quarta-feira, 20 de maio de 2026

Meninas Exemplares

Cresci em Cascais, a Casa das Histórias foi um espaço muito importante para a apuração da minha sensibilidade artística e cultural, fui ver ali a minha primeira exposição a sós, comecei ali aprender a ver arte. Nessa altura o olhar era desprendido e despolitizado estava interessado primeiramente na visualidade da obra.  Anos mais tarde fui voluntário do serviço educativo de um museu ali perto, o contacto com os colegas ampliou o meu contexto embora nunca me tenha dado ao trabalho de conhecer Paula Rego. Esta visita foi diferente porque o meu entendimento do mundo expandiu-se um pouco, sinto-me mais sensível para determinadas construções sociais, como os papéis de gênero e outras inquietudes. Pude encarar as obras de forma diferente apreciando o seu sentido para além da tinta.




A exposição propõe uma viagem inquietante pela arqueologia da infância, subvertendo a noção romântica de inocência para revelar um território de poder, crueza e sobrevivência. O título remete para a obra homónima da Condessa de Ségur, cujos contos sobre raparigas "bem-nascidas que se portam terrivelmente" cativaram a artista desde a infância. 





Paula Rego, Comunhão, 2001

 


O Impacto da Obra de Paula Rego reside na sua capacidade de comunicar através da forma. As suas personagens possuem uma volumetria que lhes confere uma presença física quase invasiva usando a força física das suas figuras para nos "agarrar" emocionalmente, mostrando a vida como ela é: crua, pesada e cheia de contradições, onde ninguém é totalmente bom ou totalmente mau. 

Um dos temas prevalentes é o recurso dos contos populares e nesse sentido uma das obras que me impressionou foi “The Rehearsal” de 1989, que tem uma dimensão mais histórica, mas que faz parte do nosso imaginário de cultura popular. Inicialmente cativou-me a dimensão da obra procurei de alguma forma criar um sentido para a coleção de momentos que eram apresentados. Ao ler a folha de sala tornou-se óbvio o que era retratado a trágica história de Inês de Castro de D.Pedro. Habitualmente esta história é contada com o foco em D.Pedro. A forma como Paula Rego nos mostra a história é um exemplo de como a beleza das mulheres se torna demasiadas vezes uma sentença de morte. A imagem projeta-se como uma memória traumática condensada em vários fragmentos culminando na tragédia que conhecemos.


Paula Rego, The Rehearsal (1989)

Paula Rego costuma mostrar-nos as lutas de poder que acontecem "entre quatro paredes", mas na sua série sobre a Mutilação Genital Feminina (2009), a mensagem torna-se muito mais política e direta. Aqui, a artista deixa de lado as histórias misteriosas e usa a sua arte como uma forma de luta e protesto contra a violência exercida sobre as mulheres.



           

Paula Rego, Canção de embalar (2009)



Paula Rego, Noiva da noite (2009)



Ao olharmos para obras como "Cosida e atada", o impacto é imediato. Vemos o olhar desesperado de crianças que não se conseguem defender e figuras que parecem paralisadas pelo trauma, o que nos obriga a encarar uma realidade social terrível. Nestas salas, o que era "mistério" transforma-se em denúncia pura. No entanto, mesmo perante esta brutalidade extrema, as personagens de Paula Rego mostram uma força interior inquebrável, provando que, embora o corpo sofra, a sua mente e a sua dignidade resistem.