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quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Arquivos visuais: como o passado regressa sempre que lhe damos espaç



Os arquivos visuais tornaram-se um dos lugares mais interessantes para pensar a relação entre memória e identidade. Não porque sejam românticos ou misteriosos, mas porque revelam, de forma muito direta, como uma sociedade decide o que merece ser lembrado e o que fica fora da história.

Contrariamente ao que muitas vezes se imagina, um arquivo não é um repositório neutro. É um conjunto de escolhas: o que se guarda, o que se descarta, o que se descreve com detalhe e o que fica praticamente sem contexto.
Essas decisões
, conscientes ou não, moldam a narrativa coletiva. Determinam quais são as imagens que sustentam a nossa ideia de passado e quais são as que se tornam invisíveis.

Com a digitalização, as imagens deixaram de estar confinadas a instituições ou coleções privadas. Entraram no fluxo constante da internet, onde podem ser vistas, partilhadas, reinterpretadas e apropriadas por audiências diversas.
Uma fotografia que antes só era consultada por investigadores pode hoje ser utilizada num artigo de opinião, numa página de ativismo, numa publicação humorística ou numa discussão política.
Quando muda de contexto, muda de significado e essa transformação é inevitável.

Nenhuma imagem circula sozinha. A legenda que a acompanha, o local onde é publicada e o discurso que a rodeia condicionam a leitura.
A mesma fotografia histórica pode ilustrar uma celebração, uma advertência, uma crítica ou um debate sobre direitos, dependendo da forma como é enquadrada.
É nesta flexibilidade interpretativa que o arquivo se torna um espaço vivo.

Nas últimas décadas, comunidades que raramente tiveram visibilidade nos arquivos oficiais começaram a criar os seus próprios repositórios.
Arquivos LGBTQIA+, plataformas de memória migrante, projetos de recolha de fotografias de bairros periféricos ou de histórias familiares ignoradas pelos registos institucionais são exemplos dessa vontade de preencher lacunas.
Estes contra-arquivos não anulam os oficiais; complementam-nos e questionam-nos. Fazem-nos perguntar: porque faltam estas imagens? Quem ficou fora da história?

Vários artistas contemporâneos trabalham diretamente com materiais de arquivo para revelar o que estes escondem.
Ao reorganizar, justapor ou manipular imagens, tornam visíveis as ausências, os desequilíbrios e as falhas do registo institucional.
A arte não cria uma nova verdade, mas expõe as múltiplas versões possíveis de um mesmo passado.

Reutilizar documentos visuais implica cuidado. Fotografias de violência, de contextos coloniais ou de populações vulneráveis podem ser facilmente mal enquadradas ou instrumentalizadas.


Antes de partilhar, importa perguntar:
– Qual é o contexto desta imagem?
– Quem nela aparece e em que condições?
– O seu uso pode reforçar estereótipos ou desinformação?

 

Esta consciência não limita o acesso ao arquivo, fortalece-o.

 

No fim, percebemos que um arquivo visual não é um lugar onde o passado repousa. É um sistema em permanente atualização, reinterpretado a cada gesto de consulta, partilha ou recontextualização.

A memória coletiva não é uma lista fechada de acontecimentos, mas um processo contínuo de seleção e debate.

 

O passado não desaparece. Reorganiza-se. E cada imagem que volta a circular participa activamente na forma como nos compreendemos enquanto comunidade.

 

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

 Kodak: A Empresa que colocou o mundo a fotografar

    Poucas marcas conseguiram moldar o modo como vemos o mundo tanto quanto a Kodak. A empresa norte-americana, fundada no século XIX, não só democratizou a fotografia, como deu origem a uma nova linguagem visual que atravessou gerações.





    Hoje, mais de 140 anos depois, o nome Kodak continua a evocar o poder das imagens e a nostalgia dos “momentos Kodak” expressão que, durante décadas, simbolizou o prazer simples de captar um instante.

 

O visionário George Eastman


 

  A história começa com George Eastman, um jovem bancário de Rochester, Nova Iorque, apaixonado por tecnologia. Em 1880, Eastman decidiu simplificar o processo fotográfico, até então complexo e caro. Começou a fabricar placas secas de gelatina, uma inovação que substituía o pesado equipamento das câmaras tradicionais.

Três anos depois, juntou-se ao empresário Henry Strong e fundou a Eastman Dry Plate Company. O objetivo era claro: tornar a fotografia acessível a qualquer pessoa.

 

“You press the button, we do the rest”

 

    Em 1888, nascia a primeira câmara Kodak. Era pequena, leve e vinha carregada com um rolo de filme para 100 exposições. O utilizador só precisava de carregar num botão, o resto, garantiam os técnicos da empresa, seria tratado pela Kodak.

O lema publicitário, “You press the button, we do the rest”  resumia a revolução. Pela primeira vez, fotografar deixou de ser privilégio de profissionais. Tornou-se um passatempo popular, ao alcance de famílias, viajantes e curiosos.

O nome “Kodak”, criado por George Eastman, foi escolhido por ser curto, fácil de pronunciar e visualmente marcante. “Começa e termina com um K, uma letra forte”, explicava o fundador.




 

O rolo de filme que mudou o mundo

 

    No ano seguinte, em 1889, a Kodak apresentou o primeiro filme transparente em rolo comercial. Foi essa inovação que permitiu o nascimento da indústria cinematográfica. Sem o filme Kodak, o cinema como o conhecemos talvez nunca tivesse existido.

Durante o século XX, a empresa tornou-se sinónimo de imagem: das câmaras domésticas às produções de Hollywood, dos registos médicos às missões espaciais. A tecnologia da Kodak esteve presente em tudo, até nas primeiras fotografias tiradas em Marte.

 

O desafio digital

 

    Mas o sucesso também trouxe complacência. Apesar de ter desenvolvido a primeira câmara digital em 1975, a Kodak hesitou em apostar nessa tecnologia por medo de comprometer o seu lucrativo negócio de filmes fotográficos.

Quando o digital se impôs, já era tarde. A empresa entrou em crise, perdeu terreno para concorrentes mais ágeis e acabou por se reestruturar profundamente na década de 2010.

Hoje, a Kodak procura reinventar-se como empresa tecnológica especializada em imagem, impressão e materiais avançados. O seu foco está em setores como a impressão comercial, a imagem industrial e as soluções sustentáveis.

 

O legado que perdura

 

    Mais do que uma marca, a Kodak representa uma ideia: a de que qualquer pessoa pode guardar o seu próprio olhar sobre o mundo.
Da simplicidade de uma câmara de 1888 às imagens que viajaram até Marte, a história da Kodak é, a história de todos nós, de como aprendemos a congelar memórias e a transformá-las em pedaços de eternidade.

 

 


sábado, 25 de outubro de 2025


 

 Segurança ou Discriminação? O Debate sobre a Burca em Portugal

 

Em outubro de 2025, o Parlamento português aprovou uma lei que proíbe o uso de vestimentas que ocultem o rosto em espaços públicos, nomeadamente a burca e o niqab. Apresentada pelo partido Chega, a medida justifica-se com a necessidade de reforçar a segurança e proteger a dignidade das mulheres. Contudo, a sua aprovação levanta questões complexas sobre direitos fundamentais, diversidade cultural e o delicado equilíbrio entre segurança e liberdade religiosa. Mais do que uma mera questão de vestuário, esta legislação coloca em debate a forma como a sociedade portuguesa lida com a pluralidade cultural e a liberdade individual no espaço público.


Contexto da Lei

 

A lei estabelece que o uso de vestimentas que impossibilitem a identificação facial em locais públicos, incluindo ruas, transportes, escolas e hospitais, será sancionado com coimas que variam entre 200 e 4.000 euros. Prevê ainda penas de prisão de até três anos para quem obrigue alguém a usar tais vestimentas. Algumas exceções são contempladas, nomeadamente em locais de culto, instalações diplomáticas, aeronaves e em contextos profissionais ou de saúde.

Embora o número de mulheres que utilizam burca ou niqab em Portugal seja reduzido, a aprovação da lei insere o país numa tendência europeia semelhante à de França e Áustria. No entanto, coloca-se a questão: até que ponto a proibição de símbolos religiosos constitui uma medida legítima ou traduz-se numa forma de discriminação velada?

 

 



Argumentos a favor da Lei

 

Os defensores da medida afirmam que esta protege a igualdade de género e a dignidade das mulheres, prevenindo situações de opressão e exclusão social. Por esta perspetiva, o uso de vestimentas que ocultam o rosto seria incompatível com os valores de liberdade e igualdade consagrados na Constituição portuguesa.

Além disso, argumenta-se que a lei reforça a segurança pública, permitindo a identificação dos cidadãos em espaços públicos e prevenindo potenciais situações de risco.

 

 

 

Críticas e Controvérsias

 

A lei tem sido alvo de críticas por parte de organizações de direitos humanos, que a consideram discriminatória e uma violação da liberdade religiosa. Para além disso, a medida é vista como uma afronta à liberdade de escolha das mulheres, impedindo que decidam por si próprias sobre a forma como se vestem, mesmo que optem por usar a burca ou o niqab por motivos religiosos ou culturais.

Críticos salientam que a lei pode estigmatizar ainda mais as mulheres muçulmanas, forçando-as a escolher entre a sua identidade religiosa e a participação plena na sociedade. Acresce que a eficácia da medida é questionável, dado o número muito reduzido de mulheres que utilizam burca ou niqab em Portugal. Soluções centradas na educação, integração e diálogo intercultural poderiam ser mais eficazes e menos discriminatórias.

 

 

Desafios Constitucionais

 

Do ponto de vista jurídico, a lei suscita questões relevantes. A Constituição portuguesa garante a liberdade de consciência, de religião e de culto, bem como proíbe qualquer forma de discriminação com base na origem, raça, sexo ou religião. Assim, a lei poderá vir a ser contestada junto do Tribunal Constitucional, que terá de avaliar a sua compatibilidade com os direitos fundamentais.

 

 

A proibição do uso de burca e niqab em espaços públicos em Portugal reflete uma preocupação com a segurança e a igualdade de género, mas suscita importantes dilemas em torno da liberdade religiosa, da autonomia das mulheres e da diversidade cultural. A questão central não se resume à proibição de uma peça de vestuário, mas sim à forma como a sociedade lida com a pluralidade e com os direitos individuais.

Num país que se orgulha de tradições de tolerância e respeito pelos direitos humanos, é essencial que qualquer medida legislativa seja ponderada de forma cuidadosa, de modo a assegurar que os direitos fundamentais não sejam sacrificados em nome de uma segurança muitas vezes simbólica.


 

 

domingo, 12 de outubro de 2025

O Espelho Partido da Política: Uma Leitura de “Por Dentro do Chega”, de Miguel Carvalho

 

   

 Alguns livros investigam o poder. Este desmonta o modo como o poder se disfarça.

Um livro que desce às entranhas do poder


    Em "Por Dentro do Chega, A face oculta da extrema-direita em Portugal", Miguel Carvalho desce aos subterrâneos da política contemporânea e regressa com um retrato inquietante do país que somos.


    O autor, um dos jornalistas mais respeitados do jornalismo português, não se limita a observar o fenómeno do partido Chega à distância: mergulha nele com uma paciência quase arqueológica, desmontando, camada após camada, a máquina que alimenta o partido liderado por André Ventura.

O resultado é um livro monumental, de mais de 700 páginas, fruto de cinco anos de investigação rigorosa, dezenas de entrevistas inéditas e milhares de documentos recolhidos.

 Ouve o Chega a falar de si próprio. E o que emerge desse coro de vozes é um retrato cru de um partido que se alimenta tanto de fé como de frustração.


O populismo como dramaturgia


    "Por Dentro do Chega" é, antes de tudo, uma aula sobre a teatralidade da política contemporânea.

O autor mostra como o partido constrói o seu poder através de uma gramática visual e emocional: a pose, a cor, o tom, o cenário e o gesto.

Nada é deixado ao acaso.

As convenções são encenadas como rituais de purificação moral, as redes sociais transformam-se em palcos e as palavras, em armas simbólicas.

O Chega é apresentado como um produto mediático, criado para circular, para ser visto, partilhado e comentado.

Miguel Carvalho não analisa apenas discursos, analisa imagens, gestos e signos.

A política, aqui, é uma coreografia cuidadosamente ensaiada, em que cada símbolo da bandeira ao crucifixo, é utilizado como instrumento de pertença e exclusão.


O laboratório do ressentimento


    Há uma corrente subterrânea que atravessa todo o livro: o ressentimento.

Miguel Carvalho descreve como o Chega se alimenta da raiva social, da sensação de injustiça, do sentimento de perda.

Não inventa o descontentamento, amplifica-o, organiza-o e dá-lhe rosto.

Nas palavras do autor, o partido “capitaliza o cansaço da democracia” e oferece um discurso de redenção.

Mas essa redenção tem um preço: a simplificação.

O mundo divide-se entre “os bons e os maus”, “os portugueses de bem” e “os outros”, “o povo traído” e “as elites corruptas”.

“A simplificação é a linguagem da raiva e a raiva, a retórica do poder.”

O livro mostra como esta narrativa se infiltrou no espaço público e mediático, encontrando eco numa sociedade cada vez mais vulnerável ao discurso fácil e à emoção instantânea.


Bastidores e contradições


    Um dos méritos de Miguel Carvalho é não se deixar cegar pelo discurso.

O livro revela um partido dividido entre ambição e ideologia, entre fé e cálculo, entre o desejo de “limpar a política” e a tentação de reproduzir os mesmos vícios que jurava combater.

Nos bastidores, há egos feridos, alianças efémeras, fidelidades compradas e vinganças pessoais.

Há quem entre por convicção e saia por desilusão.

Há quem veja em André Ventura um salvador e quem o veja como o maior obstáculo à “nova política” que prometeu.

O autor dá corpo a essa contradição com rigor documental, mas também com humanidade: percebe-se o fascínio e o medo que o Chega desperta, muitas vezes dentro dos próprios corredores do partido.


O espelho e o reflexo: o país em miniatura


    Ler "Por Dentro do Chega" é, inevitavelmente, olhar para Portugal ao espelho.

Miguel Carvalho não escreve apenas sobre um partido, escreve sobre o país que o permitiu crescer.

Um país desigual, exausto, fragmentado, onde a política tradicional perdeu credibilidade e o populismo encontrou terreno fértil.

O Chega, no livro, surge como metáfora e sintoma: um espelho deformado que devolve, de forma amplificada, as fraturas da sociedade portuguesa, as desigualdades, os ressentimentos, as falhas de representatividade.

“O Chega não nasce contra a democracia.

Nasce dentro dela e das suas falhas.”

A investigação de Miguel Carvalho lembra-nos que o perigo não está apenas na ascensão do populismo, mas na indiferença que o normaliza.



    "Por Dentro do Chega" não é um panfleto, nem um manifesto.

É uma investigação que obriga à reflexão, sobre a política, sobre o país, e sobre o próprio papel da comunicação.

Miguel Carvalho mostra que compreender não é desculpar: é assumir a lucidez como forma de cidadania.

O Chega é o pretexto. Portugal, o objeto real do diagnóstico.

“Olhar por dentro do Chega é, inevitavelmente, olhar por dentro de nós.”

E essa talvez seja a maior virtude do livro: expor, com serenidade e rigor, o espelho partido onde a democracia portuguesa se vê e se reconhece.


Ficha Técnica


Título: "Por Dentro do Chega. A face oculta da extrema-direita em Portugal"

Autor: Miguel Carvalho

Editora: Objectiva / Penguin Random House

Ano: 2025

Páginas: 752

Género: Jornalismo de Investigação / Ensaio Político