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segunda-feira, 5 de junho de 2023

 Festival da Canção - Academia Recreio Artístico

No domingo 7 Maio de 2023, deu-se a oitava edição do Festival da Canção da ARA. O evento que se realiza na associação Academia Recreio Artístico, na Rua dos Fanqueiros em Lisboa, é de caráter artístico pretende a divulgação de “novos” talentos na área da música e composição.


É um momento em que artistas desconhecidos, residentes ou sócios da A.R.A., carteiros, calceteiros entre outros indivíduos de profissões comuns e “não-artísticas” , possam apresentar e expor o seu criação musical num âmbito competitivo e colaborativo.  Não se fala aqui de uma noite de karaoke entre vizinhos e amigos, o próprio nome do espectáculo “Festival da Canção” cria um paralelo à competição de nome homónimo e de escala nacional e internacional onde, numa plataforma de escala nacional e europeia, as grandes e contemporâneas vozes musicais de cada Pais concorrem na procura de uma aprovação europeia de um sucesso que já possuem no contexto nacional. 

O formato do festival é idêntico ao dois homónimos. Todos os participantes devem ingressar na competição tanto individualmente como em grupo apresentando uma canção da sua autoria a um painel júris habilitados, que votará após a apresentação. O vencedor do festival ganha um jantar num hotel patrocinador do festival,


Regressemos então ao porque deste festival como foco de atenção para as artes? A grande diferença está no participante. Está no foco do próprio festival. Enquanto um primeiro celebra o sucesso dos já sucedidos, o outro apresenta-se como um lugar onde todos podem exprimir a criação artística que possuem. Um é uma plataforma comercial o outro uma plataforma musical. Um arte comercializada e o outro, como diria François Matarasso, “arte democrática”. Ai percebemos a razão de ambos serem “homónimos”, citando a Infopédia da Porto Editora sobre a definição da palavra Homónimo: “que ou palavra que se pronuncia e se escreve como outra mas que tem significado diferente”.


O evento que se realiza à mais de uma década (Festival da Canção da ARA), conta com a parceria do Grupo de Teatro Acreart, um “grupo de teatro amador constituído por um elenco onde se cruzam em cena actores cegos, com baixa visão e normovisuais” e que colabora com a A.R.A. desde 2008. Percebe-mos por este colaborador e impulsor do festival - o Grupo de Teatro Acrert - uma vontade já existente de criar espaços colaborativos e participativos onde grupos marginalizados, ou neste caso sem oportunidade ou incentivo de mostra, criem e apresentem o seu trabalho ao publico. Quase que conseguimos imaginar Joseph Buyes, juntamente com Matarasso, no lugar de jurí deste festival, invocando pensamentos sobre “Social Sculpture” ou exprimindo as suas famosas palavras, “Todos podemos ser artistas…”. Esta mesma frase exprime de certa forma, a essência deste momento artístico, social, competitivo, e até, educativo, que une pessoas dos mais diferentes espectros.


O contexto performativo discutido nesta recensão não é um acto performativo por si só mas todo o espaço que criou as oportunidades de existirem performances musicais de “artistas não-profissionais” (Matarasso, Arte Irrequieta) nele. Assim todas as performances são alvo da recensão, pois todas elas carregam por de trás a vontade de cada artista de as expor, a alegria de as mostrar e o anseio pela aprovação. Nem que se ganhe sou um jantar.  





Referências: 

Acreart - http://grupoacreart.blogspot.com Acreart - Artes Cénicas - Academia Recreio Artístico (2008)Acreart. Disponível em: http://grupoacreart.blogspot.com.

8º Festival da Canção da ARA (2023)Academia Recreio Artístico. Disponível em: https://academia-recreioartistico.blogspot.com/2023/02/8-festival-da-cancao-da-ara.html.

Infopédia, Porto Editora. - https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/homónimo 

Matarasso, François (2021) Uma Arte Irrequieta. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian 


 Mater - Maja Escher, Marta Castelo e Virginia Fróis


Ao deambular pelo jardim do Museu de Lisboa, entre a vegetação e a grandiosidade do edifício, deparamo-nos, quase de repente, com o Pavilhão Branco. O Pavilhão Branco, como que submerso pela vegetação envolvente do jardim, chama desde logo à atenção pelo contraste da sua arquitetura moderna com a arquitetura do Museu.

No seu interior, encontramos a exposição coletiva Mater que, tal como o seu nome indica, desenvolve- se em torno da matéria - sendo esta, neste caso, apresentada em formato de barro ou argila.
Mater representa um continuo dialogo entre o passado e o presente da matéria, entre as suas possibilidades e utilidades no dia a dia da sociedade, - é exposto um retrato mais contemporâneo no que toca ao uso destes materiais. O barro/argila começa a ter um maior destaque na contemporaneidade artística, e esta exposição pretende projetar essa mesma potencialidade.

A exposição foi desenvolvida numa co-produção entre as Galerias Municipais/EGEAC e a associação cultural Oficinas do Convento, integrando o trabalho de Maja Escher, Marta Castelo e Virginia Fróis, com a curadoria de João Rolaça.
Os trabalhos das três artistas conectam-se pelo uso de materiais naturais e por várias relações entre as suas investigações e desenvolvimentos conceptuais.

De seguida, irei fazer uma breve apresentação sobre cada uma destas artistas, de forma a explicar estas mesmas ligações e conexões entre as autoras, o espaço, as Oficinas do Convento, de forma a compreender o intuito, ou melhor, a necessidade/intenção por detrás de Mater.






Maja Escher embora tenha concluído os seus estudos, com a licenciatura de Audiovisuais e mestrado de Arte Multimédia, ambos realizados na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, o seu trabalho aborda temáticas e desenvolve-se num âmbito distante destas correntes artísticas.
A sua obra orienta-se em torno de formatos como a escultura - em particular o uso da cerâmica - e a instalação/site-specific (Maja Escher: Anozero'21 2022).





Escher, desenvolve uma investigação sobre os lugares que nos representam, o abrigo/ a casa. A sua obra está intrinsecamente ligada aos conhecimentos que adquirimos, e aos que nos são passados — às relações que criamos e a aprendizagem que delas retiramos; assenta também em ideias relacionados com sistemas ritualísticos, extraindo uma dimensão xamanica às suas obras. Apropriando-se de materiais recolhidos e / ou doados, produz instalações com uma dimensão política e de protesto, à semelhança das outras duas artistas, Marta Castelo e Virginia Fróis, a sua relação com a terra (como matéria e espaço) está muito presente no seu trabalho.

Participou numa residência nas Oficinas do Convento, onde aplica e “constrói sistemas ritualísticos em forma de manifesto e mobilização comunitária, onde trabalha o que é comum e vital no Baixo Alentejo - a sua terra - sublinhando a urgência de uma regeneração ecológica, do desenvolvimento de comunidades e economias locais, solidárias e de cooperação e a sua importância para a vida e permanência das pessoas naquele território”1.




Virginia Fróis, escultora e professora na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, desenvolve um trabalho artístico focado no âmbito da cerâmica, expondo com regularidade tanto em Portugal como no estrangeiro. Em 1996, Fróis, funda a Associação Oficinas do Convento, situada em Montemor-o-Novo.

No contexto da exposição, o trabalho de Fróis destaca-se com facilidade, o uso de materiais naturais (tal como o barro, ou até a cera de abelha) procura transmitir ou fazer contemplar a “experiência sensitiva na natureza”, como uma conversa aberta entre o mundo exterior e o interior, entre o espaço dentro da galeria e o jardim no exterior, entre as obras em si e a sua autora (Rolaça 2023).

Marta Castelo, licenciada em Artes Plásticas - Curso de Escultura, na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, desenvolve, também ela, um trabalho ligado à plasticidade da matéria usada. O seu trabalho integrado em Mater ocupa-se em explorar os diferentes estados da matéria - entre o barro cru e o cozido, entre as suas formas orgânicas e os seus contornos mais rígidos e severos. De certa forma o uso do “tijolo” na sua obra cria também um paralelo com as das duas outras artistas, ao explorar a ideia de “espaços de existência” e da sua conjugação com o ambiente despido da galeria, e a exploração e construção do espaço de abrigo (Rolaça 2023).

Por fim é importante referenciar as Oficinas do Convento, como espaço de produção e investigação de cerâmica na cidade de Montemor-o-Novo, que liga o trabalho destas três artistas, não só no contexto desta exposição como no enquadramento dos seus percursos laborais (tendo tanto Castelo como Escher realizado residências neste espaço cultural). Desde 1996, a associação procura dinamizar o que se desenvolve no campo da cerâmica, criando conexões entre a paisagem e a comunidade, realizando projectos individuais e colectivos, que se enquadram na estética que se tem desenvolvido ao longo dos anos neste espaço (Rolaça 2023). E se nos perguntar-mos o que as liga, podemos sempre, resumir com sendo a Matéria. A argila como matéria de produção de grande parte dos produtos romanos, estes que são estudados, explorados e recreados ou re-imaginados pela três artistas numa imagem da matéria adaptada para um olhar contemporâneo nunca perdendo a influência do passado. As três artistas encontram-se num espaço de abrigo, entre a “sua dimensão poética e simbólica”, pensando em novos sistemas para refletir sobre o património, o território, e construção do presente e futuro.


Bibliografia:

Mater (2023) Galerias Municipais de Lisboa. Disponível em: https://galeriasmunicipais.pt/exposicoes/ mater/ (Acedido a: 30 Maio 2023).

Maja Escher: Anozero’21 (2022) Anozero ’21-’22. Disponível em: https://21-22.anozero- bienaldecoimbra.pt/artists/maja-escher (Acedido a: 04 June 2023).

Webgrafia:

https://www.museuolaria.pt/wp-content/uploads/2020/01/GUIZOS.-Virg%C3%ADnia-Fróis.pdf https://www.pin.pt/index.php/exposicoes/673-virgnia-fris https://galeriasmunicipais.pt/exposicoes/mater/ https://galeriasmunicipais.pt/wp-content/uploads/2023/03/GM_PBranco_Mater_folha-de- sala_pt_site1.pdf https://www.belasartes.ulisboa.pt/mater-exposicao-de-maja-escher-marta-castelo-e-virginia-frois/ https://21-22.anozero-bienaldecoimbra.pt/artists/maja-escher https://www.majaescher.com/abrigo-primeira-tentativa-de-construir-uma-casa-2010 https://www.worlding.org.uk/guests/maja-escher/ https://www.museuolaria.pt/wp-content/uploads/2020/01/GUIZOS.-Virg%C3%ADnia-Fróis.pdf https://vicarte.org/virginia-frois/

https://www.pin.pt/index.php/exposicoes/673-virgnia-fris http://marta-castelo.blogspot.com/p/textos.html https://vicarte.org/marta-castelo/

terça-feira, 23 de maio de 2023

Vejamos Bem "O Anúncio" de José Cardoso

 “Vejam bem, que não há só gaivotas em terra,

Quando um Homem se põem a pensar…”

José Afonso

 


A obra que pretendo analisar encontra-se dividida em 2 momentos. Inicialmente temos o o filme do realizador luso-moçambicano José Cardoso (Beira, 1930 - 2013) “O Anúncio”. Realizado em 1966 na Beira, Moçambique, é o primeiro filme de ficção do realizador, em formato de curta-metragem. O filme retrata um dia na vida do protagonista (interpretado pelo próprio José Cardoso) onde o mesmo, vivendo numa situação precária, procura trabalho em vão, nos anúncios do jornal local ou nas obras da cidade. Eventualmente a personagem é levada para para um evento carnavalesco, onde rouba dois ovos cozidos para comer. Acaba adormecendo no local, sendo mais tarde acordado por uma tempestade e regressa de novo para a rua. 

O segundo momento da obra é o tema musical que a acompanha, “Vejam Bem” de José Afonso (Aveiro, 1929 - 1987). O tema musical embora tenha sido escrito para o contexto do filme, não estava incluído na primeira versão, tendo sido adotado em 1968, ano em que a música foi escrita. O tema pertence ao álbum Cantares de Andarilho (1968), tendo lugar na faixa número onze do mesmo. 

A divisão desta analise é proposta pelo facto de ambas as obras viveram, independentes e dependes uma da outra. O filme, feito dois anos mais cedo foi feito sem a existência da obra musical de José Afonso. A música existindo como colaboração entre os dois artistas, possui uma vida muito além do filme. Sendo até, a participação da música nesta curta-metragem, pouco conhecida por muitos.


Pretende-se assim inicialmente, rever os dois momentos (filme e tema musical) num contexto separado fazendo uma breve análise de cada, terminando a mesma com uma interpretação da obra num todo. Esta recensão tem como objectivo apresentar a força visual da música e letra de José Afonso, representada também ela no filme. O desafio de observação social que tanto a música como o filme nos impõem.


Difícil começar a análise do filme sem logo referenciar as semelhanças do mesmo com o movimento cinematográfico italiano neo-realista. A representação social, representação do cotidiano, a falta de conclusão, sem final (feliz ou mau) na expressão máxima do neo-realismo italiano, leva-me com rapidez ao “O ladrão de bicicletas” (1948) de Vittorio De Sica. Um trabalhador que vive (ou mesmo sobrevive) de uma bicicleta para trabalhar, a mesma que lhe é roubada e o mesmo encontra-se numa aventura (sem solução) para reaver um objecto que define a sua possibilidade de sobreviver. Em “O Anúncio”, José Cardoso encontra-se já em numa situação de desemprego, num desespero e desconforto social, sentido por muitos cidadãos moçambicanos numa altura de opressão política que o realizador tenta representar. O cariz social é directo, um cidadão que representa a luta de muitos outros. Uma imagem filmada a preto e branco num tom mexido e algo caótico que se identifica com o sentimento e ambiente sentidos e desejados pelo realizador.” (Vieira, 2022). 






Como muitas outras obras de José Afonso as nuances aos problemas sociais vividos em Portugal são constantes. São feitas referencias à PIDE e a acções de clandestinidade. A “estátua” referida no texto desta música, é um dos exemplos destas subtis referencias impostas pelo autor, que sugere a tortura usada pela PIDE sobre os prisioneiros políticos, ou os “caminhos de pão”, indicando aqui os desejos de distribuição igual de bens. As “gaivotas em terra” expressão comum usada para se referir à chegada de uma tempestade, José Afonso, com bastante clareza, desafia o ouvinte a perceber que o acção do pensamento é o primeiro passo para uma mudança social, a emancipação do povo, pensador e crítico, que observa e reflecte sobre o que vê. Esta música, que se torna uma das mais emblemáticas do autor, marca uma das épocas mais políticas e interventivas de José Afonso.




O início do filme tem um carácter quase ilustrativo da música. Vendo que o filme se antecede ao tema percebe-se que José Afonso tira parte da sua inspiração da curta-metragem. Sendo um referente aos problemas sociais da época em Moçambique (“O Anúncio”, José Cardoso) e o outro de Portugal (“Vejam Bem”, José Afonso) as posições de cada artista eram próximas principalmente no que tocava à guerra colonial e à interferência de Portugal nas colónias africanas. “ (…) a transformação política do regime encontra fortes resistências à sua concretização, nomeadamente em relação à guerra colonial e à acção da polícia política (PIDE).” (Simões, 2017)





A música, acompanhando o início do filme, dá-nos o mote para o que viremos a ver. Interessante o facto de a curta ser toda ela muda com os únicos momentos em que ouvimos alguém falar é através do canto de José Afonso. A história está contada, Um homem que dorme ao relento na areia, num dia de tempestades (gaivotas em terra) desespera por trabalho para se alimentar (desbravando os caminhos do pão). José Afonso vai mais longe que o filme, e desafia o homem, e o espectador/ouvinte, a pensar a reflectir, ao contrario do que o protagonista do filme faz que se perde no ócio da noite carnavalesca para se ver novamente no mesmo lugar. 



Termina o filme, num final digno do neo-realismo italiano, com um andar, um futuro incerto deixando o espectador na incerteza sobre o resto da vida do protagonista, mas sobre este final incerto, regressa José Afonso desafiando novamente o espectador/ouvinte a “ver” não o filme mas o que há para lá do mesmo. As problemáticas sociais da época, do contemporâneo que ainda hoje se pode assistir e ouvir na actualidade da sua voz.


Lista de referencias bibliográficas: 


Obras Artísticas:

  • Afonso, J. (1968). Vejam Bem (Música). Cantares de Andarilho. Orfeu
  • Cardoso, J. (Realizador). (1966). O Anúncio (Filme). Beira-64