sábado, 2 de maio de 2026

Bordalo ainda se ri de nós | Museu Rafael Bordalo Pinheiro

A visita ao Museu Rafael Bordalo Pinheiro, em Lisboa, revela uma exposição onde o humor não serve apenas para divertir. Entre caricatura, cerâmica, sátira política e crítica social, a obra de Bordalo continua a interpelar o presente com uma atualidade desconcertante. Num espaço que conserva a escala íntima de uma casa, o museu propõe um encontro próximo com um artista que fez do riso uma forma de observação crítica da sociedade portuguesa.

Entra-se pela lateral do edifício, passando por baixo de uma pérgula de glicínias, como se o acesso ao museu fosse já uma transição entre a cidade e um lugar onde o real passa pelo filtro do humor. No pátio traseiro, uma instalação suspensa com figuras recortadas de pássaros e uma presença ambígua introduz, ainda antes da exposição, uma atmosfera de leve estranheza. À direita, ficam as salas de exposição temporária. À esquerda, a entrada para o museu.

A casa onde o museu está instalado também participa na experiência da visita. Mandada construir em 1913 por Ernesto de Santa Cruz Magalhães, admirador e colecionador de Rafael Bordalo Pinheiro, foi pensada desde a origem como habitação e como espaço de homenagem ao artista. O projeto é do arquiteto Álvaro Augusto Machado e aproxima-se do gosto da “casa portuguesa”, visível nos alpendres, nos beirais e na presença das artes decorativas. A atual organização da exposição, inaugurada a 15 de janeiro de 2026, apresenta a sua obra através de uma leitura contemporânea, articulando desenho, cerâmica, caricatura, imprensa humorística e crítica social. Esta reorganização ajuda a perceber Bordalo como um artista cuja observação da sociedade portuguesa continua a ter ressonância no presente. A dimensão doméstica do edifício marca todo o percurso. O soalho de madeira e as escadas que rangem sob o peso dos visitantes lembram-nos constantemente que não estamos num espaço expositivo neutro, mas numa casa transformada em lugar de memória.




No piso térreo, um ecrã interativo com a cronologia da vida pessoal e artística de Rafael Bordalo Pinheiro, contendo informação útil para contextualizar a visita. Nas salas maiores, os painéis cerâmicos e duas peças monumentais, um jarrão com perto de dois metros e um incensório, mostram outra escala da sua produção. A cerâmica deixa de ser apenas objeto decorativo e afirma-se no campo de invenção plástica, onde o grotesco e o ornamental, convivem com grande liberdade.





A meio da escada encontra-se um grande retrato de Rafael Bordalo Pinheiro, pintado pelo irmão Columbano. A figura do artista impõe-se antes de entrarmos plenamente no universo da sua obra. Bordalo nasceu em Lisboa, em 1846, e foi caricaturista, ilustrador, ceramista, decorador e observador crítico da vida política e social do seu tempo. 

No piso superior, a exposição organiza-se em seis salas e um hall, correspondendo às divisões originais da casa, cada uma pintada de uma cor diferente. A sala dedicada à situação política introduz o contexto social que atravessa grande parte da obra de Bordalo. Seguem-se os núcleos: Jogos Humorísticos, Figuras e Personagens, Palcos de Lisboa, Comédia Burlesca Política, Tragicomédia Sem Limites e O Lápis como Arma. A organização permite perceber a amplitude da obra, entre caricatura, cerâmica, imprensa humorística, vida urbana e crítica ao poder.






As salas são relativamente escurecidas e a luz incide de forma controlada sobre as imagens de publicações de que Bordalo foi fundador. Esta opção cria uma atmosfera recolhida e parece responder também a uma necessidade de conservação, já que o papel e a tinta são materiais sensíveis à exposição prolongada à luz. O resultado é uma visita mais concentrada, que obriga o olhar a aproximar-se das obras.

Apesar dessa penumbra, a visita faz-se num tom de boa disposição. Em vários momentos ouvi risos discretos de outros visitantes. É difícil não sorrir perante o sarcasmo genial de Bordalo, sobretudo quando a sátira política parece continuar tão atual. Há qualquer coisa de desconfortável nessa atualidade, rimos, mas percebemos que muitos dos comportamentos, vícios e mecanismos de poder que Bordalo caricaturou não desapareceram.




Para além da cerâmica, que já conhecia e que continua a surpreender pela ousadia com que mistura o ornamental e o grotesco, interessaram-me particularmente as caricaturas da situação política e as representações mais ambíguas do Zé Povinho. Esta figura não aparece apenas como simples símbolo  do povo português. Surge  como personagem contraditória, por vezes vítima das circunstâncias, por vezes resignada, irónica ou cúmplice da sua própria desgraça. É essa ambiguidade que a torna tão forte. O Zé Povinho não é apenas uma imagem do passado. É uma pergunta que continua sem resposta, sobre a forma como uma sociedade se vê a si própria, e sobre o que escolhe fazer com esse reconhecimento


Saí do museu com a sensação de que Rafael Bordalo Pinheiro não pertence apenas ao século XIX. A exposição mostra que o seu humor continua ativo porque não se limita a fazer rir. Obriga-nos a olhar de novo para a política, para os costumes, para os preconceitos e para as pequenas cumplicidades sociais que continuam presentes. Talvez seja essa a força maior desta visita: perceber que o riso, quando é crítico, também pode ser uma forma de lucidez.