segunda-feira, 25 de maio de 2026

O Que Arde Cura: Arte Africana na Coleção José de Guimarães no CIAJG


Estatueta, Autoria não identificada Povos Lobi, Burquina Fasso | Gana | Costa do Marfim Século XX, Madeira



Corro o risco de infringir a lei nesta série de textos. A exposição em causa não é permanente, mas faz parte do acervo permanente do museu. Como nada é permanente no universo, decidi aproveitar uma passagem por Guimarães para voltar ao Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG). A mostra "Arte Africana na Coleção José de Guimarães", concebida por Miguel Wandschneider e Inês Oliveira, patente entre 21 de Março e 6 de Setembro, apresenta peças de uma nova doação do artista. A coleção, iniciado nos anos sessenta após o serviço militar de José Guimarães em Angola, teve o seu maior crescimento entre os anos oitenta e noventa. Adquirida no mercado europeu especializado, a coleção conta com mais de três mil objetos, não só de "arte africana" como de outras partes do mundo.

Peço desde já desculpa por alguma má interpretação., sinto que os assuntos invisíveis que se prendem a esta análise são muitos e eu não os domino de todo. Há uma questão que me incomoda antes sequer de entrar, o nome "Arte Africana". África surge como categoria, comprimindo dezenas de países e culturas distintas numa só prateleira. Françoise Vergès no livro "Descolonizar o Museu" (2023) resume bem este mecanismo ao afirmar que "o negro é o modelo e branca é a moldura" reflete bem o que senti lá dentro. Nuno Faria, antigo diretor do CIAJG, propôs em 2016 um nome mais honesto para este espólio. Chamou-lhe "Objetos Estranhos", apesar de tudo mais sincero. Usar a palavra "arte" tem o efeito oposto., é como pegar numa trincha de cal viva e branquear todas aquelas peças.

A exposição tem dois andares. Comecei pelo piso de entrada e não sabia bem como olhar para as peças, se adotar um ponto de vista artístico, procurando o detalhe técnico, e esperei que me dissessem algo, mas cedo percebi que não falávamos a mesma língua. Deixei-me ir pelo que sentia então. A primeira peça a chamar-me a atenção foi uma figura chamada "feitiço" (fig. 1 e fig. 2), com duas raposas (digo eu) de costas cravadas de pregos. Ao vê-las, lembrei-me de que umas semanas antes tinha visitado o Museu Municipal Santos Rocha (Figueira da Foz), e encontrado uma peça parecida (fig. 3). Faço aqui um pequeno aparte, pois achei curioso que na Figueira da Foz houvesse um autocolante no vidro com as palavras "exposição em requalificação/reflexão" (fig. 4). O CIAJG declara não ser um museu etnológico, importa sublinhar que estamos perante uma coleção privada adquirida maioritariamente na Europa na ressaca do colonialismo. É um acervo influenciado pelo olhar ocidental sobre o exotismo, feito de objetos perdidos e saqueados das suas funções originais.




Fig.1 e Fig.2 - Feitiço,Autoria não identificada
Povos Bambara, Mali, Século XX
Madeira, fibras, penas, tecido, camada sacrificial




Fig.3 e Fig.4, Museu Municipal Santos Rocha | Figueira da Foz




Caminhando pelas galerias, o que sentia era outra coisa. Havia peças cobertas de sangue, de penas, de ossos e pregos. Parei diante de uma figura que podia ser um relicário ou uma bruxaria digna de um entroncamento (fig. 5 e fig. 6). Digo isto não em tom de crítica, mas por serem os símbolos culturais que eu tenho. Provavelmente, essa leitura aproxima-se mais da real função da obra do que o plinto branco. O resultado era um sentimento estranho, próximo do desejo de posse sem compreensão. Dava por mim a pensar que não sabia para que serviam, mas levava-as facilmente para mostrar às visitas na minha sala.





Fig.5 e Fig.6 

Figura de relicário (mbulu ngulu), Autoria não identificada

Povos Kota-Obamba, Gabão, Século XX

Madeira, latão, fibras





As peças que consegui verdadeiramente habitar deram-me uma relação quase primária. No fim da primeira sala, havia uma coleção de casais em grande formato. Homem e mulher, qual Adão e Eva do Génesis de todos nós (fig. 7 ). Ali havia algo que atravessava o contexto sem precisar de legenda. O que me impressionou mais foi o facto de haver muito pouca distinção de género para além do órgão sexual, vestidos quase como se fossem os dois para a guerra (no meu entender) (fig. 8).



Fig. 7- Figuras masculina e feminina, Autoria não identificada
Povos Idoma, Nigéria, Século XX
Madeira, tecidos, conchas, caulino

Fig.8 - Figuras masculina e feminina, Autoria não identificada
Povos Bakoko, Camarões, Século XX
Madeira, pigmentos,

A última sala, no piso inferior (fig. 9 ), dedicada às máscaras, foi onde me senti mais perdido. Olhei para elas como se fosse cliente da Zara Home no dia com tema etnográfico. A culpa não é das máscaras, tenho a certeza. O problema sou eu, ao vê-las desprovidas dos olhos e dos corpos que as animam, reduzidas a uma pura apreciação estética. (fig. 10).



Fig. 9 - Vista da Sala do piso -1


Fig10 - Máscaras sol, Autoria não identificada
Povos Bwa, Burquina Fasso Século XX
Madeira, pigmentos 


José de Guimarães disse em 2016 que "se a arte não curar o mundo, não serve para nada". A minha avó dizia muito antes que "o que arde cura", enquanto me punha álcool nas feridas. Talvez o que esta exposição faça seja ardor. Não resolve as tensões decoloniais, mas obriga a pensar sobre elas. Saí do CIAJG com a nítida sensação de ter visitado o Oceanário, a observar criaturas fora de contexto e desconhecidas. A exposição é honesta na sua contradição. Fazer-nos lidar com esse desconforto pode muito bem ser o melhor que um museu consegue fazer.