sexta-feira, 22 de maio de 2026

Viajar sem passaporte, pelas mãos do colecionador: Casa Ásia - Coleção Francisco Capelo

 No imaginário coletivo português, a ideia de Oriente é muitas vezes construída a partir de um prisma assente nos ecos da nossa história comum, numa visão quase sempre moldada pela nossa própria mundividência ocidental e colonial. Contudo, quem sobe o Largo Trindade Coelho e cruza o portal do renovado Palácio de São Roque depara-se com algo inteiramente distinto. A Casa Ásia - Coleção Francisco Capelo não se propõe a ser mais um repositório cronológico do "encontro de culturas". É, antes de mais, o testemunho de uma obsessão estética ancorada por uma erudição fora do comum.




Placa na entrada, e fachada exterior do museu
imagens acedidas em casaasia-cfc.scml.pt/o-edificio/

Distribuído por vários pisos que guiam o visitante numa geografia quase labiríntica, o museu alberga cerca de 1300 peças (cerâmicas, têxteis, pinturas, esculturas, manuscritos, mobiliário, etc.) que cobrem um hiato temporal avassalador, desde o século III a.C. até ao início do século XX. O que salta imediatamente à vista não é a mera catalogação das peças por catorze países (do Japão e da China ao Camboja, Tibete e Filipinas), mas a impressionante coerência da sua qualidade artística e estado de conservação.

Do rebuliço cacofónico do movimento turístico no exterior, o silêncio interior convida à contemplação (tive a sorte de estar completamente sozinha na minha visita). A equipa do museu é acolhedora, sem ser impositiva, e a expografia é discreta, sem perder a clareza. O espaço, tal como é habitual nas exposições de coleções deste tipo, está envolto em penumbra, com pequenos apontamentos de luz revelando as peças. Aqui, no entanto, cada pequena sala está mergulhada na escuridão e é o movimento do espectador que espoleta o acendimento das luzes, criando uma experiência interessante, em que cada vão que se atravessa quase a medo, traz novas curiosidades para fruir.




Escadaria de entrada no museu e vista de uma das salas da coleção Japão
Imagens acedidas em casaasia-cfc.scml.pt/o-edificio/

Não é permitido fotografar no museu, em nenhuma circunstância. Como alternativa, o espaço oferece uma visita virtual das peças mais importantes através da aplicação Zoom Guide (que reconhece a peça através da câmara do telemóvel e apresenta automaticamente a informação), criando uma sincronia inesperada entre objetos históricos e fruição tecnológica. Pena é que a voz que lê os textos na dita aplicação seja criada por IA: mecânica, fria, e muitas vezes incorreta na pronúncia das palavras, o que torna a experiência de ouvir quase inútil, sendo muito preferível ler os textos disponibilizados.


Screenshots da aplicação zoom guide utilizada para obter informações sobre as peças

Capelo, conhecido tanto pelo seu olho clínico no panorama do colecionismo nacional, como pelas polémicas com diversas instituições que albergam as suas coleções, não reuniu estes objetos para preencher lacunas académicas. Cada terracota neolítica, cada escultura budista ou peça de madeira detalhada parece ter sido escolhida pelo impacto da sua forma, pela mestria da técnica e por uma espécie de espiritualidade intrínseca que transcende as fronteiras políticas. O percurso expositivo joga precisamente com esta ambiguidade: ao mesmo tempo que nos confrontamos com as particularidades de cada civilização, somos convidados a traçar pontes e linhas invisíveis (iconográficas, religiosas, temáticas) que unem estes territórios através do comércio e da fé.

Mãe, criança e amiga Xilografia Kitagawa Utamaro (1753–1806) Período Edo, séc. XVIII (final)                  Imagem acedida em casaasia-cfc.scml.pt/colecao/japao/

A integração deste acervo no complexo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa acaba por criar quase um curto-circuito visual. Mesmo ao lado da opulência barroca da Igreja de São Roque e da sua sacristia, a sobriedade contemplativa e a beleza crua da arte asiática encontram um eco inesperado. O espaço não sufoca as obras; dá-lhes a dignidade do silêncio e o espaço necessário para respirarem, permitindo que o visitante faça aquilo que Francisco Capelo preconizou: viajar através do olhar.


Manuscrito. Papel, tinta, pigmentos, ouro. Período Thonburi, séc. XVIII (2ª metade)
Imagem acedida em casaasia-cfc.scml.pt/colecao/tailandia/

Confesso que me deixei encantar, mais do que pela espetacularidade e riqueza de de muitas das peças, pela delicadeza das obras em papel - xilogravuras japonesas do século XIX que tanto inspiraram a arte moderna europeia, livros iluminados da Tailândia, ou pequenas e delicadíssimas peças de porcelana chinesa de “cor secreta”*, tão simples quanto misteriosas. 

Em toda a exposição, só encontramos evidência direta da presença europeia na Ásia no início, através de duas peças etíopes - um manuscrito e um díptico sobre a Virgem Maria - e no fim, de uma figura de Menino Jesus Salvador do Mundo oriunda das Filipinas. Encarar estas peças faz-nos acordar de uma viagem onírica a estes territórios, quase para que não nos esqueçamos que a história não é tão simples ou linear como a museologia por vezes quase nos faz acreditar.


Grés, vidrada “cor secreta" (mise yao), Cerâmica de Yue, Dinastia Tang, séc. IX
Imagem acedida em casaasia-cfc.scml.pt/colecao/china/

Numa Lisboa saturada de propostas culturais mercantilizadas para o turismo de massas, a Casa Ásia assume-se como um oásis de desaceleração. É um museu do detalhe, que exige tempo e despojamento. Mais do que uma aula de história da arte, a visita traduz-se numa experiência estética marcante, capaz de nos lembrar que o Oriente nunca foi um bloco homogéneo, mas sim uma tapeçaria infinita de subtilezas.


*A cerâmica de cor secreta caracteriza-se por um esmalte "verde-azulado" ou ciano, considerado extremamente refinado. Estas características incluíam uma superfície lisa e menos porosa, e um esmalte uniforme e puro que dava às peças o aspeto de estarem "cheias de água". O nome "cor secreta" deriva do facto de a fórmula e as técnicas de produção serem segredos zelosamente guardados, e a cerâmica estar reservada para uso imperial, raramente vista pelo povo comum.

Informação acedida em zoomguide.app/attraction/133?searchMode=list_search&results=true





quinta-feira, 21 de maio de 2026

“Se pudesse voltar a fazer tudo novamente” - As Quatro Mortes de Napoleão, Pedro Saavedra



“O ex-imperador jaz morto no seu leito da Ilha de Santa Helena e quatro boatos nascem sobre a causa da sua morte: um estrangulamento encomendado, um envenenamento propositado, uma morte natural ou até um suicídio honroso.” Este foi o tema da peça que assisti sobre os últimos momentos de Napoleão Bonaparte, apresentada na Sala Mário Viegas do Teatro São Luiz, na Baixa-Chiado. Com a duração de 1h10, a peça parte das últimas palavras proferidas de Bonaparte, “França, o exército, chefe do exército, Josefina”, e é dividida em quatro partes, cada uma correspondendo a uma das quatro possibilidades sobre a sua morte durante o exílio na Ilha de Santa Helena, em que apenas um ser humano assistiu, a sua fiel camareira. Apesar de todas as narrativas se cruzarem em certos momentos, cada ato possuía uma identidade própria, quer na narrativa, quer na construção do ambiente cénico e emocional.
    Na primeira parte, a peça começou com um contexto da ilha onde Napoleão estava exilado, envolta em nevoeiro, o que ajudava a criar um ambiente mais pesado e misterioso, não só pela narração mas também pelos sons e jogos de luzes. A primeira morte representada foi então a ideia de Napoleão ter sido envenenado. Pelo que me foi possível entender, insinuava-se que o cirurgião de Napoleão lhe teria dado o veneno. Foi nesta parte que descobrimos a personagem Maria, relevante nas próximas cenas, que escrevia cartas e que falava constantemente sobre ajudar alguém. No final desta encenação de morte por envenenamento, havia uma frase que se ia repetindo diversas vezes, algo como “se pudesse voltar a fazer tudo novamente”, dita pelo ator, Ivo Alexandre como Napoleão Bonaparte.
    Na segunda parte, a personagem Maria, representada por Paula Garcia, ganha mais destaque, tornando-se quase a personagem principal. Ela escrevia cartas e comparava Napoleão a alguém que estava constantemente a declarar guerra. Depois começava a descrever imagens muito fortes da guerra: homens a passar por cima de corpos mortos para sobreviverem e soldados muito jovens obrigados a lutar. A peça criticava assim o impacto humano das guerras e mostrava como pessoas inocentes eram arrastadas para os conflitos. Foi nesta parte da peça que surgiu uma frase que me marcou bastante, quando se dizia que os jovens eram “demasiado novos” para certas coisas, mas “demasiado velhos” para escapar ao sofrimento. A ideia principal era que a guerra existirá sempre, porque sempre existiu ao longo da História. É também nesta parte que Maria parece descobrir o que tinha acontecido ao marido dela, chamado Josef. No final, ela acabava por morrer sufocada na cama, numa cena bastante intensa.
    A terceira parte focava-se mais diretamente em Napoleão e no cirurgião. Enquanto conversavam, havia momentos em que um dos atores parava de falar diretamente com os outros personagens e fazia um monólogo mais interior, quase como se estivesse a pensar em voz alta. Isso ajudava o público a perceber melhor os pensamentos e conflitos internos das personagens.
    Na quarta parte, parecia que Napoleão fingia a própria morte usando o corpo de outra pessoa para escapar. Depois fugia para a América, continuando a acreditar que seria sempre imperador. Falava-se também da possibilidade de se ter atirado ao mar e morrer como um náufrago, ligado às ruínas de uma cidade submersa. No entanto, mais tarde dizia-se que tinha sido encontrado por um pescador. Esta parte misturava realidade e imaginação, deixando várias interpretações possíveis sobre o destino final de Napoleão.
Tendo em conta a complexidade toda da peça, esta era composta por muitos elementos sonoros importantes. Ouvia-se, por exemplo, o som de pancadas nas paredes e água a cair do teto para dentro de um balde. Esses sons ajudavam a criar tensão e contribuíram para o ambiente mais sombrio da narração. Quanto ao espaço cénico, a plateia estava muito próxima do palco, o que tornava a experiência mais intensa e envolvente. A iluminação também estava muito bem conseguida, principalmente nas transições entre atos.
    Existia também uma personagem secundária muito interessante, um homem vestido com roupa normal que estava constantemente a mexer nos objetos da cena. Tirava quadros, colocava cartas na mesa, organizava papéis, penas e outros objetos. Apesar de quase nunca falar, parecia ter um papel simbólico importante, quase como alguém que controlava ou organizava a memória da história. Em certos momentos, ficava apenas a observar Napoleão em silêncio.
    No geral, a peça funcionava como quatro histórias diferentes sobre quatro possíveis mortes de Napoleão. Ao mesmo tempo que mostrava a sua glória enquanto conquistador, também revelava a sua derrota e fragilidade humana. Cada morte simbolizava uma forma diferente de queda: o envenenamento, a sufocação, a fuga e a falsa morte. A peça acabava por mostrar que, apesar do poder e da fama, Napoleão continuava a ser humano e vulnerável.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

A conexão entre os artistas e os fãs dentro dos concertos de K-Pop

 

No passado dia 9 de maio, Lisboa recebeu no recinto do MEO Arena o primeiro concerto da tour europeia do grupo de K-Pop Twice, sendo este também o primeiro concerto das artistas em Portugal. O espetáculo intitulado Twice: This is For teve uma duração de duas horas e meia onde as 9 artistas em conjunto com uma banda ao vivo e dançarinos apresentaram ao público mais de 30 músicas da sua discografia. Em destaque esteve o seu novo álbum This is For, com as mensagens de solidariedade e força feminina, temas constantemente representados pelo grupo ao longo dos seus 11 anos dentro da indústria do K-Pop.  

Twice - Instagram do grupo de K-Pop

Cartaz Twice This Is For Tour Lisboa Meo Arena

Os Once (nome dos fãs do grupo) encheram o recinto cheios de energia e alegria, mas o entusiasmo começou antes do concerto com interações entre os fãs. As organizações amadoras e páginas de fãs têm como costume organizar pequenos eventos antes do concerto onde os fãs se podem juntar e interagir entre si, com desafios de dança, e outros jogos. A troca de freebies (itens oferecidos de graça) feitos e distribuídos pelos fãs é cada vez mais uma prática comum neste tipo de eventos. Fazem pulseiras, autocolantes e outros pequenos produtos ligados ao evento e partilham com outros com o mesmo interesse, criando assim memórias e novas amizades.  

Dentro do concerto esta interação entre os fãs não acaba, são divulgados planos de realizar cânticos, ligar lanternas e até colocar cores nos telemóveis de acordo com lugares na arena. Os Once, unem-se como um corpo só de forma a enviar mensagens sonoras e visuais às artistas transmitindo o seu apoio e apreciação. Esta dedicação é recebida e devolvida pelas artistas que apesar de falarem numa língua diferente fazem o seu melhor para comunicar com o público, recorrendo ao inglês, a uma intérprete no local e também ao aprenderem pequenas frases ou palavras na língua do país para mostrarem o seu carinho pelos fãs.

Twice @ Meo Arena 2026.05.09 
Fotografia: 
Fotografia: ineews.eu


A disposição do palco também reflete este objetivo de ligação e interação, denominado como 360º, um palco em formato quadrado com plataformas no seu centro que subiam e desciam, foi colocado no meio da arena com braços que se estendiam às extremidades. As coreografias foram realizadas de acordo com esta plataforma e as artistas usufruíram de todo o palco, utilizando-o para facilmente chegar ao coração de todos os seus fãs.

Fotografia: ineews.eu

Por cima do palco estavam os big screens, ecrãs gigantes onde foram projetadas as performances que estavam a ser gravadas ao vivo e eram ampliadas para a melhor visualização do público. Estes ecrãs rodeavam o centro do palco e faziam parte da performance. A estrutura maior subia e descia, revelando outras estruturas cubicas mais pequenas no seu interior que eram coordenadas com as coreografias de modo a esconder parcialmente ou totalmente as artistas como parte da performance.

 Em conjunto com uma projeção luminosa para o chão do palco central e o jogo de luzes da arena, os ecrãs foram usados para introduzir elementos fantásticos às performances através da luz e de elementos fantásticos que ajudavam a criar um mundo diferente como estrelas, brilhantes, fogo e nuvens. O efeito conseguido era o de estar numa outra realidade onde o tempo parou e todos os indivíduos dentro da arena tinham apenas a preocupação de se divertir.

Twice @ Meo Arena 2026.05.09 
Fotografia: 
Fotografia: ineews.eu

Para além destes elementos luminosos, outro objeto iluminava a arena de acordo com o projeto do grupo. Um objeto muito comum dentro do K-Pop são os lightstick (bastão e luz) um item de colecionador que funciona como um elemento de identidade de cada grupo. Os lightstick têm uma tecnologia que permite o controle da luz de acordo com as performances, mudando de cor com diferentes músicas durante o concerto. As luzes dos lightstick são mais uma forma de os fãs se conectarem com as artistas, e demonstrarem o seu apoio ao criar um mar de luzes ou um céu estrelado que se movimentam e brilham ao longo das músicas. Enquanto as Twice cantavam e dançavam os fãs cantavam e dançavam com elas, e no meio do público os lightsticks com as suas luzes coloridas dançavam também energeticamente.

Twice @ Meo Arena 2026.05.09 
Fotografia: JYP Entertainment / Paulo Pinho

Ocorreram durante o concerto diversas atividades enquanto as artistas mudavam de roupa, ou se preparavam para certas performances. A banda ao vivo teve a sua oportunidade de conectar com o público apenas através dos instrumentos musicais, um momento especial onde o público podia fechar os olhos e sentir as vibrações ao seu redor. O grupo de dançarinos fez a sua própria performance a solo, focando-se nos seus movimentos para enviar uma mensagem de força e resiliência. Os fãs tiveram também o seu momento de destaque. Uma das atividades mais divertidas foi uma dance break do público, em que as câmaras apontavam para indivíduos do público convidando-os a dançar e a desafiar outros em breves concursos de dança. Um acontecimento que tocou os corações de todos na arena foi a passagem de um vídeo realizado pelos Once portugueses em que estes expressavam o seu amor e carinho pelas Twice, pela comunidade que criaram e a felicidade de poderem ver ao vivo as suas artistas favoritas.

Twice @ Meo Arena 2026.05.09
Instagram do grupo

Deste modo é notável que um dos principais temas nos concertos de K-Pop e até talvez o mais importante, é o da interação entre os fãs e os artistas. Este concerto será memorável na vida dos Once tal como na vida das Twice, visto que estas interações tornam cada atuação uma experiência única. O sucesso das artistas depende do apoio do seu público e por sua vez o grupo, através das suas músicas, performances e atenção oferece aos seus fãs entretenimento e até suporte emocional. Os próprios fãs tornam-se eles próprios um grupo unido que para além de apoiar as artistas, cria um espaço de comunidade onde os fãs se apoiam uns aos outros.

Meninas Exemplares

Cresci em Cascais, a Casa das Histórias foi um espaço muito importante para a apuração da minha sensibilidade artística e cultural, fui ver ali a minha primeira exposição a sós, comecei ali aprender a ver arte. Nessa altura o olhar era desprendido e despolitizado estava interessado primeiramente na visualidade da obra.  Anos mais tarde fui voluntário do serviço educativo de um museu ali perto, o contacto com os colegas ampliou o meu contexto embora nunca me tenha dado ao trabalho de conhecer Paula Rego. Esta visita foi diferente porque o meu entendimento do mundo expandiu-se um pouco, sinto-me mais sensível para determinadas construções sociais, como os papéis de gênero e outras inquietudes. Pude encarar as obras de forma diferente apreciando o seu sentido para além da tinta.




A exposição propõe uma viagem inquietante pela arqueologia da infância, subvertendo a noção romântica de inocência para revelar um território de poder, crueza e sobrevivência. O título remete para a obra homónima da Condessa de Ségur, cujos contos sobre raparigas "bem-nascidas que se portam terrivelmente" cativaram a artista desde a infância. 





Paula Rego, Comunhão, 2001

 


O Impacto da Obra de Paula Rego reside na sua capacidade de comunicar através da forma. As suas personagens possuem uma volumetria que lhes confere uma presença física quase invasiva usando a força física das suas figuras para nos "agarrar" emocionalmente, mostrando a vida como ela é: crua, pesada e cheia de contradições, onde ninguém é totalmente bom ou totalmente mau. 

Um dos temas prevalentes é o recurso dos contos populares e nesse sentido uma das obras que me impressionou foi “The Rehearsal” de 1989, que tem uma dimensão mais histórica, mas que faz parte do nosso imaginário de cultura popular. Inicialmente cativou-me a dimensão da obra procurei de alguma forma criar um sentido para a coleção de momentos que eram apresentados. Ao ler a folha de sala tornou-se óbvio o que era retratado a trágica história de Inês de Castro de D.Pedro. Habitualmente esta história é contada com o foco em D.Pedro. A forma como Paula Rego nos mostra a história é um exemplo de como a beleza das mulheres se torna demasiadas vezes uma sentença de morte. A imagem projeta-se como uma memória traumática condensada em vários fragmentos culminando na tragédia que conhecemos.


Paula Rego, The Rehearsal (1989)

Paula Rego costuma mostrar-nos as lutas de poder que acontecem "entre quatro paredes", mas na sua série sobre a Mutilação Genital Feminina (2009), a mensagem torna-se muito mais política e direta. Aqui, a artista deixa de lado as histórias misteriosas e usa a sua arte como uma forma de luta e protesto contra a violência exercida sobre as mulheres.



           

Paula Rego, Canção de embalar (2009)



Paula Rego, Noiva da noite (2009)



Ao olharmos para obras como "Cosida e atada", o impacto é imediato. Vemos o olhar desesperado de crianças que não se conseguem defender e figuras que parecem paralisadas pelo trauma, o que nos obriga a encarar uma realidade social terrível. Nestas salas, o que era "mistério" transforma-se em denúncia pura. No entanto, mesmo perante esta brutalidade extrema, as personagens de Paula Rego mostram uma força interior inquebrável, provando que, embora o corpo sofra, a sua mente e a sua dignidade resistem.






segunda-feira, 18 de maio de 2026

IBRAHIM MAALOUF — Concerto

No passado dia 4 de abril, decorreu no Coliseu dos Recreios o concerto do músico Ibrahim Maalouf, trompetista franco-libanês, acompanhado pelos Trumpets of Michel-Ange (T.O.M.A). O concerto foi um momento de celebração e partilha da música, da empatia e do amor. Este foi o seu primeiro concerto em Lisboa. 

Capa do albúm, Ibrahim Maalouf — Trumpets of Michel-Ange FONTE: www.ibrahimmaalouf.com

Ibrahim, “homem velho” de África, pastor e contador de sonhos, como escreveu António Curvelo, do Jornal Público, trouxe o público para dentro das suas histórias, convidando-o a celebrar, cantar e dançar as suas canções-histórias. Com a sua enorme empatia, o público respondeu, acompanhando-o até ao momento em que se acenderam as luzes cruas do fim do espetáculo.

A experiência coletiva de um concerto é um momento de grande vibração, e o mestre de cerimónias foi exímio em orquestrar a diluição das fronteiras entre o palco e o público. Chegou mesmo a celebrar, segundo as suas palavras, um casamento entre todos os participantes, enquanto no palco os músicos tocavam The Proposal. Este álbum, como o próprio afirma, representa uma passagem de testemunho entre gerações, uma celebração dos valores transmitidos de pais para filhos, de professores para alunos, e assim sucessivamente.

Concerto de Ibrahim Maalouf — Trumpets of Michel-Ange, no Coliseu dos Recreios (4/4/2026) Fotografia da autoria de Cláudia Dias.

O seu pai, Nassim Maalouf, também trompetista, inventou o seu próprio trompete quarter-tone (trompete com quatro pistões), possibilitando aproximar este instrumento à sua cultura, com raízes na música tradicional árabe. Ibrahim afirma-se como embaixador da invenção do seu pai e traz consigo, para os concertos, alunos da Academia de Música que fundou, onde acolhe jovens gratuitamente para aprenderem este instrumento único, numa missão de partilha e passagem de testemunho. A banda em palco, Trumpets of Michel-Ange (T.O.M.A), são alunos que estão ou passaram por essa formação, foram todos apresentados e e elogiados por Ibrahim. 

A música de Ibrahim é uma viagem, tanto pelas composições vibrantes e de grande energia como pelas fusões de estilos musicais, entre os quais se destacam o jazz, as guitarras intensas do rock e a música tradicional árabe. O seu enorme sucesso advém precisamente dessa linha absolutamente original de cruzamento de influências. No palco, o improviso também faz parte do concerto: ele e os seus músicos dialogam, utilizando os instrumentos como voz dessa comunicação.

Concerto de Ibrahim Maalouf — Trumpets of Michel-Ange, no Coliseu dos Recreios (4/4/2026) Fotografia da autoria de Luís Serrão (https://ineews.eu/new/.

O alinhamento do concerto não deixou de fora músicas que o público anseia ouvir e dançar ao vivo. Uma dessas músicas, talvez a mais conhecida, Beirut, é uma homenagem à sua cidade natal e aos seus cidadãos, sempre em resistência. Ibrahim partilhou com o público não só as suas histórias, mas também as suas preocupações com o estado do mundo, com a crescente intolerância, com a guerra implacável e com a desumanização.

As suas palavras serão as mais acertadas para fechar este texto: Tudo se resume à transmissão e ao amor. Essa é a filosofia deste álbum, e acrescento que foi também a do seu concerto.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

0.2 = 40 - Galeria Monumental


 Uma vasta maioria já o sabe, mas quem não sabe fica a saber, até porque vale a pena, a Galeria Monumental faz 40 anos, e portanto, de acordo com o Diretor/Dono, Manuel, este vai ser um ano maioritariamente composto por retrospectivas sobre a sua história. Num belo tom, a galeria foi toda arranjada, isto é, estucada, e re pintada, que como alguém disse: “já precisava”. Por isso este ano, que para a galeria começa a 21 de fevereiro, depois das remodelações começadas no ano passado, é bastante prometedor. Algures para 2026, também foi prometido um regresso a casa pela banda Peste & Sida, ali criada em 86.


A exposição é como andar para trás e recordar, neste sentido, não é composta por apenas um, mas por um coletivo de artistas, os membros fundadores, os responsáveis por requalificar o espaço há 40 anos, inclusive com as mesmas obras com que a galeria foi inaugurada. Devo dizer, aprecio particularmente, e acho que é mesmo assim que deve ser feito, quando uma exposição coletiva, se torna maioritariamente num exercício curatorial, esta não é excepção. A ideia de expor pinturas feitas há 40 anos não parece nada fácil, porque não é, neste caso, quase como um trabalho arqueológico. Alguns dos artistas na inauguração até comentaram, que já não se lembravam das obras expostas, ou que não faziam mesmo ideia onde elas estavam.


0.2 = 40 é composta por: Álvaro Rosendo, Assunção Cabrita, Gonçalo Ruivo, Helena Pinto, Jaime Lebre, João Queiroz, Jorge Varanda, José Antonio Cardoso, Manuel San Payo e Miguel Branco. João Queiroz, falecido no ano passado, artista incontornável no panorama das artes nacionais, foi recordado com carinho pelos antigos colegas, na inauguração. A exposição surge também no âmbito de uma investigação de tese dedicada à Monumental, por parte da jovem curadora Beatriz Lamego.


Maioritariamente pintura, exceptuando uma pequena escultura num pedestal iluminado, no canto, e de algumas fotografias, sobre o espaço da galeria ainda antes de uma parte das obras que a transformaram naquilo que conhecemos hoje. O espaço estava bastante bem utilizado, em nenhuma altura se sentia demasiado cheio ou sufocante, está organizado de um modo convidativo a passear pelas duas salas da galeria. Até usavam com algum charme a belíssima chaminé, tão querida por quem frequenta a instituição. 






As pinturas habitavam as paredes (bem ao gosto de Greenberg), ocupavam qualquer espaço, havia pinturas grandes, pequenas, o normal, mas havia pinturas finas e compridas também, trípticos, dípticos e únicos, pinturas enroladas, ou que se desenrolaram. Estas últimas falaram particularmente comigo, não por algum motivo técnico, ou estilístico em particular, mas por uma razão muito mais pessoal e sui generis. Qualquer artista que se dedique maioritariamente à pintura e que tenha uma prática de atelier relativamente intensa, já se deparou com pequenos “restinhos” de tela. Mesmo não se mandando fora, ocupam um espaço enorme, às vezes até se ganha pena e lá se usam, mas mesmo assim nunca constituem material expositivo, porque nem todos têm o estofo de Cabrita Reis para fazer uma exposição chamada Atelier e encher sabe se lá quantos pavilhões.







Nem todas as pinturas se tornam as favoritas, aqui, havia bastante bons concorrentes, de tal modo, que apenas se torna possível apontar as que gostei menos depois de lentamente fazer uma lista em que as mais apreciadas se iam sobrepondo. Em última análise creio que todas tinham algo de uma espécie de aura de artistas portugueses relativamente jovens nos anos 80, pinceladas rápidas, pinturas visivelmente feitas em cimas de pinturas mais velhas, para poupar “algum”, asneiras escritas, uma espécie de um proto-abstrato com alguns vestígios de uma figuração iconográfica, sem grande profundidade conceptual, quase a assemelhar-se a um expressionismo americano, mas cheio de um ímpeto em criar.  O que contrastou de um modo bastante engraçado, com os artistas estarem presentes, atualmente já adultos, alguns mais grisalhos, com mais certezas na prática criativa.


Queria dedicar-me em particular às duas obras do falecido em 2017 José Antonio Cardoso. Não conhecia, mas quase logo à entrada, à nossa direita, erguem-se, até pensei em díptico, duas telas, não muito grandes, em acrílico pastoso de boa textura. Não são abstratas, mas afirmaria com alguma fé, que para mim a sua força também não reside na figuração, aquela cena em que aparece um cão representado, como se não quisesse ficar parado, e algo raivoso, define logo o tom que desde aí levaram para mim, a partir daqui, tudo o resto se tornava uma composição reinada maioritariamente por cor, e não por intenção em mostrar algo em particular.





A 0.2 = 40, fica patente até 9 de maio, acredito que para os fãs de arte mais “mega contemporânea” que pela zona andem, passem primeiro pela Foco e depois pelo Duplex Air, mas neste caso, esta também vale a pena ! Pela história que conta sobre um capítulo da arte lisboeta e nacional, ou quanto mais não seja que fiquem atentos a futuras inaugurações, porque esta Galeria recebe sempre bem, e sempre fui fã de galerias que não são somíticas com o vinho disponível para os convidados.























segunda-feira, 11 de maio de 2026

Antes do nome



 A nossa Maria Inês (Fialho Godinho) é aquele género de artista que não costuma andar atrás dos “super” spotlights da exposição solo, em galerias aliadas da abordagem extra contemporânea, contudo, podemos contar sempre com uma mãozinha aqui e ali, numa vasta gama de projetos e colaborações. Por exemplo quando colabora com a Cau Cortém, uma boa e bela residência artística, algures perdida num sítio ainda mais pequeno dentro de Alvorninha, que para quem não conhece, é perto das Caldas da Rainha, ou quando emerge em projetos com o seu coletivo, o Porvir Coletivo, onde integra com Enrico Garziera, e frequentemente dirigem projetos com crianças.

O trabalho da Maria, habita numa nuvem algures a sobrevoar a diáspora entre a infantilidade, e a idade adulta, e com frequência emerge como manifestações de caráter interativo, onde as crianças o podem ser por mais tempo, e “os crescidos” são convidados a revisitar uma idade, em que brincar lhes podia parecer mais natural. A nossa artista desmistifica a arte a um nível molecular, e tece uma espécie de manto, em que ao convidar-nos perdemos o pudor interativo, empurrado por uma série de normas sociais sobre o “bom comportamento”, e assim surge a sua arte, envolvente e tanto desarrumado como desarrumante.




Como abordar a sua exposição solo, Antes do Nome, na Galeria do Sol, no Porto, desde a entrada, ou a começar do último andar (a galeria tem 3 andares, respectivamente o 1º, rés de chão, e cave) … Se calhar bem ao gosto de Maria Inês, podemos começar por onde quisermos. No meu caso, deixaram-me sozinho na galeria com uma nota: “Há giz lá em cima, a Artista disse que podiam vandalizar onde quisessem” ; Foi de arregalar os olhos, foi por onde comecei.

O que é que havia lá em cima ?; além de um chão todo “riscadinho” com frases e dicas engraçadas, havia um desenho embrulhado num plástico com bolhas de ar, como que num transporte constante, e ao lado um baixo relevo em lego. Nos dois cantos opostos da sala do 1º andar, junto das escadas estava um pequeno pedestal espelhado no topo com uns brinquedos de madeira, umas carteiras de escola e um quadro com abecedário, ao lado de dito quadro, dois Professores (?), relacionando-se perfeitamente com o tema da sala, relativo à escrita no chão. Junto do muro em metal deste 1º andar, estava uma antiga máquina de pastilhas, que em vez do recheio comum, estava cravejada a peluches.





Ao descer das escadas, no rés de chão, onde também deixei uma pequena nota de vandalismo escondida, estavam alguns desenhos, um deles mesmo rente ao chão, feito à medida de de uma criança cujo percentil de altura, ou comprimento, seja compreendido entre os 20 e os 10 %, no desenho, estava retratada uma pessoa a andar de pé, um cavalo, sob um fundo vermelho. também haviam algumas instalações, umas raquetes de tênis de mesa, com a rede segura diretamente sobre elas, uma estante onde pousavam pequenos sacos com brinquedos, uma mão de plástico, que segurava num diminuto espelho, onde assenta um dente, afirmei-o como dente do siso, em inglês: wisdom tooth, uma bela piada, num dos lados, em relação à entrada da galeria, o lado esquerdo, forrava ambos chão e parede, painéis de esponja com número, letras e ícones, não consegui desmistificar o que me queriam dizer, mas os painéis em si, alastravam pelo espaço como se do re-erguer do nosso antigo castelo, feito com recurso ao mesmo ladrilho, se tratasse. Numa espécie de celeuma, que incomoda e me acompanhou a exposição toda.









O último andar, a contar de cima, portanto, a cave, não me surpreendeu, eu bem sei que esta artista gosta de brincar com esta coisa da assombração, com a relação entre ter medo, e por isso não mexer, ou pelo menos não mexer muito. Do que é que se trata ?; dois painéis luminosos com a cara de palhaços, apontados para uma tenda também luminosa que emite som, e da qual se ergue uma passadeira de relva, logo à direita da entrada. Os sons ficam assim numa espécie de névoa, porque face a esta emissão, em nada mais se consegue pensar que não o som de pingos de água a ecoar, a pequena radiofonia dentro da tenda, sugere som, mais do que o emite.






Aprofundamos, vejamos, mais do que apenas enumerar peças, num tom holístico, nem sequer referi que os lucros desta exposição revertiam para a organização de Free Palestine, e portanto as coisas estavam a preços acessíveis, tornando-a numa exposição perfeita para jovens colecionadores.

Vou endereçar-me ao desenhos, na sua maioria embrulhados em plástico de bolhas, como quem faz parecer que estão em exposições diferentes com alguma frequência, então já nem se tira o invólucro, ou então é como quem diz que aqueles desenhos são como memórias, com as quais partilhamos espaço na cabeça. Achei engraçada a possibilidade deste paralelismo, pronto. Além do mais, lembrou me da fenomenologia de Heidegger, quando ele explica o Dasein, e deixa a explícito que a troca constante entre outros Seres, é fulcral, isto numa fase não só inicial da vida, mas especialmente, e aqui visitando como adultos, cá estamos a ser confrontados outra vez com os primeiros exercícios de interpretação e interação cognitiva, bem como a uma antiga ideia do lúdico, numa de não ser artista à má fé.

Honestamente pouco mais me resta sobre seus desenhos, não sei se ela os revisita como arma contraposta à inocência de um miúdo, ou se quer exatamente ao revisitar essa linguagem, contrastar com o que aprendeu tanto a níveis formais como técnicos e ao mesmo tempo que nega um estabelecimento, fazer- se valer da observação de um público maduro que pode procurar algo mais, e assim gozar com a mente pretensiosa do espectador.







A exposição erguia-se e apresentava-se entre momentos e temáticas diferentes, revisitando e contrapondo, uma série de preconceitos relativos ao espaço expositivo, ao dizer não, a um organizar e interagir comum, Maria Inês Fialho Godinho, mais do que colocar as suas obras no espaço, o espaço torna-se a obra, num ato que convida e quase depende do espectador, para se manter vivo, a maneira como nos comportamos ao interagir com o espaço expositivo é a verdadeira finalidade da exposição da artista na Galeria do Sol.



Nota
: Há poucas pessoas que considerem sequer as laranjas do pafarrão, e preferindo manter em evidência as laranjas do Algarve, mas é importante perceber que há diferenças, qualquer amante dos citrinos nacionais saberá a diferença. A laranja do Pafarrão usufrui do microclima da vila que lhes dá nome, e são de uma só estirpe, as do Algarve têm uma produção muito mais alargadas, e são de variadas qualidades, só nunca da qualidade da laranja sevilhana, famosa por ser mais seca e amarga. A diferença chave entre os frutos destas duas regiões produtoras de laranjas (Pafarrão e Algarve), é que a primeira (Pafarrão) são maiores, têm mais sumo, e são igualmente doces, quando comparadas às laranjas mais do sul. Discutivelmente se uma laranja for igualmente doce, mas maior, isto pode significar que, no final de contas, uma “tem” mais doce, dentro de si, que a outra. A obra de Inês Fialho Godinho, é como as laranjas do Pafarrão, produzida em “mais pequena” escala, contudo, é maior e mais doce que outras obras artísticas, sente-se carinho, sente-se nossa, abraça-se com mais disponibilidade para guardar em boa estima.