Um retrato de justiça social através da palavra impressa - Sister Corita Kent
Quando me perguntam quais são as minhas referências dentro do mundo do design, a lista a citar é infinita. No entanto, quando penso em alguém que permanece na minha memória não pela sua abordagem visual, mas pelo impacto social e pedagógico do seu trabalho, sempre marcado por uma postura irreverente e consciente, Corita Kent surge de forma imediata. É uma daquelas figuras cuja vida e obra são difíceis de separar.
Frances Elizabeth Kent (Los Angeles, 1918–1986) foi uma artista gráfica, professora e freira católica norte-americana que procurou utilizar a linguagem visual de forma singular dentro do seu tempo. Embora não seja habitualmente “classificada” como designer no sentido tradicional, o seu trabalho dialoga profundamente com o design enquanto prática ampla de comunicação. A forma como utilizava o texto, a cor e a composição servia não apenas fins estéticos, mas sobretudo a comunicação de ideias, emoções e posicionamentos sociais claros.
Aos 18 anos, Corita decidiu ingressar na ordem do Immaculate Heart of Mary, adotando o nome Sister Mary Corita. Foi no contexto académico do Immaculate Heart College, onde estudou e mais tarde lecionou, que teve contacto com a serigrafia, técnica que se tornaria central na sua prática artística. Inicialmente, o seu trabalho focou-se em imagens de carácter religioso, mas à medida que ganhava reconhecimento como artista e professora, passou a dialogar com outros criadores e a questionar não só o papel da arte, mas também o seu próprio lugar dentro da Igreja católica. Para Corita, a fé não podia existir isolada da realidade social, e a arte tornou-se um meio privilegiado para explorar essa relação, mesmo questionando os valores mais tradicionais da instituição religiosa.
Sister Mary Corita fotografada com os seus trabalhos no Immaculate Heart College em 1965 |
A cor também desempenha um papel essencial no seu trabalho. Cores vibrantes, contrastes fortes e sobreposições criam um impacto imediato, reforçando o tom emocional das mensagens. Esta abordagem aproxima o seu trabalho da lógica editorial, onde a cor é frequentemente usada para estabelecer hierarquias, criar ritmo e orientar a leitura. Mais do que uma escolha estética, a cor funciona como uma ferramenta de ativismo. As suas obras falam de paz, justiça social, empatia e responsabilidade coletiva, utilizando sempre uma linguagem visual acessível e próxima do público.
In that they may have life (1964), Corita Kent transformou imagens de uma embalagem de pão Wonder numa introspecção sobre a pobreza e a fome. |
Ao olhar para todo o seu percurso artístico, considero que a formalidade visual do seu trabalho, apesar de ser bastante marcante, fica em segundo plano quando comparada com a forma como Corita se envolvia com o mundo à sua volta. A arte e a comunicação foram, para ela, meios de posicionamento face às dificuldades e injustiças do seu tempo. Através do seu legado, questiona desigualdades e promove valores humanos essenciais, provando assim que é possível usar a prática criativa como espaço de intervenção social mesmo que através de linguagens simples e acessíveis.
Muito mais do que as obras que produziu, foi também uma referência enquanto educadora, através da sua abordagem pedagógica, incentivava os seus alunos a olharem o mundo, a observar com consciência e curiosidade. Corita é para mim uma referência educacional, na forma como também a mim me ensinou a pensar, questionar e criar com intenção.