A nossa Maria Inês (Fialho Godinho) é aquele género de artista que não costuma andar atrás dos “super” spotlights da exposição solo, em galerias aliadas da abordagem extra contemporânea, contudo, podemos contar sempre com uma mãozinha aqui e ali, numa vasta gama de projetos e colaborações. Por exemplo quando colabora com a Cau Cortém, uma boa e bela residência artística, algures perdida num sítio ainda mais pequeno dentro de Alvorninha, que para quem não conhece, é perto das Caldas da Rainha, ou quando emerge em projetos com o seu coletivo, o Porvir Coletivo, onde integra com Enrico Garziera, e frequentemente dirigem projetos com crianças.
O trabalho da Maria, habita numa nuvem algures a sobrevoar a diáspora entre a infantilidade, e a idade adulta, e com frequência emerge como manifestações de caráter interativo, onde as crianças o podem ser por mais tempo, e “os crescidos” são convidados a revisitar uma idade, em que brincar lhes podia parecer mais natural. A nossa artista desmistifica a arte a um nível molecular, e tece uma espécie de manto, em que ao convidar-nos perdemos o pudor interativo, empurrado por uma série de normas sociais sobre o “bom comportamento”, e assim surge a sua arte, envolvente e tanto desarrumado como desarrumante.
Como abordar a sua exposição solo, Antes do Nome, na Galeria do Sol, no Porto, desde a entrada, ou a começar do último andar (a galeria tem 3 andares, respectivamente o 1º, rés de chão, e cave) … Se calhar bem ao gosto de Maria Inês, podemos começar por onde quisermos. No meu caso, deixaram-me sozinho na galeria com uma nota: “Há giz lá em cima, a Artista disse que podiam vandalizar onde quisessem” ; Foi de arregalar os olhos, foi por onde comecei.
O que é que havia lá em cima ?; além de um chão todo “riscadinho” com frases e dicas engraçadas, havia um desenho embrulhado num plástico com bolhas de ar, como que num transporte constante, e ao lado um baixo relevo em lego. Nos dois cantos opostos da sala do 1º andar, junto das escadas estava um pequeno pedestal espelhado no topo com uns brinquedos de madeira, umas carteiras de escola e um quadro com abecedário, ao lado de dito quadro, dois Professores (?), relacionando-se perfeitamente com o tema da sala, relativo à escrita no chão. Junto do muro em metal deste 1º andar, estava uma antiga máquina de pastilhas, que em vez do recheio comum, estava cravejada a peluches.
Ao descer das escadas, no rés de chão, onde também deixei uma pequena nota de vandalismo escondida, estavam alguns desenhos, um deles mesmo rente ao chão, feito à medida de de uma criança cujo percentil de altura, ou comprimento, seja compreendido entre os 20 e os 10 %, no desenho, estava retratada uma pessoa a andar de pé, um cavalo, sob um fundo vermelho. também haviam algumas instalações, umas raquetes de tênis de mesa, com a rede segura diretamente sobre elas, uma estante onde pousavam pequenos sacos com brinquedos, uma mão de plástico, que segurava num diminuto espelho, onde assenta um dente, afirmei-o como dente do siso, em inglês: wisdom tooth, uma bela piada, num dos lados, em relação à entrada da galeria, o lado esquerdo, forrava ambos chão e parede, painéis de esponja com número, letras e ícones, não consegui desmistificar o que me queriam dizer, mas os painéis em si, alastravam pelo espaço como se do re-erguer do nosso antigo castelo, feito com recurso ao mesmo ladrilho, se tratasse. Numa espécie de celeuma, que incomoda e me acompanhou a exposição toda.
O último andar, a contar de cima, portanto, a cave, não me surpreendeu, eu bem sei que esta artista gosta de brincar com esta coisa da assombração, com a relação entre ter medo, e por isso não mexer, ou pelo menos não mexer muito. Do que é que se trata ?; dois painéis luminosos com a cara de palhaços, apontados para uma tenda também luminosa que emite som, e da qual se ergue uma passadeira de relva, logo à direita da entrada. Os sons ficam assim numa espécie de névoa, porque face a esta emissão, em nada mais se consegue pensar que não o som de pingos de água a ecoar, a pequena radiofonia dentro da tenda, sugere som, mais do que o emite.
Aprofundamos, vejamos, mais do que apenas enumerar peças, num tom holístico, nem sequer referi que os lucros desta exposição revertiam para a organização de Free Palestine, e portanto as coisas estavam a preços acessíveis, tornando-a numa exposição perfeita para jovens colecionadores.
Vou endereçar-me ao desenhos, na sua maioria embrulhados em plástico de bolhas, como quem faz parecer que estão em exposições diferentes com alguma frequência, então já nem se tira o invólucro, ou então é como quem diz que aqueles desenhos são como memórias, com as quais partilhamos espaço na cabeça. Achei engraçada a possibilidade deste paralelismo, pronto. Além do mais, lembrou me da fenomenologia de Heidegger, quando ele explica o Dasein, e deixa a explícito que a troca constante entre outros Seres, é fulcral, isto numa fase não só inicial da vida, mas especialmente, e aqui visitando como adultos, cá estamos a ser confrontados outra vez com os primeiros exercícios de interpretação e interação cognitiva, bem como a uma antiga ideia do lúdico, numa de não ser artista à má fé.
Honestamente pouco mais me resta sobre seus desenhos, não sei se ela os revisita como arma contraposta à inocência de um miúdo, ou se quer exatamente ao revisitar essa linguagem, contrastar com o que aprendeu tanto a níveis formais como técnicos e ao mesmo tempo que nega um estabelecimento, fazer- se valer da observação de um público maduro que pode procurar algo mais, e assim gozar com a mente pretensiosa do espectador.
A exposição erguia-se e apresentava-se entre momentos e temáticas diferentes, revisitando e contrapondo, uma série de preconceitos relativos ao espaço expositivo, ao dizer não, a um organizar e interagir comum, Maria Inês Fialho Godinho, mais do que colocar as suas obras no espaço, o espaço torna-se a obra, num ato que convida e quase depende do espectador, para se manter vivo, a maneira como nos comportamos ao interagir com o espaço expositivo é a verdadeira finalidade da exposição da artista na Galeria do Sol.
Nota: Há poucas pessoas que considerem sequer as laranjas do pafarrão, e preferindo manter em evidência as laranjas do Algarve, mas é importante perceber que há diferenças, qualquer amante dos citrinos nacionais saberá a diferença. A laranja do Pafarrão usufrui do microclima da vila que lhes dá nome, e são de uma só estirpe, as do Algarve têm uma produção muito mais alargadas, e são de variadas qualidades, só nunca da qualidade da laranja sevilhana, famosa por ser mais seca e amarga. A diferença chave entre os frutos destas duas regiões produtoras de laranjas (Pafarrão e Algarve), é que a primeira (Pafarrão) são maiores, têm mais sumo, e são igualmente doces, quando comparadas às laranjas mais do sul. Discutivelmente se uma laranja for igualmente doce, mas maior, isto pode significar que, no final de contas, uma “tem” mais doce, dentro de si, que a outra. A obra de Inês Fialho Godinho, é como as laranjas do Pafarrão, produzida em “mais pequena” escala, contudo, é maior e mais doce que outras obras artísticas, sente-se carinho, sente-se nossa, abraça-se com mais disponibilidade para guardar em boa estima.