Mostrar mensagens com a etiqueta 12552. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 12552. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Os Contos Mais Arrepiantes de Howard Philips Lovecraft

 

Capa dura, da edição da Saída de Emergência 

Howard Phillips Lovecraft é considerado o expoente máximo da literatura de horror do início do século XX, mas nem sempre o foi. Lovecraft passou por dificuldades, muito por conta da sua dedicação à literatura, que pouco mais conseguiu, à época, do que ocasionais espaços em revistas e imprensa pulp fiction. Lovecraft foi um pioneiro no que diz respeito a misturar ficção científica com terror, e o seu trabalho é considerado único e inimitável no que diz respeito à dimensão e ao pormenor. Na edição de Luís Corte Real, o fundador das Edições "Saída de Emergência" que participou ainda no design de capa, arte e editorial, "Os Contos Mais Arrepiantes" de Howard Phillips Lovecraft é uma homenagem mais do que digna àquele que foi um artista incomparável, não obstante, a sua morte precoce, aos 46 anos.

De facto, Lovecraft era um mestre naquilo que escrevia. É como se o terror dos nossos dias precisasse ser gritado para nos assustar, enquanto Lovecraft simplesmente sussurra o medo. E sussurrar, com toda a certeza, tem muito mais efeito.

Não é como o terror que estamos habituados a ver nas telas de Cinema ou a ler nos grandes lançamentos da atualidade. Não é um livro que se lê depressa, tanto pelo tamanho como pela forma como os contos podem mexer connosco.

Entrada do Índice 

Entrada do Conto O Intruso

Os pormenores desta edição, então, são a cereja no topo do bolo. A começar pelo trabalho da capa dura, complexa de detalhes incríveis e bem elaborados, onde, no fundo, roxo assentam inscrições em prateado a que não faltam caveiras e tentáculos de criaturas marinhas -, pode ser vista como uma súmula da obra Lovecraftiana, reunindo 22 dos seus contos mais arrepiantes. A acompanhar uma paginação exemplar, com todo o ar de livro de uma época que não nos passou pelos dedos, cada um dos 22 contos – há pérolas como «O Intruso» ou «Herbert West, o Reanimador» – é ilustrado por um artista nacional, com nomes como Filipe Andrade, Ricardo Cabral, Bárbara Lopes, Joana Simão, Joana Afonso ou Miguel Mendonça a recriarem a negro o imaginário dos contos de Lovecraft, responsável maior pela literatura de horror ter deixado de ser só sobre vampiros, fantasmas e bruxas – e por deixar influências e inspirado autores modernos como Neil Gaiman, Alan Moore ou Guillermo del Toro.

Este livro é uma prova de que, apesar de ter falecido há mais de 80 anos, Lovecraft continua a viver através da sua obra. É um trabalho perfeito para quem se deixa levar pelas palavras e quem quer mergulhar na mestria de um dos maiores escritores de horror de sempre.


Ilustração de Miguel Mendonça, do Conto O Modelo de Pickman

Ilustração de Carlos Fernandes, do Conto O que Sussurra nas Trevas





quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Annie "Lou" Rogers: A Cartunista Sufragista

 

Lou Rogers, One Ounce of Fact is Worth a Ton of Theory (1912)

Em 1900, as mulheres americanas só podiam votar em alguns estados ocidentais. As sufragistas estavam se esforçando para ganhar o direito ao voto, mas escrever artigos, cartas e discursos não parecia ser suficiente. Elas precisavam de outra maneira de convencer o público.

As antissufragistas começaram cedo e espalharam imagens negativas das sufragistas desde os meados de 1800 – quase desde que o movimento sufragista surgiu. As tiras humorísticas troçavam das sufragistas, projetando-as como ofensivas para os padrões sociais da época: feias, agressivas, velhas, solitárias, amargas e masculinas. Algumas revistas e jornais opiavam o voto feminino, outras gozavam da própria ideia de que as mulheres gostariam ou poderiam votar.
As caricaturas políticas eram/são desenhos destinados a expressar a opinião do artista, eram uma forma de atingir um amplo grupo de leitores, pois recorriam há utilização das imagens para chamar a atenção das pessoas e estes por vezes diziam mais sem dizer nada do que os próprios artigos escritos. As imagens carregavam poder nos anos 1800 e 1900, assim como fazem hoje. No início dos anos 1900, as sufragistas começaram a retomar ao controle, espalhando mais imagens próprias. Embora quase todos os artistas de desenhos humorísticos fossem do sexo masculino, um grupo surpreendentemente grande de artistas femininas começou a desenhar cartoons. Os seus desenhos espalharam-se por todo o país em jornais e revistas, divulgando a mensagem do sufrágio. Uma das primeiras e mais populares cartunistas femininas foi Annie "Lou" Rogers.

Lou Rogers, Welding in the Missing Link , The Judge (1912)
Quando Lou Rogers tentou entrar no cartunismo político pela primeira vez, por volta de 1908, «os editores disseram que não havia mulheres cartunistas». «Eles disseram que as mulheres não sabiam nem fazer piadas. » Annie Lucasta Rogers, fora uma cartunista importante para o movimenta sufragista e outras injustiças contra as mulheres da época. Devido ao preconceito de género na indústria editorial de jornais e revistas dominada por homens, ela usou o nome de Lou Rogers, de modo a publicar prodigiosamente como comentarista visual e caricaturista sobre os direitos da mulher. Rogers foi uma reformadora franca, que usava a sua voz e corpo como armas nas batalhas pelo voto e outros direitos humanos fundamentais que foram negados às mulheres. Os seus desenhos demonstravam a injustiça num país onde as mulheres não têm controle sobre as leis que exerciam sobre os seus corpos. Além do seu compromisso com o socialismo, o feminismo e a libertação das mulheres, muito antes dos anos 1960, ela conquistou uma reputação respeitável e uma clientela variada. Rogers escreveu e ilustrou um recurso de rimas infantis intitulado "Gimmicks" para a Ladies Home Journal. Ela não foi de forma alguma a única mulher a criar uma arte de agitação empolgante.

Lou Rogers, The burden long ago called "Woman's Duty" (1912)
Lou Rogers, Birth Control Review (1918)

Outros, ainda menos lembrados, mas não menos dignos de respeito hoje, são Edwina Dumm, uma autora e desenhista de histórias em quadrinhos de longa data que acabou contribuindo com os seus desenhos para os quadrinhos da «Mulher-Maravilha». Grace Drayton, uma ilustradora que criou a personagem Dolly Dimples em 1905. E Ann O'Connor, uma artista de ilustração que trabalhou em revistas como a Ladies Home Journal e Good Housekeeping. Rogers foi pioneira na abordagem de temas controversos, como o sufrágio feminino e a reforma social. Ela usou os seus trabalhos para atacar a exploração das mulheres e a discriminação racial. Em 1909, ela tornou-se a primeira mulher a ter um cartoon publicado na revista Puck, intitulado «A Guerra do Sufrágio». Rogers também criou os personagens Little Lou e Miss Lizzie para a Life Magazine, que foram bem recebidos pelos leitores. Lou foi uma das muitas mulheres que avançaram na arte da agitação política, e seu trabalho.
Lou Rogers, The Judge (1912)
"Não é a arte como arte que me interessa; é a arte como oportunidade de ajudar as mulheres a ver os seus próprios problemas, ajudar a revisitar as coisas verdadeiras nas tradições que as prendem; ajudando-as a ver as coisas que são falsas sobre as mesmas." — Lou Rogers, artigo da revista Cartoons de 1913

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Guide de la France mystérieuse, O Guia Gótico da França

Guide de la France mystérieuse, publicado por Tchou Paris, primeira edição, 1964

 O Guide de la France mystérieuse, com mais de mil páginas, é um dos monstros dos livros de viagens. É difícil imaginar turistas carregando consigo um livro tão pesado assim nas suas mochilas em busca de locais estranhos e monumentos macabros da história. No entanto, este volume, publicado por Claude Tchou em 1964,  teve o seu sucesso, pois o mesmo gerou a criação de outros guias turísticos sobre as misteriosas regiões da França e teve o seu volume original reeditado em 2005.  

 Alfabeto de Roman Cieslewicz para Guide de la France mystérieuse, 1964

O livro contém um alfabeto fantástico nas suas páginas divisórias, desenhado pelo artista gráfico polaco Roman Cieslewicz, que as criou no seu tempo em Paris. As letras no seu contexto original, onde foram impressas em vermelho numa moldura oval preta, demonstram o sucesso que Cieslewicz atendeu às demandas do projeto, combinando brilhantemente as suas invenções gráficas com a antiquada atmosfera gótica do livro. Com um estilo de encadernação fúnebre, e um título que mais parece um nome de uma loja de curiosidades antigas — a utilização de símbolos arcanos para classificar entradas e as centenas de gravuras sombrias e inquietantes do século XIX,  o contemporâneo “guide noir”, idealizado para as livrarias da França moderna, parece mais um volume proibido de uma era passada impregnada de superstição, folclore mórbido e uma sensação opressiva de pavor. 

Abertura das divisórias do Livro. Letra A de Roman Cieslewicz

Folha de rosto

Entradas da Secção A

Cada página espelhada deste guia alfabético tem pelo menos uma ilustração. Há pináculos e torres iminentes, castelos em ruínas, diabos sorrido, bruxas, aparições noturnas, serpentes contorcidas, morcegos, vampiros, esqueletos levitando, um demónio de três cabeças montado numa cobra, entre outras coisas. Além das letras, Cieslewicz fornece colagens decorativas menores compostas por apenas dois ou três elementos incongruentes: um fóssil com cabeça de anta; um par de olhos presos dentro de uma roda dentada. Estes, como o seu bizarro alfabeto e algumas das gravuras históricas, são impressos em vermelho, e na equivalência gráfica dos dois tipos de material visual, o de arquivo e o manipulado, desenha as conexões implícitas entre o imaginário gótico e o meio do século XX. 

Galeria do fantástico

Colagem e letra E de Roman Cieslewicz

Entradas da Secção M

A dimensão marcadamente surreal do manual com passaporte de aparência estranhamente antiga de Tchou para monumentos enigmáticos, ocorrências milagrosas e seres sobrenaturais reflete a incrível persistência de um movimento internacionalmente influente que havia começado em Paris quatro décadas antes — Surrealismo. 
Lamentavelmente (caso alguém se sinta tentado a comprar o livro) a edição de 2005 é uma sombra do original. Estranhamente, muito foi deixado inalterado. A maioria das gravuras antigas são mantidas, assim como as imagens de Cieslewicz, embora tudo seja impresso em preto, perdendo a subtil interação entre o preto e  o vermelho do original, a tipografia refeita não tem o impacto gráfico da edição de 1964.  A ligação é tão dura e inflexível que mais parece um tijolo. O guia perdeu o seu profundo senso de mistério e do fantástico. Precisava ser re-imaginado num estilo que parecesse convincente hoje. Felizmente, cópias antigas da primeira edição  ainda podem ser encontradas a venda online.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

My Favorite Thing is Monsters - Emil Ferris

My Favorite Thing is Monsters Vol.1 por Emil Ferris publicado por Fantaghaphics.

My Favorite Thing Is Monsters é o diário gráfico fictício de uma menina de 10 anos, Karen Reyes, carregado com uma imaginação provinda de filmes de terror e iconografia de revistas de monstros pulp. Passando num cenário político e racial do final dos anos 60 em Chicago, Karen tenta resolver o assassinato da sua enigmática vizinha do andar de cima, Anka Silverberg, uma sobrevivente do holocausto, enquanto outras histórias singulares das pessoas ao seu redor se desenrolam. Quando mais a investigação se aprofunda, mais Karen nos leva de volta à vida de Anka na Alemanha nazista, todo o enredo levamo-nos leitores a descobrir o seu lado pessoal, político e como este se converge entre o passado e o presente da história.

“Sometimes you don’t let yourself know what you know,” escreve Karen Reyes na graphic novel de estreia de Emil Ferris.

O livro é composto pelas páginas do diário de Karen, onde a aspirante a artista regista os seus pensamentos ao lado de cuidadosas desenhos inspirados das imagens que encontra ao seu redor, que ao contrário das maiorias das raparigas da época, que procuravam modelos nas páginas brilhantes de revistas para adolescentes, Karen começa a “slet herself know what she knows”: a sua identidade queer, encontrando-se nos demónios, vampiros e outras figuras de monstros que ela encontra tanto no campo do horror quanto na arte. 

My Favorite Thing is Monsters Vol.1 por Emil Ferris publicado por Fantaghaphics.


Karen também comenta, “the word monster comes from the Latin word ‘monstrum’ which means ‘to show’ … there are a lot of things we don’t see everyday that are right under our noses… just maybe–monsters are right under our noses, too.” As bandas desenhadas que esta lê mostram-lhe uma versão distorcida, mas reconhecível de si mesma, expressando desejos que de outra forma permanecem escondidos no armário da sociedade convencional.

A trama/hachura obsessivamente detalhada de Ferris produz imagens que, simultaneamente, parecem ser esboços e obras de arte. Rompendo com o formato de painel habitual das bandas desenhadas, estas páginas detalhadas da imaginação de Ferris explodem com uma liberdade visual que até ao momento não experimentei  numa graphic novel. E ela usa esta liberdade para nos dar, bem – tudo.

My Favorite Thing is Monsters Vol.1 por Emil Ferris publicado por Fantaghaphics.

My Favorite Thing is Monsters Vol.1 por Emil Ferris publicado por Fantaghaphics.


A sua técnica ecoa magistralmente a experiência de Karen de estar em processo de crescimento e avançar em direção à compreensão, ao mesmo tempo, em que conhece profundamente quem ela é e as respostas para as perguntas assustadoras que a impulsionam. O estilo artístico e narrativo de Ferris faz com que nós nos sintamos, como Karen, que todas as pistas de que precisávamos estejam bem há a nossa frente, mas a resolução permanece fora de alcance.



quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Romance Híbrido "Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde" de Alberto Hernández

Um livro hibrido é a junção do seu conteúdo narrativo com elementos gráficos (imagens, recortes, ilustrações, tipografias, entre outros) criando uma forma de leitura que não é meramente mental, mas também visual, incentivando o leitor a interagir de outra forma com o livro, fazendo com que tenha a oportunidade de conhecer mais sobre a sua narrativa de uma forma interativa, exigindo ações do leitor e também para ser manuseado e vivenciado. 



                        "Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde" de Alberto Hernández

Alberto Hernández, produz um grande exemplo deste género enquanto ainda estava no seu mestrado.  Este livro de aparência e conceito simples brinca com  o feitio e forma - até mesmo na maneira em que o lemos. É um livro que mistura da forma mais imprevisível de grafismo, texto e fotografia, dando a impressão de que podemos realmente mergulhar na história. As páginas são desconstruídas de forma lúdica, com caminhos secretos que levam a surpresas impressas, rostos que aparecem onde menos esperamos, dando um certo toque de "magia" durante a sua leitura.


  




"Um livro híbrido, de acordo com  Alberto Hernández, seja um romance imagem-texto híbrido, não um livro infantil, graphic novel/quadrinho ou livro de presentes, mas um livro onde texto escrito e dispositivos gráficos como ilustração, fotografia, gráficos de informação ou tratamentos tipográficos podem interferir para manter o interesse dos leitores. Essa combinação agrega interatividade ao livro e também confere à página impressa uma superfície visual multidimensional. Um romance híbrido é um tipo de livro que exige ações dos leitores e também para ser manuseado e vivenciado. Esta remediação de "Strange Case of  Dr Jekyll and Mr Hyde" tenta, adicionando dispositivos gráficos lúdicos ao romance original, envolver os leitores numa experiência narrativa mais dinâmica e, em simultâneo, ajudá-los a entender a história com mais facilidade."