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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Um retrato de justiça social através da palavra impressa - Sister Corita Kent

 Um retrato de justiça social através da palavra impressa - Sister Corita Kent


    Quando me perguntam quais são as minhas referências dentro do mundo do design, a lista a citar é infinita. No entanto, quando penso em alguém que permanece na minha memória não pela sua abordagem visual, mas pelo impacto social e pedagógico do seu trabalho, sempre marcado por uma postura irreverente e consciente, Corita Kent surge de forma imediata. É uma daquelas figuras cuja vida e obra são difíceis de separar.


    Frances Elizabeth Kent (Los Angeles, 1918–1986) foi uma artista gráfica, professora e freira católica norte-americana que procurou utilizar a linguagem visual de forma singular dentro do seu tempo. Embora não seja habitualmente “classificada” como designer no sentido tradicional, o seu trabalho dialoga profundamente com o design enquanto prática ampla de comunicação. A forma como utilizava o texto, a cor e a composição servia não apenas fins estéticos, mas sobretudo a comunicação de ideias, emoções e posicionamentos sociais claros.



    Durante um período marcado por intensas transformações culturais, especialmente nas décadas de 1960 e 1970, Corita Kent encontrou na cultura popular e nos meios impressos um terreno fértil para expressar preocupações sociais, políticas e espirituais. Influenciada pela Pop Art e pela linguagem visual da publicidade, a sua obra surge num contexto de protestos contra a guerra (Vietname) e luta pelos direitos civis, de modo a questionar valores conservadores. O seu trabalho reflete uma vontade clara de promover a paz, através de uma comunicação visual mais humana, direta e acessível, aproximando as pessoas da mensagem transmitida.


    Aos 18 anos, Corita decidiu ingressar na ordem do Immaculate Heart of Mary, adotando o nome Sister Mary Corita. Foi no contexto académico do Immaculate Heart College, onde estudou e mais tarde lecionou, que teve contacto com a serigrafia, técnica que se tornaria central na sua prática artística. Inicialmente, o seu trabalho focou-se em imagens de carácter religioso, mas à medida que ganhava reconhecimento como artista e professora, passou a dialogar com outros criadores e a questionar não só o papel da arte, mas também o seu próprio lugar dentro da Igreja católica. Para Corita, a fé não podia existir isolada da realidade social, e a arte tornou-se um meio privilegiado para explorar essa relação, mesmo questionando os valores mais tradicionais da instituição religiosa.



Sister Mary Corita
fotografada com os seus trabalhos no Immaculate Heart College em 1965
    

    O trabalho de Corita Kent caracteriza-se pelo uso do texto como elemento visual central e identitário na sua obra. Frases retiradas de elementos da cultura pop (publicidade, música, literatura) ou até de textos religiosos aparecem destacadas, fragmentadas ou repetidas, de modo a criar composições que se aproximam de capas de revistas e cartazes editoriais. O texto não serve apenas para ser lido, mas para ser visto e sentido. A tipografia utilizada é simples e direta, muitas vezes sem grandes preocupações formais, mas sempre eficaz na transmissão da mensagem. A leitura acontece de forma rápida e intuitiva com o objetivo de comunicar a um maior número de pessoas.

    A cor também desempenha um papel essencial no seu trabalho. Cores vibrantes, contrastes fortes e sobreposições criam um impacto imediato, reforçando o tom emocional das mensagens. Esta abordagem aproxima o seu trabalho da lógica editorial, onde a cor é frequentemente usada para estabelecer hierarquias, criar ritmo e orientar a leitura. Mais do que uma escolha estética, a cor funciona como uma ferramenta de ativismo. As suas obras falam de paz, justiça social, empatia e responsabilidade coletiva, utilizando sempre uma linguagem visual acessível e próxima do público.




In that they may have life
 (1964), Corita Kent transformou imagens de uma embalagem de pão 
Wonder numa introspecção sobre a pobreza e a fome.

  

 Ao olhar para todo o seu percurso artístico, considero que a formalidade visual do seu trabalho, apesar de ser bastante marcante, fica em segundo plano quando comparada com a forma como Corita se envolvia com o mundo à sua volta. A arte e a comunicação foram, para ela, meios de posicionamento face às dificuldades e injustiças do seu tempo. Através do seu legado, questiona desigualdades e promove valores humanos essenciais, provando assim que é possível usar a prática criativa como espaço de intervenção social mesmo que através de linguagens simples e acessíveis.
Muito mais do que as obras que produziu, foi também uma referência enquanto educadora, através da sua abordagem pedagógica, incentivava os seus alunos a olharem o mundo, a observar com consciência e curiosidade. Corita é para mim uma referência educacional, na forma como também a mim me ensinou a pensar, questionar e criar com intenção. 


    Acima de tudo Corita Kent é uma mulher que me faz lembrar como também o meu trabalho (o design e a arte) não são neutros. Criar é sempre um ato de escolha e consequentemente de posicionamento, desse modo, é e deve ser motor de consciência social. Mais do que meramente reduzido a tendências e métricas, Corita relembra-nos de regressar ao essencial: criar e comunicar com consciência sem procurar impor uma visão, mas escolhendo estar atento ao mundo e responder a ele com responsabilidade. Estes são valores que considero fundamentais para qualquer prática criativa verdadeiramente relevante na atualidade e que, como o seu percurso demonstra, permanecem profundamente intemporais.


terça-feira, 25 de novembro de 2025

A infância como forma de olhar o mundo: O principezinho

 “O Principezinho” 

A infância como forma de olhar o mundo


Sempre ouvi dizer que O Principezinho era um daqueles livros que acompanhava as pessoas durante toda a vida, mas durante anos não consegui entender porquê. Na minha cabeça, era apenas uma história para crianças, um conto infantil com o qual nunca me identifiquei nem conseguia decifrar, e talvez por isso eu não conseguisse ver nada de especial nele quando era mais nova. A verdade é que, na correria para crescer ou para entender, eu própria tinha perdido aquela forma de olhar o mundo que o livro tanto celebra: a curiosidade, o encantamento e a simplicidade com que as crianças observam o mundo.

Revisitar o livro em adulta (que na realidade foi ainda em adolescente) foi quase como limpar os óculos. De repente, tudo aquilo que me parecia óbvio e até de certa forma aborrecido, começou a ganhar profundidade. Percebi que a história não fala de infância no sentido mais literal da palavra, mas de um estado de espírito que vamos perdendo sem reparar: a capacidade de fazer perguntas sem receios, de valorizar o essencial e de não deixar que o “ser adulto” nos gele o olhar.



A realidade é que acho que é exatamente por experiências como a minha que as pessoas acabam por falar sempre deste livro, porque acredito que seja exatamente quando crescemos, ou melhor, porque crescemos que conseguimos perceber o limiar entre a simplicidade da narrativa e aquilo que ela nos quer dizer nas entrelinhas.


A história de Saint-Exupéry

Le Petit Prince, começa por introduzir um piloto que despenhou a sua avioneta no deserto, enquanto tenta arranja-la, um pequeno rapaz, que vem de outro planeta, vem ao seu encontro e pergunta se lhe consegue desenhar uma ovelha. A partir daí começa a contar a sua história pelos planetas que viajou e da sua terra natal, e assim se desenvolve a narrativa.


A viagem do príncipe pelos planetas surge como uma alegoria ao mundo dos adultos, uma viagem observacional onde cada pessoa que o príncipe encontra, representa para mim a cegueira que se apoderou de cada personagem (o rei, o bêbado, o vaidoso, o homem de negócios, etc), perdidos nas suas próprias obsessões e demasiado preocupados com os seus egoísmos e vaidades absurdas, incapazes de refletir sobre eles. No fundo a narrativa faz-nos olhar para estas personagens como um reflexo da sociedade, como somos formatados a preocupar-nos com aquilo que possuímos, escondemos  e controlamos, sem sermos capazes de viver com aquilo que verdadeiramente importa.


Em oposição a estas personagens, surgem outras que se distinguem por não serem adultos e não humanos (a raposa, a rosa), que nós caracterizamos como símbolos opostos à superficialidade humana. “O essencial é invisível aos olhos” , dito pela raposa, sumariza bastante bem aquilo que estas personagens representam: a dimensão essencial. Na lógica da vida adulta, nós devemos medir o nosso sucesso em produtividade e resultados, mas a realidade acontece entre nós pessoas, os vínculos criados e a nossa disponibilidade de estarmos vulneráveis para criar esses laços, que requerem tempo, paciência, cuidado, presença, coisas que não se vêem mas que permanecem em nós como um pequeno puzzle da nossa vida que é feito sim destas pequenas coisas.

Vejo que há uma certa sensibilidade nas crianças de sentir importância em coisas que os adultos só vêem insignificância, há um filtro que vai crescendo connosco que ainda não existe para elas, que não as deixa cegar. 


Percebi então que a infância não é apenas uma fase da vida, é uma forma de ver. E talvez o maior desafio seja não deixar que o tempo apague essa lente mais sensível, mais livre e mais verdadeira, que penso que na altura nem sejamos capazes de a ver. 

Penso muito nisso, especialmente este ano, cada vez que entro numa sala de aula para ensinar aquilo que eu acho que sei sobre arte e criatividade a “pequenos artistas”, vejo naquelas crianças uma imaginação que eu não fui capaz de ter. Sempre que levo um exercício para trabalhar em aula, vejo que sou eu a receber novas formas de o interpretar, coisas que estavam mesmo à frente do meu nariz, mas eu não consegui ver, talvez por também eu ser um adulto e já ter ganho o medo de errar. A realidade é que as crianças não precisam de explicações para poder imaginar, desenham sem medo de errar, imaginam atmosferas completamente diferentes da nossa sem pensar se são realistas, tudo aquilo que passa na cabeça delas é produto de uma imaginação que anda à solta, sem amarras e julgamentos, ao contrário de nós adultos, que temos quase de pedir permissão para imaginar…


Chega a uma altura, que eu não sei explicar quando, onde nos dizem que cobras não engolem elefantes e que o desenho não está bem feito ou não está realista, e de pouco em pouco o nosso artista interior vai se encolhendo até se moldar completamente dentro de uma forma retilínea, como um funcionário pronto para receber ordens.



A imagem da jiboia, mais do que a rosa ou a raposa, é para mim a parte que mais me impacta, e também por ser a primeira página acho que isso diz muito sobre o livro. O símbolo mais subtil de como nós usamos a nossa imaginação, a metáfora perfeita para aquilo que acontece com a nossa criatividade: a capacidade de ver para além da forma, de imaginar o impossível (a prática artística real, a que nasce por impulso). Este brilho que se mantém vivo nas crianças apenas porque ainda não lhes ensinaram a duvidar do impossível, que se torna muito difícil para nós de imaginar, quando vivemos agarrados às possibilidades, ao exato e ao realista.


Enquanto artista, ou alguém que tenta criar, considero que pertença a um grupo reduzido de adultos que se sente na obrigação quase vital de não deixar esta chama da imaginação que nasce em criança apagar-se, e por isso, hoje mais do que nunca, vou à procura de novas formas de a alimentar, num esforço constante de me reencontrar com este primeiro mundo artístico tão basilar em mim, mas mesmo assim pergunto-me “Quantos elefantes deixei de ver, porque fiquei presa à silhueta do chapéu?”.


Hoje em dia quando penso em novos projetos, ou melhor, em criar, consigo perceber que o maior desafio é o constante reaprender a ver, libertar-me das expectativas, deixar de criar para mostrar, e começar a criar para ver, tal como as crianças que usam as arte para explorar o desconhecido, deixar a arte fazer perguntas em contradição a usá-la como uma resposta, como temos tendência a fazer com tudo quando crescemos. 

Como última nota, gostaria de mencionar as ilustrações do autor no livro. Acho que é assim que as pessoas nas livrarias pensam num livro como algo infantil, através das ilustrações. Acredito que pensam ser impossível um livro para adultos ter tantos desenhos, mas Saint-Exupéry mais uma vez quebra as regras que a vida adulta impõe (especialmente na época em que foi lançado pela primeira vez) e oferece-nos de forma pequena, leve e imperfeita uma arte sem grandiosidade mas transformadora, uma arte que nos abre as portas ao significado. 






A emoção prioriza a forma e ao olhar para estas imagens sinto uma sinceridade expressiva que a mim me cativa bastante, relembra-me que é preciso ter a sensibilidade para continuar a imaginar e é aqui que volto quando preciso de me relembrar de ver o invisível.



blah blah

"Para mim, esta é a mais bela e mais triste paisagem do mundo. É a mesma paisagem da página anterior, mas eu voltei a desenhá-la para vocês a verem melhor. Foi aqui que o principezinho fez a sua aparição na Terra e, depois, desapareceu. Fixem bem esta paisagem para a poderem reconhecer se um dia fizerem uma viagem a Africa e forem ao deserto. Se passarem por este sítio, suplico-vos: não tenham pressa, fiquem um bocadinho à espera mesmo por baixo da estrela! Se vier um menino ter con-vosco, um menino que se está sempre a rir, com cabelos cor de ouro e que nunca responde quando se lhe faz uma pergunta, já sabem quem ele é. E então, por favor, sejam simpáticos! Não me deixem assim triste: escrevam-me depressa a dizer que ele voltou..."



terça-feira, 11 de novembro de 2025

A quiet invite to live: "Perfect Days", film by Wim Wenders

 A quiet invite to live: 

“Perfect Days”, film by Wim Wenders (2023)


“Next time is next time. Now is now.”


Hoje debruço-me sobre a narrativa de Wim Wenders, que  não é uma fórmula de como devemos viver, mas convida-nos a respirar fundo através da vida de Hirayama, um homem que vive a vida na sua forma mais simples, na sua rotina e nos seus hábitos, no entanto descobrimos ser muito especial. 


PERFECT DAYS - Official Trailer


O filme retrata duas semanas na vida de Hirayama, um higienizador de casas de banho públicas em Tokyo, um trabalho muito “invisível”, mas que exerce de forma exímia, como se fosse a sua obra de arte, e logo de caras deixa-nos a pergunta: Como é que podemos ter dias perfeitos quando o trabalho é limpar sanitas? Wenders explica-nos ao longo de duas horas: Ao apreciar tudo. Reparar e apreciar como o sol incide diretamente nas folhas dançantes das árvores e nas sombras que produzem e que se transformam,  ter prazer no trabalho que fazemos todos os dias, independentemente do que seja (numa das cenas, Hirayama usa um pequeno espelho para limpar a sanita em todas as zonas onde o olhar não chega) , e ao  aceitar aquilo que a vida nos dá: um dia, o teu colega de trabalho, está doente e trabalhas por dois, no outro, a tua sobrinha faz-te uma visita inesperada.


Também podemos deixar de parte o enredo principal e olhar aos detalhes: as cassetes de clássicos, o rádio, a modesta coleção de livros,  o simples candeeiro de secretária no chão, a almofada de trigo sarraceno, as moedas deixadas ao lado do relógio. Estes simples detalhes rotineiros mostram-nos a felicidade na simplicidade,  numa vida mais analógica. Mais do que uma história profunda, há um desejo da minha parte de passar horas a olhar para cada frame e ficar a  admira-lo, o sentimento inerente de beleza e calma invade-nos pelo ecrã e faz-me querer levá-las comigo para o meu dia.


 


Hirayama, interpretado por Kôji Yakusho, é um homem de espírito claro, grato àquilo que a vida lhe oferece e procura a beleza nessas pequenas rotinas e ações cotidianas. Vive a vida em repetições, quase que ritualísticas, mas bastante simples: acordar antes do nascer do sol, dobrar o futon, ir para tokyo no seu carro com uma cassete dos anos 70, no trabalho segue os mesmo passos todos os dias, ao chegar a casa, vai de bicicleta até aos banhos públicos, jantar num restaurante de rua local, ao chegar a casa, dedica-se à leitura. E assim repete todos os dias, a sua prática diária bem estruturada, da qual nutre imenso respeito.

Tudo é estética, a beleza na simplicidade da vida, como mencionei anteriormente, no entanto, o conceito de beleza é em si algo complexo, não é só a cinematografia e o visual que carrega esse peso, o nosso emocional procura muito mais do que nos leva a querer. Aqui podemos ver como Hirayama procurava a beleza nesses pequenos gestos, especialmente na natureza que o rodeia e nos atos mais mundanos. 



Isto faz-me repensar na forma como encaramos o ambiente em que existimos e no quão desligados estamos daquilo que já existe, enquanto tentamos procurar outras formas de alcançar a beleza, ou até mesmo a perfeição. Podemos ver isto como uma crítica à vida citadina na cidade de Tokyo, em como as pessoas vivem nela e como a habitam. No entanto acho que podemos inserir esta mesma  realidade também no nosso quotidiano citadino. Como não só os nossos comportamentos cada vez mais individualizados nos distanciam do espaço em que habitamos, mas também os próprios espaços são cada vez mais construídos e programados para serem externos e distintos a nós, em vez de serem uma extensão das pessoas, algo familiar e que desperte em nós uma sensação de realidade.


No filme, existe uma constante abstinência de qualquer objeto relacionado com a “cidade digital”, objetos como um telemóvel ou um algoritmo, um metropolitano que teletransporta as pessoas a altas velocidades por pequenas segmentações da cidade (isto mais na realidade da cidade de Tokyo do que na nossa), são tudo tecnologias que contribuiram para a digitalização da experiência urbana.

Tento com isto evidenciar a falta de sentido de continuidade, que muitas vezes nos passa despercebido de tão intrínseco que está no nosso dia a dia. Os dias passam a ser divididos em casa- trabalho; Humano e natureza; eu e tu; online e presente; entretido ou aborrecido, existe uma polarização da nossa própria existência com o nosso meio, e é engraçado porque muitas vezes falamos da cidade como um tecido urbano, o tecido é contínuo e esse tecido é interrompido quando temos estruturas que não têm em atenção a “alma da cidade”, que é feita por nós, cidadãos que a habitam.


Komorebi

Existe uma palavra chave relacionada com o filme (surgem até rumores de que este pudesse ter sido o nome do filme) KOMOREBI (木漏れ日). Esta palavra japonesa descreve um conceito que já mencionei ser retratado no filme: a luz solar que passa pelas folhas que balançam com o  soprar do vento e as sombras que elas criam no chão. Mais do que a definição de um efeito visual, é também um significado de momento único, que nos convida à contemplação, a capacidade de encontrar beleza no mundo que nos rodeia. Um conceito que reconhece tanto a luz como a sombra, como uma forma de mostrar os pequenos raios de luz em momentos que nos parecem cobertos de escuridão. No mundo atual, este conceito está adormecido, mas durante todo o enredo, vemos Hirayama colecionar diversos momentos destes na sua câmara analógica, durante as suas pausas de almoço junto ao jardim público mais próximo ou ao entardecer através da janela da sua casa de bairro.


O filme convida-nos a olhar à continuidade, que se estende do nosso meio para nós mesmos, nos lugares mais íntimos da nossa mente, e que dentro de tudo aquilo que nos mantêm completos, está também a nossa própria prática de habitar com o meio, e com escolhemos habitar cidade.


Durante o desenrolar do filme descobrimos através da interação com a sua sobrinha, um pouco do seu passado e do seu afastamento familiar, e com o pouco que Hirayama nos diz, presumimos que a sua família e não concorda com as suas escolhas de vida, a forma como vive (de forma mais frugal). Assim podemos ver que apesar de ter esta forma de encarar a vida, percebemos que é também uma parte vulnerável, e que também a si lhe surgem obstáculos que nos fazem pensar quando poderá vir a quebrar o controlo da vida que criou para si, no entanto é a forma como lida com os acontecimentos de maior tensão que lhe traz balanço. Não é sobre a ação que é tomada, é sobre aceitar o que está a acontecer como parte da experiência de viver.



Termino por acrescentar que com esta pesquisa vim a descobrir, que este filme foi projetado para ser um documentário em conjunto com a câmara municipal de Shibuya sobre as casas de banho públicas da cidade, de modo a promover um novo lado de um espaço normalmente associado a algo sujo e desagradável. Como uma forma de repensar e refletir sobre um mínimo detalhe que é tornar a cidade mais habitável e tornar esta narrativa numa forma de ver e viver. Questiono-me porque levamos a vida a correr, porque nunca estamos satisfeitos, porque competimos para ser melhores? E acima de tudo, porque normalizamos isto como uma forma diária de viver? É por isso que considero este filme como um marco na minha vida, um dos melhores filmes que já vi e que levo comigo sempre, porque me faz questionar a minha existência, não em forma de “crise existencial”, mas porque me abre uma janela para mim própria sempre que penso nele. O poder emocional que carrega não nasce de grandes acontecimentos e reviravoltas dramáticas, mas de uma série de pequenos, quase invisíveis convites para redescobrir e admirar uma forma  silenciosa de existir.



Referências que considero essenciais (e que valem a pena cada segundo):


Deixo aqui o link do website criado para o filme. Para quem gostaria de poder imergir um pouco neste contexto da vida de Hirayama. Uma recriação daquilo que seriam 365 dias na vida deste personagem num “scrolling book with sound”. Uma verdadeira atmosfera poética sobre aqueles que são os valores principais que o filme pretende captar. Um design que nos leva a aprofundar este universo. Também dentro do website podemos ter acesso a material expandido, como é o exemplo dos diários escritos que nos fazem querer que isto não seja apenas mais uma narrativa cinematográfica, mas sim um pequenas partes de um universo muito mais amplo.


Em auxílio ao texto deixo também alguns links: Um vídeo muito interessante, onde o diretor Wim Wenders fala sobre a sua inspiração para Hirayama, um personagem visto quase como um monge.


segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Piet Oudolf: The garden as a mirror of life

 Piet Oudolf: The garden as a mirror of life


“O jardim é uma forma de dizer que há lugar para o sonho na terra.
É um espaço pequeno onde o homem recria o mundo, à sua medida, onde tenta corrigir a natureza, dar-lhe a ordem que ela não tem.
O jardim é o lugar onde o humano e o natural se encontram, onde a mão do homem não destrói, mas guia.
Talvez o paraíso seja apenas isto: um pedaço de terra onde tudo está em equilíbrio, onde o trabalho é também contemplação, e o tempo, finalmente, tem o tamanho de uma flor.”
     - Deste mundo e do outro, José Saramago, 1971


A origem do jardim

A princípio, quando pensamos na palavra jardim, instintivamente podemos imaginar algo belo, agradável e até mesmo paradisíaco. Na verdade, este conceito cresce em nós muito subconscientemente, através de concepções ocidentais judaico-cristãs. Se recuarmos àquele que é considerado o início da criação, Adão e Eva vivem no jardim de Éden, um jardim divino, recheado de todo o tipo de árvores e frutos, banhados por um rio que os nutre. Éden, tal como o nome indica, deriva do Aramaico (língua semítica), que significa "frutífera e bem regada".


Este paraíso privativo nasce na Mesopotâmia (atual Iraque), berço dos primeiros jardins. Pensa-se que os mais antigos jardins sejam “Os jardins suspensos da babilônia”, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Embora não haja muitas informações concretas sobre a sua forma e dimensão, encontram-se vestígios arqueológicos de um poço construído para bombear água.

Pode-se dizer que, no geral, foram as antigas civilizações áridas, a Pérsia, Egito e China, onde se evidenciam os primeiros vestígios. O jardim surge como refúgio do clima quente e seco, onde a água mostra-se um recurso fundamental e os canais de irrigação uma criação mágica. Estes jardins eram compostos por árvores frutíferas que produziam sobra, mas também por plantas de uso ritual, organizadas sistematicamente em blocos ortogonais e geométricos.



Os Jardins suspensos da Babilónia, Ilustração

Podemos assim determinar que desde dos primórdios, o jardim materializa-se como uma expressão visual da necessidade Humana de controlar algo que é espontâneo. A natureza selvagem e imprevisível, é moldada através de uma tentativa de impor a forma de quem o idealiza. Ao traçar, delimitar, escolher o que irá ocupar aquele espaço, o Humano transforma o espaço natural numa extensão da sua cultura, é dessa forma um ecossistema único, uma junção entre o instinto e a razão. O jardim surge desta vontade de habitar num espaço indomável.


"God Almighty first planted a garden. And, indeed, it is the purest of human pleasure. It is the greatest refreshment to the spirits of man, without which, buildings and palaces are but gross handiworks. And a man shall ever see that when ages grow to civility and elegance, men come to build stately, sooner than to garden finely – as if gardening were the greater perfection."

- Of Gardens, Francis Bacon, 1625


Durante séculos, para além de um espaço de contemplação e interação com a natureza, foi também um símbolo de poder e de status social. A sua forma, dimensão e localização refletiam a posição do proprietário na hierarquia social e metaforicamente, o grau de domínio que este exercia sobre a natureza. No entanto, com a crescente consciência ecológica e a democratização deste espaço, o jardim deixou de ser um símbolo de posse, para poder ser um espaço de partilha e coexistência. É neste contexto que Piet Oudolf trabalha, revolucionário no cenário paisagístico contemporâneo. 


“For me, garden design is not just about plants, it is about emotion, atmosphere, a sense of contemplation" 



Oudolf, nascido em 1944 nos Países Baixos, garden designer e paisagista, propõe uma nova ética: o jardim como organismo vivo, em constante transformação, que celebra o passar das estações, o envelhecimento e a morte das plantas. 

A sua abordagem é categorizada pelo movimento perennial (do qual é pioneiro), um estilo de plantação naturalista com um grande foco ecológico, direcionado para o planeamento específico do local e atento às características específicas das plantas que o integram, em todas as fases da sua vida. É, no seu todo, um projeto pensado para evoluir, crescer, transformar-se e interagir com o clima (e com o inesperado). A estética dos seus designs surge do movimento e da mutação, não da permanência.

Dentro dos diversos projetos aclamados em que já trabalhou, o mote é sempre o balanço entre a espontaneidade e o controlo, que consegue alcançar através do conhecimento extensivo que tem sobre o carácter de cada planta.


Proposta de esquema visual para o Queen Elizabeth Olympic Park, em Londres

Proposta de esquema visual para o Oudolf field na Durslade Farm

“To me, plants are personalities that I can use and arrange according to their appearance and behaviour. Each one “performs” in its own way, but in the end an interesting play needs to emerge from it”, diz Oudolf. 

Aquilo que me cativa pessoalmente, é exatamente aquilo que o distingue dos demais. Apesar de todo o trabalho projetual expressivo que existe por detrás (motivo pelo qual o seu trabalho inicialmente me cativou) do seu aspeto visual, meticulosamente desenhado para jogar com as nossas concepções sociais daquilo que é considerado selvagem, no entanto os seus jardins são tudo menos selvagens, são um balanço entre composição e “comunidade”, como ele designa, entre diferentes tipos de plantas com fraquezas e forças distintas dependendo do seu período de floração e ciclo de vida. A beleza está neste encontro de espécies, que nos providenciam uma experiência sensorial ao longo de todo o ano, acentuando tanto a decadência como as fases de alta temporada da planta.

No filme “Five Seasons: the Gardens of Piet Oudolf” dirigido por Thomas Piper, somos convidados a entrar dentro do mundo pessoal e no backstage do trabalho de Oudolf. Aquele que inicialmente seria um breve documentário sobre a vida do designer, transformou-se num grande poema visual, dividindo a sua narrativa pelas estações do ano e as transformações daquele que é o seu meio de trabalho (plantas) e também uma extensão da sua vida. 

Como diz no filme, “I think it’s the journey in your life to find out what real beauty is of course, but also to discover beauty in things that are, on the first sight, not beautiful.”, esta uma das grandes questões que me intriga no seu trabalho, Piet faz-nos questionar novas formas de olhar o belo, questionar o que é na verdade a ideia de beleza e direcionar o nosso olhar para o que sempre lá esteve, mas que nunca foi apreciado e visto verdadeiramente.


WINTER, Five Seasons: The Gardens of Piet Oudolf


 “(...) Beauty in death, beauty in decay, beauty in the unexpected (...)”, diz Piet, é algo que nos deixa a pensar sobre a nossa visão do mundo, nos nossos estereótipos daquilo que é a natureza bela, daquilo que pode ou não ser bonito e numa extensão deste conceito, aquela que é a necessidade humana da beleza constante e previsível. Aquilo que o trabalho de Oudolf nos convida a pensar é uma visão da beleza, não como a ausência de imperfeição, mas a presença da vida em todas as suas fases, onde o decadente não é feio, mas sim, outra forma de existir.



Oudolf Garden, Hummelo, Países Baixos

Atualmente, Piet trabalha no seu estúdio privado em Hummelo, nos Países Baixos, onde vive com a sua esposa Anja e em conjunto trabalham no seu jardim privado e laboratório/ enfermería de todo o tipo de plantas (que esteve aberto ao público ao longo de 40 anos, encontra-se encerrado desde 2018). Aqui, foram feitos ao longo de 28 anos estudos das potencialidades das plantas que viriam a ser a assinatura pessoal de Piet. Hoje este espaço ocupa um “wild meadow”, um projeto onde ambos experienciam as potencialidades da combinação das plantas restantes da enfermaria com plantas gramíneas e ervas nativas cultivadas no espaço. É uma continuação natural do seu trabalho de design com uma abordagem exploratória entre a linha que separa o controle e a liberdade.


Piet Oudolf surge para mim como uma figura de grande interesse na minha prática artística (e não só), pela sua visão que destaca o momento efémero, a valorização da imperfeição e o encontro do sublime na transitoriedade, desse modo questionando esses mesmos conceitos. A estrutura e a forma ganham presença e são vistas como um todo, muito mais do que o momento único da floração, o jardim ganha uma profundidade temporal, preservando sempre o ciclo natural do ecossistema criado.

Existe neste olhar sobre as plantas algo intrinsecamente humano, o jardim resiste à passagem do frio, seca, floresce e renova-se. A passagem do tempo, a resistência e as fragilidades são um espelho da vida: onde se celebra tanto a juventude mas também o processo natural de envelhecimento. É um processo que nos leva a olhar para nós: a valorizar o momento presente, mas também a reconciliar-nos com a nossa própria finitude.


Piet e Anja Oudolf no seu jardim privado, Hummelo, Países Baixos

 

“O meu trabalho é sobre a vida e a morte, sobre aceitar que tudo muda.”

Piet Oudolf


links de interesse: