quarta-feira, 28 de outubro de 2026

As paredes como páginas

Olhar para as paredes da cidade como se fossem páginas de uma publicação que nunca está terminada foi algo que aprendi a fazer em Berlim. Foi na viagem que fiz a essa cidade que comecei a perceber que as paredes carregam um significado muito próprio. Há ruas onde, todos os dias, alguém cola um cartaz, escreve uma frase, pinta uma superfície ou cobre uma mensagem anterior. Com o tempo, estas intervenções acumulam-se, sobrepõem-se e transformam a parede numa composição visual imprevisível. É o que se vê, por exemplo, nos Hackesche Höfe, um conjunto de pátios no centro de Berlim.

O mais interessante é que, ao contrário de um cartaz criado por um designer e pensado até ao último pormenor, estas composições surgem muitas vezes sem planeamento, através da intervenção de pessoas diferentes e em momentos distintos. Não há um autor único nem um briefing: há uma sucessão de decisões individuais que, juntas, constroem algo que nenhuma delas previu.


As fotografias seguintes foram tiradas por mim durante a viagem e parecem-me transmitir bem esta ideia.






















Quando olhamos nestas paredes com mais atenção, começamos a notar a quantidade de elementos que coexistem no mesmo espaço. Diferentes cores, tipografias, imagens e texturas cruzam-se, criando uma composição que se altera constantemente. Há cartazes que escondem outros, palavras que ficam incompletas e imagens que, ao perderem parte do seu contexto original, acabam por adquirir novos significados. O resultado é uma espécie de colagem construída ao longo do tempo, em que cada intervenção acrescenta uma nova camada àquilo que já existia.

Nas imagens que fotografei, esta ideia torna-se particularmente evidente. Na primeira, a quantidade de autocolantes, símbolos, frases e cartazes sobrepostos cria uma superfície visualmente densa, onde é difícil concentrar o olhar num único elemento. Cada intervenção parece competir pela nossa atenção, mas, ao mesmo tempo, contribui para a identidade visual daquele espaço. Na segunda, as paredes apresentam uma mistura de graffiti, desenhos e mensagens que se estende por diferentes superfícies, envolvendo também o mobiliário. A comunicação visual deixa, assim, de estar limitada ao cartaz e passa a ocupar tudo o que encontra.

O que mais me chamou a atenção foi perceber como elementos tão diferentes conseguem coexistir sem que haja, necessariamente, uma preocupação em manter uma composição organizada ou uniforme. Ainda assim, as cores, os contrastes e as sobreposições criam relações visuais que tornam estas paredes tão interessantes. Aquilo que poderia ser visto apenas como desordem transforma-se numa composição espontânea, construída por pessoas diferentes ao longo do tempo.

Isto está, de certa forma, ligado ao design gráfico. O design está presente em grande parte daquilo que vemos no dia a dia, desde cartazes e revistas até à sinalética das ruas, e procura, através da combinação de imagens, palavras, cores e formas, tornar uma mensagem clara, apelativa e adequada ao seu contexto. No entanto, ao olhar para estas paredes, apercebi-me de que a comunicação visual não acontece apenas em suportes pensados para esse fim. Acontece também onde ninguém a planeou, e muitas vezes com uma força que o design planeado não consegue replicar.

Nas fotografias, é possível encontrar diferentes linguagens gráficas a conviver lado a lado. Alguns cartazes apresentam composições cuidadas, com hierarquias tipográficas e paletas de cores definidas, enquanto os graffiti e os autocolantes seguem outras formas de expressão, mais livres e imediatas. O contraste entre estes elementos cria uma identidade visual própria, que reflete a diversidade de pessoas, ideias e referências presentes naquele espaço.

Esta observação fez-me pensar na forma como o design é influenciado pelo contexto em que existe. Uma imagem não é interpretada isoladamente: o que está à sua volta também interfere na leitura que fazemos dela. Assim, uma mensagem originalmente criada para um determinado fim pode ganhar outra interpretação quando passa a integrar este conjunto de elementos urbanos. Um cartaz de um concerto, por exemplo, deixa de ser apenas um anúncio quando é parcialmente rasgado e coberto por um autocolante, e passa a fazer parte de uma conversa maior entre desconhecidos.

Em suma, as paredes de Berlim ensinaram-me que uma publicação não precisa de ter capa, índice ou paginação para existir. Estas paredes são páginas escritas a muitas mãos, sempre em revisão, onde o planeado e o espontâneo se misturam e onde cada camada depende das anteriores para fazer sentido. Para quem estuda design, são também um lembrete de que a comunicação visual vive muito além do ecrã e do papel, e de que vale a pena olhar para a rua com a mesma atenção com que se olha para uma página bem desenhada.