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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Caminhar na Ficção - "Mezzocane" de Enzo Cucchi e Bruno Marchand

    Em 2023, no museu MAXXI, em Roma, visitei a exposição “Il poeta e il mago” (O Poeta e o Mágico) de Enzo Cucchi. Um professor da faculdade onde fazia Erasmus levou a turma a visitar este espaço, falando-nos sobre a importância do trabalho deste artista, enquanto eu aos poucos interiorizava a grandeza do que estava a testemunhar. E assim começou uma saudável obsessão.

O trabalho de Cucchi é uma poesia visual, repleta de mitos e fantasias, capaz de criar novas narrativas através dos mais diversos meios. Enzo acredita que o mito tem “a alma das coisas e o cheiro dos factos”, sobrepondo-se à História, que pode ser alterada e vive no perigo da sua veracidade. Desta forma é capaz de criar objetos que se sustentam de forma individual mas que se reinventam a cada exposição. As suas mostras tornam-se poemas e contos pelos quais podemos vaguear. 



imagens de peças presentes na exposição "Il poeta e il mago", MAXXI, Roma, 2023.

Cerca de um ano mais tarde, surge em Lisboa, na Culturgest uma exposição do mesmo artista. Algumas obras repetiam-se, mas a arquitetura do espaço e a vontade de Enzo criavam ali uma nova história. 

Em ambas as exposições existia uma parte dedicada aos trabalhos editoriais de Cucchi, que tem também um percurso dentro do design gráfico. No caso da Culturgest foram expostos na Galeria 3, espaço normalmente dedicado a exposições de objetos editoriais ou desenhos. Notamos que a disposição de objetos é extremamente importante no trabalho deste artista, como se da composição de um texto se tratasse, algo ritmado e cuidado. Cucchi vive para a ficção, para a sua disseminação em todos os meios, mostra nestas exposições objetos como livros de artista, experiências tipográficas e cadernos, sendo a página e o livro uma forma de partilha que não só permite construir narrativas, como também experimentar novas formas de imaginar. Tendo isto em conta, gostaria de falar sobre o livro "Mezzocane", objeto realizado por Bruno Marchand (curador da exposição em Lisboa) e pela ilhas studios, a pedido de Enzo Cucchi, com a intenção de ser um catálogo de exposição diferente do habitual. 



edições de artista de Enzo Cucchi em exposição no MAXXI (esquerda) e na Culturgest (direita)


O artista pediu que fosse construída uma narrativa a partir do conto do "meio cão", que também deu origem ao nome da exposição. A lenda conta que uma civilização antiga utilizava o corpo de um cão cortado ao meio com a intenção de afugentar inimigos de determinado território. A natureza do "quem conta um conto acrescenta um ponto" e o facto de haver uma barreira linguística entre Bruno e Enzo, levou a que esta história fosse apenas um ponto de partida, tanto para a exposição como para o objeto que surgiu da mesma. 
Renegando os textos académicos e factuais de interpretação das obras, houve total liberdade para a criação de uma história fictícia e manipulação das imagens das obras. O resultado foi um objeto extremamente denso e intrigante, um portal para a imaginação.


Capa do livro "Mezzocane", 2024, por ilhas studios

   A história, com descrições ligeiramente perturbadoras, está dividida em três momentos que são visualmente distinguíveis apesar de não haver uma identificação explícita de capítulos. As imagens das obras surgem por entre o conto, sendo, claramente, também parte da história. Apesar de existirem algumas imagens a cores, muitas das peças são mostradas a negativo, o que faz com que o livro seja maioritariamente preto, branco e vermelho. A liberdade criativa dada ao ilhas studios permitiu-lhes utilizar vários tipos de papéis e impressão e desafiarem a utilização da tipografia e layout num objeto tão pequeno. O seu formato lembra uma pequena bíblia ou livro de orações que podemos carregar no dia a dia.




Miolo do livro "Mezzocane", 2024, por ilhas studios

Este livro é sem dúvida uma das minhas mais estimadas aquisições pelo tanto que me dá num só artefacto. É um catálogo, livro de ficção e livro de artista, tudo em simultâneo. Existe num espaço ambíguo onde moram também a poesia, o oculto e o imaginário de Enzo Cucchi, esse lugar tão sagrado.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Paradoxo Criativo - Duplas Artísticas

Há pouco terminei de ler o livro “Walk Through Walls”, autobiografia de Marina Abramović. Há muito a dizer sobre este objeto, mas também há muito que não se pode explicar. Este livro é uma experiência única que deve ser lida de mente aberta, como se se testemunhasse uma performance.

Entre páginas que nos ensinam a dor humana e os seus limites, encontramos também amor, paixão e revolução. Houve algo que me fascinou especialmente nesta obra, algo que já tinha sentido em “Just Kids” de Patti Smith, experienciar, de uma forma extremamente íntima e honesta, a forma como as relações humanas podem definir alguém, e por consequência, a sua prática artística.

Marina e Ulay são possivelmente a dupla mais conhecida da arte imaterial, peças como “Relation in Space”, 1976 , “Imponderabilia”, 1977, ou “Rest Energy”, 1980, são apenas alguns exemplos que se tornaram incontornáveis quando se fala de performance. A sua dedicação à arte como território por descobrir espelha-se também na sua relação enquanto casal. Algo de mágico acontece quando duas pessoas são capazes de se desafiar e completar em simultâneo. Passam a existir num paradoxo, fonte das mais intensas e impensáveis criações.





Marina Abramović e Ulay
Relation in Space, 1976 / Imponderabilia, 1977 / Rest Energy, 1980

O mesmo acontece com Patti Smith e Robert Mapplethorpe. Patti havia-se mudado para Nova Iorque há pouco tempo quando, na descoberta da cidade e os seus acasos, se cruzou com Robert mais do que uma vez. Falavam brevemente, criando assunto para um próximo encontro que não sabiam se iria existir, mas a sorte tinha outros planos. Inevitavelmente tornaram-se amigos, e amantes e amigos novamente. Jovens e com um mundo por descobrir, as suas paixões foram-se entrelaçando, sem nunca se tornarem dependentes um do outro, pelo menos não no que toca à sua prática. O mesmo não se pode dizer em relação a Marina e Ulay, que ao longo do resto das suas vidas, se confrontaram com o desafio da divisão de direitos das obras. No entanto, ambas estas duplas descobriam a vida e a arte como quem ama, leve e livremente. Viviam juntos, escreviam, confessavam, fotografavam e, acima de tudo, criavam sem fim.


Robert Mapplethorpe e Patti Smith, 1960

Patti é, hoje em dia, música, escritora e artista visual. Um marco da versatilidade artística. A sua conexão com Robert não é tão obvia quanto a de Marina e Ulay, mas mergulhando na sua obra, sentimos sem dúvida a sua influência. Os seus livros, que tocam num espaço muito especial entre a ficção e a autobiografia, tornam palpável o processo criativo. Acredito que seja isso que acontece quando a arte e a vida vivem em harmonia.

 

Capa do primeiro albúm de Patti Smith, Horses, 1975, fotografada por Robert Mapplethorpe


Tanto Patti como Marina tiveram relações que marcaram significativamente as suas carreiras, mas esses laços tornam-se quase sagrados quando se unem com a criação, o que faz com que o êxtase seja imenso e a dor de igual intensidade. Marina e Ulay distanciavam-se nos anos 80, acabando a sua relação com a famosa performance “The Lovers”, em 1988, onde cada um começava uma jornada em cada ponta da Grande Muralha da China. Quando esta ideia surgiu, a intenção era a de se casarem quando se encontrassem a meio da muralha, no entanto, as burocracias entre Amsterdão e China foram tantas, que quando lhes foi permitido caminhar a Muralha, a sua relação tinha atingido um ponto intolerável para ambos. A performance manteve-se, mas quando se encontraram deram um aperto de mão e cada um seguiu o seu caminho, dando por finalizada a sua relação pessoal e profissional.


O encontro de Marina e Ulay na Grande Muralha da China, 1988

Estas duplas deram aso a algo maior, provam que o acaso nos dá o que precisamos quando é de facto necessário, e o retira quando estamos a ganhar balanço. Estes quatro artistas tiveram carreiras extremamente influentes na arte contemporânea. Acho incrível como as inspirações de milhões podem começar graças à inspiração entre duas pessoas. A autobiografia de Marina continua por mais 178 páginas após este aperto de mão, mas “Just Kids” termina com a morte de Robert Mapplethorpe. Isto porque “Walk Through Walls” é uma história de resistência e o livro de Patti é uma carta de amor. A obra de Patti Smith continua em todos os outros planos. Em ambas as situações estas duas mulheres sofrem, por amor e muito mais, mas veem a sua sobrevivência na produção como força interior. O que nos permite hoje em dia termos obras e artistas que contam as alegrias e angústias da condição humana, sem necessidade de ler as suas biografias.

Ter ao lado alguém que vê a vida de forma semelhante à nossa faz com que as dúvidas se desdobrem num plano maior e se dissolvam num futuro esperançoso, permitindo aproveitar o presente por inteiro, sem nada a perder. Não tem necessariamente de haver romance na esperança, a arte é um movimento transversal no que toca ao amor.

sábado, 8 de novembro de 2025

Jornal COREIA - falar sobre performance

No dia 2 de novembro fui à finissage da exposição de finalistas e bolseiros da ESAD - Caldas da Rainha, intitulada Ainda Há Sementes Para Serem Colhidas e Espaço no Saco de Estrelas, na Safra. Fui a convite de uma amiga que mostrava o seu trabalho, aproveitando para testemunhar a performance do artista João Soares que aconteceu no mesmo dia.
Num armazém repleto de obras de estudantes promissores, luzes fortes e um frio de meia estação, as peças de chão são arrastadas para fazer espaço, um espelho surge encostado a um plinto, as pessoas começam a falar mais baixo, algo acontecerá. As luzes apagam-se e um foco no chão deixa-nos alerta. Abre-se espaço, surge o artista. Ao longo de cerca de duas horas, das quais só me ausentei por dez minutos, existiu ali algo de inexplicável, algo que só tem a capacidade de existir num contexto físico para se poder conectar com o espiritual. A performance consistiu no artista a cobrir-se com pontos, criando uma paisagem no próprio corpo. Meditativo e intencional, cada movimento surgia como consequência do anterior. Foram momentos forçosamente introspetivos, alinhados com um domingo.


 

João Soares na performance O Meu Corpo, 2025

Não tenho um particular conhecimento sobre esta vertente artística e diria que é a capaz de ser das que me sinto menos confortável a desenvolver assunto, no entanto, aos poucos vai-se infiltrando nos meus interesses. Esta performance, a primeira que testemunhei com um tempo mais extenso, relembrou-me de uma obsessão que tive há uns meses. Trata-se de um jornal, de nome Coreia, e é desta iniciativa sobre a qual gostaria de articular. Uma iniciativa da Associação Parasita, o jornal Coreia tem como diretor editorial João dos Santos Martins e como designer gráfica Isabel Lucena.

“Coreia é uma publicação fundada em 2019 de carácter experimental, crítico e discursivo a propósito das artes em geral, firmada numa relação umbilical com a dança. De tiragem semestral, o jornal pretende ser um forum independente e internacionalista focado no discurso produzido pelas obras e pelos artistas, preocupado em divulgar formatos vários como partituras, manifestos, entrevistas, crónicas, ensaios, críticas e reflexões em língua portuguesa.”

Uma característica importante deste jornal é a sua acessibilidade. Tendo como objetivo o pensar e disseminar das artes do corpo, o jornal abre uma open call para textos relacionados com estes temas. O facto de qualquer pessoa poder desenvolver um artigo, sem ter acesso aos que o irão acompanhar, implica que este formato se inove a si mesmo de uma forma bastante orgânica. Existe, claro, uma seleção deliberada, no entanto, nota-se uma frescura a cada virar de página, assuntos que se superam. Esta dinâmica torna-se ainda mais sedutora quando aliada com o design de Isabel Lucena. Sentimos uma dança das próprias letras, palavras, frases. Um improviso premeditado que suspende o olhar.


jornal Coreia #13 (capa)

Quando falo de acessibilidade, falo não só na produção, dando espaço crítico e criativo a diversos criadores, mas também numa liberdade educativa. São impressos 3500 exemplares de cada edição, e todos são distribuídos gratuitamente. Assim que uma nova edição é lançada, a edição anterior torna-se disponível online, o que faz com que tenhamos acesso a todo o arquivo. Já não me recordo ao certo como soube desta iniciativa, mas sei que imediatamente tomei como missão pessoal conseguir um dos exemplares do jornal assim que fossem disponibilizados. Consegui pela primeira vez o mês passado, a 13ª edição.


Usarei a mesma para exemplificar a diversidade do que podemos falar no que toca à performance e ao corpo. Começamos com um manifesto escrito pela Learning Palestine no contexto do Pavilhão Palestiniano na Bienal de Veneza, intitulado Que Futuro Para a Arte? Um Manifesto Contra o Estado do Mundo, que dialoga com uma ilustração de Pedro Barateiro. De seguida encontramos o editorial, escrito à mão, e prosseguimos com artigos acerca dos mais diversos assuntos. O fabrico do manto Tupinambá, nas tribos indígenas brasileiras, da sua utilidade ancestral até aos museus ocidentais, num contexto colonialista. Um ensaio de 1954 de Katherine Duhnam (1909 - 2006), bailarina, coreógrafa e ativista norte americana. Uma entrevista à artista Laura Salerno; vários artigos onde artistas apresentam os seus projetos e os integram em determinadas áreas de estudo, como a prática do vodu inspirou um determinado projeto artístico; a improvisação ligada às sensações; a ética na dança; e terminamos com um ensaio visual de uma conversa que deve ser interpretada por duas pessoas, em sussurro, criando assim uma performance do próprio leitor.


jornal Coreia #13 (p. 4 e 5)


O formato de jornal permite não só esta acessibilidade tão necessária para a disseminação das artes, mas também permite o manuseamento livre de um objeto que permite essa mesma liberdade. Encontramo-nos quase a meio de um voo que nos cabe a nós interromper. Ritmo e interpretação são as palavras chaves para a fluidez que existe no discurso que dá uso à palavra criativa e ao conhecimento.

Em por exemplo a cadeira - ensaio sobre as artes do corpo, António Pinto Ribeiro, ao falar dos anos 60, explica que “A perfomance, por princípio, só acontece ao vivo e só o vivo é presente; não pode ser gravada, filmada, reproduzida, não pode entrar no circuito da representação das representações. A performance é não reprodutível, é esse o seu caráter ontológico.”, no entanto, quando termina o seu ensaio afirma o seguinte:

“O que constatamos é que a comunicação e a expressão corporal gozam de um estatuto de longevidade e de ‘durée’ — semelhantes àqueles que no passado eram reclamados pela Literatura, a Pintura e a Escultura — suficientes para que se considere que as Artes do Corpo já não são artes do efémero, são duradouras e, em confronto com a efemeridade das imagens audiovisuais, com a velocidade dos seus circuitos e com a sua total imaterialidade, tendem, cada vez mais, a ser uma resistência que opõe expressões lentas a este circuito audiovisual. As Artes do Corpo tornaram-se artes clássicas.”

Este ensaio é de 1997, altura em que começa a surgir o ‘boom’ tecnológico de que hoje somos reféns. Hoje em dia, as Artes do Corpo e a performance inserem-se neste universo digital que tem tanto de eterno como de efémero, sendo ainda verificável o que lemos neste ensaio. A performance tem de facto uma dimensão que nos obriga a abrandar, e é, a meu ver, na escrita que existe um lugar seguro de reprodução da mesma, entre a interpretação e o desejo da experiência.


referências:

por exemplo a cadeira - ensaio sobre as artes do corpo (1997), António Pinto Ribeiro.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

O Habitat do Jovem Artista - Espaços de Exposição Alternativos

Uma inauguração é um tempo-espaço estranho e viciante. Ninguém chega muito cedo, com medo de ser o primeiro, nem muito tarde, com medo de perder a exposição. Toda a energia vive, normalmente em cerca de duas ou três horas de conversas, bebidas e pausas de “vamos lá fora que aqui está calor”, acompanhadas por cigarros.

No meio de tudo isso vê-se arte e pondera-se os "comos" e os "porquês". São ambientes sociais e que, não fossem os locais e as obras sempre diferentes, se tornariam repetitivos rapidamente. Na pequena cidade de Lisboa a comunidade artística vai-se conhecendo muito facilmente ao frequentar este género de eventos, surgem os jovens artistas com sede de partilha. Nas grandes instituições estão os grandes artistas, e as inaugurações parecem algo muito elitista e pouco acessível, apesar de serem eventos populosos com entrada e comida gratuitos. Neste sentido, vão surgindo espaços alternativos de exposição, muitas vezes manipulados pelos artistas e não tanto por galeristas ou curadores, locais férteis de entreajuda onde as oportunidades se criam a elas mesmas.

Um destes eventos foi, por exemplo, a exposição “Nada Mais Que Isto”, que ocorreu dia 23 de agosto. Tomás Saraiva é um jovem artista que frequenta neste momento o mestrado de curadoria em Coimbra. O seu amigo Jaime Martins-Barata mudou de casa em agosto, e portanto, entre fins e inícios de contrato, com uma casa vazia, ainda por sofrer mudanças, surgiu a ideia de fazer uma exposição. A partir do texto “Contra a Interpretação” de Susan Sontag, numa exposição que durou apenas o tempo da inauguração, surgiu algo equilibrado e extremamente forte. A folha de sala, feita por Margarida Leal, tem de ser lida por um espelho, e pelas paredes da pequena casa íamos encontrando frases que remetiam a esta ideia da necessidade (ou não) de interpretação de um texto ou objeto artístico. Com artistas em estados de carreira distintos e um ambiente acolhedor, passou-se uma noite bonita sem grandes barreiras.


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No dia 19 de setembro inaugurou a exposição “Brincar É No Pátio!”. João Marques e Tatyana Cristina, ambos ex-alunos da Faculdade de Belas-Artes, abriram as portas do seu atelier conjunto em Carnaxide e deram a oportunidade a colegas e amigos de mostrarem as suas obras. Participaram mais de trinta pessoas nesta exposição que decorreu ao longo de três dias (19, 20 e 21 de setembro). A inauguração começou às 18h e estendeu-se até às 4h da manhã, com dj’s e músicos pela noite dentro que participavam também na exposição. Peças de parede, pinturas, fotografias, esculturas, objetos, livros e vídeos. Havia uma secção só com diários gráficos para consulta; obras que se adaptavam ao espaço, cerâmicas num tanque cheio de rãs que acompanhavam os dj’s; uma secção de mostra de videoarte ao ar livre; e hambúrgueres vegetarianos na grelha.


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A razão de ter decidido escrever sobre este tema foi uma inauguração que se passou na última sexta-feira, dia 24 de outubro. O coletivo W.A.S.P. é formado por um conjunto de estudantes de diferentes áreas, Odete Lopes (design), Tiago Verdasca (arquitetura) e Tiago Boto (pintura) e tem como objetivo a organização de eventos para integração numa comunidade artística, dando palco às mais diversas práticas. Esta última exposição tinha como título “Vogados” e passou-se num antigo escritório de advogados, tendo sido possível visitar nos dias 24, 25 e 26. Através de convite e open call, vinte e nove artistas apresentaram o seu trabalho. Organizado por salas, achei curioso o facto de cada uma ter uma atmosfera diferente, quase como se pertencessem a pequenos universos. Talvez porque a iluminação também variava de sala para sala, visto que não tinham acesso a eletricidade, a improvisação ganhou espaço através de fios que vinham do andar de cima e se ligavam a abajures de diferentes formas espalhados pelos escritórios.


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Estes espaços e eventos são o que fazem os jovens artistas sobreviver em Portugal. Iniciativas autopropostas, que alimentam a vontade de criação. Improvisos que dinamizam espaços e reestrutram o modo de pensar uma exposição. São as nascentes do que mais tarde chega às grandes massas e se considera “boa arte”, lugares de uma beleza imensa, onde tudo flui e comunica.


1. Vista da exposição "Nada Mais Que Isto", escrito "contra factos não há interpretações" numa parede com pilhas de livros do dono do apartamento.
2. Vista da exposição "Nada Mais Que Isto", escrito "conteúdo <3" na porta do frigorífico.
3. João Marques, Sete dias, 2024
4.Mapa da exposição "Nada Mais Que Isto".
5. coletivo ssensível, conteúdo ssensível, 2025. livro de artista à venda na exposição.
6. André Carreiro Oliveira, Grifo, O Trampolim Vertical, 2025
7. Sarah Pripas, Deixei a luz e fiquei com o ponto, 2024
8. Mapa da exposição "Brincar É No Pátio"
9. Wesley Barros, na minha casa a água da sanita é bebível, 2025
10. João Salvador, Armadilha, 2025
11. Rita Fonseca, Sem Título, 2025
12. Mapa da exposição "Vogados"

domingo, 19 de outubro de 2025

MOVING THROUGH IMAGES -- livros como guias criativos

    Ultimamente tenho-me confrontado com um extremo bloqueio criativo, refém das rotinas e da falta de tempo. Não quer dizer que a minha visão tenha sido afetada. No dia a dia já é intrínseco registar qualquer sinal de inspiração, seja através da escrita, do desenho ou da fotografia, mas por vezes torna-se difícil sofrer daquele momento mágico onde tudo se alinha. A cura para este mal pode surgir de uma de duas formas: descansando a mente, ao fazer coisas como dormir, viajar ou correr, por exemplo; ou exercitando-a. Comigo a segunda costuma resultar melhor. Encontro orientação no que posso apelidar de "guias abstratos". Com isto quero dizer um objeto ou acontecimento que me permita repensar de uma outra perspetiva. Podem ser exercícios autopropostos, ligados à escrita criativa, por exemplo, mas geralmente surgem em forma de livros ou publicações alheias.
Dois exemplos são Grapefruit, de Yoko Ono e Will Happiness Find Me, de Peter Fischli e David Weiss. Têm em comum o facto de ambos serem livros de artista, mas com configurações um pouco diferentes. O primeiro vê a imaginação como uma ferramenta que pode e deve ser provocada das mais variadas formas, criando exercícios mentais e físicos a serem realizados pelo leitor. O segundo questiona apenas tudo em seu redor, fazendo a interrogação conectar-se com o agora.
O acaso pode definir e reestruturar o nosso pensamento ou apenas solidificar certos conceitos que achávamos dispersos até então, porque nos coloca num lugar disponível e associativo. Posso dar exemplos concretos, ao abrir cada um destes livros em páginas aleatórias.


Grapefruit, Yoko Ono


Página esquerda

PAINTING TO EXIST ONLY WHEN IT'S COPIED OR PHOTOGRAPHED
Let People copy or photograph your paintings.
Destroy the originals.

1964 spring

Página direita

PAINTING TO HAMMER A NAIL
Hammer a nail in the center of a piece of glass. Send each fragment to an arbitrary address.

1962 spring



Will Happiness Find MePeter Fischli e David Weiss
Página esquerda
WILL CHILDREN SING SONGS ABOUT ME IN A HUNDRED YEARS? (303)

SHOULD I SATISFY MYSELF? (331)


Página direita
DOES(N'T) EVERYTHING ON TELEVISION HAVE SOMETHING TO DO WITH ME? (178)

AM I BEAUTIFUL? (276)

Estas páginas podem ser interpretadas das mais diversas formas, mas a curiosidade surge no mistério da página selecionada e o porquê da mesma fazer sempre sentido. A intenção da folha em ser escolhida, como se o folhear de um livro fosse um jogo de roleta, com poderes inimagináveis. A capacidade de uma frase ser tudo o que está por criar em cada pessoa que a poderá ler.


Moving Through ImagesDavid Gallo

O livro Moving Through Images - Explorations into Visual Reproduction, Perception and Randomness de David Gallo é composto por dois objetos. De forma muito descomplexada, podemos assumir um volume como sendo as “instruções” e o outro como um “produto” dessas mesmas instruções.


Moving Through Images (dois volumes)David Gallo



Esta publicação, de 2025, trata o tema da perceção e entendimento de imagens e espaços que navegamos no dia a dia. Explorando a forma como tudo isto nos afeta, o autor incentiva o leitor a analisar o que o rodeia. Somos encorajados a levar para as ruas da cidade estas instruções, cuja aparência se assemelha a um diário ou caderno de anotações. As pistas ou sugestões que podemos seguir surgem em seis formatos diferentes:

A - Direção, Fluxo, Padrão

B - Duração, Tempo

C - Atividade, Tarefa, Foco

D - Acústica, Som

E - Objeto, Material, Textura

F - Ambiente, Sensação



Prompt Book - Moving Through Images, David Gallo

Estas letras são utilizadas ao longo de ambos os volumes para identificar o tipo de consciência utilizado em cada página. Isto ajuda a filtrar algum tipo de estímulo específico que possamos procurar. Retirando o elástico que o sustenta, o formato do livro permite-nos reorganizá-lo da forma que entendermos, ou sermos surpreendidos pela aleatoriedade.

Convidando-nos à deambulação, vejo nesta publicação o espírito "flâneur", com objetivos mais delineados que um simples passeio. Ao abrir-mos numa página aleatória, temos sugestões de orientações. Estas podem ser para nos deslocarmos fisicamente ou para guiar uma certa linha de pensamento. Como se um fósforo se acendesse no escuro, são formas de dar luz ao que temos ao nosso redor.


Prompt Book - Moving Through Images, David Gallo

Página esquerda

Look for the letter X.
Where can you see it? hear it? perceive it?
What does it tell you?
Does it limit you in certain activities?


Página direita

Turn around. Then take the second left and move straight ahead until you reach a vacant lot (or a similar kind of open space).



O que mais me interessou nesta publicação, para além do seu elemento interativo (que facilmente cria uma relação de interesse egocêntrico com o leitor/intérprete), foi na verdade o estudo de si mesmo. No volume principal podemos encontrar o editorial e uma série de ensaios relacionados com a forma de perceção do mundo no quotidiano moderno, a forma como a digitalização da imagem modifica a nossa relação com as mesmas. A distinção entre um lugar e a reprodução do mesmo. Quanto podemos tirar de uma imagem? Para além disto, vemos também variadas imagens recolhidas pelo autor através da utilização das "instruções", com letras que nos indicam o tipo de consciência utilizada ao existir naquele lugar e números que nos levam a um índice no final do livro que nos diz o exato local e data onde aquela imagem foi capturada. Somos convidados a experienciar a vivência de outro alguém, deixando-nos no desconhecido e abstrato, o que só por si é também um exercício.
  



 - Objeto, Material, Textura  / 03 - 48º12'12.9''N 16º 21'33.6''E     Museumsplatz1, 1070 Vienna. Visited and documented on March 18, 2023.


 Moving Through Images, David Gallo

Este livro é um excelente exemplo da importância da colaboração para a saúde do imaginário. O universo das ideias é de cada um, mas sem os outros não nos encontramos a nós mesmos. É importante alimentar um ecossistema entre autor, leitor, intérprete e interpretado. No livro Uma Onda Na Mente - Textos seleccionados de Ursula K. Le Guin (Sr Teste Edições), a autora define a leitura como uma performance oculta. Afirma o seguinte:

"Ler é performance. O leitor — a criança debaixo do cobertor com uma lanterna, a mulher na mesa da cozinha, o homem na biblioteca — executa a obra. A performance é silenciosa. Os leitores ouvem os sons das palavras e o compasso das frases apenas no ouvido interior. Tamborileiros silenciosos em tambores mudos. Uma performance espantosa num teatro espantoso."

Este livro junta diversos textos e ensaios da autora de ficção científica onde, entre muitos assuntos, reflete sobre a ideia de imaginação, perceção e comunicação. Faz-nos compreender, em diversos instantes, o conceito de que os limites da imaginação e o que define uma regra de leitura está encarregue do autor claro, mas acima de tudo do leitor.

"O leitor, tal como o escritor, pode distorcer os termos deste contrato, lendo um romance como se fosse um relato de acontecimentos reais, ou um texto jornalístico como se fosse pura invenção."

Esta afirmação dá ao leitor um poder que ele desconhece, esta ideia de que o texto está nas suas mãos, no entanto, sempre refém do tempo, do espaço e do sujeito, três noções em constante mutação.


Tendo isto em conta, sabemos que da interpretação, seja ela aleatória ou premeditada, existe sempre a possibilidade da criação e isto implica um sentido de responsabilidade. Cai agora sobre o inspirado, a oportunidade de ser inspiração ao criar algo real e palpável, capaz de ser interiorizado pelo outro. Do mundo para o mundo, de boca em boca, assim é a liberdade da imaginação no quotidiano. O livro Moving Through Images desbloqueou em mim a tal magia, onde, de repente, tudo faz sentido, pois no acaso, na página aleatória, está a resposta a tudo aquilo que já sabemos em nós mesmos. Assim compreendemos a importância da escrita, no geral e do livro, em particular. Só assim se é inovador, a partir de tudo o que já foi feito.