Este fim-de-semana tive a oportunidade de visitar a Print Pause Lisboa na Goethe-Institut. Um evento focado na publicação independente e auto-edição, organizado pelo Gerador. Contava com uma feira de publicações de diferentes editoras independentes espalhadas pelo mundo, com projetos impressos dentro das áreas do jornalismo, arte, arquitetura, e teoria. O conceito fundamental é a perceção da matéria impressa como uma maneira de desacelerar — Print; Pause.
Infelizmente consegui apenas ouvir uma única palestra no domingo, antes do evento fechar. Esta refletia sobre os desafios dos distribuidores de imprensa independente, tendo como casos de estudo dois profissionais da área — Steven Watson da Stack Magazine, e Isabella Robathan da magCulture — convidados para falar sobre os seus próprios projetos.
Estas duas pessoas têm os seus projetos focados no Reino Unido. Stack Magazine é uma loja online sediada em Londres e criada em 2008, com base num sistema de subscrição que oferece ao leitor uma publicação independente entregue, mensalmente, á sua porta. O subscritor não sabe qual a magazine que irá receber em seguida, sendo que o trabalho de curadoria é feito pela equipa da Stack. O objetivo deste modelo é dar a conhecer publicações independentes que de outra maneira o leitor não teria acesso.
magCulture, também localizada em Londres é uma loja projetada a partir de um livro, que em 2003 deu a conhecer a indústria de publicação independente contemporânea da altura. O livro deu aso a um blog que se tornou um projeto de partilha de conhecimentos em volta da matéria da publicação — direção de arte, produção, escrita, design, etc. A loja física com agora 10 anos é casa de mais de 700 publicações de todo o mundo.
A conversa foi guiada pelo Tiago Sigorelho, da parte do Gerador. Fazia perguntas pertinentes para clarificar dúvidas aos editores independentes que, no público, pudessem querer saber como contactar com estas distribuidoras — Que tipo de publicações estariam eles interessados em promover ou lançar? Como enviar os projetos publicados? Aceitam apenas publicações em inglês? Quantas publicações recebem em geral ao longo de um mês/ uma semana? Quantas delas são novas? Já tiveram contacto com uma publicação que os tivesse surpreendido pela positiva? Como é que estes distribuidores mantêm o contacto com tantas pequenas editoras? — Muitas destas questões são importantes na tentativa de um estreitar de uma relação entre o editor e a entidade que partilha o material.
Eu queria saber no entanto os reais desafios que estas entidades enfrentam ou enfrentaram ao longo do tempo que estiveram abertos. Numa altura em que o digital é o material mais acessível, como conseguem eles continuar a agarrar público, como é que eles se relacionam com o público para continuar a oferecer serviços de qualidade numa sociedade capitalista em que, por vezes, a quantidade triunfa sobre o conteúdo e substância do material.
No caso da Stack Magazine, criada um ano antes do primeiro iPad ser lançado, o desafio de uma sociedade que se estava a virar cada vez mais para a informação digital assustou este projeto ainda bebé. Como é que um serviço personalizado de entrega e distribuição de publicações independentes sobreviveria, quando os jornais impressos estavam a dar início à sua transição para a subscrição online utilizando este novo recurso tecnológico. Mesmo vivendo com o receio do fim iminente, a imprensa sobrevive ainda hoje e a publicação independente continua a ser de interesse para as comunidades que a procuram. Maioritariamente composta por artistas, metade deles designers. A existência destes materiais físicos sobrevive precisamente graças à especificidade da sua informação. “It’s (a publicação independente) been there the whole time, but no one’s looking”. As publicações estão a ser feitas e partilhadas, é um ambiente rico em informação acessível. A publicação independente sobrevive muitas vezes pela capacidade de se financiar a ela própria, pela existência periódica não diária que lhe permite respirar e angariar não só informação como a atenção prolongada de quem as consome.
Isabella Robathan diz que não tem medo do futuro dos meios de comunicação digitais, sendo que compreende como o público especializado procura a publicação impressa como uma maneira de desacelerar. Já não servem as magazines apenas um propósito puramente informativo, mas num mundo cada vez mais digital servem como um escape dos ecrãs, para um momento mais lento na relação entre o leitor e o papel nas mãos.
No fim da conversa passei por entre as bancas de editoras, muitas delas internacionais, e muitas delas portuguesas. Algumas recentes, as quais nunca tinha visto, com projetos que se focavam na fotografia, na arquitetura, no livro de artista, na banda desenhada. Outras mais antigas cujos trabalhos consigo reconhecer da biblioteca da minha casa. E permiti-me folhear estes projetos e objetos, muitos deles feitos à mão; utilizando técnicas de impressão analógicas ou risografia; cortadas manualmente; elementos colados a capas ou a páginas; pequenas edições — 30 de 30; folhas de árvore cuidadosamente cosidas a capas de cadernos; projetos onde se compreende uma relação duradoura entre o editor e o autor — onde o artista cede controlo sobre o seu trabalho ao editor, e desta colaboração surgem projetos pensados e pensantes, estruturas arquitetónicas, leves e pesadas ao mesmo tempo. Neste tempo que demorei entre os livros saboreei o tempo que suspende e que não é só meu, mas um sinal do tempo que suspende quando o livro é pensado.




















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