quinta-feira, 23 de abril de 2026

Coleção Presença Portuguesa na Ásia - Museu do Oriente

O Museu do Oriente, fundado em 2008 e localizado à frente do rio, na Doca de Alcântara, afirma-se como a representação da presença portuguesa na Ásia, especificamente na Índia, no Sri Lanka, na China, em Macau, no Japão e em Timor-Leste, como se confirma pela sua vasta coleção de mais de 3.400 objetos artísticos e documentais como mobiliário, marfins, têxteis, arte sacra, porcelana, pintura e escultura datadas de 3000 a.C até meados do século XX. 

Este Museu pertence à Fundação Oriente, fundação portuguesa constituída em 1988, instituída pela Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM) e parceira da Fundação Eng. António de Almeida e a Fundação Calouste Gulbenkian no âmbito do Centro Português de Fundações (CPF). Esta tem como missão, ações de caráter cultural, educativo, artístico, científico, social e filantrópico que visem a valorização e a continuidade das relações históricas e culturais entre Portugal e o Oriente.


A sua coleção, apelidada de “Coleção Presença Portuguesa na Ásia”, encontra-se organizada em três núcleos por países e regiões. O primeiro núcleo, focado na China e em Macau encontra-se assim que se sobe as escadas para o 1º andar, com uma parede composta por uma grande variedade de loiça chinesa, de diferentes propósitos, e separada por temas, tais como, os prazeres da vida, ao ar livre, a poesia, a expansão da fé cristã e temas satíricos, com o nome de “Para além da taprobana”, antigo nome de origem grega utilizada para designar a atual ilha do Sri Lanka, referindo-se ao paraíso descrito em “Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões. 



Do outro lado desta primeira sala, encontramos expostos algumas pinturas realizadas maioritariamente por George Chinnery (1774 - 1852), pintor inglês que viveu a grande maioria da sua vida em Macau e consequentemente, desenhou muito das suas paisagens e da população local. Juntamente com as pinturas, as suas legendas não só descrevem a parte formal da pintura (o tamanho, material, data, etc) mas também descrevem a pintura quase de forma cómica, como se nos contasse a história do que está a ser retratado, como se estivessemos mesmo à frente daquele cenário a acontecer. 


George Chinnery (1774-1852) - Homem Tocando Contrabaixo
George Chinnery (1774-1852) - Homem Tocando Contrabaixo


            Depois de completarmos esta primeira sala, à nossa esquerda, temos então o segundo núcleo, dedicado a Timor-Leste, ao Japão e à Coreia. Esta secção encontra-se dividida apenas por vitrines de vidro e pelos nomes das regiões, ou seja, sendo esta uma área bastante aberta, se não estivermos a prestar atenção é muito possível perder a noção da transição geográfica. O facto de estar bastante escuro também não só dificulta a distinção entre as áreas geográficas, mas também dificulta a leitura das legendas. 



Quanto aos artefatos presentes, estes são bastante diversificados, como objetos do quotidiano doméstico do povo timorense: portas, bancos, panos, facas, um descaroçador de algodão e estátuas representativas de antepassados e de motivos religiosos de Timor-Leste. 



Quanto ao Japão, estão presentes armaduras de guerra, trajes tradicionais e joias em boa condição. No canto da sala, existe uma pequena coleção de fotografias de paisagens da Coreia e apenas uma caixa para medicamentos. 



Do outro lado da sala, temos mais uma vez uma coleção com peças chinesas. Desta vez, a área é dedicada à pintura e à caligrafia, com diversos exemplares de paisagens, cenas do quotidiano e caligrafia em rolos de grande dimensões. Infelizmente apenas algumas pinturas continham uma tradução do que estava escrito, no entanto, esta foi a minha parte favorita de toda a visita, não só pela beleza dos desenhos mas também pela grandeza e pela quantidade de detalhe que estas peças de arte possuíam. 

É também importante mencionar que, nesta parte da exposição, muitas peças vieram de colecionadores privados que decidiram doá-las ao museu. Além disso, algumas das obras expostas pertenciam a outras associações nacionais e internacionais e não apenas ao próprio museu. Isto evidencia o esforço da instituição para ter sempre peças novas, bem como a sua abertura em partilhar conhecimento e artefactos com outras partes do mundo. Esta colaboração permite chegar a um público maior, notando-se ainda que alguns artefactos da coleção permanente não estavam nesta sala por estarem, precisamente, a ser expostos noutras organizações.



Por fim, à direita do primeiro núcleo, encontramos a última área da exposição. Esta secção apresenta artefatos maioritariamente da Índia e do Sri Lanka, e em reduzida quantidade da Tailândia e do Mianmar, com mais algumas peças do Japão. É nesta sala que existe uma maior contextualização de Portugal no Oriente e não só sobre os países e regiões em si, acabando por influenciar as peças expostas neste núcleo, por exemplo, a existência de pinturas de clérigos e de missionários portugueses. Muitos dos objetos que se podem observar são de cariz religioso não só trazidos pelos portugueses mas também feitos pela população local com materiais regionais, como crucifixos, custódias e navetas. A coleção inclui ainda pinturas, objetos quotidianos e algumas joias.



            Quanto a esta última parte da exposição, senti que não havia uma grande variedade de peças e que muitas delas orbitavam sempre o mesmo tema. Se relacionarmos este núcleo com o anterior, este parece muito focado apenas no que os portugueses fizeram nestas áreas geográficas, não contendo muito da cultura local, contrariando, por exemplo, a área dedicada a Timor-Leste. Além de a coleção ser pouco diversificada, havia algumas falhas por parte do museu: como as salas eram bastante escuras, foi necessário colocar luzes muito próximas de certas peças e pinturas de grande dimensão, o que causava reflexos que impossibilitavam a observação clara das obras. Além disso, notei que algumas peças expostas continham texto noutro idioma que não foi traduzido e nem sequer tinha legenda, havendo aqui um certo descuido por parte do museu para com o visitante.



Considerando a visita toda do museu, com uma duração de cerca de duas horas, e pelo preço, diria que foi uma exposição bastante interessante com peças muito bem preservadas, com uma grande variedade e que recomendo a todos para que conheçam mais sobre Portugal no Oriente, assim como as suas próprias culturas. No entanto, não podendo nos esquecer da existência de partes onde o museu certamente pode melhorar para elevar a qualidade desta exposição permanente para todos os visitantes, tendo em conta os motivos que mencionei ao longo do texto. 

Para terminar, é importante referir que esta exposição tem uma componente digital, onde algumas peças em exposição têm um qr code e ao se fazer scan com o website “www.zoomguide.app”, é possível não só ver todas as peças da coleção mas também ler informação adicional sobre cada peça, quer seja em português, inglês ou em outra língua suportada pela página.