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quarta-feira, 13 de maio de 2026

0.2 = 40 - Galeria Monumental


 Uma vasta maioria já o sabe, mas quem não sabe fica a saber, até porque vale a pena, a Galeria Monumental faz 40 anos, e portanto, de acordo com o Diretor/Dono, Manuel, este vai ser um ano maioritariamente composto por retrospectivas sobre a sua história. Num belo tom, a galeria foi toda arranjada, isto é, estucada, e re pintada, que como alguém disse: “já precisava”. Por isso este ano, que para a galeria começa a 21 de fevereiro, depois das remodelações começadas no ano passado, é bastante prometedor. Algures para 2026, também foi prometido um regresso a casa pela banda Peste & Sida, ali criada em 86.


A exposição é como andar para trás e recordar, neste sentido, não é composta por apenas um, mas por um coletivo de artistas, os membros fundadores, os responsáveis por requalificar o espaço há 40 anos, inclusive com as mesmas obras com que a galeria foi inaugurada. Devo dizer, aprecio particularmente, e acho que é mesmo assim que deve ser feito, quando uma exposição coletiva, se torna maioritariamente num exercício curatorial, esta não é excepção. A ideia de expor pinturas feitas há 40 anos não parece nada fácil, porque não é, neste caso, quase como um trabalho arqueológico. Alguns dos artistas na inauguração até comentaram, que já não se lembravam das obras expostas, ou que não faziam mesmo ideia onde elas estavam.


0.2 = 40 é composta por: Álvaro Rosendo, Assunção Cabrita, Gonçalo Ruivo, Helena Pinto, Jaime Lebre, João Queiroz, Jorge Varanda, José Antonio Cardoso, Manuel San Payo e Miguel Branco. João Queiroz, falecido no ano passado, artista incontornável no panorama das artes nacionais, foi recordado com carinho pelos antigos colegas, na inauguração. A exposição surge também no âmbito de uma investigação de tese dedicada à Monumental, por parte da jovem curadora Beatriz Lamego.


Maioritariamente pintura, exceptuando uma pequena escultura num pedestal iluminado, no canto, e de algumas fotografias, sobre o espaço da galeria ainda antes de uma parte das obras que a transformaram naquilo que conhecemos hoje. O espaço estava bastante bem utilizado, em nenhuma altura se sentia demasiado cheio ou sufocante, está organizado de um modo convidativo a passear pelas duas salas da galeria. Até usavam com algum charme a belíssima chaminé, tão querida por quem frequenta a instituição. 






As pinturas habitavam as paredes (bem ao gosto de Greenberg), ocupavam qualquer espaço, havia pinturas grandes, pequenas, o normal, mas havia pinturas finas e compridas também, trípticos, dípticos e únicos, pinturas enroladas, ou que se desenrolaram. Estas últimas falaram particularmente comigo, não por algum motivo técnico, ou estilístico em particular, mas por uma razão muito mais pessoal e sui generis. Qualquer artista que se dedique maioritariamente à pintura e que tenha uma prática de atelier relativamente intensa, já se deparou com pequenos “restinhos” de tela. Mesmo não se mandando fora, ocupam um espaço enorme, às vezes até se ganha pena e lá se usam, mas mesmo assim nunca constituem material expositivo, porque nem todos têm o estofo de Cabrita Reis para fazer uma exposição chamada Atelier e encher sabe se lá quantos pavilhões.







Nem todas as pinturas se tornam as favoritas, aqui, havia bastante bons concorrentes, de tal modo, que apenas se torna possível apontar as que gostei menos depois de lentamente fazer uma lista em que as mais apreciadas se iam sobrepondo. Em última análise creio que todas tinham algo de uma espécie de aura de artistas portugueses relativamente jovens nos anos 80, pinceladas rápidas, pinturas visivelmente feitas em cimas de pinturas mais velhas, para poupar “algum”, asneiras escritas, uma espécie de um proto-abstrato com alguns vestígios de uma figuração iconográfica, sem grande profundidade conceptual, quase a assemelhar-se a um expressionismo americano, mas cheio de um ímpeto em criar.  O que contrastou de um modo bastante engraçado, com os artistas estarem presentes, atualmente já adultos, alguns mais grisalhos, com mais certezas na prática criativa.


Queria dedicar-me em particular às duas obras do falecido em 2017 José Antonio Cardoso. Não conhecia, mas quase logo à entrada, à nossa direita, erguem-se, até pensei em díptico, duas telas, não muito grandes, em acrílico pastoso de boa textura. Não são abstratas, mas afirmaria com alguma fé, que para mim a sua força também não reside na figuração, aquela cena em que aparece um cão representado, como se não quisesse ficar parado, e algo raivoso, define logo o tom que desde aí levaram para mim, a partir daqui, tudo o resto se tornava uma composição reinada maioritariamente por cor, e não por intenção em mostrar algo em particular.





A 0.2 = 40, fica patente até 9 de maio, acredito que para os fãs de arte mais “mega contemporânea” que pela zona andem, passem primeiro pela Foco e depois pelo Duplex Air, mas neste caso, esta também vale a pena ! Pela história que conta sobre um capítulo da arte lisboeta e nacional, ou quanto mais não seja que fiquem atentos a futuras inaugurações, porque esta Galeria recebe sempre bem, e sempre fui fã de galerias que não são somíticas com o vinho disponível para os convidados.























segunda-feira, 11 de maio de 2026

Antes do nome



 A nossa Maria Inês (Fialho Godinho) é aquele género de artista que não costuma andar atrás dos “super” spotlights da exposição solo, em galerias aliadas da abordagem extra contemporânea, contudo, podemos contar sempre com uma mãozinha aqui e ali, numa vasta gama de projetos e colaborações. Por exemplo quando colabora com a Cau Cortém, uma boa e bela residência artística, algures perdida num sítio ainda mais pequeno dentro de Alvorninha, que para quem não conhece, é perto das Caldas da Rainha, ou quando emerge em projetos com o seu coletivo, o Porvir Coletivo, onde integra com Enrico Garziera, e frequentemente dirigem projetos com crianças.

O trabalho da Maria, habita numa nuvem algures a sobrevoar a diáspora entre a infantilidade, e a idade adulta, e com frequência emerge como manifestações de caráter interativo, onde as crianças o podem ser por mais tempo, e “os crescidos” são convidados a revisitar uma idade, em que brincar lhes podia parecer mais natural. A nossa artista desmistifica a arte a um nível molecular, e tece uma espécie de manto, em que ao convidar-nos perdemos o pudor interativo, empurrado por uma série de normas sociais sobre o “bom comportamento”, e assim surge a sua arte, envolvente e tanto desarrumado como desarrumante.




Como abordar a sua exposição solo, Antes do Nome, na Galeria do Sol, no Porto, desde a entrada, ou a começar do último andar (a galeria tem 3 andares, respectivamente o 1º, rés de chão, e cave) … Se calhar bem ao gosto de Maria Inês, podemos começar por onde quisermos. No meu caso, deixaram-me sozinho na galeria com uma nota: “Há giz lá em cima, a Artista disse que podiam vandalizar onde quisessem” ; Foi de arregalar os olhos, foi por onde comecei.

O que é que havia lá em cima ?; além de um chão todo “riscadinho” com frases e dicas engraçadas, havia um desenho embrulhado num plástico com bolhas de ar, como que num transporte constante, e ao lado um baixo relevo em lego. Nos dois cantos opostos da sala do 1º andar, junto das escadas estava um pequeno pedestal espelhado no topo com uns brinquedos de madeira, umas carteiras de escola e um quadro com abecedário, ao lado de dito quadro, dois Professores (?), relacionando-se perfeitamente com o tema da sala, relativo à escrita no chão. Junto do muro em metal deste 1º andar, estava uma antiga máquina de pastilhas, que em vez do recheio comum, estava cravejada a peluches.





Ao descer das escadas, no rés de chão, onde também deixei uma pequena nota de vandalismo escondida, estavam alguns desenhos, um deles mesmo rente ao chão, feito à medida de de uma criança cujo percentil de altura, ou comprimento, seja compreendido entre os 20 e os 10 %, no desenho, estava retratada uma pessoa a andar de pé, um cavalo, sob um fundo vermelho. também haviam algumas instalações, umas raquetes de tênis de mesa, com a rede segura diretamente sobre elas, uma estante onde pousavam pequenos sacos com brinquedos, uma mão de plástico, que segurava num diminuto espelho, onde assenta um dente, afirmei-o como dente do siso, em inglês: wisdom tooth, uma bela piada, num dos lados, em relação à entrada da galeria, o lado esquerdo, forrava ambos chão e parede, painéis de esponja com número, letras e ícones, não consegui desmistificar o que me queriam dizer, mas os painéis em si, alastravam pelo espaço como se do re-erguer do nosso antigo castelo, feito com recurso ao mesmo ladrilho, se tratasse. Numa espécie de celeuma, que incomoda e me acompanhou a exposição toda.









O último andar, a contar de cima, portanto, a cave, não me surpreendeu, eu bem sei que esta artista gosta de brincar com esta coisa da assombração, com a relação entre ter medo, e por isso não mexer, ou pelo menos não mexer muito. Do que é que se trata ?; dois painéis luminosos com a cara de palhaços, apontados para uma tenda também luminosa que emite som, e da qual se ergue uma passadeira de relva, logo à direita da entrada. Os sons ficam assim numa espécie de névoa, porque face a esta emissão, em nada mais se consegue pensar que não o som de pingos de água a ecoar, a pequena radiofonia dentro da tenda, sugere som, mais do que o emite.






Aprofundamos, vejamos, mais do que apenas enumerar peças, num tom holístico, nem sequer referi que os lucros desta exposição revertiam para a organização de Free Palestine, e portanto as coisas estavam a preços acessíveis, tornando-a numa exposição perfeita para jovens colecionadores.

Vou endereçar-me ao desenhos, na sua maioria embrulhados em plástico de bolhas, como quem faz parecer que estão em exposições diferentes com alguma frequência, então já nem se tira o invólucro, ou então é como quem diz que aqueles desenhos são como memórias, com as quais partilhamos espaço na cabeça. Achei engraçada a possibilidade deste paralelismo, pronto. Além do mais, lembrou me da fenomenologia de Heidegger, quando ele explica o Dasein, e deixa a explícito que a troca constante entre outros Seres, é fulcral, isto numa fase não só inicial da vida, mas especialmente, e aqui visitando como adultos, cá estamos a ser confrontados outra vez com os primeiros exercícios de interpretação e interação cognitiva, bem como a uma antiga ideia do lúdico, numa de não ser artista à má fé.

Honestamente pouco mais me resta sobre seus desenhos, não sei se ela os revisita como arma contraposta à inocência de um miúdo, ou se quer exatamente ao revisitar essa linguagem, contrastar com o que aprendeu tanto a níveis formais como técnicos e ao mesmo tempo que nega um estabelecimento, fazer- se valer da observação de um público maduro que pode procurar algo mais, e assim gozar com a mente pretensiosa do espectador.







A exposição erguia-se e apresentava-se entre momentos e temáticas diferentes, revisitando e contrapondo, uma série de preconceitos relativos ao espaço expositivo, ao dizer não, a um organizar e interagir comum, Maria Inês Fialho Godinho, mais do que colocar as suas obras no espaço, o espaço torna-se a obra, num ato que convida e quase depende do espectador, para se manter vivo, a maneira como nos comportamos ao interagir com o espaço expositivo é a verdadeira finalidade da exposição da artista na Galeria do Sol.



Nota
: Há poucas pessoas que considerem sequer as laranjas do pafarrão, e preferindo manter em evidência as laranjas do Algarve, mas é importante perceber que há diferenças, qualquer amante dos citrinos nacionais saberá a diferença. A laranja do Pafarrão usufrui do microclima da vila que lhes dá nome, e são de uma só estirpe, as do Algarve têm uma produção muito mais alargadas, e são de variadas qualidades, só nunca da qualidade da laranja sevilhana, famosa por ser mais seca e amarga. A diferença chave entre os frutos destas duas regiões produtoras de laranjas (Pafarrão e Algarve), é que a primeira (Pafarrão) são maiores, têm mais sumo, e são igualmente doces, quando comparadas às laranjas mais do sul. Discutivelmente se uma laranja for igualmente doce, mas maior, isto pode significar que, no final de contas, uma “tem” mais doce, dentro de si, que a outra. A obra de Inês Fialho Godinho, é como as laranjas do Pafarrão, produzida em “mais pequena” escala, contudo, é maior e mais doce que outras obras artísticas, sente-se carinho, sente-se nossa, abraça-se com mais disponibilidade para guardar em boa estima.