A visita ao Museu Rafael Bordalo Pinheiro, em Lisboa, revela
uma exposição onde o humor não serve apenas para divertir. Entre caricatura,
cerâmica, sátira política e crítica social, a obra de Bordalo continua a
interpelar o presente com uma atualidade desconcertante. Num espaço que
conserva a escala íntima de uma casa, o museu propõe um encontro próximo com um
artista que fez do riso uma forma de observação crítica da sociedade
portuguesa.
Entra-se pela lateral do edifício, passando por baixo de uma pérgula de glicínias, como se o acesso ao museu fosse já uma transição entre a cidade e um lugar onde o real passa pelo filtro do humor. No pátio traseiro, uma instalação suspensa com figuras recortadas de pássaros e uma presença ambígua introduz, ainda antes da exposição, uma atmosfera de leve estranheza. À direita, ficam as salas de exposição temporária. À esquerda, a entrada para o museu.A casa onde o museu está instalado também participa na experiência da visita. Mandada construir em 1913 por Ernesto de Santa Cruz Magalhães, admirador e colecionador de Rafael Bordalo Pinheiro, foi pensada desde a origem como habitação e como espaço de homenagem ao artista. O projeto é do arquiteto Álvaro Augusto Machado e aproxima-se do gosto da “casa portuguesa”, visível nos alpendres, nos beirais e na presença das artes decorativas. A atual organização da exposição, inaugurada a 15 de janeiro de 2026, apresenta a sua obra através de uma leitura contemporânea, articulando desenho, cerâmica, caricatura, imprensa humorística e crítica social. Esta reorganização ajuda a perceber Bordalo como um artista cuja observação da sociedade portuguesa continua a ter ressonância no presente. A dimensão doméstica do edifício marca todo o percurso. O soalho de madeira e as escadas que rangem sob o peso dos visitantes lembram-nos constantemente que não estamos num espaço expositivo neutro, mas numa casa transformada em lugar de memória.
A meio da escada encontra-se um grande retrato de Rafael
Bordalo Pinheiro, pintado pelo irmão Columbano. A figura do artista impõe-se
antes de entrarmos plenamente no universo da sua obra. Bordalo nasceu em
Lisboa, em 1846, e foi caricaturista, ilustrador, ceramista, decorador e observador
crítico da vida política e social do seu tempo.
No piso superior, a exposição organiza-se em seis salas e um
hall, correspondendo às divisões originais da casa, cada uma pintada de uma cor
diferente. A sala dedicada à situação política introduz o contexto social que
atravessa grande parte da obra de Bordalo. Seguem-se os núcleos: Jogos
Humorísticos, Figuras e Personagens, Palcos de Lisboa, Comédia Burlesca
Política, Tragicomédia Sem Limites e O Lápis como Arma. A organização permite
perceber a amplitude da obra, entre caricatura, cerâmica, imprensa humorística,
vida urbana e crítica ao poder.
As salas são relativamente escurecidas e a luz incide de
forma controlada sobre as imagens de publicações de que Bordalo foi fundador.
Esta opção cria uma atmosfera recolhida e parece responder também a uma
necessidade de conservação, já que o papel e a tinta são materiais sensíveis à
exposição prolongada à luz. O resultado é uma visita mais concentrada, que
obriga o olhar a aproximar-se das obras.
Apesar dessa penumbra, a visita faz-se num tom de boa disposição. Em vários momentos ouvi risos discretos de outros visitantes. É difícil não sorrir perante o sarcasmo genial de Bordalo, sobretudo quando a sátira política parece continuar tão atual. Há qualquer coisa de desconfortável nessa atualidade, rimos, mas percebemos que muitos dos comportamentos, vícios e mecanismos de poder que Bordalo caricaturou não desapareceram.
Saí do museu com a sensação de que Rafael Bordalo Pinheiro
não pertence apenas ao século XIX. A exposição mostra que o seu humor continua
ativo porque não se limita a fazer rir. Obriga-nos a olhar de novo para a
política, para os costumes, para os preconceitos e para as pequenas
cumplicidades sociais que continuam presentes. Talvez seja essa a força maior
desta visita: perceber que o riso, quando é crítico, também pode ser uma forma
de lucidez.


















