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segunda-feira, 11 de novembro de 2024

A Arte Déco: o Design e a Publicidade

“Designing a poster means solving a technical and commercial problem....in a language that can be understood by the common man.”

A.M. Cassandre

A década de 1910 representou um período de grandes progressos tanto a nível económico, como tecnológico e cultural. Numa época na qual o cinema e a publicidade ganham cada vez mais relevância, os meios de comunicação social são revolucionados e transformam-se numa ferramenta comercial. O design em particular, procurou acompanhar as mudanças que se estavam a registar, experimentando uma abordagem modernizada e uma linguagem visual representativa da sociedade atual.


Influenciado pela Revolução da Indústria, o início do século XX caracterizou-se pelas inúmeras inovações e avanços. Paris começou a ser afirmada como o centro da cultura e das artes e o conceito de “Loucos Anos 20” foi sendo propagado com uma referência aos novos gostos da comunidade. Posto isto, a necessidade de promover as ideias em vigor e desenvolver uma melhoria no mercado, possibilitou a priorização das artes gráficas enquanto recurso de comunicação.

Antecedida pelos movimentos Arts and Crafts e Art Noveau, a expressão Arte Déco teve origem na Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas. O surgimento deste novo estilo, veio apresentar uma abordagem renovada, tentando assim corromper com os princípios arcaicos que eram aplicados no design. Verificou-se uma evolução de uma imagem ligada às preferências filosóficas e políticas que geralmente eram definidas, para uma estética elegante e sofisticada. Existiu então uma geometrização e estilização das formas que levou os artistas a apostar nas Artes Decorativas como ilustração da beleza, da libertação e das artes do espetáculo.



Inicialmente, este movimento era praticado com o intuito de promover peças de teatro e apresentações de cabaré. No entanto, com o crescimento cada vez maior da economia e da indústria, existiu uma necessidade de investir na publicidade de modo a fazer progredir o mercado na sociedade. Por conseguinte, sendo característico da Arte Déco a criação de uma imagem chamativa e individual, o propósito do estilo foi expandido para a produção de anúncios atrativos e cativantes. Um dos designers que maior impacto teve nesta viragem foi A.M. Cassandre, que executou algumas das obras mais icónicas do século XX. Introduziu uma nova perspetiva ao elaborar os primeiros posters adaptados à visualização em movimento e adquire uma linguagem própria relativamente à composição da tipografia.  



Para além de um instrumento de divulgação, a Arte Déco manifestou-se ainda nas capas de livros que refletiam acerca das práticas quotidianas modernas adotadas e estendeu-se pela arquitetura, moda, pintura, etc… Apesar de ter entrado em decadência entre os anos 1935 e 1939, as influências acabaram por permanecer em alguns aspetos que mais tarde voltaram a ser explorados.        






segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Bruno Munari: o Design e os Pré-Livros

 A evolução da comunicação visual tem vindo a progredir desde sempre. Partindo do período primitivo até à atualidade, as formas de representação, as técnicas e as abordagens utilizadas na história do design foram sendo expandidas criando uma linguagem cada vez mais desenvolvida e inclusiva. Através da inovação e da procura de um design acessível, o artista e designer italiano Bruno Munari, foi uma das figuras mais relevantes ao longo deste progresso.


Quando falamos de expressão multidisciplinar na arte, o trabalho deste artista sobressai na sua diversidade e ousadia. As suas obras refletem sobretudo uma preocupação e um interesse pelas circunstâncias e pela realidade que o rodeava. A arte e o design deviam incidir sobre a sociedade e a forma como era recebido por todo o tipo de público, desde os mais novos até aos mais velhos. Dentro das suas muitas criações e ideias progressistas, por volta da década que sucedeu a Segunda Guerra Mundial, Munari começou a explorar diferentes variações dentro do design do livro enquanto objeto. Inicialmente designados por “Livros Ilegíveis”, esta experimentação passou pelo desenvolvimento de uma peça que se afastasse dos ideais convencionais que definiam o livro. Geralmente, na composição de uma publicação incluímos uma série de “elementos base”, sendo que cada um desses componentes desempenha a sua função consoante foi inicialmente projetado. A tipografia, a imagem e o próprio suporte da obra seguem sempre um padrão estabelecido. Bruno Munari vem questionar este processo, apresentando uma solução empírica que pretende demonstrar uma nova abordagem na comunicação visual. Os Pré-Livros ou Livros Ilegíveis, ao contrário do livro comum, enaltecem os recursos gráficos que por norma têm um papel secundário. A cor, as texturas, os formatos e a encadernação são desenvolvidos e aplicados como uma mais-valia, proporcionando ao público uma perspetiva sensorial.

A presença da arte, o modo como as crianças interpretam o que as rodeia e a maneira como estimula a sua criatividade, sempre foi do interesse deste artista. Posto isto, mais uma vez a sua preocupação em tornar então o design inclusivo, reflete-se no conceito por detrás das suas criações. Munari acredita que a aprendizagem deve ultrapassar os métodos monótonos e tornar-se numa experiência dinâmica, explicando que a maioria dos adultos não apreciam a leitura por a considerarem um processo entediante. Assim sendo, um dos principais objetivos deste projeto seria começar por propor uma modificação no contacto com o livro e tornar o conhecimento uma possibilidade para qualquer um, começando pelos mais pequenos.


Com um percurso repleto de intervenções que vieram a contribuir para a evolução das artes e do design, Bruno Munari repensou a comunicação e comprovou que as possibilidades de reinvenção da visualidade podem ser inúmeras.

sábado, 2 de novembro de 2024

Narrativas do Eu – Livros de Artistas Mulheres

Um livro representa muito mais para além de um grupo de registos em papel. Conseguimos entender este objeto, quando nos permitimos adquirir um olhar mais aberto e espontâneo ao que nos é apresentado. Um livro pode ser um veículo, uma manifestação, um sentimento, uma identidade… Na exposição “Narrativas do Eu – Livros de Artistas Mulheres”, proporcionada por Leonor Antunes na Biblioteca de Arte Gulbenkian, conseguimos ter um vislumbre do impacto que a arte e o livro em conjunto podem gerar. Através de uma seleção de livros de artista executados por mulheres como Isabel Baroana, Ana Hatherly, Patrícia Almeida, Ana Vidigal, Alice Geirinhas, etc., é-nos apresentada uma perspetiva pessoal e por vezes até autobiográfica, das preocupações femininas num formato artístico e experimental.














Desde o século XX, os parâmetros clássicos do que era de facto considerado um livro, têm vindo a ser desafiados. Por volta da década de 1960, com o aparecimento da arte conceitual enquanto movimento artístico, a estrutura convencional de um espaço para as artes começou a ser criticada. Tanto artistas como designers, começaram a optar pelo método de self-publishing e viram este objeto como uma ferramenta de protesto ou de difusão de ideias e princípios. Apesar deste ser um progresso que vem acontecendo desde o início do século, foi a partir do ano de 1970, período no qual o feminismo se estava a manifestar ativamente, que existiu um maior reconhecimento do trabalho da mulher nesta área. A designer americana Sheila de Bretteville, foi uma das pioneiras que impulsionou e possibilitou esta mudança, criando espaços dedicados a dar voz à visão das mulheres artistas. 













Se regredirmos no tempo e analisarmos algumas das obras executadas na época das vanguardas e da fundação de Staatliches Bauhaus, é possível percecionar que todos os detalhes desde o conteúdo até ao seu formato, são cuidadosamente pensados de modo a corresponder à mensagem que é pretendida passar ao público. Nesta exposição, podemos observar essa mesma característica, na forma como as artistas escolheram trabalhar os materiais, a tipografia, o desenho e a fotografia. A atmosfera do espaço juntamente com a disposição escolhida, cria uma experiência quase de narrativa entre os vários livros. O observador é presenteado por uma poesia visual que reúne objetos de infância, imagens do passado, palavras, memórias e registos do presente.
Ultrapassando uma vez mais as fronteiras daquilo que é aceitável como uma peça artística, o trabalho reunido destas artistas transgride os limites da linguagem. Demonstra como é possível materializar a vida, o corpo e as experiências num modelo reimaginado contemporâneo capaz de proporcionar um meio de comunicação pertinente para a mulher.