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segunda-feira, 2 de junho de 2025

Ici te lá - Pequeno laboratório de objetos, imagens e sons da companhia pEtites perceptiOns. Fábrica das Artes - CCB. De 27 de maio a 1 de junho de 2025

Apresentado na Fábrica das Artes - CCB, entre os dias 27 de maio e 1 junho, o espetáculo Ici te lá (“aqui e ali”), da companhia pEtites perceptiOns, dá continuidade ao trabalho da artista Katerini Antonakaki, ao propor uma imersão num universo sensorial que se desenrola em torno de três grandes eixos: a casa, a natureza e o tempo, através das estações do ano. Concebido como um “pequeno laboratório de objetos, imagens e sons”, este trabalho articula elementos cenográficos, visuais e sonoros para compor um espaço em permanente transformação, onde o quotidiano se reconfigura em gesto, cor e som.

 

 

A cenografia móvel, criada por Katerini Antonakaki e Olivier Guillemain, estabelece uma paisagem plástica mutável, que evoca uma casa porosa, feita de fragmentos, memória e imaginação. Trata-se de uma “casa leve”, desmaterializada, que dança suavemente no espaço, acompanhando o ritmo das estações do ano. Primavera, Verão, Outono e Inverno surgem como pano de fundo e como entidades ativas, que reorganizam o ambiente. Cores, sons, texturas e objetos, alteram-se em função da passagem do tempo, revelando a sensibilidade cíclica da natureza e do corpo. A personagem central, de presença curiosa e tranquila, conduz o público por este percurso sensível, onde cada ação se torna contemplativa. 



Atravessamos estações, escutamos os silêncios, reparamos nos pequenos gestos e nas matérias esquecidas. A música de Ilias Sauloup e a interpretação sonora de Christine Moreau expandem a experiência para além do visível, criando uma paisagem acústica que respira com o cenário e com o espectador.

Mais do que representar, este espetáculo, convida à escuta das pequenas coisas, dos ritmos naturais, dos gestos mínimos onde habita o tempo vivido. A dramaturgia desenha-se como um caderno de viagem em três dimensões, no qual cada imagem ou som sugere uma sensação, uma memória, uma descoberta. O espetáculo equilibra delicadeza e intenção, sem recorrer a discursos explicativos, mas permitindo que o público construa a sua própria travessia.

No contexto da criação contemporânea para públicos diversos, incluindo o público infantil, esta apresentação destaca-se pela sua abordagem estética e sensorial, pela atenção ao detalhe e pela capacidade de convocar um tempo diferente, um tempo de pausa, de observação e de encantamento. Um tempo que nos leva para a magia das estações, devolvendo-nos a simplicidade dos ciclos naturais e o prazer de simplesmente estar.




 


 


segunda-feira, 19 de maio de 2025

Para Todos Vocês Com Fantasias, de Diogo Nogueira - Galeria Municipal de Arte de Almada de 15 de março a 31 de maio de 2025

A exposição Para Todos Vocês com Fantasias, da autoria do artista plástico Diogo Nogueira, está patente na Galeria Municipal de Arte de Almada até ao dia 31 de maio de 2025. Com curadoria de Filipa Oliveira, a mostra reúne um conjunto de obras que cruzam pintura, desenho, cerâmica e instalação.


As pinturas, de grande escala, foram executadas sobre telas publicitárias, com recurso a tinta acrílica. A escolha do suporte e do material acentua a fisicalidade das obras. O uso de cores vibrantes, por sua vez, amplifica o impacto visual e contribui para a criação de um universo intenso, sensorialmente envolvente.

As peças cerâmicas, em tamanho pequeno, acrescentam detalhes que contrastam com as pinturas, introduzindo momentos de pausa visual e uma escala mais íntima no conjunto da exposição.


O visitante é imediatamente confrontado com um conjunto de formas corporais que remetem, de forma recorrente, ao corpo masculino. No entanto, estas figuras apresentam-se distorcidas, fundidas com elementos da natureza ou do imaginário, frequentemente em composições que desafiam a leitura fixa. A abordagem do pintor não representa o corpo tal como o conhecemos, no entanto, parece explorar a sua elasticidade simbólica, tornando-o matéria de recomposição visual e conceptual.

O ambiente expositivo foi concebido de forma a intensificar esta sensação de deslocamento. A disposição das obras, a escala das figuras e o uso da cor saturada, criam um percurso que exige atenção sensorial mais do que narrativa. Não existe aqui uma linha condutora evidente; o visitante é chamado a entregar-se à observação, à dúvida e, por vezes, ao desconcerto.



As obras não se apresentam com grande aparato técnico no sentido tradicional, mas revelam uma coerência estética no tratamento da figura, do gesto e da cor. A presença do humor, do exagero e da transformação serve como estratégia para questionar representações convencionais, tanto do corpo como da identidade. Esta dimensão simbólica sobrepõe -se a qualquer intenção documental ou descritiva.

A exposição apresenta-se como uma proposta coerente, com um vocabulário visual próprio e uma abordagem crítica da figura e do corpo. A sua força reside na forma como desafia o olhar e desloca expectativas, oferecendo uma experiência visual que, sem ser discursiva, se torna reflexiva.







domingo, 27 de abril de 2025

Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea, Almada.

 


No topo da colina de Almada Velha, com uma vista privilegiada sobre o Tejo e a cidade de Lisboa, ergue-se a Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea. Este espaço singular combina património histórico, arte contemporânea e natureza, proporcionando uma experiência cultural enriquecedora. Sendo, originalmente, uma casa senhorial de uma quinta de recreio dos séculos XVII e XVIII, a Casa da Cerca foi habitada por várias famílias até 1957. Em 1974, foi ocupada provisoriamente pelo hospital de Almada e, por fim, adquirida pela Câmara Municipal de Almada em 1988. Após um cuidadoso processo de restauro, abriu ao público em 1993 como centro de arte contemporânea, sob a direção do pintor Rogério Ribeiro.

Dispõe de diversas valências que valorizam a visita e reforçam a sua missão educativa e artística. As galerias de exposição acolhem regularmente obras de artistas nacionais e internacionais, explorando variadas linguagens e técnicas contemporâneas. O Centro de Documentação e Investigação Mestre Rogério Ribeiro, instalado no edifício, disponibiliza recursos especializados para o estudo e a pesquisa em arte. É um espaço menos visível à primeira vista, mas que sustenta o trabalho que a Casa da Cerca tem vindo a desenvolver ao longo das últimas décadas.

Merece destaque O Chão das Artes – Jardim Botânico, inaugurado em 2001, que propõe uma união entre a botânica e a arte. O jardim integra diversas plantas tradicionalmente associadas à produção de materiais artísticos, como pigmentos e óleos, reveladas através de pequenas identificações que convidam à descoberta. Ao percorrer os seus caminhos, o olhar vai ligando as espécies a algumas técnicas artísticas, e a natureza revela-se como cenário e matéria viva do processo criativo. Inspirado no modelo da quinta de recreio tradicional portuguesa, o jardim preserva a memória histórica da Casa da Cerca.

Integrado nesta dinâmica, o Serviço Educativo desenvolve programas destinados a escolas e ao público em geral, promovendo o contacto direto com a diversidade do ambiente. O percurso pelo espaço convida a um desacelerar do ritmo, como se a própria paisagem pedisse mais tempo para ser vista, proporcionando uma experiência que se constrói numa relação sensível com o lugar.

Ainda no prolongamento da visita, a cafetaria Coisas Degostar, com a sua esplanada aberta para o Tejo, oferece tempo de repouso e contemplação. Sentados sob a sombra das árvores e a vista do rio, o visitante deixa-se absorver pela quietude da paisagem. Há uma cumplicidade silenciosa entre o espaço e quem o habita, por instantes.

Atualmente, a Casa da Cerca encontra-se em obras de reabilitação, o que condiciona, temporariamente, o acesso à galeria principal. Contudo, a essência do lugar permanece. O jardim e a esplanada mantêm-se como abrigo para aqueles que procuram um instante de sossego, uma pausa no movimento contínuo da cidade. Apesar da reabilitação, a Casa da Cerca mantém-se ativa, assegurando o seu compromisso com a criação artística e o acolhimento do público.