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sexta-feira, 3 de junho de 2022

Evocação de Percurso: Automatismo Psíquico e Exploração do Acaso

 

     Eurico Gonçalves  nasceu em 1932, em Abragão, Penafiel. Exercendo a sua atividade sobretudo na área da pintura, é também professor, poeta, ensaísta e crítico de arte. Aos noventa anos, no período de confinamento (2020-2021), na pandemia por Covid-19, realizou os trabalhos patentes na exposição Evocação de Percurso: Automatismo Psíquico e Exploração do Acaso, na Galeria Malangatana do Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida.


    Eurico Gonçalves na "pintura gestual" por si desenvolvida é rápido, imediato e conciso, executando os seus quadros em segundos. Os signos são codificados e inventados no momento. O pintor gestual recupera o instinto da pintura infantil, voltando às origens, mas com uma nova intencionalidade estética e consciencialização. Os signos, inteiramente inventados através da execução, não são letras nem números, mas signos não codificados de uma pré-escrita espontânea, que revela arquétipos do inconsciente coletivo. Desde há muitas décadas que desenvolve estes pressupostos plásticos e pictóricos automáticos.

  

   Os signos de Eurico Gonçalves associam-se à colagem e pintura e outras técnicas «o que pretendo é experimentar a vocação expressiva da minha pintura-colagem e o sentido mágico que deriva de um “ritual”, que consiste em jogar com os valores cromáticos de formas imprevisíveis, obtidas através do ato de recortar, rasgar e colar».

 

    Segundo Eurico Gonçalves, “voltar às origens”, significa questionar conceitos de progresso e de civilização, redescobrindo-se «curiosas analogias entre a arte dita primitiva e a arte contemporânea, entre a pintura infantil e a pintura moderna, entre a infância do homem e o instinto criador».

 


   O gesto está na origem da linguagem. A linguagem gestual é universal, uma tendência inata do homem para se exprimir. A pintura gestual não ilude. É o que é, na sua expressividade imediata, revelando signos ou arquétipos do inconsciente coletivo, que fazemos instintivamente, desde a infância.

 


    O automatismo é feito com a intenção de revelar o ser através do fazer, de uma forma espontânea e direta, sem retoque nem correção. Essa inocência primordial, que vem desde a infância, não se pode perder.

"Eu pinto porque estou preocupado com o lado desconhecido da vida, o lado oculto da vida. Com a exploração do acaso, o lado imprevisto da vida".

 A sua obra está ainda longe de ser compreendida com a amplitude que merece e embora seja sobretudo reconhecido como pintor, também há quem veja nele o professor e o crítico. No seu percurso artístico, conta com uma fase inicial surrealista evoluindo para um abstracionismo não-geométrico e gestual, que valoriza a mancha e o traço livre e impulsivo. Esta pintura tem o intuito, como o próprio artista disse “reduzir-se a pouca coisa ou quase nada, em função do vazio libertador”.

 

 

 


terça-feira, 17 de maio de 2022

Menez

Uma exposição antológica na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, revisita quatro décadas da obra de Menez.

Sendo residente em Cascais visito com alguma frequência a Casa das Histórias Paula Rego. Atualmente está patente neste espaço, entre 10 de março e 2 de outubro de 2022, a exposição temporária “Menez”, com curadoria de Catarina Alfaro. 

Menez (1926-1995) foi bolseira da Fundação Gulbenkian em Londres, por duas vezes durante os anos 60, onde conheceu Paula Rego e ficaram amigas. Esta exposição pretende celebrar a relação de amizade entre as duas artistas, que perdurou por várias décadas.

Menez, Maria Inês Ribeiro da Fonseca, nasceu em Lisboa, em 1926. Neta, por parte materna, do Marechal Óscar Carmona, tinha dois anos quando saiu de Portugal, passou a infância e adolescência em vários países/cidades (Buenos Aires, Estocolmo, Paris, Roma, entre outras) seguindo as escalas do segundo marido da mãe, diplomata. Só regressou a Portugal depois dos vinte anos, casou e teve três filhos. Apesar de ter começado a pintar aos treze anos, sem qualquer treino académico, só faz da pintura uma ocupação regular vinte e seis anos. Tardiamente, aos sessenta anos, é que se tornou conhecida do grande público, em 1990, quando apresentou em simultâneo cinco exposições individuais, sendo a principal uma retrospetiva na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. No mesmo ano a artista é distinguida com o Prémio Pessoa.

A exposição “Menez” composta por 29 obras da artista, criadas entre os anos 60 e 90, que provêm de coleções institucionais e particulares, está organizada cronologicamente, da esquerda para a direita, iniciando nos anos 60, com obras de Menez de um expressionismo abstrato e terminando nos anos 90, com obras da artista de caráter figurativo. Trata-se de uma retrospetiva da obra de Menez, permitindo uma compreensão abrangente das suas diferentes fases e práticas, pintura, desenho, gravura, azulejo e tapeçaria. Por ser a minha expressão artística de eleição, irei abordar aqui a pintura e, nela, a temática do atelier, que me seduz pela forma original como a artista representa a arte, sobretudo, a pintura da pintura no feminino.


Na parede central da sala Zero podemos observar pinturas de Menez, criadas nos anos 80, numa clara transição do abstrato para o figurativo. Após a morte prematura dos filhos, a pintura da artista abre-se para um caminho de figuração, que revela sentimentos e imagens profundas. Através da pintura do seu espaço de atelier, com os seus habituais elementos como tintas, pincéis, recipientes, tela branca, a artista revela uma certa intimidade.


Na parede lateral direita da sala Zero estão expostas pinturas da fase final da vida da artista, anos 80 e 90. Estes quadros parecem ser auto retratos, é a pintora, a artista. Em algumas destas obras a própria pintora parece representar-se como modelo, mas as protagonistas destes quadros fazem parte de uma composição cenográfica e, por isso, são irreais. Este modo de se auto retratar, sem estar representada, permite uma teatralidade dos cenários pintados.

Os ateliers da fase final da vida da artista são cenas de interior que comunicam com o exterior, uma janela para o rio, uma porta para o jardim, mas onde nunca há uma proximidade entre estes dois espaços. Entre o interior e o exterior existem salas fragmentadas e espaços sobrepostos. Estas pinturas poderão ser extensões do seu modo de "habitar" o espaço dentro e fora da pintura.

Menez não dava título aos seus quadros, acreditava que a pintura tem de falar por si sem recorrer à palavra. Aceitar a absoluta imobilidade das suas figuras femininas, a descontinuidade do tempo e do espaço, a fragmentação, os silêncios das suas pinturas, é talvez a melhor forma de nos relacionarmos com a artista.