Uma vasta maioria já o sabe, mas quem não sabe fica a saber, até porque vale a pena, a Galeria Monumental faz 40 anos, e portanto, de acordo com o Diretor/Dono, Manuel, este vai ser um ano maioritariamente composto por retrospectivas sobre a sua história. Num belo tom, a galeria foi toda arranjada, isto é, estucada, e re pintada, que como alguém disse: “já precisava”. Por isso este ano, que para a galeria começa a 21 de fevereiro, depois das remodelações começadas no ano passado, é bastante prometedor. Algures para 2026, também foi prometido um regresso a casa pela banda Peste & Sida, ali criada em 86.
A exposição é como andar para trás e recordar, neste sentido, não é composta por apenas um, mas por um coletivo de artistas, os membros fundadores, os responsáveis por requalificar o espaço há 40 anos, inclusive com as mesmas obras com que a galeria foi inaugurada. Devo dizer, aprecio particularmente, e acho que é mesmo assim que deve ser feito, quando uma exposição coletiva, se torna maioritariamente num exercício curatorial, esta não é excepção. A ideia de expor pinturas feitas há 40 anos não parece nada fácil, porque não é, neste caso, quase como um trabalho arqueológico. Alguns dos artistas na inauguração até comentaram, que já não se lembravam das obras expostas, ou que não faziam mesmo ideia onde elas estavam.
0.2 = 40 é composta por: Álvaro Rosendo, Assunção Cabrita, Gonçalo Ruivo, Helena Pinto, Jaime Lebre, João Queiroz, Jorge Varanda, José Antonio Cardoso, Manuel San Payo e Miguel Branco. João Queiroz, falecido no ano passado, artista incontornável no panorama das artes nacionais, foi recordado com carinho pelos antigos colegas, na inauguração. A exposição surge também no âmbito de uma investigação de tese dedicada à Monumental, por parte da jovem curadora Beatriz Lamego.
Maioritariamente pintura, exceptuando uma pequena escultura num pedestal iluminado, no canto, e de algumas fotografias, sobre o espaço da galeria ainda antes de uma parte das obras que a transformaram naquilo que conhecemos hoje. O espaço estava bastante bem utilizado, em nenhuma altura se sentia demasiado cheio ou sufocante, está organizado de um modo convidativo a passear pelas duas salas da galeria. Até usavam com algum charme a belíssima chaminé, tão querida por quem frequenta a instituição.
As pinturas habitavam as paredes (bem ao gosto de Greenberg), ocupavam qualquer espaço, havia pinturas grandes, pequenas, o normal, mas havia pinturas finas e compridas também, trípticos, dípticos e únicos, pinturas enroladas, ou que se desenrolaram. Estas últimas falaram particularmente comigo, não por algum motivo técnico, ou estilístico em particular, mas por uma razão muito mais pessoal e sui generis. Qualquer artista que se dedique maioritariamente à pintura e que tenha uma prática de atelier relativamente intensa, já se deparou com pequenos “restinhos” de tela. Mesmo não se mandando fora, ocupam um espaço enorme, às vezes até se ganha pena e lá se usam, mas mesmo assim nunca constituem material expositivo, porque nem todos têm o estofo de Cabrita Reis para fazer uma exposição chamada Atelier e encher sabe se lá quantos pavilhões.
Nem todas as pinturas se tornam as favoritas, aqui, havia bastante bons concorrentes, de tal modo, que apenas se torna possível apontar as que gostei menos depois de lentamente fazer uma lista em que as mais apreciadas se iam sobrepondo. Em última análise creio que todas tinham algo de uma espécie de aura de artistas portugueses relativamente jovens nos anos 80, pinceladas rápidas, pinturas visivelmente feitas em cimas de pinturas mais velhas, para poupar “algum”, asneiras escritas, uma espécie de um proto-abstrato com alguns vestígios de uma figuração iconográfica, sem grande profundidade conceptual, quase a assemelhar-se a um expressionismo americano, mas cheio de um ímpeto em criar. O que contrastou de um modo bastante engraçado, com os artistas estarem presentes, atualmente já adultos, alguns mais grisalhos, com mais certezas na prática criativa.