A exposição Húmus, no Atelier-Museu Júlio Pomar, composta de obras muito diversas com desenho, escultura, pintura e assemblages, de Júlio Pomar, Graça Morais, Daniel Moreira e Rita Castro Neves, esteve aberta ao público entre 26 de novembro e 5 de abril de 2026.
A exposição, à semelhança de outras anteriores, coloca obras de Júlio Pomar em diálogo aberto com obras de outros artistas. Ana Rito, curadora da exposição, convoca para este diálogo três outros artistas plásticos: Graça Morais e a dupla Daniel Moreira e Rita Castro Neves, os artistas são de gerações diferentes mas com uma clara afinidade temática, com um chão comum. Ao entrarmos no espaço expositivo, encontramos dois textos, distantes nas datas: um de Raúl Brandão e outro de Herberto Helder, em que o húmus é a matéria descrita. Para um é morte, para o outro é o pulsar da vida.
A metáfora dos "de baixo" e dos "de cima" é também um elemento expressivo do próprio espaço expositivo, uma vez que a exposição se desenvolve em dois pisos. Estando no piso térreo, a nossa visão está limitada e procura encontrar um raio de luz que nos conduza até à superfície, no piso superior. A curadoria afirma, na folha de sela, que a exposição é uma "ensaio instalado", que se afasta quer da ilustração quer do texto.
As peças do piso térreo são misteriosas, nunca silenciosas, ao ponto de nos perdermos, sem sabermos em que dimensão, da vida ou da morte, nos encontramos. Duas das peças da dupla Daniel Moreira e Rita Castro Neves, que nos recebem logo à entrada desse piso, são duas grandes esculturas/silhuetas de animais, espelhadas, que absorvem o espaço, o espectador e as obras expostas nas paredes (de pé-direito altíssimo), numa lógica de assimilação.
Húmus é um sussurro: as obras de Júlio Pomar e de Daniel Moreira e Rita Castro Neves, espreitam as inquietações da energia geradora da natureza, da morte faz-se vida. As assemblages destes artistas convivem lado a lado, sem denúncia imediata de autoria (não fossem as legendas trair esse jogo de escondidas). A matéria-prima são elementos recolhidos na natureza: fragmentos mortos recombinados pela mão humana, que se tornam, simultaneamente, matéria e obra. A ação de respigar na natureza, quer pela mão quer pelo olhar humano, emerge como mote criador. As obras tanto parecem celebrar os acasos do Homem como sublinhar a sua finitude. As peças dispersas nas paredes, afiguram-se como um puzzle.
Ascendendo ao piso superior, na escada, por cima de nós, espreita uma obra de Júlio Pomar da sua série de caracóis, anunciando o encontro com a sua obra gráfica. Entre os “de cima” encontramos maioritariamente desenhos e pinturas de Júlio Pomar e Graça Morais, artistas que foram em certa altura contemporâneos e o diálogo entre as suas obras é mais direto. As obras de ambos trabalham temas que as aproximam: séries de elementos vegetais e animais muitas das vezes em metamorfoses, o diálogo em certos momentos é suspenso por monólogos que irrompem, exclamando o mesmo espanto perante a vida.
Neste piso, Daniel Moreira e Rita Castro Neves apresentam uma peça vídeo cuja instalação nos remete para um artefacto que auxilia o olhar sobre a natureza, recordando-nos a nossa escala humana e a vida que se desenrola para além de nós. Nesta obra, a cor é vibrante e a matéria viva. Exaltemos a vida ou as suas enormes possibilidades.
Aqui a exposição completa-se como num ciclo natural: o que era inerte parece agora ganhar vida, despontar para a luz que alimenta. Completa-se, mas não se fecha a narrativa, estas peças são fragmentos soltos da paisagem e da existência humana, convocando-nos a refletir sobre a beleza, mas também sobre a violência da natureza. Circulamos entre raízes, paus, folhas, musgo, bichos, figuras humanas mutantes, sombra e luz.
A exposição é, em si, uma constelação de fragmentos que nos recordam os ciclos da natureza: o húmus como matéria em transformação. Todos os diálogos ali convocados estão também em mutação, lembrando-nos que o Homem é herdeiro e transmissor do saber ancestral, enquanto cuidador e transformador da natureza. Que papel desempenhamos no contexto atual? Serão as alterações climáticas resultado deste esquecimento coletivo?
Estas questões permanecem latentes ao longo de toda a exposição, mas a peça que parece colocá-la de forma mais direta é uma das obras de Daniel Moreira e Rita Castro Neves; uma enorme escada que orienta o olhar num sentido ascendente, cujos degraus, frágeis, não nos convidam a subir. Esta obra foi construída com madeiras recolhidas num território da Beira Alta que sofreu um terrível incêndio — região onde os artistas recuperaram uma antiga escola e desenvolvem residências artísticas.
A curadora Ana Rito, escolheu fechar a exposição com uma nota de vida e esperança expondo a última obra de Júlio Pomar, uma assemblage, antes da sua morte no ano de 2018. A obra intitula-se, Nove meses.







