Em 2024 conheci o projeto Ma vie va changer (2015), através de uma exposição temporária, de Patrícia Almeida e David-Alexandre Guéniot. Passei uns dias com este projeto na cabeça e a pensar acerca das suas intenções. O que significava construir um álbum de família que, ao mesmo tempo, representava acontecimentos políticos, económicos e sociais?
Em 2026, numa visita ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, reconheci novamente o projeto, mas desta vez com uma nova capa e o seu título na contracapa: Ma vie va changer (2020). Era o mesmo projeto, com o mesmo espírito, mas havia qualquer coisa de diferente. O formato era mais pequeno, mais íntimo e, para mim, carregava uma certa melancolia que não conseguia ainda decifrar.
Ao pensar na relação entre as duas edições, tentei perceber: mas o que mudou, afinal? O que é que se mantém? E o que significa voltar a esta ideia de mudança cinco anos depois do lançamento da primeira edição?
Ma vie va changer (2015) é um projeto editorial e fotográfico que parte da vida em família de Patrícia Almeida e David-Alexandre Guéniot. Formalmente, a primeira edição aproxima-se de um grande álbum de família. É um livro de capa dura, com 27,5 × 40 cm, 98 páginas e 198 fotografias a preto e branco, publicado pela GHOST numa edição de 200 exemplares.

Ma vie va changer (2015), Patrícia Almeida e David-Alexandre Guéniot, editora GHOST.
Constrói um relato do presente, realizado entre 2011 e 2013, o livro reúne fotografias de família, desenhos infantis e recortes de jornais, colocados lado a lado e sobrepostos à esfera privada de uma família comum e os acontecimentos políticos e económicos que marcavam aquela época (a Primavera Árabe, a chegada da Troika à Grécia, Portugal e Irlanda, o terramoto e acidente nuclear de Fukushima, os movimentos de protesto contra as políticas de austeridade e a crise económica).
O livro acompanha também o crescimento de Gustavo e do seu amigo Gaspar. Gustavo tem cinco, seis e sete anos ao longo das imagens; Gaspar, nove, dez e onze. As crianças crescem enquanto, à sua volta, o mundo também se transforma. A família questiona a possibilidade de permanecer em Portugal ou procurar uma vida em França, enquanto a doença de Patrícia aparece e desaparece, regressando todos os verões. A doença, o crescimento, o trabalho, a família e a sua instabilidade económica passam, assim, a fazer parte do mesmo arquivo.
A própria ideia de álbum de família é, por isso, alterada. O álbum deixa de guardar apenas aquilo que pertence à família e começa a absorver aquilo que acontece à sua volta. A crise deixa de ser apenas económica ou política e passa a existir dentro de casa.
Em 2020, Ma vie va changer volta numa nova edição. Desta vez, apresenta-se num formato de bolso, de 12 × 16 cm, diretamente fotocopiado e encadernado numa capa de plástico transparente. A mudança de escala altera também a relação que temos com o objeto. Se o primeiro livro se aproxima de um álbum que pode ser partilhado e observado em conjunto, a segunda edição pede uma relação mais íntima, quase de um para um com o leitor..png)
Ma vie va changer (2020), Patrícia Almeida e David-Alexandre Guéniot, editora GHOST.
A capa transparente coloca o título na contracapa e surge apenas um texto editorial no final do livro. A frase In the end it was the economy, usada na capa, parece, neste contexto, adquirir um peso diferente, assume-se como uma conclusão.
A edição de 2020 é particularmente marcada pela ausência de Patrícia Almeida, que morreu em 2017. O que em 2015 era apresentado como um presente ainda aberto para o futuro passa, em 2020, a ser lido sabendo que esse futuro já aconteceu. A própria frase Ma vie va changer ganha, por isso, outro significado. Já não é apenas uma afirmação sobre aquilo que poderá acontecer, mas uma frase que foi atravessada pela realidade.
O interessante nesta obra não é, para mim, apenas o facto de existirem duas edições, mas sobretudo os cinco anos que existem entre elas. Embora sejam apenas cinco anos, a distância entre os dois livros parece muito maior. O primeiro olha para o futuro a partir de um presente incerto; o segundo olha para esse mesmo presente depois de acontecimentos que já não podem ser alterados.
Encontro nestas duas edições o relato de um tempo e de uma época e dos impactos que foram sentidos pela sociedade, tanto em Portugal como no resto do mundo, e que foram absorvidos por esta família como por tantas outras. A crise económica, as políticas de austeridade, a precariedade, a doença e a necessidade de tomar decisões perante uma situação colectiva de crise deixam de ser acontecimentos separados e passam a fazer parte de uma experiência omnipresente.
Através da fotografia de família e dos recortes de jornais, o livro aproxima-se de uma dimensão documental e quase fotojornalística, não porque pretenda representar objetivamente a realidade, mas porque utiliza a experiência de uma família como lugar a partir do qual observa a realidade. O próprio projeto tem sido descrito como uma renovação do livro político e de protesto a partir de uma perspectiva pessoal e íntima.
É também aqui que a ideia de mudança se torna mais complexa. A minha vida vai mudar. O que significa dizer que a nossa vida vai mudar quando sabemos que a mudança é inevitável, mas não conseguimos prever a direção que vai tomar?
Em 2015, a frase parece carregar uma expectativa. Existe ainda um futuro para o qual se olha, mesmo que seja incerto. O livro foi pensado como um fac-símile de um álbum destinado a ser aberto em 2030, como se fosse possível enviar para o futuro uma imagem do presente.
Em 2020, essa relação temporal altera-se. O futuro já não é apenas uma possibilidade. É também aquilo que aconteceu entre uma edição e outra. A frase permanece, mas já não pode ser lida da mesma maneira.
Talvez a diferença entre 2015 e 2020 não esteja apenas naquilo que mudou efetivamente, mas nas esperanças e no sentimento de incerteza que cada edição transporta. A frase permanece a mesma, mas já não somos nós que a entendemos da mesma maneira.