reconsidera sobre pessoas da sua vida em que, de facto, esta acusação poderia ser plausível, iniciando a peça com as típicas piadas de stand-up que partem do espaço familiar. Faz, assim, uma transição inteligente entre o "eu" (o seu espaço privado e as suas relações pessoais) e o hemisfério público, chegando finalmente ao motivo do seu espetáculo: satisfazer a curiosidade de todos os presentes sobre o quão longe foi este caso e o seu absurdismo.
Ao trazer este caso para salas como o Coliseu dos Recreios, Joana Marques atribui-lhe o seu verdadeiro pano de fundo: um palco. É impensável que os tribunais portugueses e a justiça nacional tenham dispensado 108 dias para dar palco a um espetáculo público, servindo audiências de televisão e iniciativas promocionais que agora desaguam em anúncios da água Frize. Só é possível encerrar esta situação com comédia, que serve não só para rir, mas também para refletir, de forma leve, sobre o ambiente em que vivemos, cumprindo aquilo que é esperado de uma sátira social, a raiz da comédia.
“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação.” (Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo, 1967; primeiro aforismo)
Este caso, e a forma como é apresentado por Joana Marques, é um excelente resultado artístico que ilustra o que Debord explora no seu livro. A forma como todo o julgamento foi tratado como uma espécie de Casa dos Segredos, com direito a comentadores em programas noturnos, deu audiência a queixosos que se aproveitaram de um vídeo cómico para criar toda uma realidade performativa, justificando o pedido judicial e a indemnização de um milhão de euros que exigiam à humorista.
Mas este caso vai além daqueles que nele estavam envolvidos, é aproveitado por uma série de personalidades que fazem a sua vida não do comentário social, mas da permanente "conversa de café" patrocinada por grandes canais televisivos. Cristina Ferreira é uma das presenças mais recorrentes nos recortes de vídeo aos quais Joana Marques se dirige frequentemente durante a atuação. É, talvez, uma das mais evidentes criadoras de espetáculos, para quem toda a realidade, mesmo que não seja a sua, se esvai nos programas que apresenta como mote para a produção constante de visualizações e, consequentemente, faturação. Nestes contextos, a sua palavra age como a moral e o exemplo para aqueles que a ouvem em casa. Palavras que, com um tom pedagógico, se revelam desinteressadas nas situações reais e servem unicamente para consolidar a ficção de si própria que cria em torno das histórias dos outros.
Em suma, Em sede própria desafia as esferas onde atuamos (a privada e a pública), trabalhando-as através de uma sátira bem construída que envolve a justiça portuguesa, mas essencialmente as personalidades televisivas que utilizaram o caso como meio de produção económica, precisamente aquilo de que Joana Marques foi acusada.














