sábado, 2 de maio de 2026

Bordalo ainda se ri de nós | Museu Rafael Bordalo Pinheiro

A visita ao Museu Rafael Bordalo Pinheiro, em Lisboa, revela uma exposição onde o humor não serve apenas para divertir. Entre caricatura, cerâmica, sátira política e crítica social, a obra de Bordalo continua a interpelar o presente com uma atualidade desconcertante. Num espaço que conserva a escala íntima de uma casa, o museu propõe um encontro próximo com um artista que fez do riso uma forma de observação crítica da sociedade portuguesa.

Entra-se pela lateral do edifício, passando por baixo de uma pérgula de glicínias, como se o acesso ao museu fosse já uma transição entre a cidade e um lugar onde o real passa pelo filtro do humor. No pátio traseiro, uma instalação suspensa com figuras recortadas de pássaros e uma presença ambígua introduz, ainda antes da exposição, uma atmosfera de leve estranheza. À direita, ficam as salas de exposição temporária. À esquerda, a entrada para o museu.

A casa onde o museu está instalado também participa na experiência da visita. Mandada construir em 1913 por Ernesto de Santa Cruz Magalhães, admirador e colecionador de Rafael Bordalo Pinheiro, foi pensada desde a origem como habitação e como espaço de homenagem ao artista. O projeto é do arquiteto Álvaro Augusto Machado e aproxima-se do gosto da “casa portuguesa”, visível nos alpendres, nos beirais e na presença das artes decorativas. 

A atual organização da exposição, inaugurada a 15 de janeiro de 2026, apresenta a sua obra através de uma leitura contemporânea, articulando desenho, cerâmica, caricatura, imprensa humorística e crítica social. Esta reorganização ajuda a perceber Bordalo como um artista cuja observação da sociedade portuguesa continua a ter ressonância no presente. A dimensão doméstica do edifício marca todo o percurso. O soalho de madeira e as escadas que rangem sob o peso dos visitantes lembram-nos constantemente que não estamos num espaço expositivo neutro, mas numa casa transformada em lugar de memória. Nas salas maiores, os painéis cerâmicos e duas peças monumentais, um jarrão com perto de dois metros de altura e um incensório, mostram outra escala da sua produção. A cerâmica deixa de ser apenas objeto decorativo e afirma-se no campo de invenção plástica, onde o grotesco e o ornamental, convivem com grande liberdade.



A meio da escada encontra-se um grande retrato de Rafael Bordalo Pinheiro, pintado pelo irmão Columbano. A figura do artista impõe-se antes de entrarmos plenamente no universo da sua obra. Bordalo nasceu em Lisboa, em 1846, e foi caricaturista, ilustrador, ceramista, decorador e observador crítico da vida política e social do seu tempo. 



No piso superior, a exposição organiza-se em seis salas e um hall, correspondendo às divisões originais da casa, cada uma pintada de uma cor diferente. A sala dedicada à situação política introduz o contexto social que atravessa grande parte da obra de Bordalo. Seguem-se os núcleos: Jogos Humorísticos, Figuras e Personagens, Palcos de Lisboa, Comédia Burlesca Política, Tragicomédia Sem Limites e O Lápis como Arma. A organização permite perceber a amplitude da obra, entre caricatura, cerâmica, imprensa humorística, vida urbana e crítica ao poder.











As salas são relativamente escurecidas e a luz incide de forma controlada sobre as imagens de publicações de que Bordalo foi fundador. Esta opção cria uma atmosfera recolhida e parece responder também a uma necessidade de conservação, já que o papel e a tinta são materiais sensíveis à exposição prolongada à luz. O resultado é uma visita mais concentrada, que obriga o olhar aaproximar-se das obras.

Apesar dessa penumbra, a visita faz-se num tom de boa disposição. Em vários momentos ouvi risos discretos de outros visitantes. É difícil não sorrir perante o sarcasmo genial de Bordalo, sobretudo quando a sátira política parece continuar tão atual. Há qualquer coisa de desconfortável nessa atualidade, rimos, mas percebemos que muitos dos comportamentos, vícios e mecanismos de poder que Bordalo caricaturou não desapareceram.




Para além da cerâmica, que já conhecia e que continua a surpreender pela ousadia com que mistura o ornamental e o grotesco, interessaram-me particularmente as caricaturas da situação política e as representações mais ambíguas do Zé Povinho. Esta figura não aparece apenas como simples símbolo  do povo português. Surge  como personagem contraditória, por vezes vítima das circunstâncias, por vezes resignada, irónica ou cúmplice da sua própria desgraça. É essa ambiguidade que a torna tão forte. O Zé Povinho não é apenas uma imagem do passado. É uma pergunta que continua sem resposta, sobre a forma como uma sociedade se vê a si própria, e sobre o que escolhe fazer com esse reconhecimento.


Saí do museu com a sensação de que Rafael Bordalo Pinheiro não pertence apenas ao século XIX. A exposição mostra que o seu humor continua ativo porque não se limita a fazer rir. Obriga-nos a olhar de novo para a política, para os costumes, para os preconceitos e para as pequenas cumplicidades sociais que continuam presentes. Talvez seja essa a força maior desta visita: perceber que o riso, quando é crítico, também pode ser uma forma de lucidez.


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Fole e Fôlego: o acordeão (finalmente) a solo de Gabriel Gomes

 O Coliseu dos Recreios, em Lisboa, recebeu no passado dia 3 de março de 2026 o concerto de lançamento do álbum de estreia a solo de Gabriel Gomes, intitulado Uma História Assim.


Imagem acedida em fnac.pt

Se por um lado, muitas pessoas poderão nunca ter ouvido este nome, por outro, serão com certeza muito poucos os portugueses que não reconhecem o seu acordeão em inúmeras músicas emblemáticas das últimas décadas. 

Gabriel Gomes faz parte de uma geração de músicos que, a partir de Lisboa, revolucionou a cena da música portuguesa nos anos 80. Integrou bandas como Sétima Legião e foi um dos fundadores de Madredeus. Mais recentemente, fundou com Rodrigo Leão o projeto Os Poetas, e Fandango, com Luís Varatojo, entre muitas outras aventuras, sempre acompanhado de músicos de referência.

Uma História Assim é um álbum solo tardio, mas há muito tempo esperado. Gabriel Gomes não é o típico front man, e foi preciso muita persuasão de muitos pares, entre os quais Rodrigo Leão (que assina a produção deste álbum em conjunto com João Eleutério), para finalmente editar um projeto a solo, recuperando algumas composições antigas.

A sonoridade deste disco reflete a complexidade e originalidade do seu autor, ora manifestando uma portugalidade sensível e aberta, como no tema Retorno (a história de um homem que regressa à sua aldeia depois de fugir para ganhar mundo), ora projetando alegremente um cosmopolitismo contagiante, evidenciado em composições como Chorinho, ou Oriental. Num tempo cinzento e de incerteza, Uma História Assim é um refúgio de luz e contentamento.



Vídeo acedido em YouTube.com

O concerto decorreu na sala mais pequena e polivalente do Coliseu - o Coliseu Club, e a pequena plateia estava repleta de músicos e amigos de longa data, num ambiente que parecia metade reunião familiar, metade merecida homenagem.

O intimismo do espaço reflete-se no palco. Gabriel apresenta-se tendo como companhia apenas o seu acordeão e um computador. O nervosismo inicial, algo enternecedor para um músico tão consolidado como este, deu rapidamente lugar a uma partilha de vibrações entre músico, instrumento e plateia. O acordeão transformou-se num prolongamento do seu corpo, partilhando com o músico uma respiração sensível, em que "fôlego e fole" (palavras do próprio) se confundem.


Imagem acedida em santosdacasa.blogspot.com

O extremo cuidado visual patente no disco espelha-se na vertente plástica do espetáculo. Uma iluminação a maior parte das vezes simples, fazia o brilho do acordeão parecer um bailado hipnotizante, e as sequências de vídeo subtis que pontuavam o espetáculo, projetadas em grande escala sobre o pano de fundo do palco, iam complementando as histórias por trás de cada tema, e que Gabriel Gomes ia partilhando com a plateia. 

Depois de tocar todos os temas do disco, ainda houve tempo para revisitar composições clássicas, criadas para outros projetos, tais como As Montanhas, de Madredeus, e De Braço Dado, uma composição de Carlos Paredes, editada no álbum Movimentos Perpétuos. O encore, que tinha sido planeado com O Roubo (primeiro single do álbum), muda à última hora para Retorno, o que parecia fazer mais sentido, como se ele próprio fosse o tal rapaz e a sala a sua aldeia, com as suas gentes, à qual ele regressa, sem nunca realmente ter partido.

Reconhecendo a ansiedade - afinal, é só ao fim de 40 anos de carreira que assume pela primeira vez o protagonismo em palco - Gabriel Gomes explica a sua relutância em lançar um disco e tocar a solo: «ninguém quer ouvir uma hora de acordeão»… o público presente na plateia repleta discordou veementemente e, ainda que sentados em cadeiras que não devem ao conforto, qualquer um de nós ficaria seguramente outra hora a ouvi-lo tocar. 


segunda-feira, 27 de abril de 2026

Homo-ordinarius no Dreamatorium

O Dreamatorium, projeto de Gonçalo Belo, apresentou em abril, nas salas cinzentas do Céu de Vidro junto aos pavilhões do Parque Dom Carlos I nas Caldas da Rainha, um ciclo intitulado Chuva Ácida (imagem 1). Com curadoria do próprio Gonçalo, este evento reuniu performances e instalações de vários artistas. O curador, juntamente com Patrícia João Carvalho, dinamizou outrora um projeto muito importante para a minha vida de estudante. Falo da Electricidade Estética, um ciclo de exposições efémeras que duravam apenas um dia e onde muitos artistas tiveram a sua primeira mostra (neste momento, apenas me recordo de Tiago Batista e de mim próprio).

Cartaz Chuva Ácida
Imagem 1 - Cartaz Chuva Ácida



Sirva de desculpa para o atraso na submissão deste texto o facto de ter estado a preparar uma recensão crítica de outra performance, FOLIA, apresentada por Susana Valadas neste mesmo ciclo, a 7 de abril. Nessa ocasião, Susana, vestida por Mafalda Santos e apetrechada com sensores de movimento da também artista Astronauta Mecânica, assinou aquela que foi, para mim, a melhor performance da noite. Ao jeito de Loie Fuller e da sua icónica dança da serpentina de 1892, Susana entregou-se a uma dança hipnótica, distinguindo-se da referência histórica pelo som provocado pelos seus próprios movimentos, quase como se o seu corpo funcionasse como um teremim corpóreo (imagem 2).



Imagem 2 - FOLIA de Susana Valadas
Foto: Henrique Fialho



Mas, com esse texto ainda em andamento, na última terça-feira, dia 21, voltei ao Céu de Vidro. O cartaz contava com três performances e duas instalações (imagem 3). Cheguei atrasado à primeira performance, da autoria de Beatriz Gaspar e Lourenço Trindade. No intervalo, aproveitei para ver as instalações de Fátima Andrea e Moisés Feliciano, confesso que sem lhes prestar a devida atenção. Fui absorvido por reencontros com colegas que já não via há muito tempo. O que não falta nas Caldas da Rainha, nos dias que correm, é assunto para conversa. Com o IPL, e por consequência a ESAD.cr, em processo de transição para o estatuto de universidade, o medo da perda de identidade da escola aliado à falta de transparência do processo cria o ambiente perfeito para alimentar conversas de ocasião. Tudo isto acontece num ambiente entre ex-alunos e professores, e professores que são ex-alunos, perfil que compõe cerca de noventa por cento do público destes eventos caldenses.



Imagem 3 - Flyer Chuva Ácida



Este assunto dissipou-se com a chamada para a performance "Homo-ordinarius", de Daniel Dantas e Rodrigo Dantas. Confesso que há sempre uma resistência em mim em trocar a conversa jogada fora pela atenção exigida por uma performance. Isso voltou a acontecer aqui, razão pela qual já não cheguei a tempo de conseguir um lugar sentado, mas fiquei perto da ação. Mais uma vez, talvez por inclinação minha para frequentar eventos "suspeitos", não havia qualquer folha de sala, introdução ou apresentação prévia. Apenas alguém que gritou "VAI COMEÇAR".


No início, uma tela projetava o vídeo de um indivíduo de cabelo comprido a praticar alguns exercícios, sempre repetidos três vezes, com movimentos genéricos típicos de um NPC (personagem não jogável de videojogos). Este vídeo, projetado num lençol, era acompanhado por uma voz off semelhante a um assistente virtual, que dava indicações e servia de narrador, enquanto se ouvia uma música digital muito simples, como se de um CD-ROM de tutoriais dos anos 2000 se tratasse.


Faço aqui um parêntesis para descrever o espaço e o duo. Rodrigo Dantas foi aluno de teatro na ESAD.CR, enquanto Daniel Dantas, aluno de som e imagem, assume a criação da peça e a operação audiovisual. O ambiente em volta nesta "sala cinzenta" é um primeiro andar poeirento e escuro. Um tapete de relva sintética serve de assento a cerca de trinta pessoas, com outras trinta de pé à volta das primeiras. As paredes em tijoleira envolvem o espaço, marcado pelo cheiro a louro que decora as escadas de acesso. Várias divisões são criadas por lençóis de diferentes texturas e cores, numa estética muito semelhante aos esconderijos que o meu primo e eu construíamos na casa da nossa avó, na Nazaré. É neste cenário que o performer Rodrigo Dantas entra em cena. Reconhecemos de imediato que é a mesma pessoa projetada no vídeo, mas com duas diferenças notáveis. Se no vídeo aparecia de cuecas brancas e cabelo comprido, agora apresenta-se perante nós de cabeça rapada e com uma ligadura enrolada à volta da cintura, à semelhança de uma fralda.


Com a entrada do performer, a projeção na tela mudou para um vídeo digital em 3D com uma modelação básica, o que interpretei como uma versão digital do próprio Rodrigo (vídeo 1). O performer começa a agir com um ar apático e um rosto desprovido de emoções, copiando os movimentos executados pelo humanoide na tela. Repetia tudo em séries de três, com uma fisicalidade pouco natural, invocando novamente a postura de um NPC. Aos poucos, a mensagem da peça começa a ganhar forma, revelando-se uma crítica a nós próprios, os espectadores daquele momento, dei por mim a ficar autoconsciente. Depois de interiorizar os movimentos básicos, o performer passa a aprender a demonstrar empatia, raiva, nojo… enquanto a voz off dita em simultâneo como e quando aplicar essas emoções, decifrando assim o "código humano".



Vídeo 1 - Homo-ordinarius de Daniel Dantas e Rodrigo Dantas



De início algumas risadas iam surgindo da plateia, contudo, ao chegar à fase de aprender a comunicar (grunhidos), a atmosfera mudou. A certa altura, um elemento do público decide responder a um desses grunhidos, o performer aproxima-se e começa a interagir, primeiro respondendo aos sons e depois com toque. É neste exato momento que a figura aos olhos do espectador deixa de ser um ator para se tornar em outra coisa, racionalmente sabemos que ele está a atuar, mas algo dentro de nós desliga essa certeza e dá lugar ao medo do desconhecido. Com a aproximação constante de Rodrigo, a expressão do espectador que interagia transformou-se de diversão, em desconforto e evoluiu para pânico, um pânico que rapidamente ecoou na expressão da audiência.


Surgiu-me na mente a imagem do filme "O Quadrado" do realizador Ruben Östlund, quando o ator Terry Notary entra em cena a fazer de homem-macaco no decorrer de um requintado jantar de gala. Apesar da escala menor da apresentação nas Caldas, penso que este é o melhor termo de comparação para a tensão gerada. A peça levanta uma reflexão profunda sobre aquilo que damos como garantido na nossa comunicação e na forma como reagimos em comunidade. Ao observarmos este corpo a ser programado ao vivo, percebemos que a nossa própria linguagem física, a nossa cultura e os nossos modos de convivência são um código fabricado. Trata-se de uma encenação altamente estruturada da qual fazemos parte e que validamos diariamente sem questionar. A performance dura cerca de vinte minutos e está tão bem escrita e estruturada que não houve um único momento em que sentisse que algo devia ser diferente. Termina de forma brilhante, com a voz off a indicar ao performer para agradecer à audiência, referindo que o público "também se encontra em performance".


Acabei por não assistir à última performance da noite, pois já não precisava de ver mais nada, estava satisfeito e sabia agora para onde apontar a minha recensão crítica. Toda a experiência levou-me a refletir sobre a importância da qualidade nesta escala, pois muitas das pessoas presentes eram artistas em início de carreira. Ao longo destes ciclos locais, noto que é dada muita importância ao universo material e à estética do espalhafatoso, mas raramente vejo a mesma dedicação aplicada à conceptualização das ideias e  da escrita, aqui o orçamento não é tudo. A peça vive de elementos quase franciscanos, provando que foi no apuramento das ideias que a verdadeira energia foi aplicada. É no contacto com este tipo de trabalho "espiritual" e honesto da arte que outros criadores podem verdadeiramente evoluir e procurar fazer melhor, o dinheiro não é tudo. 

Um aplauso.




quinta-feira, 23 de abril de 2026

O Museu Fora do Armário”, de André Murraças


Esta imagem é uma releitura artística contemporânea do icónico "Retrato do Rei D. Sebastião", pintado originalmente por Cristóvão de Morais. Esta versão específica, adornada com flores e um fundo claro, faz parte do projeto "O Museu Fora do Armário", concebido por André Murraças.

    Ao entrar no Palácio Pimenta, a visita inicia-se pela esquerda, estruturando-se segundo um percurso cronológico que atravessa diferentes períodos históricos, desde a época Romana até à Revolução dos Cravos. 

    Desde o início, é enunciada a ideia de que “Lisboa é feita por várias camadas e vários artistas”, estabelecendo-se assim o princípio orientador: a possibilidade de reinterpretação da exposição permanente a partir de uma perspetiva crítica e inclusiva.

    Mais do que um simples percurso guiado, esta proposta assume-se como uma prática de mediação cultural que promove a desconstrução das narrativas dominantes. A visita revela-se particularmente eficaz ao orientar o olhar do espectador para elementos frequentemente marginalizados ou invisibilizados. Um exemplo disso mesmo ocorre na chamada “sala de espelhos”, onde André Murraças destaca um azulejo que parece representar a proximidade romântica entre duas figuras masculinas. Este gesto curatorial funciona como dispositivo pedagógico, ao introduzir uma leitura que desafia a heteronormatividade implícita nos discursos museológicos tradicionais.

    Painel de azulejos representando duas figuras masculinas em proximidade, observado na “sala de espelhos” do Palácio Pimenta. Fotografia da autora.

    Ao longo do percurso, assinalado pelo logótipo do projeto “Museu Fora do Armário”, constrói-se uma narrativa que articula análise histórica com interpretação crítica. 

    Outro exemplo é a referência a cantigas de amor trocadas entre homens na sua origem, que após passarem pelo crivo censório foram convertidas em modelos heteronormativos, evidenciando processos de reescrita e apagamento cultural, por parte do Vaticano. Do mesmo modo, o retrato de D. João V adquire uma nova dimensão interpretativa: a pose, nomeadamente a mão na cintura e a expressividade do corpo, permite compreender a imagem régia não apenas como representação de poder, mas como construção performativa, onde o corpo se afirma enquanto espaço de encenação e significação.

         Retrato de Dom João V, em exibição no Palácio Pimenta. Fotografia da autora.

    A abordagem mantém a sua consistência ao integrar períodos marcados pela repressão, como a Inquisição, através do caso de Maria Duran, evidenciando limitações dos sistemas legais da época no tratamento de identidades dissidentes.

    No contexto da sala oitocentista, a referência à obra de Eça de Queirós, nomeadamente Os Maias, reforça esta leitura ao evidenciar tensões e ambiguidades presentes na representação da sociedade da época, abrindo espaço a interpretações contemporâneas que questionam os modelos normativos de género e comportamento.

    O percurso culmina na sala dedicada à queda do Estado Novo, onde a Revolução dos Cravos é apresentada como momento de ruptura e transformação, associado à emergência de novas possibilidades de visibilidade e afirmação identitária.

    No seu conjunto, a visita guiada revela-se uma intervenção crítica consistente, ao propor uma reconfiguração do olhar sobre o acervo museológico. Ao evidenciar a dimensão simbólica das obras, demonstra como a autoridade visual pode ser reinterpretada à luz de perspectivas contemporâneas, promovendo uma experiência reflexiva ainda que alinhada com princípios de educação artística.

    A conclusão da visita, marcada pela observação de uma bandeira Arco Íris, reforça esta dimensão pedagógica e política, ao transmitir uma mensagem, pertença, e segurança, estabelece uma ligação significativa entre passado e presente. Relembra que, em Portugal, apenas em 1982 a homossexualidade deixou de ser considerada uma patologia, enquanto esse percurso, no contexto internacional, remonta a 1973, quando a American Psychiatric Association a retirou da lista de perturbações mentais. A visita evidencia percursos de invisibilidade e repressão, mas também conquistas recentes no reconhecimento de identidades e direitos.

    Esta visita guiada, promovida pelo projeto Museu Fora do Armário, irá realizar-se quatro vezes até ao final do ano no Palácio Pimenta, estando previstas iniciativas semelhantes em outros museus, com o objetivo de divulgar a cultura LGBTQIA+ através da reinterpretação de obras do acervo cultural nacional.

    A experiência revela-se altamente recomendável, não apenas pela sua relevância temática, mas pela forma consistente como escalpeliza uma leitura crítica e inclusiva, contribuindo para a ampliação do olhar sobre a história e a sua representação.


Coleção Presença Portuguesa na Ásia - Museu do Oriente

O Museu do Oriente, fundado em 2008 e localizado à frente do rio, na Doca de Alcântara, afirma-se como a representação da presença portuguesa na Ásia, especificamente na Índia, no Sri Lanka, na China, em Macau, no Japão e em Timor-Leste, como se confirma pela sua vasta coleção de mais de 3.400 objetos artísticos e documentais como mobiliário, marfins, têxteis, arte sacra, porcelana, pintura e escultura datadas de 3000 a.C até meados do século XX. 

Este Museu pertence à Fundação Oriente, fundação portuguesa constituída em 1988, instituída pela Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM) e parceira da Fundação Eng. António de Almeida e a Fundação Calouste Gulbenkian no âmbito do Centro Português de Fundações (CPF). Esta tem como missão, ações de caráter cultural, educativo, artístico, científico, social e filantrópico que visem a valorização e a continuidade das relações históricas e culturais entre Portugal e o Oriente.


A sua coleção, apelidada de “Coleção Presença Portuguesa na Ásia”, encontra-se organizada em três núcleos por países e regiões. O primeiro núcleo, focado na China e em Macau encontra-se assim que se sobe as escadas para o 1º andar, com uma parede composta por uma grande variedade de loiça chinesa, de diferentes propósitos, e separada por temas, tais como, os prazeres da vida, ao ar livre, a poesia, a expansão da fé cristã e temas satíricos, com o nome de “Para além da taprobana”, antigo nome de origem grega utilizada para designar a atual ilha do Sri Lanka, referindo-se ao paraíso descrito em “Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões. 



Do outro lado desta primeira sala, encontramos expostos algumas pinturas realizadas maioritariamente por George Chinnery (1774 - 1852), pintor inglês que viveu a grande maioria da sua vida em Macau e consequentemente, desenhou muito das suas paisagens e da população local. Juntamente com as pinturas, as suas legendas não só descrevem a parte formal da pintura (o tamanho, material, data, etc) mas também descrevem a pintura quase de forma cómica, como se nos contasse a história do que está a ser retratado, como se estivessemos mesmo à frente daquele cenário a acontecer. 


George Chinnery (1774-1852) - Homem Tocando Contrabaixo
George Chinnery (1774-1852) - Homem Tocando Contrabaixo


            Depois de completarmos esta primeira sala, à nossa esquerda, temos então o segundo núcleo, dedicado a Timor-Leste, ao Japão e à Coreia. Esta secção encontra-se dividida apenas por vitrines de vidro e pelos nomes das regiões, ou seja, sendo esta uma área bastante aberta, se não estivermos a prestar atenção é muito possível perder a noção da transição geográfica. O facto de estar bastante escuro também não só dificulta a distinção entre as áreas geográficas, mas também dificulta a leitura das legendas. 



Quanto aos artefatos presentes, estes são bastante diversificados, como objetos do quotidiano doméstico do povo timorense: portas, bancos, panos, facas, um descaroçador de algodão e estátuas representativas de antepassados e de motivos religiosos de Timor-Leste. 



Quanto ao Japão, estão presentes armaduras de guerra, trajes tradicionais e joias em boa condição. No canto da sala, existe uma pequena coleção de fotografias de paisagens da Coreia e apenas uma caixa para medicamentos. 



Do outro lado da sala, temos mais uma vez uma coleção com peças chinesas. Desta vez, a área é dedicada à pintura e à caligrafia, com diversos exemplares de paisagens, cenas do quotidiano e caligrafia em rolos de grande dimensões. Infelizmente apenas algumas pinturas continham uma tradução do que estava escrito, no entanto, esta foi a minha parte favorita de toda a visita, não só pela beleza dos desenhos mas também pela grandeza e pela quantidade de detalhe que estas peças de arte possuíam. 

É também importante mencionar que, nesta parte da exposição, muitas peças vieram de colecionadores privados que decidiram doá-las ao museu. Além disso, algumas das obras expostas pertenciam a outras associações nacionais e internacionais e não apenas ao próprio museu. Isto evidencia o esforço da instituição para ter sempre peças novas, bem como a sua abertura em partilhar conhecimento e artefactos com outras partes do mundo. Esta colaboração permite chegar a um público maior, notando-se ainda que alguns artefactos da coleção permanente não estavam nesta sala por estarem, precisamente, a ser expostos noutras organizações.



Por fim, à direita do primeiro núcleo, encontramos a última área da exposição. Esta secção apresenta artefatos maioritariamente da Índia e do Sri Lanka, e em reduzida quantidade da Tailândia e do Mianmar, com mais algumas peças do Japão. É nesta sala que existe uma maior contextualização de Portugal no Oriente e não só sobre os países e regiões em si, acabando por influenciar as peças expostas neste núcleo, por exemplo, a existência de pinturas de clérigos e de missionários portugueses. Muitos dos objetos que se podem observar são de cariz religioso não só trazidos pelos portugueses mas também feitos pela população local com materiais regionais, como crucifixos, custódias e navetas. A coleção inclui ainda pinturas, objetos quotidianos e algumas joias.



            Quanto a esta última parte da exposição, senti que não havia uma grande variedade de peças e que muitas delas orbitavam sempre o mesmo tema. Se relacionarmos este núcleo com o anterior, este parece muito focado apenas no que os portugueses fizeram nestas áreas geográficas, não contendo muito da cultura local, contrariando, por exemplo, a área dedicada a Timor-Leste. Além de a coleção ser pouco diversificada, havia algumas falhas por parte do museu: como as salas eram bastante escuras, foi necessário colocar luzes muito próximas de certas peças e pinturas de grande dimensão, o que causava reflexos que impossibilitavam a observação clara das obras. Além disso, notei que algumas peças expostas continham texto noutro idioma que não foi traduzido e nem sequer tinha legenda, havendo aqui um certo descuido por parte do museu para com o visitante.



Considerando a visita toda do museu, com uma duração de cerca de duas horas, e pelo preço, diria que foi uma exposição bastante interessante com peças muito bem preservadas, com uma grande variedade e que recomendo a todos para que conheçam mais sobre Portugal no Oriente, assim como as suas próprias culturas. No entanto, não podendo nos esquecer da existência de partes onde o museu certamente pode melhorar para elevar a qualidade desta exposição permanente para todos os visitantes, tendo em conta os motivos que mencionei ao longo do texto. 

Para terminar, é importante referir que esta exposição tem uma componente digital, onde algumas peças em exposição têm um qr code e ao se fazer scan com o website “www.zoomguide.app”, é possível não só ver todas as peças da coleção mas também ler informação adicional sobre cada peça, quer seja em português, inglês ou em outra língua suportada pela página.