Mostrar mensagens com a etiqueta 13790. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 13790. Mostrar todas as mensagens

domingo, 5 de junho de 2022

Bordello? Já foi, mas o espírito e o humor continuam lá.

No dia 3 de março de 2022 inaugurou na Sala da Paródia, no Museu Bordalo Pinheiro, a exposição que apresentou um dos autores mais irreverentes da atualidade. Bordello. Ao que isto chegou: uma retrospectiva de Hugo van der Ding, resultou de uma parceria entre este museu e a Lavandaria – estúdio de impressão e design. Aqui, van der Ding, inspirado pelo espírito bordaliano, mostrou alguns dos seus desenhos originais, prints em serigrafia, cerâmicas, esculturas em papel, sempre com o humor como pano de fundo. A finissage desta exposição decorreu no dia 18 de maio, como forma de comemorar o Dia Internacional dos Museus, com uma visita guiada pelo autor.


Hugo van der Ding, na inauguração da exposição  Bordello. Ao que isto chegou: uma retrospectiva

Créditos: Museu Bordalo Pinheiro

O que leva um artista da atualidade a expor num museu do século passado? – ainda assim, o “mais divertido de Lisboa”, como se afirma. Para além do acaso, Rafael Bordalo Pinheiro e Hugo van der Ding têm muito mais em comum do que aquilo que pensamos. Uma coisa é certa: que nos fique a vontade de rir e a oportunidade para repensar o mundo em que vivemos, através da obra destes artistas que, ainda que com mais de 150 anos de diferença, nos transporta para a contemporaneidade. 

É neste contexto que surge o principal ingrediente: o humor; como forma de comunicação e com um objetivo ainda maior do que fazer rir: funciona como condutor de perceções, de forma a alertar para situações que melhor poderão ser apreciadas, refletidas e, inclusive, mudadas na sociedade, individualmente ou em grupo.

Fazer humor, ou fazer desenho humorístico (no caso destes artistas), vai muito mais além do que uma concretizar uma expressão, ou uma expressão pictórica ou gráfica. Fazer desenho humorístico é criar uma relação entre o artista e o espectador. E, afinal, de que forma é que estes artistas o fazem?


O Lobo e a Cegonha de Hugo van der Ding
Créditos: Museu Bordalo Pinheiro
Grupo escutórico O Lobo e a Cegonha de Rafael Bordalo Pinheiro, 1900,
Créditos: Museu Bordalo Pinheiro

Com uma forte componente crítica e analítica, sobretudo a nível político, social e cultural, o trabalho de Rafael Bordalo Pinheiro tem como fundamento a reflexão acerca de um país – e também de um mundo – em mudança, sendo o humor a sua ferramenta de trabalho. Nascido em 1846, continua a ser uma referência até aos dias de hoje, destacando-se a sua habilidade criativa e artística em múltiplas frentes, nomeadamente enquanto desenhador, jornalista e ceramista. Apelando ao riso, a obra de Bordalo sempre teve um objetivo: alertar para uma consciência, reflexão e opinião bem informadas. 

 

Já no século XXI, são inúmeros os artistas, a nível global, que se dedicam ao desenho humorístico. Com inspirações no passado, mas sobretudo na expectativa de expressar os acontecimentos do presente, expõe os seus trabalhos não só em jornais públicos, mas também no mundo online, nomeadamente nas redes sociais e páginas internet.


É o caso de Hugo van der Ding, nascido nos finais dos anos 70, que estudou Artes Decorativas Orientais, mas, tal como Bordalo, acabou por desistir da carreira académica em prol dos desenhos que viria a fazer para as redes sociais. Atualmente, partilha diversos desenhos humorísticos, escreve para revistas e jornais, é autor de livros e podcasts e participa, ainda que casualmente, no teatro e na televisão. Desde 2019 que apresenta o programa de rádio Manhãs a 3, na Antena 3. Até aqui, poderia ser um Bordallo II (não fosse este já existir) ou ser contemporâneo de Bordalo Pinheiro (se excluirmos as novas tecnologias do século XXI...).

 

Créditos: Museu Bordalo Pinheiro

É assim, neste contexto, que os dois artistas se tocam. Tentando retratar, sempre como última atualização, os temas do presente, o desenho humorístico deve ter a capacidade de ser sucinto, direto e de rápida apreensão – o que, só por si, é um trabalho bastante complexo. E, como o próprio nome indica, devem não só fazer rir, mas sobretudo deixar o espectador a pensar, a refletir e, de certa forma, levar a que este se identifique com a situação, ou, pelo menos, com o espírito do próprio autor.

 

Bordello. Ao que isto chegou: uma retrospectiva de Hugo van der Ding apresenta-nos, na sala de exposições mais pequena do Museu Bordalo Pinheiro, um conjunto de peças deste artista, inspiradas na obra bordaliana e no sentido crítico do artista do século XIX, mas também no sentido de humor de van der Ding e de que forma nos consegue tocar hoje em dia.

Esta exposição apresentou-nos, assim, diversas peças, de onde se destacou, sobretudo, a sua forte componente gráfica, através de diversas caricaturas e cartoons.


Os gatos de Hugo van der Ding
"Gato com óculo incrível"
"Gato com óculo não menos incrível"
"Gato com óculo porventura ainda mais incrível"
"Gato com pala"
Créditos: Museu Bordalo Pinheiro
Gato assanhado de Rafael Bordalo Pinheiro
Créditos: Bordallo Pinheiro


Fazer uma caricatura de algo, ou de alguém, é, no fundo, realçar determinados traços físicos, mas também emocionais, não deixando de manter o objeto/figura reconhecíveis. O termo surge do italiano antigo caricare, como forma de expressar exagero e realidade, estando associado ao hipérbole e deformação de algo. Ao mesmo tempo, o cartoon é uma forma de expressão marcada pela presença de humor e tem como objetivo comentar ou criticar algo, ou alguém, nomeadamente personagens/situações públicas. A sua mensagem, que é simples e direta, é potenciada pela memória visual da imagem, sendo a sua leitura bastante acessível.


Hugo van der Ding, autorretrato (2022). 

Através dos traços, conseguimos perceber que a inspiração partiu da famosa figura do Zé Povinho. 

Peça exposta à entrada da exposição.

Créditos: Museu Bordalo Pinheiro

Mas surgem também outras formas de nos fazer rir. Hugo van der Ding não se inibiu e decidiu levar a sua exposição para outro nível – ou pelo menos fugir a uma curadoria mais tradicional, ao trazer objetos como uma bola de tecido (referindo-se a ela como o único brinquedo que terá tido enquanto criança), um pequeno objeto em forma de elefante (que, segundo o artista, não passa de “uma merda qualquer” – ainda assim, digna de estar exposta), ou uma simples pinha (que daria lugar a duas, não estivesse a outra “para restauro”). Será isto outra forma de criticar?  


Créditos: Museu Bordalo Pinheiro
Créditos: Museu Bordalo Pinheiro
Créditos: Museu Bordalo Pinheiro

A exposição temporária viria, assim, a terminar no dia 18 de maio, nas comemorações do Dia Internacional dos Museus. O Museu Bordalo Pinheiro – que não esperava mais do que 40 visitantes – deparou-se com cerca de 200 pessoas nesta finissage, para assistir a uma visita guiada feita pelo artista. Tendo em conta que a Sala da Paródia está limitada a cerca de 20 pessoas (3 a 5 no contexto de pandemia), o Museu decidiu realizar a visita na Galeria de Exposições Temporárias, onde se encontra a exposição Bordalo em Trânsito. Esta visita contou não só com van der Ding, mas com a equipa do Museu, em especial com Pedro Bebiano Braga que, enquanto investigador deste equipamento, viria a contribuir com a sua perspetiva mais formal para uma visita que acabou por ser descontraída e sem grandes cerimónias – ou pelo menos das sérias.


Visita guiada à exposição, com Pedro Bebiano Braga e Hugo van der Ding

Créditos: Museu Bordalo Pinheiro

    Bordello mostrou-se, desta maneira, uma outra forma de encarar a atualidade e elevar, assim, o espírito de Rafael Bordalo Pinheiro, que sempre apelou ao pensamento crítico para uma cidadania consciente – sendo estes, ainda, dois grandes desafios da educação contemporânea.


    O trabalho de Hugo van der Ding poderá ser acompanhado nas redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter), sendo que o de Rafael Bordalo Pinheiro poderá ser visto neste museu, no Campo Grande, em Lisboa. Quem sabe, não poderá surgir outro divertido encontro? A meu ver, esta pequena exposição temporária requeria apenas mais um “detalhe”: desenhos, e mais desenhos e mais uns quantos, inúmeros. Mas talvez não coubessem nestas quatro paredes.



Referências:

https://www.instagram.com/hugovanderding/

https://www.facebook.com/hvanderding

https://twitter.com/hugovdding

https://museubordalopinheiro.pt



 


quinta-feira, 19 de maio de 2022

O Milagre do Riso. Santo António por Bordalo.


O Museu de Lisboa – Santo António e o Museu Bordalo Pinheiro juntaram-se para revelar aquele que será o santo mais venerado de sempre aos olhos e traço de uma das figuras mais marcantes da cultura portuguesa da segunda metade do século XIX. “O Milagre do Riso” é uma exposição temporária que poderá ser visitada no Largo de Santo António da Sé, até ao dia 22 de maio, passando depois para o Campo Grande, onde permanecerá durante as Festas de Lisboa.

Um santo do mundo, milagreiro, militar, de devoção e tradição, aparece, assim, na obra de um dos artistas mais relevantes da cultura portuguesa. Afinal, quem foram e de que forma podemos relacionar estas personalidades?

Créditos: Museu de Lisboa

Santo António de Lisboa – ou Fernando Martins de Bulhões – nasceu a 15 de agosto de 1191, em Lisboa. Também conhecido como Santo António de Pádua (já que os seus restos mortais se encontram nesta cidade italiana, onde viria a falecer a 13 de junho de 1232), é um santo de grande devoção popular e a sua personalidade única marca a identidade da cidade de Lisboa. E não só. Para além das tradições associadas à cultura portuguesa, a devoção a este Doutor da Igreja é universal, sobretudo no mundo lusófono.


Cartaz Antonino, Rafael Bordalo Pinheiro, O António Maria. 

Litografia sobre papel · 15.06.1895 MRBP/RES 2.11 


Por outro lado, Rafael Bordalo Pinheiro é um dos grandes nomes da vida portuguesa do seu tempo. Nascido em Lisboa, a 21 de março de 1846, na Rua da Fé, em Lisboa, continua a ser uma referência até aos dias de hoje. Ceramista, desenhador, jornalista, Rafael tinha uma habilidade criativa e artística com múltiplas frentes: artes plásticas, artes gráficas, cerâmica, desenho de objetos e decoração. Desenvolveu o desenho humorístico e o cartoon como expressão artística. Consciente da força da imprensa, funda diversos periódicos, utilizando a caricatura como veículo para a defesa dos seus ideais. Com um espírito empreendedor e multifacetado, desenhou um percurso muito próprio. Tinha uma forte capacidade crítica e analítica, especialmente política e social, e foi uma das figuras mais marcantes da história da cultura portuguesa do final do século XIX. Faleceu a 23 de janeiro de 1905. 


Rafael Bordalo Pinheiro, (ora toma!). Fotografia MRBP.FOT.0855


A representação do santo na obra bordaliana, quase 700 anos mais tarde, viria, assim, a ser reflexo da importância que este teve (e tem), ao logo dos tempos, na cultura portuguesa. “O Milagre do Riso” espelha, deste modo, em forma de crítica social e política, não só a Belle Époque da sociedade portuguesa, mas também a sociedade do presente – algo que encontramos, sempre de forma divertida, na obra de Bordalo, fazendo deste um artista intemporal.


Créditos: Museu de Lisboa


Desta forma, e com um grande impacto visual, a exposição traduz o diálogo entre o Museu de Lisboa – Santo António e o Museu Bordalo Pinheiro, e contou com a participação ativa e com a curadoria de Pedro Teotónio Pereira, João Alpuim Botelho, Pedro Bebiano Braga e Mariana Teixeira.

 

Nela são apresentados três núcleos: “7º Centenário de Santo António (1895)”, “Os Santo Antónios da política” e “As Festas de Lisboa”; e é assim que o querido Santo António é representado por Rafael Bordalo Pinheiro: de aparência divertida, sempre com o humor presente, tanto na obra gráfica como na cerâmica – tal como idealizaram Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1920) e Celso Hermínio (1871-1904) nas suas peças.


Créditos: Museu de Lisboa



Créditos: Museu de Lisboa


Créditos: Museu de Lisboa


Rafael Bordalo Pinheiro foi também o criador da famosa personagem “Zé Povinho” – figura que mais marcou, e ainda marca, o imaginário português – que apareceu pela primeira vez no desenho intitulado “P’rá cêra de Sant’Antó...”, publicado no jornal A Lanterna Mágica, em 1875. É precisamente na véspera das Festas de Santo António de Lisboa (a 12 de junho) que decide criar esta personagem, que nem sequer existia na tradição oral, digamos assim. Bordalo não imaginava que estaria a conceber uma personagem que, passados 150 anos, continuaria perfeitamente atual e reconhecida por todos os portugueses. O “Zé Povinho” é, em toda a obra, aquele mais marcante, diria eu, e aquele que se destacou no imaginário português. 


Estudo para Santo António de Lisboa:
- P’rá cêra de Sant’Antó... Publicado em A Lanterna Mágica, 12.06.1875. Rafael Bordalo Pinheiro. 
Tinta-da-china sobre papel 20 x 29,6 cm · s.d. MRBP.DES.1125 


Com a aproximação das Festas de Lisboa, não poderia haver melhor motivo para relembrar as tradições da cidade. Apele-se à memória dos tronos do santo!

 

Juntam-se as crianças para pedir um “tostãozinho p’ró Santo”, Santo António, que está no seu altar, num altar de rua, aqui como um trono. Calculamos que as crianças não deixem o tostãozinho ao santo – o mais provável é gastar o tostão com um “chocolate da época”.  Mas não é essa situação que é satirizada por Rafael.

Aqui, vemos que a criança que está a pedir um tostãozinho não é, evidentemente, uma criança: é sim o Ministro da Fazenda (ou Finanças), Serpa Pimentel. E o Santo António, não é Santo António: é sim o Primeiro Ministro, Fontes Pereira de Melo – e não é o menino Jesus que ele tem ao colo. É o Rei D. Luís. De lado, temos o chefe da polícia, o Barão de Rio Zêzere, que aguarda sentado pela necessidade de intervenção. É então, neste contexto, que nasce o “Zé Povinho”, a personagem que resta, a quem o Ministro da Fazenda está a pedir dinheiro. Aqui, e em muitos desenhos, é representado como uma figura rural, mas ele é criado no âmbito lisboeta e é neste ambiente da capital que ele se vai movimentar. Aqui conseguimos saber o nome desta personagem, que tem escrito “Seu Zé Povinho”, nas calças.

Bordalo conta-nos, assim, uma cena que se vai repetir ao longo dos tempos. Há sempre esta situação: o Estado a tirar dinheiro ao “Zé Povinho”, que não está a perceber nada do que se está a passar.


Para além deste estudo, há muitos outros imperdíveis, que vão contando a história de uma sociedade vista aos olhos de Bordalo, sempre com a presença do santo a quem se reza para casar ou encontrar objetos perdidos. 


De forma acessível e explícita, esta exposição remete, assim, para um diálogo (im)provável.


O Arraial de Santo Antonio, Rafael Bordalo Pinheiro, A Paródia. 

Litografia sobre papel · 13.06.1900 · MRBP.1900.06.13 



“O Milagre do Riso. Santo António por Bordalo” inaugurou no dia 23 de fevereiro de 2022 e poderá ser visitada no Museu de Lisboa – Santo António até ao dia 22 de maio, entre as 10h e as 18h. Posteriormente seguirá para o Museu Bordalo Pinheiro, onde permanecerá durante as Festas de Lisboa. O custo de entrada é de 3€ (com condições especiais para diferentes tipos de público), sendo a entrada gratuita para os residentes de Lisboa, aos domingos e feriados, entre as 10h e as 14h.


Fica, assim, o convite para visitar esta exposição que é, na minha opinião, uma das mais divertidas da cidade. Assim como assim, “mais vale rir do que chorar!”.


Para mais informações, consultar:

Museu de Lisboa - Santo António: https://www.museudelisboa.pt/pt/nucleos/santo-antonio

Museu Bordalo Pinheiro: https://museubordalopinheiro.pt/