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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Livro A Invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick








A Invenção de Hugo Cabret, de título original The Invention of Hugo Cabret, é um livro juvenil do autor norte americano Brian Selznick, publicado pela primeira vez em Nova Iorque, em 2007. 

A Invenção de Hugo Cabret trata-se, sem dúvida, de um livro singular, que propõe uma experiência de leitura fora do comum. O que difere esta obra dos restantes livros do seu género é a forma como a narrativa é apresentada ao leitor. O autor optou por contar a sua história alternando ilustração e texto, dando à ilustração um papel de destaque, uma vez que não se integra na obra de forma justaposta ao texto, ilustrando descrições já feitas pelo autor. Em vez disso, diferentes partes da narrativa são contadas por sequências de imagens, como numa animação, que de seguida passam novamente a ser contadas por palavras e, mais à frente, de novo em imagens.

Esta é uma obra que celebra a ilustração pelo seu poder de contar complexas narrativas numa só imagem e pela sua autonomia. Convencionou-se que a ilustração deve representar visualmente o conteúdo textual, o que, inevitavelmente, lhe confere um papel secundário aos olhos do leitor. Para um leitor com alguma maturidade, a ilustração deixa de ser relevante pois a leitura do texto é suficiente para a compreensão da mensagem e, talvez por essa razão, a ilustração passou a ser mais utilizada nos livros infantis. É normal uma criança necessitar do auxílio visual para compreender uma ideia, mas o mesmo não acontece a um adulto. Ora, quando em obras como A Invenção de Hugo Cabret a ilustração é utilizada como forma de desenvolver a narrativa, esta passa a ficar em pé de igualdade com o texto, e passa a fazer sentido quer em livros infantis, como em quaisquer outros.


A escolha de Selznick em recorrer à ilustração desta forma dá-se pelo facto deste pretender aproximar o livro ao ecrã de cinema. O autor pretendia dar ao leitor a sensação de que este se encontraria a assistir a um filme, ao passar página por página, construindo na sua cabeça os frames que estariam entre cada ilustração, e completando a narrativa com o texto das páginas seguintes. Assim, Selznick consegue o melhor dos dois mundos, uma obra literária que não perde o seu caráter textual, mas que bebe do movimento das sequências imagéticas propostas pelo cinema.


quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Studio Ghibli


O Estúdio Ghibli foi fundado em 1985, por Hayao Miyazaki, Isao Takahata, Toshio Suzuki e Yasuyoshi Tokuma. O estúdio lançou 22 filmes até à data, sendo o primeiro O Castelo No Céu (1986), de Hayao Miyazaki e o mais recente Kimi-tachi wa Dō Ikiru ka (Como Você Vive?) (ainda por estrear), do mesmo realizador.

O nome do estúdio deriva do nome dado em italiano aos aviões de reconhecimento do deserto do Saara durante a II Guerra Mundial que, por sua vez, deriva de uma palavra antiga libanesa que significa “forte sopro de vento quente”. Este nome vem do fascínio de Miyazaki pela aviação (tal como podemos perceber pelos seus filmes) e pelo objetivo do estúdio em tornar-se pioneiro num novo mundo da animação japonesa. 




Hayao Miyazaki é considerado o principal realizador do estúdio, tendo realizado exatamente metade dos filmes Ghibli. Os seus filmes destacam-se pela originalidade das personagens e enredos. O realizador explora temas nobres como o amor, a amizade, a natureza humana, o bem e o mal. Podemos ver os seus filmes como ensaios riquíssimos nestes e noutros temas, que surpreendem o espectador por não seguirem os esteriótipos um tanto fúteis que vemos representados na maioria dos filmes atuais. O típico romance entre um jovem e uma jovem é substituído por reflexões sobre o amor como um conceito muito mais complexo e diversificado. 

“I’ve become skeptical of the unwritten rule that just because a boy and girl appear in the same feature, a romance must ensue. Rather, I want to portray a slightly different relationship, one where the two mutually inspire each other to live—if I’m able to, then perhaps I’ll be closer to portraying a true expression of love.” — Hayao Miyazaki

Miyazaki faz também questão de criar personagens femininas independentes que não necessitam do apoio de personagens masculinas para lutar pelo que acreditam e tornarem-se as heroínas do filme. Nestes enredos introduz sempre personagens que servem de apoio, demonstrando a importância do amor e da amizade, mas que não determinam o sucesso do herói da história.

“Many of my movies have strong female leads—brave, self-sufficient girls that don't think twice about fighting for what they believe with all their heart. They'll need a friend, or a supporter, but never a saviour. Any woman is just as capable of being a hero as any man.”
— Hayao Miyazaki




Isao Takahata teve também um papel de destaque neste estúdio, apesar de nunca ter ilustrado um único filme. No entanto, realizou e produziu cinco dos mais icónicos filmes Ghibli. O trabalho de Takahata destacou-se, em semelhança com o de Miyazaki, por tratar temas que não se esperavam encontrar em filmes de animação, reposicionando o estilo cinematográfico num mercado mais abrangente que podia agora englobar espectadores de todas as idades. Estreou-se no Estúdio Ghibli com O Túmulo dos Pirilampos (1988), no qual trata temas dramáticos como o da guerra, que até à data nunca de associariam a um filme de animação. Posteriormente, ao realizar Memórias de Ontem (1991), apresentou um filme de animação que não se destinava aos mais jovens, mas sim a um público mais adulto. O seu último filme foi um dos mais premiados do estúdio, O Conto da Princesa Kaguya (2013), que alcançou um acabamento visual extraordinário, ao utilizar técnicas como o carvão, o pastel e aguarela para lhe conferir uma identidade visual de pura delicadeza e subtileza.

Uma característica particularmente fascinante que estes filmes trouxeram ao mundo do cinema japonês são as diferentes técnicas de ilustração presentes nas animações. Podemos encontrar diferentes técnicas na mesma cena, nomeadamente as personagens em pintura digital e o cenário em aguarela, que cria um contraste claro entre os elementos, ao mesmo tempo que enriquece visualmente toda a imagem.


O Estúdio Ghibli criou um mundo mágico, não só de filmes, mas também de ideais riquíssimos que continuam a fascinar gerações. Devolveu ao mundo do cinema a riqueza da beleza estética conseguida por processos manuais e da complexidade da natureza humana, que nunca poderá ser representada apenas de uma só forma. 

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Francesca Woodman






Francesca Woodman (3 de Abril de 1958 - 19 de Janeiro de 1981) foi uma fotógrafa Norte Americana, conhecida pelos seus autorretratos a preto e branco.

Woodman começou a fotografar aos 13 anos e a sua carreira acabou aos 22, quando terminou prematuramente a sua vida. Apesar desta curta carreira, criou mais de 800 fotografias, a maioria autorretratos em que expunha o corpo nu em interação com um cenário. Uma das características mais reconhecidas no seu trabalho é a utilização de exposições longas, que permitiam criar movimento na composição, ao movimentar a sua figura nua durante a exposição. Desta técnica resultam composições lindíssimas e surrealistas, em que a figura feminina dissolve as suas formas em linhas que remetem para um tempo passado; para um corpo efémero que habitou um cenário eterno; vejo as fotografias de Woodman como arquivos de tempo, pequenos filmes estáticos que contam uma história indecifrável.

“Am I in the picture? Am I getting in or out of it? I could be a ghost, an animal or a dead body, not just a girl standing on the corner…?” — Francesca Woodman

O trabalho fotográfico de Woodman é também altamente surrealista e conceptual, uma vez que a fotógrafa introduzia nas suas composições elementos simbólicos como crânios, pássaros e espelhos. Outra característica fascinante nestas composições é a procura da simbiose entre corpo e cenário; a fotógrafa procurava atravessar os objetos à sua volta, passando a fazer parte das paredes, chão, molduras e espelhos. Os espelhos eram utilizados como elementos ativos na distorção das formas do seu corpo; faziam com que os seus membros parecessem mais ou menos grotescos, criando, de certa forma, um corpo novo, uma criatura surreal, que protagonizava aquela fotografia. Aparentemente não há uma razão poética para justificar que Woodman utilizasse o seu corpo como elemento principal da sua arte. A fotógrafa afirmou certa vez “It’s a matter of convenience, I’m always available”. 

Woodman criou ambientes que combinavam elementos familiares e desconhecidos, o que resultou numa coleção fotográfica única, de fantasia e experimentação plástica e conceptual. Em vida teve poucas oportunidades de expor o seu trabalho, tendo o pouco reconhecimento contribuído para uma depressão que levou a fotógrafa a terminar a sua vida prematuramente. Hoje em dia é considerada das mais icónicas figuras da fotografia de autorretrato.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Gloaming






Gloaming é um romance gráfico de Keaton Henson, músico e ilustrador de Londres, publicado pela POCKO EDITIONS pela primeira vez em 2012, e numa segunda edição em 2017.

Por definição, um romance gráfico combina em igual medida texto e imagem, aproximando-se daquilo que reconhecemos como uma “banda desenhada”. No entanto, Keaton considera que Gloaming se insere nesta categoria apesar da quase nula presença de texto. Talvez esta definição se mantenha uma vez que as ilustrações estabelecem uma sequência lógica entre si, sugerindo ao leitor uma narrativa que se tornaria redundante de outra forma. Gloaming é dos romances gráficos mais singulares que tive a oportunidade de descobrir; um ensaio sobre a cidade natal de Keaton, vestida agora pelos monstros que protagonizavam as histórias de infância do autor, e que tanta falta faziam aos telhados vazios da paisagem suburbana. Pelas palavras do autor:

 “This book is a study of the things we cannot see. It is an ode to the suburbs and the creatures that come to life within its mundanity.
I spent my childhood alone with views of rooftops and chimney stacks, wondering where all the creatures from my storybooks were, why I couldn’t see them in the suburban landscape where they so clearly belonged. Now that I’m grown this idea keeps me company, and during a year of solitude, I decided my hometown needed monsters.”

O que torna este romance gráfico um excelente exemplar é o facto de refletir, desde a forma ao conteúdo, a natureza do autor: o caráter introspetivo das ilustrações, que pintam a personalidade complexa e extremamente criativa de Keaton; a total atenção ao detalhe, que se manifesta não só nas ilustrações, mas também no livro em si; e a visão de um mundo pessoal que só Keaton conseguiria criar. 

A nível editorial, todo o livro foi desenhado para que cada canto tivesse a sua expressão. A capa é revestida por um dust jacket azul escuro e preto, ilustrado no interior e exterior, que contrasta com a capa rígida branca, por sua vez também ilustrada. As primeiras páginas apresentam um pequeno texto de introdução à obra e a partir desse ponto não há senão ilustrações atrás de ilustrações desenhadas a tinta preta sobre papel branco. O caráter monocromático das ilustrações não lhes retira qualquer complexidade; considero ainda que nos aproxima melhor da realidade suburbana que Keaton pretende retratar.

São claras as suas influências nas histórias tradicionais escandinavas, nos filmes de Miyasaki e nas estampas Ukiyo-e. Ukiyo-e é um estilo de xilogravura e pintura japonês que teve grande popularidade entre os séculos XVII e XIX; durante este período representava-se a morte segundo uma figura feminina de cabelo negro comprido, uma vez que em vida nenhuma mulher seria vista com o cabelo solto. Esta simbologia está bastante presente nas ilustrações desta obra, o que não deixa de lhe conferir um aspeto melancólico e solitário. Afinal, Gloaming é uma tentativa de preencher uma visão desiludida de criança.