sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Um retrato de justiça social através da palavra impressa - Sister Corita Kent

 Um retrato de justiça social através da palavra impressa - Sister Corita Kent


    Quando me perguntam quais são as minhas referências dentro do mundo do design, a lista a citar é infinita. No entanto, quando penso em alguém que permanece na minha memória não pela sua abordagem visual, mas pelo impacto social e pedagógico do seu trabalho, sempre marcado por uma postura irreverente e consciente, Corita Kent surge de forma imediata. É uma daquelas figuras cuja vida e obra são difíceis de separar.


    Frances Elizabeth Kent (Los Angeles, 1918–1986) foi uma artista gráfica, professora e freira católica norte-americana que procurou utilizar a linguagem visual de forma singular dentro do seu tempo. Embora não seja habitualmente “classificada” como designer no sentido tradicional, o seu trabalho dialoga profundamente com o design enquanto prática ampla de comunicação. A forma como utilizava o texto, a cor e a composição servia não apenas fins estéticos, mas sobretudo a comunicação de ideias, emoções e posicionamentos sociais claros.



    Durante um período marcado por intensas transformações culturais, especialmente nas décadas de 1960 e 1970, Corita Kent encontrou na cultura popular e nos meios impressos um terreno fértil para expressar preocupações sociais, políticas e espirituais. Influenciada pela Pop Art e pela linguagem visual da publicidade, a sua obra surge num contexto de protestos contra a guerra (Vietname) e luta pelos direitos civis, de modo a questionar valores conservadores. O seu trabalho reflete uma vontade clara de promover a paz, através de uma comunicação visual mais humana, direta e acessível, aproximando as pessoas da mensagem transmitida.


    Aos 18 anos, Corita decidiu ingressar na ordem do Immaculate Heart of Mary, adotando o nome Sister Mary Corita. Foi no contexto académico do Immaculate Heart College, onde estudou e mais tarde lecionou, que teve contacto com a serigrafia, técnica que se tornaria central na sua prática artística. Inicialmente, o seu trabalho focou-se em imagens de carácter religioso, mas à medida que ganhava reconhecimento como artista e professora, passou a dialogar com outros criadores e a questionar não só o papel da arte, mas também o seu próprio lugar dentro da Igreja católica. Para Corita, a fé não podia existir isolada da realidade social, e a arte tornou-se um meio privilegiado para explorar essa relação, mesmo questionando os valores mais tradicionais da instituição religiosa.



Sister Mary Corita
fotografada com os seus trabalhos no Immaculate Heart College em 1965
    

    O trabalho de Corita Kent caracteriza-se pelo uso do texto como elemento visual central e identitário na sua obra. Frases retiradas de elementos da cultura pop (publicidade, música, literatura) ou até de textos religiosos aparecem destacadas, fragmentadas ou repetidas, de modo a criar composições que se aproximam de capas de revistas e cartazes editoriais. O texto não serve apenas para ser lido, mas para ser visto e sentido. A tipografia utilizada é simples e direta, muitas vezes sem grandes preocupações formais, mas sempre eficaz na transmissão da mensagem. A leitura acontece de forma rápida e intuitiva com o objetivo de comunicar a um maior número de pessoas.

    A cor também desempenha um papel essencial no seu trabalho. Cores vibrantes, contrastes fortes e sobreposições criam um impacto imediato, reforçando o tom emocional das mensagens. Esta abordagem aproxima o seu trabalho da lógica editorial, onde a cor é frequentemente usada para estabelecer hierarquias, criar ritmo e orientar a leitura. Mais do que uma escolha estética, a cor funciona como uma ferramenta de ativismo. As suas obras falam de paz, justiça social, empatia e responsabilidade coletiva, utilizando sempre uma linguagem visual acessível e próxima do público.




In that they may have life
 (1964), Corita Kent transformou imagens de uma embalagem de pão 
Wonder numa introspecção sobre a pobreza e a fome.

  

 Ao olhar para todo o seu percurso artístico, considero que a formalidade visual do seu trabalho, apesar de ser bastante marcante, fica em segundo plano quando comparada com a forma como Corita se envolvia com o mundo à sua volta. A arte e a comunicação foram, para ela, meios de posicionamento face às dificuldades e injustiças do seu tempo. Através do seu legado, questiona desigualdades e promove valores humanos essenciais, provando assim que é possível usar a prática criativa como espaço de intervenção social mesmo que através de linguagens simples e acessíveis.
Muito mais do que as obras que produziu, foi também uma referência enquanto educadora, através da sua abordagem pedagógica, incentivava os seus alunos a olharem o mundo, a observar com consciência e curiosidade. Corita é para mim uma referência educacional, na forma como também a mim me ensinou a pensar, questionar e criar com intenção. 


    Acima de tudo Corita Kent é uma mulher que me faz lembrar como também o meu trabalho (o design e a arte) não são neutros. Criar é sempre um ato de escolha e consequentemente de posicionamento, desse modo, é e deve ser motor de consciência social. Mais do que meramente reduzido a tendências e métricas, Corita relembra-nos de regressar ao essencial: criar e comunicar com consciência sem procurar impor uma visão, mas escolhendo estar atento ao mundo e responder a ele com responsabilidade. Estes são valores que considero fundamentais para qualquer prática criativa verdadeiramente relevante na atualidade e que, como o seu percurso demonstra, permanecem profundamente intemporais.