Ao entrar na Galeria Quadrum tive a sensação de atravessar um território estranho. As esculturas de Mané Pacheco ocupam o espaço como criaturas silenciosas, distribuídas pelo chão ou suspensas. Algumas evocam organismos que oscilam entre corpo e resíduo industrial.
A
exposição “Brama”, com curadoria de Ana Cristina Cachola, reúne vinte
esculturas distribuídas entre o interior e o exterior da Galeria Quadrum.
Instaladas numa sala ampla e iluminada por luz natural, as obras combinam
materiais orgânicos e artificiais, construindo um ambiente que sugere um
ecossistema instável onde matéria biológica e resíduos industriais se
entrelaçam.
Mané
Pacheco (Portalegre, 1978). Vive e trabalha em Lisboa. A sua formação inicial
na área da Conservação da Natureza, seguida de estudos em Arte Multimédia na
Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, tem influenciado uma
prática artística que explora as relações entre matéria, corpo e ecossistemas
contemporâneos. O seu trabalho recorre frequentemente a materiais orgânicos ou
resíduos provenientes de processos industriais, reorganizando-os em formas
híbridas que questionam as fronteiras entre natureza e tecnologia.
O título da exposição remete para a “brama”, o período de
cio dos cervídeos marcado por vocalizações graves que funcionam como afirmação
territorial.
O espaço amplo da Galeria Quadrum permite circular entre as
esculturas como se estivéssemos a atravessar um território habitado. As peças
encontram-se relativamente afastadas umas das outras, fazendo com que cada encontro
com uma nova forma tenha algo de inesperado.
Essa dispersão cria a sensação de um ambiente povoado por
criaturas enigmáticas. A disposição das obras constrói uma paisagem marcada
pela coexistência de materiais naturais e industriais.
A luz natural da sala, contribui para um contraste
particular: apesar da estranheza das formas, as esculturas surgem num espaço
claro e quase neutro, longe de qualquer ambiente dramático ou teatral.
Ao mesmo tempo, a distância entre as peças reforça a sua individualidade formal, permitindo uma observação atenta de cada escultura. Essa separação, contudo, enfraquece por momentos a perceção de um ecossistema contínuo, fazendo com que algumas obras se apresentem mais como entidades independentes do que como partes de um mesmo organismo expositivo.
Ainda assim, a sensação de atravessar um território habitado mantém-se. Os materiais utilizados por Mané Pacheco desempenham um papel fundamental na construção desta atmosfera. A borracha e o pelo sintético evocam pelagens ou membranas orgânicas, aproximando as esculturas do universo do corpo. A combinação destes elementos com resíduos industriais introduz uma tensão entre o biológico e o artificial.
As formas resultantes permanecem deliberadamente ambíguas, sugerindo criaturas indefinidas. Essa indefinição confere às peças uma presença quase animal. A proximidade com a materialidade do corpo, através do pelo ou da textura da borracha, provoca uma reação simultaneamente de curiosidade e estranheza, onde os limites entre objeto e organismo se tornam incertos.
As esculturas suspensas em borracha, evocam objetos
associados ao corpo e à sua contenção. Certas peças podem lembrar arreios ou
dispositivos de suporte corporal, aproximando-se visualmente de artefactos
ligados a práticas de controlo ou imobilização do corpo. Esta ambiguidade reforça
a dimensão corporal e sexual sugerida na exposição, onde desejo,
vulnerabilidade e violência coexistem de forma subtil.
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“Biomorfo”, painel de colmeia em alumínio, 34x131x48 cm,
2026 |
A obra “Biomorfo” apresenta uma forma enrolada que lembra um tronco fossilizado ou um fragmento anatómico. A superfície metálica de estrutura alveolar, cria um efeito quase mórbido. O resultado é uma peça que parece simultaneamente orgânica e contaminada, como se fosse um organismo transformado por processos industriais ou por um ambiente alterado.
Uma das peças que mais me chamou a atenção foi uma estrutura
suspensa construída em borracha natural que se aproxima formalmente de uma
rede, sugerindo simultaneamente contenção e suporte. A malha deixa o interior
visível, criando uma sensação de estrutura orgânica expandida.
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| ”Reticular” borracha natural e ferragens de aço inox, 105x102x32 cm, 2026 |
A utilização da borracha é particularmente significativa.
Este material, historicamente associado à exploração colonial e à produção
industrial, aproxima o trabalho de uma reflexão sobre os sistemas económicos e
ecológicos que atravessam o corpo e o território. A forma de rede reforça essa
ambiguidade, pode ser lida tanto como dispositivo de captura quanto como
estrutura de sustentação, situando a escultura num espaço intermédio entre
proteção e aprisionamento. A peça
encontra-se imóvel no espaço, mas a sua forma pendente e o material elástico
criam uma sensação de leveza, como se pudesse balançar facilmente caso
seja tocada. Esta tensão entre imobilidade e potencial movimento, sugere um
organismo suspenso entre repouso e ativação.
No conjunto, “Brama” apresenta um grupo de peças visualmente
fortes e materialmente sugestivas, capazes de evocar organismos híbridos que
parecem habitar um território instável.
No entanto, apesar da força individual de várias esculturas,
a relação entre as diferentes peças nem sempre se torna imediatamente clara no
espaço expositivo. A leitura conceptual proposta pelo texto curatorial ajuda a
estabelecer ligações entre os trabalhos, sobretudo no que diz respeito à ideia
de ecossistemas híbridos e organismos mutantes. Sem esse enquadramento, algumas
das obras podem surgir ao espectador como presenças isoladas dentro da sala.
Ainda assim, a exposição consegue criar um ambiente sensorial
marcante, onde materiais e formas evocam simultaneamente o animal e a matéria
industrial, convidando o visitante a imaginar formas de vida possíveis num
mundo atravessado por transformações tecnológicas e ambientais.
Mais do que representar organismos imaginários, as
esculturas de Mané Pacheco sugerem que o mundo contemporâneo já é, em si mesmo,
um espaço híbrido onde corpo e tecnologia se encontram em permanente
transformação.
Ao sair da exposição fiquei com a sensação de ter atravessado um
território habitado por formas estranhas, onde cada escultura parece uma
presença isolada e, ao mesmo tempo, parte de um ecossistema ainda por
compreender.






















