quinta-feira, 23 de abril de 2026

O Museu Fora do Armário”, de André Murraças


Esta imagem é uma releitura artística contemporânea do icónico "Retrato do Rei D. Sebastião", pintado originalmente por Cristóvão de Morais. Esta versão específica, adornada com flores e um fundo claro, faz parte do projeto "O Museu Fora do Armário", concebido por André Murraças.

    Ao entrar no Palácio Pimenta, a visita inicia-se pela esquerda, estruturando-se segundo um percurso cronológico que atravessa diferentes períodos históricos, desde a época Romana até à Revolução dos Cravos. 

    Desde o início, é enunciada a ideia de que “Lisboa é feita por várias camadas e vários artistas”, estabelecendo-se assim o princípio orientador: a possibilidade de reinterpretação da exposição permanente a partir de uma perspetiva crítica e inclusiva.

    Mais do que um simples percurso guiado, esta proposta assume-se como uma prática de mediação cultural que promove a desconstrução das narrativas dominantes. A visita revela-se particularmente eficaz ao orientar o olhar do espectador para elementos frequentemente marginalizados ou invisibilizados. Um exemplo disso mesmo ocorre na chamada “sala de espelhos”, onde André Murraças destaca um azulejo que parece representar a proximidade romântica entre duas figuras masculinas. Este gesto curatorial funciona como dispositivo pedagógico, ao introduzir uma leitura que desafia a heteronormatividade implícita nos discursos museológicos tradicionais.

    Painel de azulejos representando duas figuras masculinas em proximidade, observado na “sala de espelhos” do Palácio Pimenta. Fotografia da autora.

    Ao longo do percurso, assinalado pelo logótipo do projeto “Museu Fora do Armário”, constrói-se uma narrativa que articula análise histórica com interpretação crítica. 

    Outro exemplo é a referência a cantigas de amor trocadas entre homens na sua origem, que após passarem pelo crivo censório foram convertidas em modelos heteronormativos, evidenciando processos de reescrita e apagamento cultural, por parte do Vaticano. Do mesmo modo, o retrato de D. João V adquire uma nova dimensão interpretativa: a pose, nomeadamente a mão na cintura e a expressividade do corpo, permite compreender a imagem régia não apenas como representação de poder, mas como construção performativa, onde o corpo se afirma enquanto espaço de encenação e significação.

         Retrato de Dom João V, em exibição no Palácio Pimenta. Fotografia da autora.

    A abordagem mantém a sua consistência ao integrar períodos marcados pela repressão, como a Inquisição, através do caso de Maria Duran, evidenciando limitações dos sistemas legais da época no tratamento de identidades dissidentes.

    No contexto da sala oitocentista, a referência à obra de Eça de Queirós, nomeadamente Os Maias, reforça esta leitura ao evidenciar tensões e ambiguidades presentes na representação da sociedade da época, abrindo espaço a interpretações contemporâneas que questionam os modelos normativos de género e comportamento.

    O percurso culmina na sala dedicada à queda do Estado Novo, onde a Revolução dos Cravos é apresentada como momento de ruptura e transformação, associado à emergência de novas possibilidades de visibilidade e afirmação identitária.

    No seu conjunto, a visita guiada revela-se uma intervenção crítica consistente, ao propor uma reconfiguração do olhar sobre o acervo museológico. Ao evidenciar a dimensão simbólica das obras, demonstra como a autoridade visual pode ser reinterpretada à luz de perspectivas contemporâneas, promovendo uma experiência reflexiva ainda que alinhada com princípios de educação artística.

    A conclusão da visita, marcada pela observação de uma bandeira Arco Íris, reforça esta dimensão pedagógica e política, ao transmitir uma mensagem, pertença, e segurança, estabelece uma ligação significativa entre passado e presente. Relembra que, em Portugal, apenas em 1982 a homossexualidade deixou de ser considerada uma patologia, enquanto esse percurso, no contexto internacional, remonta a 1973, quando a American Psychiatric Association a retirou da lista de perturbações mentais. A visita evidencia percursos de invisibilidade e repressão, mas também conquistas recentes no reconhecimento de identidades e direitos.

    Esta visita guiada, promovida pelo projeto Museu Fora do Armário, irá realizar-se quatro vezes até ao final do ano no Palácio Pimenta, estando previstas iniciativas semelhantes em outros museus, com o objetivo de divulgar a cultura LGBTQIA+ através da reinterpretação de obras do acervo cultural nacional.

    A experiência revela-se altamente recomendável, não apenas pela sua relevância temática, mas pela forma consistente como escalpeliza uma leitura crítica e inclusiva, contribuindo para a ampliação do olhar sobre a história e a sua representação.


Coleção Presença Portuguesa na Ásia - Museu do Oriente

O Museu do Oriente, fundado em 2008 e localizado à frente do rio, na Doca de Alcântara, afirma-se como a representação da presença portuguesa na Ásia, especificamente na Índia, no Sri Lanka, na China, em Macau, no Japão e em Timor-Leste, como se confirma pela sua vasta coleção de mais de 3.400 objetos artísticos e documentais como mobiliário, marfins, têxteis, arte sacra, porcelana, pintura e escultura datadas de 3000 a.C até meados do século XX. 

Este Museu pertence à Fundação Oriente, fundação portuguesa constituída em 1988, instituída pela Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM) e parceira da Fundação Eng. António de Almeida e a Fundação Calouste Gulbenkian no âmbito do Centro Português de Fundações (CPF). Esta tem como missão, ações de caráter cultural, educativo, artístico, científico, social e filantrópico que visem a valorização e a continuidade das relações históricas e culturais entre Portugal e o Oriente.


A sua coleção, apelidada de “Coleção Presença Portuguesa na Ásia”, encontra-se organizada em três núcleos por países e regiões. O primeiro núcleo, focado na China e em Macau encontra-se assim que se sobe as escadas para o 1º andar, com uma parede composta por uma grande variedade de loiça chinesa, de diferentes propósitos, e separada por temas, tais como, os prazeres da vida, ao ar livre, a poesia, a expansão da fé cristã e temas satíricos, com o nome de “Para além da taprobana”, antigo nome de origem grega utilizada para designar a atual ilha do Sri Lanka, referindo-se ao paraíso descrito em “Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões. 



Do outro lado desta primeira sala, encontramos expostos algumas pinturas realizadas maioritariamente por George Chinnery (1774 - 1852), pintor inglês que viveu a grande maioria da sua vida em Macau e consequentemente, desenhou muito das suas paisagens e da população local. Juntamente com as pinturas, as suas legendas não só descrevem a parte formal da pintura (o tamanho, material, data, etc) mas também descrevem a pintura quase de forma cómica, como se nos contasse a história do que está a ser retratado, como se estivessemos mesmo à frente daquele cenário a acontecer. 


George Chinnery (1774-1852) - Homem Tocando Contrabaixo
George Chinnery (1774-1852) - Homem Tocando Contrabaixo


            Depois de completarmos esta primeira sala, à nossa esquerda, temos então o segundo núcleo, dedicado a Timor-Leste, ao Japão e à Coreia. Esta secção encontra-se dividida apenas por vitrines de vidro e pelos nomes das regiões, ou seja, sendo esta uma área bastante aberta, se não estivermos a prestar atenção é muito possível perder a noção da transição geográfica. O facto de estar bastante escuro também não só dificulta a distinção entre as áreas geográficas, mas também dificulta a leitura das legendas. 



Quanto aos artefatos presentes, estes são bastante diversificados, como objetos do quotidiano doméstico do povo timorense: portas, bancos, panos, facas, um descaroçador de algodão e estátuas representativas de antepassados e de motivos religiosos de Timor-Leste. 



Quanto ao Japão, estão presentes armaduras de guerra, trajes tradicionais e joias em boa condição. No canto da sala, existe uma pequena coleção de fotografias de paisagens da Coreia e apenas uma caixa para medicamentos. 



Do outro lado da sala, temos mais uma vez uma coleção com peças chinesas. Desta vez, a área é dedicada à pintura e à caligrafia, com diversos exemplares de paisagens, cenas do quotidiano e caligrafia em rolos de grande dimensões. Infelizmente apenas algumas pinturas continham uma tradução do que estava escrito, no entanto, esta foi a minha parte favorita de toda a visita, não só pela beleza dos desenhos mas também pela grandeza e pela quantidade de detalhe que estas peças de arte possuíam. 

É também importante mencionar que, nesta parte da exposição, muitas peças vieram de colecionadores privados que decidiram doá-las ao museu. Além disso, algumas das obras expostas pertenciam a outras associações nacionais e internacionais e não apenas ao próprio museu. Isto evidencia o esforço da instituição para ter sempre peças novas, bem como a sua abertura em partilhar conhecimento e artefactos com outras partes do mundo. Esta colaboração permite chegar a um público maior, notando-se ainda que alguns artefactos da coleção permanente não estavam nesta sala por estarem, precisamente, a ser expostos noutras organizações.



Por fim, à direita do primeiro núcleo, encontramos a última área da exposição. Esta secção apresenta artefatos maioritariamente da Índia e do Sri Lanka, e em reduzida quantidade da Tailândia e do Mianmar, com mais algumas peças do Japão. É nesta sala que existe uma maior contextualização de Portugal no Oriente e não só sobre os países e regiões em si, acabando por influenciar as peças expostas neste núcleo, por exemplo, a existência de pinturas de clérigos e de missionários portugueses. Muitos dos objetos que se podem observar são de cariz religioso não só trazidos pelos portugueses mas também feitos pela população local com materiais regionais, como crucifixos, custódias e navetas. A coleção inclui ainda pinturas, objetos quotidianos e algumas joias.



            Quanto a esta última parte da exposição, senti que não havia uma grande variedade de peças e que muitas delas orbitavam sempre o mesmo tema. Se relacionarmos este núcleo com o anterior, este parece muito focado apenas no que os portugueses fizeram nestas áreas geográficas, não contendo muito da cultura local, contrariando, por exemplo, a área dedicada a Timor-Leste. Além de a coleção ser pouco diversificada, havia algumas falhas por parte do museu: como as salas eram bastante escuras, foi necessário colocar luzes muito próximas de certas peças e pinturas de grande dimensão, o que causava reflexos que impossibilitavam a observação clara das obras. Além disso, notei que algumas peças expostas continham texto noutro idioma que não foi traduzido e nem sequer tinha legenda, havendo aqui um certo descuido por parte do museu para com o visitante.



Considerando a visita toda do museu, com uma duração de cerca de duas horas, e pelo preço, diria que foi uma exposição bastante interessante com peças muito bem preservadas, com uma grande variedade e que recomendo a todos para que conheçam mais sobre Portugal no Oriente, assim como as suas próprias culturas. No entanto, não podendo nos esquecer da existência de partes onde o museu certamente pode melhorar para elevar a qualidade desta exposição permanente para todos os visitantes, tendo em conta os motivos que mencionei ao longo do texto. 

Para terminar, é importante referir que esta exposição tem uma componente digital, onde algumas peças em exposição têm um qr code e ao se fazer scan com o website “www.zoomguide.app”, é possível não só ver todas as peças da coleção mas também ler informação adicional sobre cada peça, quer seja em português, inglês ou em outra língua suportada pela página. 


"Colapso" de Silvestre Pestana - Galeria Municipal do Porto

A sala comprida que recebia a exposição de Silvestre Pestana parecia uma cena de ficção científica. A sala estava praticamente vazia, éramos apenas três visitantes naquele momento. 


A galeria estava quase às escuras, e os trinta e um painéis LED distribuídos pelo espaço projetavam luz colorida no chão de madeira - reflexos verdes, vermelhos, azuis.  A luz de cada um refletia no chão e misturava-se com a dos outros sem se fundir. Juntar palavras que não pertencem ao mesmo mundo e iluminá-las com a mesma intensidade é o que a exposição faz durante todo o percurso, como se a linguagem tivesse perdido a capacidade de se organizar por ordem de importância. 


Antes de chegar aos painéis, há uma escultura no início da sala, uma estrutura metálica com hastes que irradiam de um centro. Pensei imediatamente num satélite. E se era um satélite, o resto da sala eram as mensagens que ele captava, palavras a chegar de todo o lado, sem ordem, sem hierarquia, num ritmo que não parava.



Um peão corre sem sair do lugar ao lado da palavra "ruptura". Noutro, "AUSÊNCIA" aparece a vermelho no fundo da sala, sobreposta por "REP-ROG-RAM-ADA" em azul-ciano. São imagens simples, mas difícil não ficar em estado de hipnose.

Silvestre Pestana trabalha com poesia visual desde os anos sessenta, e o curador João Laia descreve Colapso como o "poema mais ambicioso" do artista. O que a exposição mostra é que o território que Pestana explorava, a relação entre tecnologia e linguagem, aqui quis que deixasse de haver essa fronteira. Hoje vivemos rodeados de ecrãs com palavras que piscam, e já quase não reparamos. A exposição coloca isso dentro de uma galeria e pede-nos que paremos para olhar.




Fotografias © Lais Pereira

"Mater of Time" // O registo experimental do tempo

Matter of Time ( Instalação de sete esculturas, aço - weatherproof steel)
2025; Richard Serra 


Serra é um dos mais relevantes artistas dos anos sessenta, tendo revolucionado a escultura ao utilizar materiais industriais, consolidando as suas características e trabalhando as suas perspetivas. As suas esculturas transformam o espaço, reconhecendo as especificidades da arquitetura a que estão confinadas; propõem um percurso e, por sua vez, uma temporalidade.

Snake é uma obra criada para a inauguração do Museum Guggenheim Bilbao, que consiste em três longas serpentes de aço. As ondulações criadas por estas placas — que, sendo um material robusto, se transformam em algo delicado — sugerem uma posição de instabilidade. O percurso evoca quase um bailado entre a robustez do material e a sua sugestão de movimento e desequilíbrio. A esta peça juntaram-se, em 2005, mais sete trabalhos comissionados que formam a instalação permanente The Matter of Time.




Ao entrar nesta sala do piso térreo do museu, deparei-me, ao longo de um percurso traçado por cada visitante, com uma complexidade crescente de formas de aço (weatherproof steel) que pareciam impor-se sobre o corpo. As esculturas massivas e imprevisíveis transformam o espaço e os encontros que ocorrem dentro destes volumes elípticos — seja entre mim e o material, seja através dos "encontrões" partilhados com outros corpos entre curvas e contracurvas. Estes elementos obrigam-nos a fazer parte da obra, retirando a escultura do seu pedestal. Existe uma ideia concretizada de movimento e, por vezes, até um certo enjoo provocado pelas tonturas das curvas e rodopios constantes. O posicionamento na galeria também reforça estas qualidades imprevisíveis, forçando-nos a atravessar as peças sem conseguirmos especular que caminho nos espera.

No entanto, o que mais me chama a atenção é a forma como, nestas peças escultóricas, o tempo desempenha um papel indispensável. O trabalho sobre o tempo segue duas formas: o tempo real, aquele de que dispomos para percorrer as esculturas (algo que outros trabalhos escultóricos não exigem), e o tempo experimental, um tempo que reside no movimento e no próprio material. É sobre esta segunda forma temporal que me irei debruçar.

The Matter of Time, tal como o nome sugere, foca-se numa matéria (o aço) que contém em si um tempo. É um material que se transforma na sua existência temporal, possui um envelhecimento (extremamente demorado), uma metamorfose que, de certa forma, se assemelha à vida humana. O material existe até “apodrecer”, apesar de ser extremamente resistente, e o tempo que esse processo demora depende não só das condições do meio, mas é uma propriedade essencialmente física. Este envelhecimento, visível nos veios que se estendem pela superfície, eleva a escultura a algo que transcende o seu conceito tradicional, tornando-a quase numa imagem cinematográfica. 




Numa transformação constante que ocorre através do tempo, tal como a imagem-movimento do cinema, a obra está confinada ao instante, ao momento, e só se movimenta realmente por fazer parte desse fluxo. Tal como no cinema, o verdadeiro movimento das esculturas de Serra não reside apenas nas suas formas sinuosas e desconcertantes, mas sim no tempo que as modifica e que convoca o visitante a vivenciá-las. O movimento reside na troca que acontece neste tempo experimental: o tempo da obra e da sua metamorfose em contacto connosco e a nossa metamorfose. Com efeito, as peças aqui apresentadas são também a lembrança de um tempo concreto que existe, mas também com um tempo extremamente sentimental que aprisiona numa sala enorme num Museum, vivenciais e memórias registadas no matéria. 


Guggenheim Bilbao Museoa


quarta-feira, 22 de abril de 2026

Linhas Cruzadas – Homenagem a Maria Augusta Bordalo Pinheiro

 

Linhas Cruzadas – Homenagem a Maria Augusta Bordalo Pinheiro

Algumas das obras de Maria Augusta Bordalo Pinheiro (1841-1915) em conjunto com as de Ana Silva, Joana Vasconcelos (1971) e Sonia Gomes (1948), estiveram em exposição no MNAC (Galeria Millennium bcp) entre 26 de fevereiro e 2 de maio de 2026. Linhas Cruzadas - com a curadoria de Maria de Aires Silveira e Filipa Oliveira, esta exposição focou-se na arte tradicional do bordado e o seu lugar como meio artístico na atualidade.

  Exposição Linhas Cruzadas 

O espaço está dividido em quatro espaços, sendo o último, a única secção mais fechada. Este planeamento ajuda o visitante a sentir uma noção de progresso e seguimento entre as obras. A porta de entrada é também a da saída, proporcionando assim uma sugestão de reflexão à medida que se percorre de novo o espaço até à porta.

Exposição Linhas Cruzadas

Na entrada encontramos uma zona com um conjunto de fotografias e obras de desenho da família Bordalo Pinheiro, colocando em perspetiva a relevância e influência que esta família de artistas teve na arte portuguesa do século XIX.

Fotografias da família Bordado Pinheiro

 
Obras da família Bordado Pinheiro

Os estudos de plantas destacam-se pelo meticuloso trabalho de Maria Augusta que podemos observar em várias obras com flores decorativas expostas nas salas seguintes. A sua dedicação em representar a flora e a sua análise cuidada é visível no desenho, pintura, renda e cerâmica.

Estudos de Maria Augusta

As rendas relembram as “casas das avós” onde é comum ver os moveis decorados com rendas, e também em certas casas tal como exposto nesta sala, as rendas como obras de arte na parede. Esta prática, apesar de se encontrar a entrar em desuso pelas gerações mais novas, ainda se verifica em casas antigas especialmente no interior do país.


Rendas de Maria Augusta Bordado Pinheiro
 aplicadas em leque

A cerâmica é também um ponto de importância, desde os vasos delicados decorados com rendas também em cerâmica às obras de Joana Vasconcelos que conjugam a cerâmica de Rafael Bordado Pinheiro (1846-1905) com a renda em croché dos Açores.

Lagarto em cerâmica de Rafael Bordado Pinheiro e croché de de Joana Vasconcelos 



O trabalho de Sonia Gomes apresenta-nos uma escultura realizada com uma mistura de tecidos, rendas e objetos de madeira. Hiato (2019), constitui um aglomerado de bolsas de tecido e renda enchidos que estão pendurados por um cordão. Por baixo um outro cordão com uma bola de madeira no fim relembra um pendulo. A estrutura encontra-se parada, no entanto como observador a ideia de que uma leve brisa a acordaria e que esta iria lentamente abanar de um lado para o outro, oferece diversas interpretações a esta obra.

Hiato de Sonia Gomes (2019)

A instalação de Ana Silva, Portrait de famille (2021), está colocada no fundo da galeria, ocupando metade de uma sala com diferentes rendas e tecidos bordados que se interligam e por vezes até se sobrepõem uns aos outros, criando uma espécie de rede. As rendas são todas elas distintas no seu formato ou padrão, obrigando-nos a focar individualmente em cada uma. Os bordados trazem a vida à peça, principalmente a figura feminina que está vestida com um bordado vermelho repleto de pequenas pedras brilhantes que chamam à atenção assim que entramos neta última sala.

Portrait de famille de Ana Silva (2021)




A exposição explora o papel da mulher na sociedade através das diferentes obras têxteis das artistas incluídas nesta exposição, que utilizando um meio artístico tradicional e tipicamente reproduzido por mulheres desde a sua invenção, fazem homenagem a uma importante artista portuguesa que revolucionou a arte e educação artística da renda em Portugal. 


Exposição Linhas Cruzadas

Fotografia de Maria Augusta Bordado Pinheiro e discipulas 
Escola Industrial D. Maria Pia, Peniche (c. 1887)
Folha de leque em renda por Maria Augusta Bordado Pinheiro

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Paisagem Linguística: Gregório Duvivier no céu da língua.

    A peça O céu da língua foi apresentada no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no dia 12 de março de 2026, tendo como intérprete o ator e comediante Gregório Duvivier, que conduz o espetáculo de forma própria, transitando entre humor, reflexão e investigação linguística.

    A peça se situa em um espaço curioso entre comédia e um ensaio teórico, ao mesmo tempo em que possui elementos pessoais da vida do ator. Principalmente, revela como o mesmo é fascinado pela língua portuguesa e, por conta desse apreço, ou até mesmo obsessão, a peça lida de forma própria com todas as particularidades do idioma lusófono, explorando suas sonoridades, ambiguidades e arquiteturas da língua.

    O espetáculo se configura como um monólogo, mas Duvivier não se encontra sozinho no palco. Ao seu lado há um músico com violoncelo, instrumento que é tocado em momentos específicos, seja para adicionar uma camada dramática ou seja como recurso irônico, tensionando o que está sendo dito. No palco também está Theodora Duvivier, irmã de Gregório, responsável por comandar projeções ilustrativas que compõem o fundo da cena e ampliam a narrativa.

    A cenografia e os desenhos formados por sombras e papéis são um ponto de destaque que contribui significativamente para a experiência. As projeções são feitas através de uma base simples, um retroprojetor, do tipo que perdeu espaço para tecnologias mais modernas. Ainda assim, essa escolha não parece casual. Há um certo encanto no analógico que dialoga com a própria proposta da peça de revisitar, reconstruir e brincar com estruturas da língua. As palavras são escritas por extenso e, muitas vezes, ilustradas com essa mecânica, o que gera dinamismo e complementa o compasso cômico de Duvivier, criando uma relação quase tátil com o idioma.

    O espetáculo constrói, assim, uma verdadeira paisagem da língua portuguesa, atravessando diversos campos. Um dos primeiros é o da infância, parte inicial do espetáculo em que Duvivier relata o quão especial é ouvir a filha falar palavras erradas, como “papato” ao invés de sapato, e como a inocência da filha está presente justamente na palavra equivocada. Outros campos visitados são o do amor, como a língua se utiliza de metáforas para lidar com paixões, e o campo oposto o nojo, palavras asquerosas e que a forma de escrita e pronuncia denotam isso. É nesse contexto que cada palavra parece ganhar corpo, peso e imagem. Não se trata apenas de ouvir o idioma, mas de vê-lo em movimento, sendo desmontado e remontado diante do público. Há momentos em que o riso surge da identificação e outros em que ele vem do estranhamento, como se o familiar fosse apresentado sob uma nova lente.

    Duvivier consegue, ao longo dos 90 minutos do monólogo, construir de forma bem costurada e sequencial seu fascínio e amor pela linguagem, mas sobretudo pelo idioma português em todas as suas especificidades. O mesmo declara, em certo ponto da peça: “Eu só consigo existir graças às palavras. Em cima delas. Tenho por elas um amor tátil”.

    Ao sair da peça, o sentimento parece ser de renovado apreço pelo nosso idioma, que, diante da globalização e das redes sociais, aparenta cada vez mais absorver estrangeirismos, especialmente do inglês, deixando de lado expressões e construções tão nossas. Duvivier não trata isso de forma saudosista ou conservadora, mas sim como um convite à observação. A língua está viva, em constante transformação, e cabe a nós também reconhecê-la, habitá-la e reinventá-la.


quinta-feira, 16 de abril de 2026

KA, performance de Anna Maria Maiolino no MAAT, Lisboa, 24 de março de 2026

KA, é uma performance de Anna Maria Maiolino, artista plástica italiana, (Scalea, 1942), radicada no Brasil e uma das grandes figuras da arte contemporânea internacional e em particular da América Latina, distinção reforçada pelo Leão de Ouro de carreira na Bienal de Veneza 2024, apresentada no MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia), em Lisboa, como peça inaugural da sua exposição Terra Poética. É uma versão renovada de Entrevidas, que Maiolino concebeu em 1981 como manifesto contra a ditadura militar brasileira e em defesa da democracia. Na versão original, a artista espalhava ovos numa via pública do Rio de Janeiro e caminhava entre eles. O gesto de "pisar em ovos" tornado literal, o corpo circulando num campo minado de fragilidade.
Numa tarde de primavera invulgarmente bonita, depois das chuvas das semanas anteriores, o sol punha-se sobre o Tejo com tons que pareciam querer competir com o que estava prestes a acontecer na Praça do Carvão. Cheguei quase à hora marcada, o público formava já um círculo amplo em torno de um conjunto de ovos, dispostos cuidadosamente no chão, centenas deles, separados entre si por um intervalo preciso, como se a distância entre eles fosse já parte da obra. Essa disposição introduziu imediatamente uma sensação de surpresa e vulnerabilidade.

A artista chegou apoiada numa bengala, muito pequena, muito lenta. Deu várias voltas ao perímetro do campo de ovos antes de entrar nele, como quem reconhece o território antes de avançar. Quando começou a caminhar entre os ovos, a lentidão do seu passo transformou cada movimento num ato de atenção absoluta. Sem nenhum gesto dramático, apenas uma mulher muito velha a mover-se com uma precisão e uma intenção que tornavam o silêncio do público inevitável. Para mim, foi nesse momento que a performance se instalou de verdade: não na espetacularidade, mas na ausência dela.

Gradualmente, os seus assistentes, homens e mulheres, foram entrando no espaço, um a um, juntando-se ao movimento. O campo de ovos, que era território de uma só pessoa, encheu-se de muitas. Comecei a ouvir palavras quase incompreensíveis, que se foram tornando mais audíveis até se repetirem com clareza: PAZ. QUEREMOS PAZ. Ditas assim, naquele espaço, naquele momento do mundo, soavam a algo antigo, mas urgente. A palavra deixa de ser apenas discurso e torna-se ação.

Aos poucos formou-se uma fila de pessoas entre os ovos que fazia lembrar uma procissão, enquanto caminhavam entoando um cântico em surdina, acompanhando o movimento até ao momento em que o grupo se reuniu em círculo e se abraçou, imóvel durante longos minutos. O cântico continuou como se a voz fosse o último gesto antes do silêncio. Foi um momento quase espiritual de ritual coletivo. Nenhum ovo foi partido. Essa inteireza no final tem qualquer coisa de promessa, frágil, mas intacta.

KA opera num território entre fragilidade e ritual. Os ovos, o movimento lento e a palavra reiterada constroem uma imagem de vulnerabilidade persistente. A paz surge não como conceito abstrato, mas como algo que exige cuidado constante, atenção e disciplina. Quarenta e cinco anos depois de Entrevidas, o gesto continua a fazer sentido, o que diz muito sobre o estado do mundo, e talvez ainda mais sobre a resistência da arte.