segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Towards a Self-sustaining Publishing Model — A ten minute lesson / rant/ manifesto

Correndo o risco de me tornar repetitivo, volto neste texto a referir a feira Print Pause Lisboa como um recurso e momento importante para os interessados na pesquisa de autores e editores independentes e atuais. Foi nesta feira, logo em frente da porta da entrada e por entre diferentes mesas repletas de livros, que me deparei com a Ediciones Malamaña. A editora é uma casa/atelier sediada na República Dominicana e dedicada à produção artesanal de objetos e livros independentes que vivem nas margens da produção industrial. Criam fanzines e outros objetos utilizando diferentes técnicas de impressão e inúmeros materiais e procuram assim inspirar o crescimento da comunidade de editores independentes, ainda pequena no seu país.

Entre as poucas publicações que restavam na mesa desta editora deparei-me com um pequeno livreto intitulado “hacia un modelo de publicación autosustenible” de Marc Fischer, encabeçando-o estava um folheto A4 dobrado em quatro, onde se lia “¿Por qué autoeditar bjao el fascismo?” do mesmo autor.


Marc Fischer é um artista baseado em Chicago, autor de mais de 100 publicações desde 1988. Criou e é responsável pela editora Public Collectors — fundada em 2007 — que tem como propósito a criação de um arquivo intelectual comunitário e acessível a qualquer um em qualquer lado. Muitas das suas publicações refletem sobre a atualidade e a construção de uma identidade artística que rejeita a capitalização da sociedade moderna. Adquiri estes dois breves textos que achei interessante partilhar, dando um seguimento natural à minha área de pesquisa iniciada neste blog.



“hacia un modelo de publicación autosustenible”, editado e traduzido para espanhol do texto original “Towards a Self-sustaining Publishing Model: A ten minute lesson / rant/ manifesto” e publicado por Public Collectors. Nele, o autor expõe a sua visão sobre os mais de 30 anos de atividade no ramo da autoedição. O texto apresenta-se como uma palestra, e serve para motivar os interessados em enveredar pelo ramo. Utilizo portanto esta oportunidade para difundir a mensagem.





Inicia-se um discurso que imediatamente nos transporta para uma masterclass onde o autor nos convida a absorver as suas palavras, que serão breves e essenciais. A atividade do editor será uma aventura motivada pelo próprio e pela relação que um estabelece com o seu público. Fischer reflete sobre a necessidade de este criar prolificamente e de procurar utilizar qualquer contexto para poder publicar algo, seja uma fanzine, um photobook, um pequeno livro ou um extenso editorial. “Haz lo que necesites para poder imprimir en casa.” Imprimir utilizando os recursos disponíveis em casa — “(…) una impresora laser inkjet barata, una fotocopiadora de segunda mano, una RISO o cualquier otra dublicadora, esculpe algo en una batata o en un pedazo de foam y usalo para imprimir.” confere à criação uma maior imediatidade. Claro que, neste caso, o investimento numa impressora RISO não será o melhor conselho — os custos associados à técnica pedem um grande compromisso financeiro. Ainda assim, sem os constrangimentos que se levantam com a dependência de uma gráfica, e respondendo às limitações dos recursos disponíveis (seja a nível de formato, cor, papel), a criação tem oportunidade para adaptar e florescer. “Esta habilidad de imprimir impulsiva y compasivamente, con un poco de suerte, resultará en buen trabajo.”


O autor enaltece a criação de comunidade em diferentes pontos, seja na colaboração entre diferentes criadores, seja também entre o criador e o leitor, tal como entre o criador e os fornecedores/produtores. 

“Arma un equipo con tus amigos y cómprenla (uma máquina barata para imprimir) para que la puedan compartir. Empieza un colectivo en tu sótano.” Pensemos também nos coletivos e na construção de uma comunidade como uma oportunidade para amadurecer a prática artística, usufruindo de um ambiente saudável e crítico na troca de impressões, a partir do qual certamente poderão resultar ideias interessantes e projetos fundamentados sobre alicerces fortes.


O autor aconselha “Siempre manten en contacto con las personas que le gusta lo que haces.” Favorece o contacto direto com o consumidor para com ele estabelecer uma maior intimidade e lealdade. Dito deste modo, parece quase uma estratégia de comercialização do contacto humano. No entanto é importante ter consciência do papel que ambos os lados incorporam e da simbiose com que se relacionam. Sem um, o outro estaria um pouco menos completo. A arte fortalece comunidades, e as comunidades alimentam a arte.

Não obstante, o dinheiro — um ponto amplamente referido ao longo do livro — tem um papel fulcral nesta relação que se vai estabelecendo entre o artista e a comunidade. Querendo o autor fomentar a troca de ideias e pontos de vista acessíveis a todos, também os objetos que vende devem resultar dessa mentalidade. Este modelo serve um modo de criação livre de responsabilidades de uma fonte de rendimento primária.


A capacidade de auto-sustentabilidade refere-se portanto ao ciclo que será criar, publicar e vender para novamente conseguir criar e publicar. É importante então procurar uma produção honesta e simples “Haz cosas que tengan un precio justo y que se vean y se sientan que vale la pena pagar eso por ellas.”. Também a relação que é criada com os fornecedores apoia este método de criação de baixo custo. No estabelecimento de uma relação íntima e constante com, por exemplo, pequenos fornecedores de papel, gráficas do nosso bairro, encadernadores e tipógrafos próximos de nós; conseguimos encontrar as melhores oportunidades para o nosso bolso. Mesmo quando pensamos em distribuição, tomemos em consideração as pequenas editoras que estão presentes nos eventos a que temos acesso. “Dile a Jeff Bezos que se joda y nunca nunca vendas algo en Amazon.” Atualmente, e com os avanços tecnológicos que melhoram diferentes aspetos das nossas vidas, o acesso a plataformas de compra e venda de publicações independentes, arte ou artesanato, foi substituindo muitos dos recursos físicos que ao longo de tantos anos serviam os interesses das pessoas de uma cidade. Podemos, em Portugal (em Lisboa ou qualquer outra cidade) comprovar e sentir a falta que estas lojas, bibliotecas ou alfarrabistas fazem à identidade da cidade. A produção mais premeditada, pensada e independente alia-se também à preservação destes espaços. Tal como na relação com o leitor, o cliente, também a relação entre o produtor e o distribuidor beneficia do apoio mútuo que dão.


O autor termina o discurso dizendo que esta prática cria uma ligação quase familiar com as pessoas à sua volta. São pessoas com quem se encontra nos eventos e feiras de livros independentes. São os fornecedores, são os colaboradores, são as lojas e livrarias independentes. É importante manter e alimentar estas relações porque todos beneficiam do papel que cada um tem no ciclo da produção.


Acho que é um pensamento bonito, este de criar humildemente e partilhá-lo com as pessoas que admiramos e respeitamos.

“Eso es todo lo que tengo por ahora. Mantente en contacto y con suerte nos veremos en alguna feria de libro.”