"House of Leaves", de Mark Z. Danielewski, não é um livro fácil de explicar. Acredito que a sua experiência de leitura equivale a um percurso por um labirinto .
A verdade é que há cerca de 6 meses que este livro me atormenta. O seu habitat natural é em cima da minha mesa de cabeceira, e vive ali com a esperança de um dia, eu ter a coragem de o ler.
De vez em quando lá folheio as páginas, penso "Tenho mesmo que ler isto", e lá volto eu a fechar o calhamaço. Não é por ser um livro comprido que me sinto intimidada, claro. Mas sim por ser daqueles livros que sei que será marcante, com um antes e um depois da sua leitura.
Isso e o caos que vejo naquelas páginas.
Muito resumidamente, "House of Leaves" conta a história de uma família que se muda para uma casa que é maior no seu interior do que no seu exterior. No entanto, é muito mais do que isto. Diferentes narrativas sobrepõem-se em camadas, e a própria página ilustra essa ideia através de diferentes transcrições, longas notas de rodapé, referências a livros, filmes e artigos fictícios (estes, com toda uma outra narrativa associada). E é aqui que o design confronta o leitor, com parágrafos completamente ilegíveis, páginas ao contrário, diversas fontes tipográficas, notação musical e até braille.
Embora todos estes recursos gráficos possam parecer excessivos, eles existem com propósito, desorientando o leitor, e intensificando o terror sentido pelos diferentes personagens, numa casa aparentemente normal. Afinal de contas, no seu interior, os corredores têm vários quilómetros, uma escada desce infinitamente, e percorrer um quarto pode demorar dias. No exterior, é uma simples casa convencional.
Muito como a casa, este livro também é convencional no seu exterior, e anómalo nas suas páginas. Ao desafiar a sua leitura num formato não linear e exigindo um esforço inusitado por parte do leitor para percorrer o texto, "House of Leaves" torna-se num exemplo de literatura ergódica. Por outras palavras, a própria formatação deste livro torna-se num veículo para contar a história.
"House of Leaves" desafia assim as convenções da produção editorial, confrontando o leitor com a sua própria expectativa e crença do livro, como objeto e como experiência literária.
Acho curioso, o facto da mera presença deste livro no meu quarto me atormentar. Faz-me refletir sobre o ato de ler um livro, e questiono-me se o antes e o depois deste livro, já fazem parte da sua leitura.





