entrevista por Nina Paim
Bikini Books e Clube do Livro do Design
Encontrei este livro numa aula de Estudos em Design, o professor tinha o livro pousado sobre a mesa e a pequena e vibrante capa vermelha e o título captaram a minha atenção rapidamente – design, feminismo e amizade, qualquer um dos assuntos me é grato, os três abordados no mesmo livro deixaram-me mais do que curiosa. Folheei o livro e quis ficar logo ali a lê-lo, mas estava numa aula. Nesse mesmo dia, encomendei o meu exemplar.
Nas primeiras linhas, reconheci algo da minha própria história: a voz de uma designer que, como eu, começou a estudar nos anos 1990, antes de o feminismo fazer parte do vocabulário do design.
Briar Levit nasceu em 1976, como eu, e também começou a estudar design na mesma altura que eu. Vivemos em contextos muito diferentes, mas partilhamos essa sensação de ter crescido num campo profissional que, durante muito tempo, se quis neutro ou que preferiu acreditar na neutralidade do design. A ideia de que o design é um serviço “objetivo”, alheio à política e às emoções, foi o pano de fundo da nossa formação. Só mais tarde, tanto para Levit como para mim, surgiu a pergunta: de que forma é possível integrar o ativismo – feminista, social, político – na prática concreta do design?
O conteúdo deste livro parece nascer desse lugar de inquietação e descoberta e a sua publicação, numa co-edição da Bikini Books (uma editora feminista) e do Clube do Livro do Design (uma comunidade virtual dedicada à troca de ideias sobre design gráfico, criatividade e comunicação visual, que se torna uma editora com a publicação de Inimigas Naturais dos Livros: uma história conturbada das mulheres na impressão e na tipografia) é de uma coerência surpreendente.
Sobre design, feminismo e amizade não é um manifesto nem um manual. É, antes, uma conversa entre Briar Levit e Nina Paim, editora da Bikini Books e também designer. Num tom refrescantemente despretensioso, fluído e acessível, traz-nos testemunhos reunidos por Levit ao longo de anos de trabalho como designer, professora e editora. Levit não tenta definir o que é o design feminista, nem traçar fronteiras teóricas; o que faz é abrir espaço para escutar diferentes vozes e formas de fazer. A sua voz é direta, curiosa, por vezes quase íntima e talvez seja isso que torna o livro tão acessível e tão necessário.
Logo nas primeiras páginas, Levit reconhece que o feminismo chegou tarde à sua prática de design. Essa confissão tem algo de libertador, porque expõe a fragilidade e o percurso gradual de quem tenta reconfigurar a própria profissão a partir de um novo olhar. Ao longo do livro, ela fala de experiências de trabalho, encontros e conversas com colegas, ex-alunas e amigas que partilham essa mesma transição: o momento em que percebem que o design, longe de ser neutro, está cheio de decisões que traduzem valores, exclusões e hierarquias. A tipografia, a cor, a linguagem visual, tudo comunica escolhas ideológicas, ainda que nem sempre conscientes.
Levit propõe outro modo de pensar o design: como prática relacional. Aqui entra o terceiro termo do título – amizade. E é talvez essa a sua contribuição mais bonita. A amizade surge não apenas como um afeto pessoal, mas como uma ética profissional. Ser amiga, no contexto do design, é saber ouvir, partilhar saberes, cuidar do outro. É recusar o isolamento autoral e o mito do designer genial que resolve problemas sozinho. Essa ideia ressoa profundamente na minha própria experiência: no design que aprendi e pratiquei, a competição e o ritmo produtivista muitas vezes abafavam qualquer forma de cuidado ou escuta. A amizade, tal como Levit a descreve, torna-se um gesto político: uma forma de resistência às lógicas de mercado e de exclusão.
O livro chama também a atenção para a dimensão histórica dessa exclusão. Levit dedica parte da obra à redescoberta de designers mulheres que foram apagadas das narrativas oficiais – algo que já vinha explorando no seu documentário Graphic Means (2017), sobre as práticas gráficas anteriores à era digital. O que ela mostra, tanto no filme como no livro, é que o design é tecido de muitas mãos e muitas vozes, mas as histórias contadas continuam a privilegiar apenas algumas. Ao trazer de volta essas presenças esquecidas, Levit não procura apenas fazer justiça, mas questionar a forma como o design constrói a sua própria memória.
Essa reflexão histórica ganha força quando pensamos na maneira como o feminismo e o design se cruzam em diferentes geografias. Levit escreve a partir dos Estados Unidos, num contexto onde o feminismo de “quarta vaga” e as discussões sobre interseccionalidade já estão bastante presentes. Ler o seu livro em Portugal é perceber tanto as afinidades como as distâncias. Por cá, ainda é bastante pontual que o feminismo entre no discurso do design de forma explícita. Existem exceções – coletivos, editoras independentes, práticas colaborativas – mas a academia e, sobretudo, o mercado continuam marcados por estruturas muito tradicionais. Nesse sentido, Sobre design, feminismo e amizade funciona como um espelho que nos devolve uma pergunta: que tipo de design queremos fazer, e com quem?
Há também no livro uma recusa da rigidez disciplinar. Levit fala de design como campo expandido, em diálogo com a escrita, a edição, a pedagogia e a amizade enquanto prática crítica, uma cultura em transformação. A forma como Levit escreve, sem jargão técnico e sem pretensões académicas, mostra que o discurso sobre design pode ser claro, empático e inclusivo, sem perder profundidade.
Enquanto leitora, senti-me acompanhada por uma voz que fala a partir do meio, não de cima. O livro não impõe certezas; propõe perguntas. E talvez seja isso que o torna tão útil para estudantes e profissionais. Levit mostra que o feminismo pode atravessar o design de muitas maneiras – na escolha de colaboradores, na valorização das relações, na atenção à linguagem e à representação.
Terminei a leitura com a sensação de que o design, afinal, não precisa de se reinventar por completo para ser feminista. Precisa, isso sim, de se abrir à amizade – à conversa, à escuta, à generosidade. É um convite simples, mas radical: pensar o design como uma rede de relações, e não apenas como um produto final.
Ao olhar para a capa do livro, percebo agora o que me atraiu naquele título: Sobre design, feminismo e amizade não é apenas uma enumeração de temas, é uma sequência de gestos. Primeiro, o design como prática; depois, o feminismo como consciência; por fim, a amizade como modo de estar. Talvez seja essa a verdadeira proposta de Briar Levit e o que torna o seu livro tão urgente.
Num momento em que o design enfrenta a pressão da tecnologia, do marketing e da produção acelerada, Levit lembra-nos de que o que sustenta o nosso trabalho são as relações humanas. E que, ao relembrar e cuidar as amizades que nos formam, estamos também a redesenhar o próprio campo do design.
Já agora, spoiler alert: o livro deixa-nos tantas referências e sugestões bibliográficas que se expande a si mesmo. Um livro com menos de 150 páginas revela-se afinal uma biblioteca do design gráfico feminista.
Imagens retiradas de: https://clubedolivro.design/products/sobre-design-feminismo-e-amizade

