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quinta-feira, 21 de maio de 2026

“Se pudesse voltar a fazer tudo novamente” - As Quatro Mortes de Napoleão, Pedro Saavedra



“O ex-imperador jaz morto no seu leito da Ilha de Santa Helena e quatro boatos nascem sobre a causa da sua morte: um estrangulamento encomendado, um envenenamento propositado, uma morte natural ou até um suicídio honroso.” Este foi o tema da peça que assisti sobre os últimos momentos de Napoleão Bonaparte, apresentada na Sala Mário Viegas do Teatro São Luiz, na Baixa-Chiado. Com a duração de 1h10, a peça parte das últimas palavras proferidas de Bonaparte, “França, o exército, chefe do exército, Josefina”, e é dividida em quatro partes, cada uma correspondendo a uma das quatro possibilidades sobre a sua morte durante o exílio na Ilha de Santa Helena, em que apenas um ser humano assistiu, a sua fiel camareira. Apesar de todas as narrativas se cruzarem em certos momentos, cada ato possuía uma identidade própria, quer na narrativa, quer na construção do ambiente cénico e emocional.
    Na primeira parte, a peça começou com um contexto da ilha onde Napoleão estava exilado, envolta em nevoeiro, o que ajudava a criar um ambiente mais pesado e misterioso, não só pela narração mas também pelos sons e jogos de luzes. A primeira morte representada foi então a ideia de Napoleão ter sido envenenado. Pelo que me foi possível entender, insinuava-se que o cirurgião de Napoleão lhe teria dado o veneno. Foi nesta parte que descobrimos a personagem Maria, relevante nas próximas cenas, que escrevia cartas e que falava constantemente sobre ajudar alguém. No final desta encenação de morte por envenenamento, havia uma frase que se ia repetindo diversas vezes, algo como “se pudesse voltar a fazer tudo novamente”, dita pelo ator, Ivo Alexandre como Napoleão Bonaparte.
    Na segunda parte, a personagem Maria, representada por Paula Garcia, ganha mais destaque, tornando-se quase a personagem principal. Ela escrevia cartas e comparava Napoleão a alguém que estava constantemente a declarar guerra. Depois começava a descrever imagens muito fortes da guerra: homens a passar por cima de corpos mortos para sobreviverem e soldados muito jovens obrigados a lutar. A peça criticava assim o impacto humano das guerras e mostrava como pessoas inocentes eram arrastadas para os conflitos. Foi nesta parte da peça que surgiu uma frase que me marcou bastante, quando se dizia que os jovens eram “demasiado novos” para certas coisas, mas “demasiado velhos” para escapar ao sofrimento. A ideia principal era que a guerra existirá sempre, porque sempre existiu ao longo da História. É também nesta parte que Maria parece descobrir o que tinha acontecido ao marido dela, chamado Josef. No final, ela acabava por morrer sufocada na cama, numa cena bastante intensa.
    A terceira parte focava-se mais diretamente em Napoleão e no cirurgião. Enquanto conversavam, havia momentos em que um dos atores parava de falar diretamente com os outros personagens e fazia um monólogo mais interior, quase como se estivesse a pensar em voz alta. Isso ajudava o público a perceber melhor os pensamentos e conflitos internos das personagens.
    Na quarta parte, parecia que Napoleão fingia a própria morte usando o corpo de outra pessoa para escapar. Depois fugia para a América, continuando a acreditar que seria sempre imperador. Falava-se também da possibilidade de se ter atirado ao mar e morrer como um náufrago, ligado às ruínas de uma cidade submersa. No entanto, mais tarde dizia-se que tinha sido encontrado por um pescador. Esta parte misturava realidade e imaginação, deixando várias interpretações possíveis sobre o destino final de Napoleão.
Tendo em conta a complexidade toda da peça, esta era composta por muitos elementos sonoros importantes. Ouvia-se, por exemplo, o som de pancadas nas paredes e água a cair do teto para dentro de um balde. Esses sons ajudavam a criar tensão e contribuíram para o ambiente mais sombrio da narração. Quanto ao espaço cénico, a plateia estava muito próxima do palco, o que tornava a experiência mais intensa e envolvente. A iluminação também estava muito bem conseguida, principalmente nas transições entre atos.
    Existia também uma personagem secundária muito interessante, um homem vestido com roupa normal que estava constantemente a mexer nos objetos da cena. Tirava quadros, colocava cartas na mesa, organizava papéis, penas e outros objetos. Apesar de quase nunca falar, parecia ter um papel simbólico importante, quase como alguém que controlava ou organizava a memória da história. Em certos momentos, ficava apenas a observar Napoleão em silêncio.
    No geral, a peça funcionava como quatro histórias diferentes sobre quatro possíveis mortes de Napoleão. Ao mesmo tempo que mostrava a sua glória enquanto conquistador, também revelava a sua derrota e fragilidade humana. Cada morte simbolizava uma forma diferente de queda: o envenenamento, a sufocação, a fuga e a falsa morte. A peça acabava por mostrar que, apesar do poder e da fama, Napoleão continuava a ser humano e vulnerável.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Coleção Presença Portuguesa na Ásia - Museu do Oriente

O Museu do Oriente, fundado em 2008 e localizado à frente do rio, na Doca de Alcântara, afirma-se como a representação da presença portuguesa na Ásia, especificamente na Índia, no Sri Lanka, na China, em Macau, no Japão e em Timor-Leste, como se confirma pela sua vasta coleção de mais de 3.400 objetos artísticos e documentais como mobiliário, marfins, têxteis, arte sacra, porcelana, pintura e escultura datadas de 3000 a.C até meados do século XX. 

Este Museu pertence à Fundação Oriente, fundação portuguesa constituída em 1988, instituída pela Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM) e parceira da Fundação Eng. António de Almeida e a Fundação Calouste Gulbenkian no âmbito do Centro Português de Fundações (CPF). Esta tem como missão, ações de caráter cultural, educativo, artístico, científico, social e filantrópico que visem a valorização e a continuidade das relações históricas e culturais entre Portugal e o Oriente.


A sua coleção, apelidada de “Coleção Presença Portuguesa na Ásia”, encontra-se organizada em três núcleos por países e regiões. O primeiro núcleo, focado na China e em Macau encontra-se assim que se sobe as escadas para o 1º andar, com uma parede composta por uma grande variedade de loiça chinesa, de diferentes propósitos, e separada por temas, tais como, os prazeres da vida, ao ar livre, a poesia, a expansão da fé cristã e temas satíricos, com o nome de “Para além da taprobana”, antigo nome de origem grega utilizada para designar a atual ilha do Sri Lanka, referindo-se ao paraíso descrito em “Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões. 



Do outro lado desta primeira sala, encontramos expostos algumas pinturas realizadas maioritariamente por George Chinnery (1774 - 1852), pintor inglês que viveu a grande maioria da sua vida em Macau e consequentemente, desenhou muito das suas paisagens e da população local. Juntamente com as pinturas, as suas legendas não só descrevem a parte formal da pintura (o tamanho, material, data, etc) mas também descrevem a pintura quase de forma cómica, como se nos contasse a história do que está a ser retratado, como se estivessemos mesmo à frente daquele cenário a acontecer. 


George Chinnery (1774-1852) - Homem Tocando Contrabaixo
George Chinnery (1774-1852) - Homem Tocando Contrabaixo


            Depois de completarmos esta primeira sala, à nossa esquerda, temos então o segundo núcleo, dedicado a Timor-Leste, ao Japão e à Coreia. Esta secção encontra-se dividida apenas por vitrines de vidro e pelos nomes das regiões, ou seja, sendo esta uma área bastante aberta, se não estivermos a prestar atenção é muito possível perder a noção da transição geográfica. O facto de estar bastante escuro também não só dificulta a distinção entre as áreas geográficas, mas também dificulta a leitura das legendas. 



Quanto aos artefatos presentes, estes são bastante diversificados, como objetos do quotidiano doméstico do povo timorense: portas, bancos, panos, facas, um descaroçador de algodão e estátuas representativas de antepassados e de motivos religiosos de Timor-Leste. 



Quanto ao Japão, estão presentes armaduras de guerra, trajes tradicionais e joias em boa condição. No canto da sala, existe uma pequena coleção de fotografias de paisagens da Coreia e apenas uma caixa para medicamentos. 



Do outro lado da sala, temos mais uma vez uma coleção com peças chinesas. Desta vez, a área é dedicada à pintura e à caligrafia, com diversos exemplares de paisagens, cenas do quotidiano e caligrafia em rolos de grande dimensões. Infelizmente apenas algumas pinturas continham uma tradução do que estava escrito, no entanto, esta foi a minha parte favorita de toda a visita, não só pela beleza dos desenhos mas também pela grandeza e pela quantidade de detalhe que estas peças de arte possuíam. 

É também importante mencionar que, nesta parte da exposição, muitas peças vieram de colecionadores privados que decidiram doá-las ao museu. Além disso, algumas das obras expostas pertenciam a outras associações nacionais e internacionais e não apenas ao próprio museu. Isto evidencia o esforço da instituição para ter sempre peças novas, bem como a sua abertura em partilhar conhecimento e artefactos com outras partes do mundo. Esta colaboração permite chegar a um público maior, notando-se ainda que alguns artefactos da coleção permanente não estavam nesta sala por estarem, precisamente, a ser expostos noutras organizações.



Por fim, à direita do primeiro núcleo, encontramos a última área da exposição. Esta secção apresenta artefatos maioritariamente da Índia e do Sri Lanka, e em reduzida quantidade da Tailândia e do Mianmar, com mais algumas peças do Japão. É nesta sala que existe uma maior contextualização de Portugal no Oriente e não só sobre os países e regiões em si, acabando por influenciar as peças expostas neste núcleo, por exemplo, a existência de pinturas de clérigos e de missionários portugueses. Muitos dos objetos que se podem observar são de cariz religioso não só trazidos pelos portugueses mas também feitos pela população local com materiais regionais, como crucifixos, custódias e navetas. A coleção inclui ainda pinturas, objetos quotidianos e algumas joias.



            Quanto a esta última parte da exposição, senti que não havia uma grande variedade de peças e que muitas delas orbitavam sempre o mesmo tema. Se relacionarmos este núcleo com o anterior, este parece muito focado apenas no que os portugueses fizeram nestas áreas geográficas, não contendo muito da cultura local, contrariando, por exemplo, a área dedicada a Timor-Leste. Além de a coleção ser pouco diversificada, havia algumas falhas por parte do museu: como as salas eram bastante escuras, foi necessário colocar luzes muito próximas de certas peças e pinturas de grande dimensão, o que causava reflexos que impossibilitavam a observação clara das obras. Além disso, notei que algumas peças expostas continham texto noutro idioma que não foi traduzido e nem sequer tinha legenda, havendo aqui um certo descuido por parte do museu para com o visitante.



Considerando a visita toda do museu, com uma duração de cerca de duas horas, e pelo preço, diria que foi uma exposição bastante interessante com peças muito bem preservadas, com uma grande variedade e que recomendo a todos para que conheçam mais sobre Portugal no Oriente, assim como as suas próprias culturas. No entanto, não podendo nos esquecer da existência de partes onde o museu certamente pode melhorar para elevar a qualidade desta exposição permanente para todos os visitantes, tendo em conta os motivos que mencionei ao longo do texto. 

Para terminar, é importante referir que esta exposição tem uma componente digital, onde algumas peças em exposição têm um qr code e ao se fazer scan com o website “www.zoomguide.app”, é possível não só ver todas as peças da coleção mas também ler informação adicional sobre cada peça, quer seja em português, inglês ou em outra língua suportada pela página.