sexta-feira, 22 de maio de 2026

Viajar sem passaporte, pelas mãos do colecionador: Casa Ásia - Coleção Francisco Capelo

 No imaginário coletivo português, a ideia de Oriente é muitas vezes construída a partir de um prisma assente nos ecos da nossa história comum, numa visão quase sempre moldada pela nossa própria mundividência ocidental e colonial. Contudo, quem sobe o Largo Trindade Coelho e cruza o portal do renovado Palácio de São Roque depara-se com algo inteiramente distinto. A Casa Ásia - Coleção Francisco Capelo não se propõe a ser mais um repositório cronológico do "encontro de culturas". É, antes de mais, o testemunho de uma obsessão estética ancorada por uma erudição fora do comum.




Placa na entrada, e fachada exterior do museu
imagens acedidas em casaasia-cfc.scml.pt/o-edificio/

Distribuído por vários pisos que guiam o visitante numa geografia quase labiríntica, o museu alberga cerca de 1300 peças (cerâmicas, têxteis, pinturas, esculturas, manuscritos, mobiliário, etc.) que cobrem um hiato temporal avassalador, desde o século III a.C. até ao início do século XX. O que salta imediatamente à vista não é a mera catalogação das peças por catorze países (do Japão e da China ao Camboja, Tibete e Filipinas), mas a impressionante coerência da sua qualidade artística e estado de conservação.

Do rebuliço cacofónico do movimento turístico no exterior, o silêncio interior convida à contemplação (tive a sorte de estar completamente sozinha na minha visita). A equipa do museu é acolhedora, sem ser impositiva, e a expografia é discreta, sem perder a clareza. O espaço, tal como é habitual nas exposições de coleções deste tipo, está envolto em penumbra, com pequenos apontamentos de luz revelando as peças. Aqui, no entanto, cada pequena sala está mergulhada na escuridão e é o movimento do espectador que espoleta o acendimento das luzes, criando uma experiência interessante, em que cada vão que se atravessa quase a medo, traz novas curiosidades para fruir.




Escadaria de entrada no museu e vista de uma das salas da coleção Japão
Imagens acedidas em casaasia-cfc.scml.pt/o-edificio/

Não é permitido fotografar no museu, em nenhuma circunstância. Como alternativa, o espaço oferece uma visita virtual das peças mais importantes através da aplicação Zoom Guide (que reconhece a peça através da câmara do telemóvel e apresenta automaticamente a informação), criando uma sincronia inesperada entre objetos históricos e fruição tecnológica. Pena é que a voz que lê os textos na dita aplicação seja criada por IA: mecânica, fria, e muitas vezes incorreta na pronúncia das palavras, o que torna a experiência de ouvir quase inútil, sendo muito preferível ler os textos disponibilizados.


Screenshots da aplicação zoom guide utilizada para obter informações sobre as peças

Capelo, conhecido tanto pelo seu olho clínico no panorama do colecionismo nacional, como pelas polémicas com diversas instituições que albergam as suas coleções, não reuniu estes objetos para preencher lacunas académicas. Cada terracota neolítica, cada escultura budista ou peça de madeira detalhada parece ter sido escolhida pelo impacto da sua forma, pela mestria da técnica e por uma espécie de espiritualidade intrínseca que transcende as fronteiras políticas. O percurso expositivo joga precisamente com esta ambiguidade: ao mesmo tempo que nos confrontamos com as particularidades de cada civilização, somos convidados a traçar pontes e linhas invisíveis (iconográficas, religiosas, temáticas) que unem estes territórios através do comércio e da fé.

Mãe, criança e amiga Xilografia Kitagawa Utamaro (1753–1806) Período Edo, séc. XVIII (final)                  Imagem acedida em casaasia-cfc.scml.pt/colecao/japao/

A integração deste acervo no complexo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa acaba por criar quase um curto-circuito visual. Mesmo ao lado da opulência barroca da Igreja de São Roque e da sua sacristia, a sobriedade contemplativa e a beleza crua da arte asiática encontram um eco inesperado. O espaço não sufoca as obras; dá-lhes a dignidade do silêncio e o espaço necessário para respirarem, permitindo que o visitante faça aquilo que Francisco Capelo preconizou: viajar através do olhar.


Manuscrito. Papel, tinta, pigmentos, ouro. Período Thonburi, séc. XVIII (2ª metade)
Imagem acedida em casaasia-cfc.scml.pt/colecao/tailandia/

Confesso que me deixei encantar, mais do que pela espetacularidade e riqueza de de muitas das peças, pela delicadeza das obras em papel - xilogravuras japonesas do século XIX que tanto inspiraram a arte moderna europeia, livros iluminados da Tailândia, ou pequenas e delicadíssimas peças de porcelana chinesa de “cor secreta”*, tão simples quanto misteriosas. 

Em toda a exposição, só encontramos evidência direta da presença europeia na Ásia no início, através de duas peças etíopes - um manuscrito e um díptico sobre a Virgem Maria - e no fim, de uma figura de Menino Jesus Salvador do Mundo oriunda das Filipinas. Encarar estas peças faz-nos acordar de uma viagem onírica a estes territórios, quase para que não nos esqueçamos que a história não é tão simples ou linear como a museologia por vezes quase nos faz acreditar.


Grés, vidrada “cor secreta" (mise yao), Cerâmica de Yue, Dinastia Tang, séc. IX
Imagem acedida em casaasia-cfc.scml.pt/colecao/china/

Numa Lisboa saturada de propostas culturais mercantilizadas para o turismo de massas, a Casa Ásia assume-se como um oásis de desaceleração. É um museu do detalhe, que exige tempo e despojamento. Mais do que uma aula de história da arte, a visita traduz-se numa experiência estética marcante, capaz de nos lembrar que o Oriente nunca foi um bloco homogéneo, mas sim uma tapeçaria infinita de subtilezas.


*A cerâmica de cor secreta caracteriza-se por um esmalte "verde-azulado" ou ciano, considerado extremamente refinado. Estas características incluíam uma superfície lisa e menos porosa, e um esmalte uniforme e puro que dava às peças o aspeto de estarem "cheias de água". O nome "cor secreta" deriva do facto de a fórmula e as técnicas de produção serem segredos zelosamente guardados, e a cerâmica estar reservada para uso imperial, raramente vista pelo povo comum.

Informação acedida em zoomguide.app/attraction/133?searchMode=list_search&results=true