quarta-feira, 7 de outubro de 2026

The Kitchen Show- Hans Ulrich Orbist

    Uma das minhas leituras deste verão foi um livro chamado Ways of Curating, de Hans Ulrich Obrist, um curador de arte suíço que atualmente trabalha nas Serpentine Galleries, em Londres. É um livro relativamente fácil de ler, que descreve a prática da curadoria de uma forma bastante acessível, mesmo para quem, como eu, não é da área. Depois de o ler, fui pesquisar um pouco mais sobre as suas exposições e houve uma, em particular, que me chamou a atenção.

Em 1991, ainda estudante, Obrist organizou a sua primeira exposição, World Soup, mais conhecida como The Kitchen Show. O espaço escolhido foi a cozinha do seu apartamento, em St. Gallen, na Suíça. A exposição reuniu trabalhos de artistas como Fischli & Weiss, Christian Boltanski e Hans-Peter Feldmann, que utilizaram os armários, o frigorífico e outros elementos da cozinha para apresentar as suas obras.




O que me interessou nesta exposição não é necessariamente a capacidade de organizar uma exposição sem uma galeria, mas a forma como um espaço tão banal condicionou a experiência das obras. Para as descobrir, os visitantes tinham de abrir armários, espreitar por frestas ou olhar para dentro do frigorífico. Gestos domésticos tornaram-se parte da experiência artística. A cozinha deixou de ser um simples espaço expositivo e passou a participar na construção do significado das obras.

Encontrei aqui uma relação interessante com a prática do design, particularmente com o design de comunicação na qual me licenciei. Muitas vezes, o trabalho de um designer não consiste em criar novos conteúdos, mas em selecionar, organizar e estabelecer relações entre elementos talvez já existentes. Mas parece-me que esta exposição permite pensar um pouco além da organização visual. Os armários e o frigorífico não eram apenas suportes para as obras, eram objetos com funções e significados que os visitantes já conheciam e que influenciavam a forma como acabavam por interagir com aquilo que encontravam.





No design acontece algo semelhante. O formato de uma publicação, o contexto em que encontramos um cartaz ou a maneira como navegamos numa interface não são questões secundárias à informação que apresentam. Fazem parte da experiência e condicionam a nossa interpretação. Um mesmo conteúdo pode adquirir significados diferentes consoante o suporte, a sequência ou o espaço em que é apresentado.


Naturalmente, curadoria e design são práticas distintas, mas ambas exigem uma consciência da relação entre os objetos, o contexto e as pessoas que os encontram. Talvez por isso me interesse particularmente esta exposição: Obrist não procurou disfarçar a cozinha ou transformá-la numa galeria convencional. Pelo contrário, aproveitou aquilo que o espaço já tinha de familiar para propor uma forma diferente de observar as obras.


A cozinha continuou a ser uma cozinha. O que mudou foi a maneira de olhar para ela.