Ao longo das últimas décadas, especialmente nos últimos anos, têm sido desenvolvidos recursos destinados a facilitar o acesso ao conhecimento. Basta procurarmos algo para recebermos milhares de resultados em questão de segundos. É-nos logo apresentado um resumo de toda a informação disponível online e o algoritmo antecipa aquilo que provavelmente queremos ver. A inteligência artificial tornou automáticas algumas operações que antes dependiam de nós, por exemplo, procurar, interpretar, selecionar, deduzir ou criar. É na ausência destas etapas de processamento de informação que surge o que podemos chamar excesso de evidência.
Há quase cem anos, muito antes de serem inventadas máquinas capazes de reproduzir competências humanas, Junichirō Tanizaki escreveu Elogio da Sombra. Trata-se de um ensaio meditativo sobre a importância da escuridão na cultura japonesa e uma refutação da necessidade cegante de claridade. No entanto, para além da análise estética, o livro pode ser lido como uma reflexão sobre a perceção, o ambiente e a forma como o progresso tecnológico afeta as comunidades que não participaram na sua construção e que se sujeitam a ele pela força da novidade e do consumo.
Tal como se verifica atualmente, já em 1933 o sinónimo de progresso era o imediatismo. Ao longo de toda a História, o objetivo foi sempre encontrar formas mais rápidas, fáceis e rentáveis de produzir tudo, o que significa que algo no processo será eliminado.
Para Tanizaki, esta simplificação significava eliminar a sombra. Na penumbra, a textura dos objetos emerge gradualmente e o seu volume deixa de ser evidente, não se revelando imediatamente, convidando assim a uma observação mais demorada e atenta. A crítica implícita no livro é, portanto, uma crítica ao excesso de evidência, à ideia de que tudo deve estar iluminado, totalmente visível e completamente explicado. Esta ideia está também presente no design contemporâneo. Em OPEN_______, Eitan Boiarsky propõe o que designa por "ambiguidade participativa", deixando os objetos intencionalmente a meio para sugerir um uso sem o prescrever. Em vez de procurar eliminar a incerteza, o projeto utiliza-a para suscitar hesitação, especulação e reinterpretação. Para Boiarsky, a ausência deliberada de informação constitui a base da sua prática, na qual valoriza o inacabado, o enigmático e o indefinido.
“In Italian, vago, the root of “vague,” also means lovely or attractive. This dual meaning feels essential to my practice: ambiguity, like beauty, withholds something. It resists being fully known and, in doing so, creates space for imagination, curiosity, and longing.”
Boiarsky, Eitan. OPEN_______ (2026), Masters Theses, 1544.
https://digitalcommons.risd.edu/masterstheses/1544
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| OPEN_______, Eitan Boiarsky, MID Industria Design |
Tal como a nossa, a modernidade que Tanizaki observava apresentava-se através de melhorias difíceis de recusar. Num Japão em rápida eletrificação, Tanizaki via com preocupação o entusiasmo pela luz elétrica, mais branca, intensa, apelativa e conveniente, fabricada em massa com materiais mais eficientes. O que Tanizaki parecia compreender era que cada uma dessas melhorias trazia consigo uma consequência menos evidente: o que deixava de ser possível fazer após a chegada da tecnologia.
Para Tanizaki, a modernidade pretendia apagar a dinâmica silenciosa entre a luz e a sua ausência, ao exigir que tudo fosse nítido, asseptico e estático. Nos dias de hoje, pode fazer-se a mesma análise. A proliferação de cartazes criados com recurso à inteligência artificial representa o cúmulo do facilitismo, tal como a luz elétrica no Japão dos anos 30. A substituição do designer pela máquina retira parte do processo de decisão e construção que dá significado ao objeto, sendo este aspeto quase sempre percetível no resultado final. Se, há 93 anos, a sombra era a força capaz de alterar a forma como os objetos eram vistos, hoje em dia, a IA tem o mesmo efeito.
Um exemplo são as experiências tipográficas da Mixfont, como a Decoy Font e a Ghost Font, que foram desenvolvidas para dificultar a leitura automática por sistemas de IA e OCR, invertendo a lógica da relação entre máquinas e seres humanos. A Decoy Font coloca duas mensagens diferentes no mesmo espaço, utilizando diferentes frequências espaciais. Os sistemas de IA só conseguem ler a mensagem visível a curta distância. A Ghost Font recorre ao movimento para escrever uma mensagem em vídeo, com pontos que se movem em direções diferentes ao longo dos fotogramas. Deste modo, a tipografia deixa de servir apenas para tornar a mensagem mais imediata, passando a explorar a distância, a perceção e a importância de enganar a máquina.
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| Decoy Font, Mixfont |
É neste ponto que o erro humano ganha importância. Tal como, para Tanizaki, um prato envernizado, um biombo ou uma parede ganham vida através das variações da luz, atualmente, um objeto produzido por um ser humano também carrega as marcas das decisões, limitações e acidentes do respetivo processo de criação. O erro torna visível o percurso até ao resultado final, algo que a produção automatizada tenta eliminar. A imperfeição não é necessariamente superior à precisão, mas pode indicar que houve uma escolha, uma formulação racional intencional ou, simplesmente, uma pessoa por trás do objeto. O problema não está, portanto, em produzir com maior exatidão ou rapidez, mas em todo o processo que existia entre a intenção e o resultado ser tornado desnecessário.
A solução não passa por rejeitar a tecnologia ou defender que todas as tarefas devam continuar a ser realizadas manualmente. Tanizaki não propõe regressar simplesmente a um Japão anterior à eletrificação; o que interessa é compreender o que cada nova ferramenta torna desnecessário. Se uma tecnologia nos permite procurar mais depressa, fazer seleções e tirar conclusões, também diminui o número de vezes que somos obrigados a interpretar, comparar, cometer erros e decidir. É neste sentido que a "estupidificação" pode ser entendida, não como uma perda súbita de inteligência, mas como o resultado de deixar de exercitar determinadas capacidades que já não são necessárias.
Tanizaki escreveu sobre a luz porque compreendeu que ver mais não significava, necessariamente, ver melhor. Talvez seja este o ponto de partida para pensarmos a nossa própria época. Num momento em que temos acesso a mais informação do que nunca, em que as ferramentas procuram tornar tudo mais evidente e em que a inteligência artificial promete reduzir o esforço necessário para se obter um resultado, é importante refletir sobre o que deixámos de fazer para o conseguir. Se quase metade dos portugueses tem dificuldade em interpretar informação que não esteja explicitamente indicada, é imperativo refletir sobre um futuro em que a informação não exija qualquer tipo de interpretação. Nem tudo o que está iluminado precisa de ser visto com total clareza; muitas vezes, só é possível reconhecer o essencial no intervalo entre a luz e a sombra.
“The poet of vagueness can only be the poet of exactitude.”
Calvino, Italo. Six Memos For The Next Millennium. (New York: Vintage International, 1988), 60.
Outros projetos anti-AI:
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| Prompt-Brush 2.0, 2026 |
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| The Cloud Report, Christine Tyler Hill, 2026 |
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| THIS FILM WAS MADE WITHOUT AI, Ori Peer Dream, 2026 link artigo It´s Nice That |
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| Extremely Precise Objects of Ambiguous Use, Gordon Hall, 2011 |
Outras referências:
OCDE. Quase metade dos adultos portugueses só consegue compreender textos curtos, RTPnotícias_, 2025
O que é a inteligência artificial e como funciona?, Parlamento Europeu, 2023
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| A Lo-Fi Rebellion Against A.I., Kyle Chayka, 2026 |










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