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domingo, 1 de junho de 2025

Mayra Andrade, reEncanto - Teatro Sá da Bandeira

 

reEncanto de Mayra Andrade, Teatro Sá da Bandeira - 31 de maio de 2025





Apresentada a 31 de maio de 2025 no Auditório do Campo Alegre, como parte do Santarém Cultura, a apresentação "reEncanto", da cantora Mayra Andrade, foi uma viagem de música que foi além do normal. Ela trouxe algo maior , a cantora não só cantou, como regressou através da música a suas origens e nos convidou a participar nessa viagem conjunta. Acompanhada pelo o guitarrista Dodge Almeida, parceiro de palco que a cantora conheceu durante a gravação de um espetáculo de dança contemporânea,  resultado é "reEncanto", um dueto em perfeita simbiose para uma sessão onde as cores e os ritmos transmitem uma energia redentora,  a  cantora revistou o seu repertorio da forma mais simples, os dois apresentaram muita mais do que apenas uma simples performance musical, foi um regresso consciente às suas raízes, um voltar à essência do seu processo criativo, ao infinitamente íntimo. 

Durante os 75 minutos do concerto, o público foi conduzido por uma viagem musical despida de muitos aparatos, um concerto centrado apenas na voz e na guitarra. A simplicidade da performance revelou a profundidade das canções de Mayra, onde revisita o seu próprio repertorio de forma simples, a cantora apresenta faixas dos seus quatro álbuns, lançados entre 2006 e 2019. Foi em 2022, no lançamento do seu álbum "Manga", que nasce a ideia de voltar a simplicidade da formula original, da voz e guitarra. As notas são dedilhadas com tal delicadeza, que acompanham com ênfase as letras e as emoções, que revelou-se parte integral da narrativa emocional do concerto, fruto da cumplicidade aparente com o guitarrista.




O repertório, apresentou uma versatilidade e variedade linguística impressionante, partido desde o crioulo cabo-verdiano, francês, português ao inglês, refletiu não apenas a versatilidade linguística da cantora, mas como também a sua identidade nómada e cosmopolita. Cada música foi interpretada com uma performance que transitava entre a melancolia serena e uma celebração rítmica. A ausência de uma banda completa e produção exuberante, trouxe um aconchego maior ao público, além de um convite á escuta atenta e criação de uma conexão genuína entre o publico e a musica, assim como entre o publico e a própria cantora. 

“reEncanto” é, como o próprio nome sugere, uma espécie de reencantamento da música, do palco, e do seu próprio processo criativo, um momento de autorreferenciarão e reinterpretação ao vivo.  Em tempos de sum crescimento tecnológico constante, grandes performances, trazem uma saturação excessivas dos mesmos. Vemos na apresentação de Mayra Andrade, um momento de respiro, quase como uma suspenção momentânea, onde encontramos vulnerabilidade, uma partilha simples e o regresso ao que é essencial. A maternidade recente da artista e as reflexões que emergem dessa nova fase de vida parecem atravessar cada canção, atribuindo-lhes novas camadas de sentido e emoção.




É notória a cumplicidade com entre o guitarrista Djodje Almeida e a cantora, a guitarra não é mais apenas o acompanhamento da voz, é a extensão da voz de Mayra, é um instrumento de comunicação e dialogo. A base solida na qual todo o universo sonoro do concerto é construído.

O público respondeu com atenção reverente e emoção. A atmosfera foi de comunhão em um momento de desaceleras no mundo frenético no qual nos encontramos atualmente. “reEncanto” não é apenas um concerto: é um reencontro. Com a artista, com as suas origens cabo-verdianas e, surpreendentemente com partes de nós mesmos.



Durante o concerto não foi possível fazer qualquer tipo de registos fotográficos.

Webgrafia
Mayra Andrade (2025) reEncanto [concerto] Santarém Cultural, Santarém Portugal
imagens do Teatro Sá da Bandeira Santarém 






domingo, 18 de maio de 2025

Museu Bordalo Pinheiro

 

Museu Bordalo Pinheiro

Rafael Bordalo Pinheiro (1846–1905) é uma das figuras mais marcantes da cultura portuguesa da segunda metade do século XIX. Nascido em Lisboa, de obra vasta dispersa por largas dezenas de livros e publicações, precursor do cartaz artístico em Portugal, seu nome está intimamente ligado a caricatura portuguesa, entre seus irmãos estava o pintor  Columbano Bordalo Pinheiro, também ele um importante artista, com quem partilhou a tradição familiar dedicada às artes. 
Bordalo Pinheiro destacou-se pelo seu percurso singular e inovador, um artista multifacetado trabalhou nas artes gráficas, plásticas, cerâmica, desenho de objetos e decoração, criando uma obra vasta e profundamente crítica do quotidiano político, social e cultural do seu tempo.

Viveu num contexto de profundas transformações sociais e tecnológicas, marcadas pelo período do Fontismo, período que impulsionou o desenvolvimento industrial e modernizou diversos setores da sociedade portuguesa. Rafael Bordalo Pinheiro contribuiu muito para a consolidação do desenho humorístico e do cartoon enquanto formas artísticas legítimas e influentes. Consciente do poder da imprensa e meios de comunicação, usava a caricatura como veículo de crítica social e política, numa linguagem acessível a todos, mantem-se atual até os dias de hoje.

Criador do símbolo da cultura popular portuguesa, Zé Povinho, apresenta-nos um retrato fiel e irônico da sociedade oitocentistas 





O Museu Bordalo Pinheiro, encontra-se localizado no Campo Grande, em Lisboa. Logo na Avenida do Campo Grande somos recepcionados por um dos elementos mais curiosos e emblemáticos: uma escultura de grande dimensão do artista e um gato, obra de Rafael Bordalo Pinheiro, que se destaca na avenida. A escultura funciona como um marco visual que sinaliza, com humor e originalidade, o universo do artista. Apesar disso, o museu permanece discretamente escondido entre edifícios altos e a vegetação do bairro.

Localizada entre a Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e os altos edifícios da zona, a sua entrada é quase secreta: um pequeno portão esverdeado, discreto é que marca a entrada para ao museu. o visitante é imediatamente surpreendido por um pátio animado por pequenas andorinhas de cerâmica que "voam" pelo céu, suspensas por fios quase invisíveis, criando um efeito visual poético e inesperado. Espalhadas pelo pátio, encontram-se também outras peças em cerâmica que vamos descobrindo aos poucos, à medida que nos deslocamos. A entrada no museu propriamente dito é feita por um conjunto de portas, devidamente sinalizadas por letreiros, que nos conduzem até a recepção e à loja do museu, integradas no mesmo espaço. Ao todo o museu encontra-se dividido em 3 espaços, após a aquisição dos bilhetes, inicia-se a visita às exposições,


O Museu Bordalo Pinheiro conta com um acervo muito rico, distribuídos por diversas categorias, desde de Jornais, publicações fundadas ou ilustradas por Bordalo, que refletem a sua intervenção na imprensa e na crítica social; Desenhos, como esboços, caricaturas e ilustrações; Gravuras; Pintura; Fotografia: Registos visuais que documentam a época e o ambiente em que o artista viveu; Azulejaria; Cerâmica; Documentação, arquivos e materiais que contextualizam a vida e a obra do artista; Equipamentos e Utensílios, objetos que refletem o quotidiano e os costumes da sociedade oitocentista e Escultura, Mobiliário e Têxteis que complementam a compreensão do universo artístico de Bordalo Pinheiro.




No rés-do-chão, na exposição temporária Bordalo em Trânsito, somos apresentados em três núcleos os trabalhos do artista são esses: Bordalo ao espelho, Zé Povinho, Identidade e Política e Bordalo à Mesa. Esses núcleos incluem desde caricaturas, desenhos políticos a ilustrações para menus de eventos oficiais de relevância, alguns deles relacionados até à antiga colónia do Brasil  Ao final desta secção, surgem as primeiras peças de cerâmica, assim como objetos pessoais e fotografias do artista, que contextualizam a sua vida e obra, revelando uma faceta mais íntima de Bordalo. Neste primeiro contacto com o artista, já somos apresentados, as suas diversas facetas, assim como o seu lado politico, irônico e social, que se reflete nas suas obras, sejam elas gravura ou esculturas





A transição para o primeiro andar é marcada por uma pintura de Columbano Bordalo Pinheiro, irmão do artista, retrata Rafael de forma imponente e sensível, acompanhando-nos escada acima. No primeiro piso, seguimos a trajetória do icônico personagem Zé Povinho, desde sua concepção gráfica até sua materialização em cerâmica, passando por várias representações críticas da sociedade portuguesa da época. Esta sala reúne algumas das obras mais emblemáticas e politicamente carregadas do artista. É também neste piso que se encontra a sala de mediação cultural, onde acontecem atividades educativas e interativas voltadas para diferentes públicos, reforçando o compromisso do museu com a educação artística.


Ao sair do primeiro bloco expositivo, somos conduzidos a outra área do museu, que abriga a biblioteca e uma vasta coleção de cerâmica decorativa, mobiliário e objetos efémeros. Nessa secção, observamos peças com uma impressionante sobrecarga ornamental: azulejaria, mobiliário ricamente trabalhado e composições que demonstram o virtuosismo técnico e estético de Bordalo, revelando seu interesse pela decoração total e pelos detalhes exuberantes.





Por fim, visitamos a sala de exposições temporárias. Atualmente, está em exibição a mostra "Assemblages" de Júlio Pomar, criada em diálogo com a obra de Bordalo Pinheiro. Esta exposição, concebida para assinalar o centenário da morte de Rafael Bordalo Pinheiro, é uma celebração à altura do artista. Júlio Pomar deslocou-se à Fábrica Bordallo Pinheiro para criar, com base nos moldes originais de Bordalo, um conjunto único de peças de cerâmica que agora estão expostas. A mostra estabelece uma ponte criativa entre dois grandes nomes da arte portuguesa, promovendo um diálogo visual intenso e repleto de significados, agora expostas nesta exposição rica em detalhes e conceitos.




O Museu Bordalo Pinheiro revela-se não apenas com um espaço de memória, mas também um local de criação, experimentação, educação e acessibilidade. Com  um espaço arquitetonicamente acolhedor e uma programação cultural ativa, o museu destaca-se como uma instituição fundamental para a compreensão da fatia importante da cultura visual portuguesa. Ao combinar humor, crítica social e beleza estética, a obra de Bordalo Pinheiro continua a dialogar com os desafios contemporâneos. O museu transforma-se em muito mais do que apenas uma experiencia estética mas também um mergulho histórico em uma época marcada por intensas transformações sociais.




terça-feira, 22 de abril de 2025

Exposição: Christian Krohg (1852-1925), Le peuple du Nord

 

A retrospectiva de Christian Krohg no Museu D'Orsay, um olhar que retrata com profunda empatia o povo escandinavo 





Entre as estatuarias da ala central e os salões/galerias que albergam obras do academismo francês e grandes artistas como Courbert, Damier e Miller, encontramos uma pequena abertura (liberdade de apelidada de pequena comparativamente com a dimensão, não só em tamanho mas como em importância histórica), com uma segurança na entrada que timidamente nos faz o gesto e nos convida a entrar nesta outra dimensão ali criada.
Cosmopolita, estudou na Alemanha, visitei Paris diversas vezes, tornou-se um dos principais pintores do grupo de artistas de Skagen, na Dinamarca. Admirador dos realistas aos impressionistas, ele personificou as tendências pictóricas de sua época. Com isso em mente, é mais que natural que encontre seu lugar no Museu de Orsay, ao lado de seus pares. 

Ao passar pela  "pequena" porta, entre paredes brancas com pequenas obras em molduras, em letras grandes lê-se Christian Krohg, e os dizeres que cativaram os meus olhos "Le peuple du nord". E com ela a sensação de ter entrado em um mundo envolto nele mesmo, dato não só pelo título mas as dimensões das obras, nesse caso as telas que a exposição dispõe. Desde do primeiro instante, esse efeito das obras e o peso do texto que as acompanham eleva e aumenta a atenção do espectador, e como se por instantes somente estivesse eu e a obra em uma espécie de redoma de vidro, onde nenhum suspirar do "mundo exterior" fosse capaz de quebrar essa ligação, mesmo que por vezes de forma fugaz, o observador é encorajado a observar cada pincelada/detalhe ali representado - aqui as "didascálicas", aqui tomo a licença de fazer uso do termo utilizado especialmente nas artes cênicas, porque a retratação aqui apresentada é de tal forma real e intensa que, a linguagem teatral parece-me mais correta do que apelida-la de mera etiqueta/descrição. Não é feita distinção entre aquilo que é visto e aquilo que é lido, os dois conversam de forma simultânea, um ato de olhar e absolver a obra. 

                                             


Uma janela, uma janela para dentro da mente do próprio artista, um recorte na vida daqueles que para Krohg eram os mais vulneráveis, os invisíveis os quais sempre representou. O pincel na mão de Krogh, não era somente uma ferramenta de pintura, mas transformava-se numa espécie de lupa de aumento, quase como um microscópio, no qual retratava as cenas esquecidas na sociedade.
A disposição das obras levam a que elas criem seus próprios microcosmos; a exposição como o seu próprio universo dentro do museu, e cada parede, cada secção como um microcosmos, uma aproximação não só com a obra mas com o seu tema, a plasticidade da tela torna-se maleável, assim como a divisa entre a tela e o observador, o elemento invisível das obras não reflete somente na pessoa retratada mas em a quem a observa, em "La Barre sous le vent",  a utilização de texturas, acumulo de tinta em algumas zonas e a própria plasticidade da tinta e da pincelada, em contacto com a luz reluzente leva a esse elemento invisível quase tangível de vento molhado, que age com o mar conturbado atrás e cobre a face tencionada do personagem e  consequentemente a do observador também, como que se mesmo por um fração de segundos estivéssemos dentro daquele barco também.  



La Barre sous le vent !  [Hardt le] (1882) par Christian Krohg 

A exposição contextualiza a importância do artista no movimento realista e a sua relação como os artistas da época. Seu trabalho transcende a representação fiel do cotidiano e transforma-se em um manifesto contra as injustiças sociais. Transcende a simples execução da representação visual.

Krohg, transparece em suas obras os grandes debates sociais da sua época, debates estes que permanecem muitos atuais, suas pinturas fazem homenagens aos mais vulneráveis. Parecia interessada em congelar momento fugazes, quase como um repórter de rua, o elemento principal trabalhar a empatia com o seu publico. O enquadramento para o artista era de extrema importância, a arte deveria tocar o espectador de forma a suscitar empatia, tanto no seu conteúdo como na sua forma. A imagem não devia ser construída em termos de perspectiva, ele pinta seus modelos em intensa proximidade;
suas obras não trabalham apenas o realismo "fotográfico", mas todo um realismo de uma sociedade inteira esquecida e ignorada, o artista utiliza a pintura quase como um catalizador para falar do que realmente importa, as pessoas.

Vemos nas obras de Christian Krohg, a pinceladas conjuntas dos impressionistas como Manet e Gustave Caillebotte, estes enquadramentos ousados que criam a ilusão de fragmentos de vida tomados aleatoriamente, fez desta prática seu slogan "É tudo questão de enquadramento".


A exposição nos leva do enquadramento a pintura em família, passando pela arte social, a "Kristiania Bohemia". Este pequeno círculo de artistas, intelectuais e estudantes – incluindo os pintores Edvard Munch e Oda Krohg (nascida Lasson), e o escritor Hans Jæger, ao romance Albertine que foi imediatamente banido por ofender a decência pública; a história de uma jovem pobre que foi violentada e um crime na qual a sociedade vejo os olhos para, Krohg denuncia o tratamento injusto dispensado pelas autoridades norueguesas a essas mulheres, privadas de sua liberdade e sem lei que as proteja. 
Indignado Christian Krohg, defende na Suprema Corte, alegou que baseou sua história em um relato real de uma de suas modelos, sentia que era seu dever "revelá-lo ao mundo, para que todos pudessem ouvir", inspirando a sua grande pintura "Albertine na Sala de Espera do Médico da Polícia".


“Albertine na sala de espera do médico da polícia” [Albertine i politilegens ventevaerelse] (1885-1887) de Christian Krohg (1852-1925) – Nasjonalmuseet (Oslo)

Suas obras despertam certa inquietude e curiosidade, enquanto as pinceladas densas e imediatistas, nos convidam a aproximação e exploração.




O espaço de mediação cultural que encontramos no meio do percurso da exposição é um dos seus diferenciais. Permite aos visitantes uma experiencia ainda mais interativa e imersiva, independente das faixa etária. Com painéis explicativos, utilização de vídeo de caráter documental e atividades interativas, proporcionam um contexto mais amplo sobre a vida e o obra do artista. Consequentemente, provoca um dialogo mais profundo das obras e a própria exposição.
A construção desses espaços é fundamental, para aproximar a arte do espectador, incentivando o publico a refletir sobre os temas abordados nas pinturas e sua relevância contemporânea, tornando a exposição acessível tanto para especialistas quanto para o publico geral.