quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Comic Sans: como passou a ser tão odiada?

No outro dia, ao jantar, a minha mãe mostrou-me um trabalho que tinha feito para a aula dela. O que me chamou a atenção foi a tipografia: Comic Sans. Exatamente, Comic Sans. Claro que tive de lhe dizer para a mudar, mas não me deu ouvidos. Não sei se é só comigo, mas desde que comecei a estudar design sinto um pequeno ódio pela Comic Sans. Não é um ódio justificado, apareceu do nada, até porque já a usei no passado e agora parece-me uma coisa impensável. Mas de onde vem, afinal, o ódio a esta fonte?

A Comic Sans foi criada em 1994 por Vincent Connare, na Microsoft. Destinava-se aos balões de fala de um cão animado no Microsoft Bob, um programa pensado para tornar o computador mais acessível a principiantes. O objetivo era substituir a rígida Times New Roman nos diálogos das personagens virtuais e em software para crianças. A fonte inspirou-se nas letras de banda desenhada, nomeadamente em obras como Batman e Watchmen. Curiosamente, acabou por não ser usada no Microsoft Bob, porque não ficou concluída a tempo. Foi incluída no pacote Windows 95 Plus e, mais tarde, no próprio sistema operativo, e foi aí que tudo começou a descambar: passou a ser usada para tudo e não só para o fim que a originou.

Antes do Windows 95, a escolha de fontes e a impressão estavam, na prática, nas mãos de tipógrafos e designers profissionais, que sabiam quando usar uma tipografia formal ou informal. De repente, milhões de pessoas sem qualquer ligação ao design (professores, secretários, médicos, etc.) passaram a ter computadores em casa e no trabalho, com o Microsoft Word. Podiam criar os seus próprios convites, cartazes, avisos e lembretes. O problema é que a maioria das fontes disponíveis era rígida e corporativa, como a Times New Roman ou a Arial, e a Comic Sans era a única que parecia "humana", "amigável" e "divertida". Muitos utilizadores começaram assim a associá-la a uma comunicação informal e próxima, mas faltou-lhes o filtro crítico sobre a gravidade do conteúdo. Nas escolas, os professores adotaram-na em massa para fichas de trabalho e testes, convencidos de que tornava a aprendizagem menos assustadora para as crianças. Nos escritórios, era usada em avisos na cozinha ou na casa de banho («Por favor, lavem a loiça!»), na esperança de suavizar o tom da crítica, mas muitas vezes só resultava num tom passivo-agressivo. E em padarias, talhos, cabeleireiros e outras pequenas empresas, entrou nos logótipos e nas montras para que os estabelecimentos parecessem "de bairro" e acolhedores.

O ponto de rutura foi o uso da fonte em contextos de grande seriedade, onde a informalidade destruía a credibilidade da mensagem. Um dos casos mais famosos foi o dos cientistas do CERN, que usaram a Comic Sans numa apresentação em PowerPoint para anunciar a descoberta do bosão de Higgs, a chamada "partícula de Deus", em 2012. O contraste entre uma das maiores descobertas científicas do século e a estética de banda desenhada não foi bem recebido. 

Slide da apresentação do CERN sobre o bosão de Higgs, 2012

Outro exemplo aconteceu em 2010, quando Dan Gilbert, dono dos Cleveland Cavaliers, escreveu uma carta pública, furiosa, aos adeptos, a criticar a saída de LeBron James da equipa. A carta estava toda escrita em Comic Sans, o que lhe retirou o peso profissional e a tornou alvo de piada.

Carta aberta de Dan Gilbert aos adeptos dos Cleveland Cavaliers, 2010

À medida que a fonte aparecia em todo o lado, a comunidade de designers gráficos sentiu-se ultrajada. Em 1999, o casal de designers Dave e Holly Combs criou o movimento «Ban Comic Sans». A tentativa de a banir teve, no entanto, o efeito oposto: transformou a Comic Sans num dos primeiros memes da internet. A partir daí, o seu uso tornou-se irónico, e as pessoas passaram a usá-la de propósito por ser considerada feia ou desadequada, o que consolidou o seu estatuto como a fonte mais divisiva da história da informática.

No fundo, a Comic Sans não é uma má fonte, é uma fonte mal utilizada. Foi desenhada com um propósito claro, comunicar de forma leve e descontraída, e funciona quando usada nesse contexto. O que a tornou alvo de ódio foi o uso fora de lugar, aplicada a mensagens que exigiam seriedade só porque estava ao alcance de todos. A sua história mostra que a tipografia comunica antes mesmo de lermos as palavras, e que escolher uma fonte é também escolher um tom de voz. Quanto à minha mãe, vou continuar a insistir para que mude de fonte.