As Mãos, Luís Miguel Nava
A importância da mão reflete-se em obras de arte, sobretudo e desde cedo na arte cinematográfica, que consegue como nenhuma outra apresentar o aspeto de “pars pro toto”,
É possível vermos esses registos em filmes como: “Warning Shadows” (Artur Robison ,1923) “Yellow Submarine” (George Dunning, 1968), ou na série da TV, baseada nas personagens de banda desenhada de Charles Addams (The New Yorker, 1938 -1988) e no filme “The Addams Family” (1991).
O filme expressionista “Orlacs Hände” (As Mãos de Orlac), de Wiene é um exemplo interessante onde as mãos desempenham um papel crucial e onde é possível observar o sentir, ver, ouvir, falar e pensar; elas provém de um idealismo total, de um eu subjetivo sem freios.
As Mãos de Orlac (1924/25) é uma produção em sete atos da companhia Wiener Pan-Film, realizado por Robert Wiene, cujo argumento de Ludwig Nerz se baseia num romance de Maurice Renard . Estreou a 31 de Janeiro de 1925 em Berlim, apresentado com o concerto
No filme de terror de Wiene, o famoso pianista Paul Orlac perde ambas as mãos num acidente de comboio. Um cirurgião transplanta–lhe as mãos do assassino Vasseur que há pouco tinha sido executado: “Num corpo saudável habita um espirito saudável. Quando as suas mãos regeneram o seu espirito será revelado através da habilidade delas.” O pianista fica com pesadelos, nos quais é ameaçado pelo assassino morto. No delírio receia que os mãos dele, que agora são as suas, peçam “Sangue, … Crime, ... Assassínio”.
Orlac imagina que uma força fria, terrível e implacável emana das mãos, tomando posse do corpo inteiro e da alma. Além disso, um estranho desconhecido persegue Orlac, reforçando os seus medos. Num pesadelo o pianista é perturbado pelo punho gigantesco do assassino e decide que “Estas mãos não devem tocar num ser vivo”. Ficando alienado da sua esposa e de si próprio, até tocar piano se tornou impossível. Não reconhece nem a sua própria escrita, e perde a identidade. Orlac amaldiçoa as suas mãos e tenta em vão livrar-se delas durante uma consulta no médico: “Retira-me estas mãos. Não as quero, estas mãos horríveis!” O médico recusa e acalma o paciente: “Não são as mãos que regem o homem, a cabeça, o coração dirigem o corpo …”
Após o assassínio do pai de Orlac, que lhe tinha negado qualquer apoio, o
pianista ficou sob suspeita. Até suspeita ser ele próprio o autor do crime. O responsável pela investigação comenta: “Vasseur já está morto há mais de um ano, mas as suas mãos ainda estão vivas”
Nessa altura, o estranho perseguidor desconhecido revela a sua identidade, alegando que era Vasseur. No final da película, é oferecido ao espectador uma explicação racional e algo banal para esta trama surreal.
Analisando o significado das mãos neste filme é possível observar que enquanto instrumento do fazer, as mãos adquirem uma potencialidade de inúmeras significações. O caráter sexual em relação às mãos – precisamente à ação e ao toque -são estabelecidas logo no início do filme. Este começa com a esposa de Orlac deitada na cama, com uma expressão de êxtase no seu rosto ao receber uma carta do marido. “Vou abraçar-te, cariciar os teus cabelos e sentir o teu corpo entre as minhas mãos”, As mãos são signos evidentes de poder sexual e artístico, realçados na montagem, que termina com um close-up nas mãos de Orlac ao piano. Mais tarde, já com as mãos de Vasseur ele pede à empregada para seduzir as mãos. A brusca alteração do êxtase ao terror após Orlac colocar as duas mãos, o seu pensar indica a transformação física, as suas novas mãos, são independentes e isso destruiu a relação dele com a mulher e gerou uma crise de afetos. Nesse sentido, no campo erótico, pode-se pensar as mãos de Orlac como alegorias de virilidade perdida e impotência adquirida.
O pianista perde o seu teto transcendental com a perda das mãos, e precisa adaptar os seus movimentos às mãos que não lhe pertencem e que, lhe causam repulsa. Nesse sentido, o dano físico e os colapsos nervosos de Orlac também apresentam caráter alegórico em relação aos mutilados e traumatizados que voltaram da 1ª Guerra Mundial. As mãos são o símbolo dessas dificuldades de evolução e readaptação física e psicológica à sociedade civil, tão bem enfatizadas por Walter Benjamim.
Podemos de alguma forma fazer uma analogia das mãos de Orlac, quando em total desespero, coloca as mãos na cabeça com o quadro de Edvard Munch, Srik (O Grito, 1893), como sinal de solidão, ansiedade e medo.
Sobrecarregadas de significado, as mãos de Orlac assumem o caráter simbólico e alegórico sobre a vida: instrumentos da vontade que comanda o fazer, pelo qual o homem manifesta a sua humanidade (realizando um talento) ou desumanidade (praticando um crime), elas são a expressão objetiva da personalidade e objeto da expressão de sentimentos – um signo material do sujeito. Em Orlacs Hände, as mãos do protagonista dissociam-se do seu corpo para viver um mundo à parte, elas são estrangeiras ao corpo, apresentam um eu próprio com emoções, sentimentos e pensamentos, são elas as verdadeiras protagonistas do drama.
BENJAMIN, W. A origem do drama trágico alemão. Edição e tradução de João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011.
KRACAUER, S. Teoria del cine: la redención de la realidad física. Traducción de Jorge Honero. Barcelona, Buenos Aires, México: Paidós, 2001.
NAVA, LM. POESIA COMPLETA [1979-1994]. Lisboa, Dom Quixote, 2002.
https://www.youtube.com/watch?v=ilhXq0yeycQ