terça-feira, 26 de maio de 2026

Museu do Dinheiro. O que é o dinheiro?

O Museu do Dinheiro, instalado na Baixa lisboeta, ocupa a antiga Igreja de São Julião (séc. XIII). A igreja original foi destruída no terramoto de 1755 e reconstruída no local onde hoje se encontra, tendo sido concluída em 1802. No entanto, abateu-se nova catástrofe sobre o edifício, um terrível incêndio que o destruiu novamente, levando a novas obras de reconstrução. 

Mais tarde, com o crescimento do Banco de Portugal, o edifício foi adquirido por esta instituição (após vários anos de negociações), sendo então dessacralizado e passando a funcionar como Sede do Banco de Portugal. O edifício conserva diversos elementos desse passado, desde logo a estrutura das naves, evidente à entrada, e parte do altar, que ainda se mantém. 

Existe no museu um Núcleo Interpretativo da Muralha de D. Dinis, construção medieval que voltou a ser visível aquando das obras de requalificação do edifício em 2010. Contudo, a visita incide sobretudo na Exposição Permanente do Museu do Dinheiro, que nos propõe contar uma história do mundo, das sociedades e dos indivíduos através do dinheiro. O seu acervo numismático, notafílico e artístico encontra-se organizado por temas como que capítulos dessa história. A exposição é bastante extensa e composta por nove núcleos temáticos. 


Vista do interior do edificío. 
1 — Tocar 

Coloca-se pela primeira vez a questão: o que é o dinheiro? Será esta a pergunta que a exposição vai respondendo e devolvendoEstamos perante um cofre de alta segurança aberto, impecavelmente iluminado, contendo uma barra de ouro que podemos tocar e cujo peso podemos sentir. 


Cofre forte com barra de ouro. 

2 — Trocar

O museu comemora, em 2026, 10 anos de existência. Sendo um museu recente, integrou desde a sua criação dispositivos interativos para explorar os temas. O primeiro desses dispositivos encontra-se neste núcleouma escultura representativa de Hermes, deus grego do comércio e das trocas, com a qual podemos interagir e conhecer diferentes formas de dinheiro oriundas de diversas culturas.

Hermes, escultura interactiva. 

Coloca-se novamente a questão: afinal, o que é o dinheiro? Existe uma negociação com Hermes, em que podemos aceitar ou recusar as trocas, utilizando o valor simbólico atribuído ao nosso bilhete de entrada. Esses “outros dinheiros” são búzios, tecidos, barras ou bijuterias em metais preciosos. Quanto mais exóticos ou raros, mais valiosos se tornamquanto maior o poder que evocam, maior o seu valor. 


3 — Convencionar 

Apresentam-se as primeiras formas de moeda. Nesta história contada através do dinheiro, destaca-se a invenção da moeda na Lídia (atual Turquia), no século VII a.C. No entanto é com a Grécia que se dá a expansão da utilização da moeda, uma vez que desenvolve sistemas comerciais no contexto da sua expansão territorial, tornando-se hegemónica nas trocas comerciais no século IV a.C., desde o território mediterrânico até à Ásia.



Roma Imperial, moedas entre exemplares do século XIX a. C. a século II.

A moeda torna-se um símbolo que ultrapassa o seu valor monetário, afirmando-se como instrumento de poder e difusão de autoridade. Nos séculos VII a.C., inicia-se a primeira fase da sua ascensão, com os gregos a produzirem moeda em ouro e prata, substituindo o eletro (liga metálica usada anteriormente). Desde então, a moeda nunca mais desapareceu.

Consolida-se definitivamente com o Império Romano (século III a.C.), onde se afirma como principal meio de trocas comerciais. Podemos observar no espólio, moedas desde o século VI a.C. (Lídia) até ao século III (Roma). No Oriente, as primeiras moedas assumem a forma de miniaturas de objetos em bronze como facas, pásenxadas, discos perfurados, utilizados entre os séculos VIII e III a.C, estão expostos três exemplares chineses destas moedas do século I a.C. 


Moedas da Península Itálica e Sicília, Império Alexandre Magno, Egipto Ptolemaico, Báctria.

Não tendo desaparecido jamais a moeda, podemos ver exemplares de moeda visigótica do século V, exemplares de Dinar do século XII, com origem islâmica e que será a matriz para a moeda dos reinos cristãos, como o Morabitino, ainda do século XII. 

Português, moeda de ouro (africano), cunhada por D. Manuel I, circulou entre os séculos XV e XVI, tem aqui a sua história contada. Mais uma vez, símbolo de poder, e, se alguém duvidasse dessa intenção, a inscrição numa das faces da moeda é a seguinte: Manuel I, rei de Portugal e dos Algarves, d'aquém e além-mar em África, Senhor da Guiné, da Conquista e navegação e comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. Já na outra face inscreveu a Cruz de Cristo com a inscrição Com este sinal vencerás. Mais tarde, o ouro do Brasil também será utilizado na produção da moeda Dobrão, que circulará no reino de Portugal e Brasil, já no século XVI.


Moeda Português 10 Cruzados (1521-1556) Portugalser (1596-1607)

Ainda entre as moedas do Oriente, está a moeda japonesa OBAN, que esteve em circulação entre os séculos XVI e XIX; é uma chapa de ouro com vários carimbos de autenticidade. 

Na China surgem as primeiras notas de papel, denominadas Guan, criadas entre os séculos X e XI para libertar os comerciantes do transporte de enormes quantidades de moeda.


Moeda Oban de 10 Rio, Japão (1860-1862).

4 — Representar 

Encontramos diversos exemplares de moedas valiosas e representativas do poder que ajudaram a consolidar nas nações que as cunharam. A exposição apresenta-as em tubos acrílicos, criando a sensação de que se encontram suspensas no ar, conferindo-lhes um efeito quase mágico. 


5 — Narrar

Este núcleo, exposto numa serpente de vidro, apresenta testemunhos do aparecimento da banca em Portugal e no contexto europeu, consequência da complexidade que as trocas mercantis assumiram num mundo cada vez mais alargado e global. Itália é o país identificado como o primeiro a desenvolver companhias mercantis e financeiras, onde o comércio marítimo mediterrânico, nos séculos XII e XIII, estava em plena ebulição, estas instituições podiam fazer transações e câmbios de moeda. Também em Portugal, nos finais do século XIII, se agilizaram os pagamentos das transações mercantis, existindo instituições que financiavam mercadores portugueses.


Vista geral da sala Narrar.

O centro de transações e negócios muda do sul da Europa para Amesterdão, na segunda metade do século XVI, e a criação de bancos nacionais em Amesterdão, nesta época, acaba por servir de modelo para a criação de outros Bancos Nacionais noutros países. 


Notas portuguesas, de cima para baixo; 5000 Escudos, 100 Escudos e 1000 Escudos.

Estão expostos documentos impressos como certificados de depósito, ações, apólices e papel-moeda, todos eles instrumentos financeiros das operações da banca. Documentos datados, contrastando com a desmaterialização dos nossos dias nas operações financeiras. Alguns dos documentos são emitidos pelo Banco de Portugal, fundado em 1846 por decreto régio de D. Maria II, instituição que ainda hoje funciona, embora tenha na sua história diversos acontecimentos que colocaram a sua continuidade em risco. 

Neste núcleo ficamos a conhecer alguns dos momentos de crise que levaram à emissão de outros títulos de valor em substituição da moeda, que quase não existia por ser escassa. Avançando no tempo até à criação do euro, vemos as primeiras notas, com ilustrações genéricas de monumentos europeusafastamo-nos da identidade nacional para procurar a imagem unificadora desta união económica, da cultura europeia. 


6 — Fabricar

Dedicado às matérias-primas, técnicas de fabricação e impressão é altamente complexo da e absolutamente fascinante. As matérias-primas, que no caso do papel-moeda são pastas de papel com fibras que compõem as notas atuais, e no caso das moedas são os minérios e ligas utilizadas na cunhagem, foram variando ao longo dos tempos, aqui temos acesso a amostras em bruto dessas matérias-primas. 


Observação de materiais fiduciários. Visualização aumentada da pasta de papel. 


Espreitamos também o trabalho artístico realizado para ilustrar o de papel-moeda e moeda. As técnicas de impressão de papel-moeda ali representadas, por instrumentos e ferramentas gráficas mas também documentos produzidos nessas técnicas gráficas são: xilografia, litografia, gravura em talhe-doce, polímeros e offset. Ao longo do tempo, parte destas técnicas, pela necessidade de mecanização, tornou-se obsoleta e deixou de garantir segurança na produção de papel-moeda pois é necessário estar sempre um passo à frente das tentativas de contrafação.

 


Chapa matriz para verso da nota de 5000 escudos (1940/1942).


Pedra litográfica para frente de nota de 1000 réis (1910).

Tínhamos ainda na proposta interactiva do núcleo a possibilidade de testar a autenticidade do nosso dinheiro ou cunhar uma moeda virtual com o nosso perfil.


7 — Ilustrar 

No chão está desenhado um mapa do mundo, do qual emergem notas das diferentes geografias aparentemente suspensas em tubos acrílicos. As notas são profusamente ilustradas em todo o mundo, e aqui observamos que as escolhas dos elementos ilustrados em cada país varia muitíssimo, encontramos as conservadoras personalidades, os monumentos, animais, flora e elementos geométricos. Viajamos assim pelo mundo, descobrindo mais um capítulo dessa história global que podemos reconstruir através das imagens presentes no papel-moeda.



Vista geral da sala Ilustrar. Notas de cima para baixo dos países: Vietname, Camboja, Birmânia e Tailândia.

8 — Compreender 

Espaço interativo onde o público aprende, através de jogos, as funções do Banco de Portugal e conceitos económicos fundamentais.


Visualização interactiva sobre a origem dos produtos que consumimos em Portugal. 


9 — Revelar 

A pequena capela acolhe um núcleo interativo dedicado à época medieval e às descobertas arqueológicas feitas no local da antiga Igreja de São Julião, atual Museu do Dinheiro. 

 

Chegados ao fim da exposição, volta a colocar-se a questão, afinal o que é o dinheiro?